domingo, 16 de abril de 2017

COSTUME GREGO DE FESTEJAR SUA PÁSCOA


Por Nina Kokkalídou-Nachmia
Traduzido por Francisco José dos Santos Braga




I.  Quando os sinos da igreja tocam (p. 102-5)


A pomba branca descansou no campanário da nossa igreja e emitiu primeiro a mensagem: Cristo ressuscitou! ¹ Que todo o mundo saiba.

É Sábado Santo. Esperamos os sinos tocarem. Estamos prontos. Estamos vestidos com nossas melhores roupas. Seguramos nossas velas decoradas com fitas. Vovó dá uma olhada na "magirítsa" ² . Que fragrância! Jejuamos toda a semana de modo a celebrarmos a Páscoa comendo o "cordeiro sacrificial". É o que diz vovô, que sabe tudo sobre o cordeiro pascal. Por isso mesmo levamos nossos ovos vermelhos conosco para batê-los uns contra os outros e comê-los imediatamente. Quanto à "magirítsa", perguntem à vovó para lhes dizer quão saborosa é. Tomamos essa sopa somente uma vez por ano, na noite da Páscoa.
Magirítsa

A mesa está posta. Os sinos estão tocando. Partimos imediatamente para a igreja. "Fiquemos num canto separado", diz mamãe, que teme foguetes e bombas. Este é um costume que eu absolutamente não gosto. Assim que é ouvido "Cristo ressuscitou", dão tiros de espingarda, soltam diversos petardos... Por toda a parte ouvem-se estrondos, e nós ficamos assustados. Elytis, o poeta grego que foi agraciado com o Prêmio Nobel e a Grécia foi homenageada:

Lá loureiros e ramos de palmeira,
Incensório e incenso,
Abençoando as lutas e os mosquetões.
No solo coberto com folhas de parreira,
Cordeiros chamuscados, ovos de Páscoa se chocando,
E "Cristo ressuscitou"
Com as primeiras salvas dos Gregos.


Parece que Elytis está falando da época da Revolução de 1821, quando os Gregos celebravam a liberdade da pátria com o "Cristo ressuscitou", e ficou desde então o costume de disparar fogos de artifício. Felizmente, a polícia os proibiu aqui nas cidades e por toda a parte, porque tem havido acidentes. Mas de vez em quando se ouve um estrondo... por causa do costume.

Entretanto, as luzes da igreja se apagam. Chegou a hora de acendermos nossas velas. O padre, que canta em cima de um estrado no adro da igreja, agora segura na mão uma vela acesa e diz com voz forte e alegre o "Vinde, recebei luz!" ³   Quantos se acham perto do padre acendem as suas velas na dele, e dão luz ao resto do povo. Agora todas as velas estão acesas. Chegou o grande momento. A pomba no campanário toca o badalo do sino, que repica alegremente. Nós nos abraçamos e nos beijamos. Cristo ressuscitou! Batemos os nossos ovos uns contra os outros. Não podemos esperar mais: comemos nossos ovos e com as velas acesas vamos para casa. Papai faz o sinal da cruz, no alto da porta, com a fumaça da vela. Sentamo-nos à mesa e vovó nos serve magirítsa quente. De novo batemos nossos ovos uns contra os outros. Cristo ressuscitou! Assim diz nosso poeta nacional Solomós:

Cristo ressuscitou! Jovens, velhos e moças também,
Todos, crianças e adultos, preparem-se...
Beijem-se docemente nos lábios,
Digam "Cristo ressuscitou!" tanto a inimigos quanto a amigos.
 

A Páscoa na roça (p. 106-9)



Roça. No meio das flores. As papoulas e anêmonas vermelho-vivo, tais como nossos ovos rubros. Brilha a natureza. Bate o coração da primavera. O cordeiro no espeto está assando devagar. Exalam um odor suave as flores e cheira bem o nosso cordeiro. As crianças em fila, uma a uma, giram o espeto. Os jovens cantam e dançam. O vinho é servido nas mesinhas ou na grama. Assim também os nossos poetas escrevem, como o nosso grande poeta Kostís Palamás no seu poema "Páscoa":

Vamos estender uma toalha de mesa na grama
E o nosso cordeiro é assado lentamente
E com a alegria da Ressurreição 
Tragam os ovos de Páscoa para batermos.

Os que não podem ir à roça assam seu cordeiro em casa. Até mesmo em algum pátio ou no terraço. Vejam: o cordeiro no espeto é um costume que todos apreciam, especialmente as crianças que gostam de girar o espeto, mas também de beliscar as pelezinhas torradas e cheirosas do cordeiro. Aliás, vovô diz que a mesa pascal é brilhante onde quer que esteja posta, porque possui as cores da vida e da esperança. "Tenham esperança e fé, crianças, e tudo dará certo", diz enquanto estala o ovo de Ariadne. Ela tinha escolhido, a esperta, um ovo de pato e pintado ela mesma secretamente para poder rachar nossos ovos com o choque e tomá-los de nós... Mas vovô, que percebeu a manobra, pegou o ovo vermelho de madeira, que vovó possui para remendar as meias dele, e bam-bam: quebrou a casca do ovo de Ariadne, e os nossos em seguida... Soltamos gargalhadas quando descobrimos o ovo de madeira do vovô.

Esqueci-me de dizer-lhes que na Páscoa fazemos visita às casas vizinhas para dizer "Cristo ressuscitou!" e ganhar ovos, rosca doce de Páscoa (tsouréki) e pãezinhos com formato de argola (kouloúria). Visitaremos também nossa madrinha para presenteá-la com uma cesta com ovos e rosca de Páscoa que mamãe prepara especialmente para o padrinho e a madrinha.
Tsouréki
Então, aqui na roça, vejam o que acontece... Aí no gramado aguardam também alguns outros amigos que não podem quebrar o seu ovo vermelho. Observam-nos dançar e cantar, mas muito mais observam o cordeiro no espeto... Sempre lambem seus beiços. Eles são nosso cão e, um pouco além, o gato de uma casa de campo vizinha cujos moradores partiram para festejar a Páscoa no exterior. Que pena! Onde encontrarão cordeiro no espeto, com magirítsa e ovos vermelhos e procissão de Sexta-feira Santa e "Cristo ressuscitou!"? Porém, seu gatinho, ficou fiel em casa, e tristonho nos olha. Mexe os seus bigodes... E nós lhe damos o melhor aperitivo (mezés), e um monte de ossos ao nosso cão, de modo que nossos animais, os nossos bons amigos, possam desfrutar a sua Páscoa também... Comem, lambem seus beiços. E nós lambemos os nossos lábios... Agora é sua vez, criançada, de cantar "Cristo ressuscitou".




II.  NOTAS EXPLICATIVAS




¹   À saudação "Χριστός ἀνέστη!" (em português, Cristo ressuscitou, pron. Christós anésti)  costuma-se responder com "Ἀληθῶς ἀνέστη!" (em português, Verdadeiramente ressuscitou!, pron. Alithós anésti).
A liturgia católica celebra a ressurreição de Cristo na noite do Sábado Santo durante a Vigília Pascal. Durante a Missa noturna, lê-se: "Surrexit Dominus vere, alleluia", em latim, ou em português, "O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia."


³   Na nossa liturgia: "Lumen Christi" (em português, Eis a luz de Cristo), cantado pelo padre. A que todos respondem "Deo gratias" (em português, Demos graças a Deus).

Veja como fazer um tsouréki in http://www.docesregionais.com/tsoureki-pao-doce-de-pascoa-grecia/



III.  AGRADECIMENTO



Agradeço ao Prof. Aléxandros Orfanídis, residente em Atenas, o envio de um link referente ao canto de louvor "Christós anésti" na língua grega inicialmente; depois nas línguas árabe, inglesa, francesa e russa. Sugeriu-me ele que disponibilizasse a todos os leitores para também se deleitarem com a beleza das canções do vídeo em questão. Eis, portanto, o link enviado:
https://youtu.be/jwWsvA3AOLI 

Letra da canção grega:
Χριστός ανέστη εκ νεκρών,
θανάτω θάνατον πατήσας,
και τοις εν τοις μνήμασι,
ζωὴν χαρισάμενος!

Pronúncia: 
Christós anésti ek nekrón, 
thanáto thánato patísas,
ke tis en tis mnímasi 

zoín harisámenos! 

Tradução:
Cristo ressuscitou dos mortos,
pisoteando a morte com a morte,
e concedendo vida
àqueles nos túmulos.
 


IV.  BIBLIOGRAFIA




KOKKALÍDOU-NACHMÍA, Nina: "Quando os Gregos festejam: Alexandra conta a suas crianças amigas sobre os feriados do ano" (em grego), Salônica: Instituto de Estudos Gregos Modernos da Universidade Aristotélica de Salônica, 1995, 159 p.

10 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Tenho o prazer de lhe apresentar uma escritora judia grega: NINA KOKKALÍDOU-NACHMIA, cuja obra ainda não foi traduzida para o português. Ela se destaca na Moderna Literatura Grega.
Escreveu mais de uma dúzia de livros desde 1970, incluindo "Quando os Gregos festejam: Alexandra conta a suas crianças amigas sobre os feriados do ano", de 1995, um marco da literatura infanto-juvenil grega.
Extraí desse livro dois capítulos/crônicas, traduzidos por mim: "Quando os Sinos da Igreja tocam" e "A Páscoa na Roça", ambos referentes ao Sábado Santo e ao Domingo da Ressurreição.
É a forma que encontrei de homenagear a nossa festa de Páscoa, que é igualmente bonita, especialmente se comemorada em São João del-Rei.

Dr. Mário Pellegrini Cupello (escritor, pesquisador, presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, e sócio correspondente do IHG e Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Caro amigo Braga,

Muito interessante, pelo que agradecemos.

O Tsourèki me deixou com água na boca...

Abraços.

Anderson Braga Horta (poeta, escritor, ex-presidente da ANE-Associação Nacional de Escritores e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal) disse...

Obrigado, Francisco.

Feliz Páscoa para vocês.

Abraços.

Dr. Lúcio Flávio Baioneta (escritor, autor do livro "De banqueiro a carvoeiro", conferencista e proprietário da Análise Comercial Ltda) disse...

Prezado amigo FJSBraga,
Parabéns pela tradução. Achei muito interessante.
Abs

Maria da Graça Menezes Mourão disse...

Caro Braga, Feliz Páscoa! E obrigado pela frugalidade do texto levando-me à cultura da gente grega. Maria da Graça Menezes Mourão- Historiadora

Maria da Graça Menezes Mourão (membro do IHG de Minas Gerais) disse...

Caro Sr. Braga, que delicadeza enviando tão expressiva mensagem de Páscoa. Obrigada pela excelente leitura e na oportunidade desejo-lhe e aos familiares uma Boa Páscoa.

Maria Auxiliadora Muffato (poetisa são-joanense) disse...

Que gostoso ler os textos de Nina, que você traduziu.

Que doçura! Dá para a gente imaginar o clima festivo

religioso de como os gregos celebram a Páscoa.

José Carlos Hernández Prieto disse...

Caro Braga; obrigado pela oportunidade que nos dá de conhecer tantas e tão belas informações a respeito da páscoa ortodoxa. Seus escritos são um vade mecum do saber (e desculpe o pleonasmo rsrsrs). Abraço fraterno.

Prof. Fernando de Oliveira Teixeira (professor universitário, escritor e membro da Academia Divinopolitana de Letras, onde é Secretário Geral) disse...

Obrigado pelo texto, confrade. Recomendações para a esposa.

Maria de Fátima Teixeira (são-joanense, residente em Taubaté-SP) disse...

Só hj li, mas muito legal