segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

TEMPO DO NATAL EM VIENA

Por Francisco José dos Santos Braga


Mozart afirmou: “Daria toda a minha obra pela glória de ter composto o ‘Prefácio’ da Missa Gregoriana.”
Corações ao alto! Nosso coração está em Deus!
No canto gregoriano, o prefácio é uma peça do ordinário.
O prefácio é cantado pelo celebrante, tornando-se uma peça bastante simples. No entanto, ela é colocada no momento mais solene da celebração, e recebe assim um tratamento muito mais ornamentado do que outras partes do celebrante. O dito de  Mozart não foi, certamente, em referência à tecnicidade da peça musical, mas à perfeita combinação entre a sua função litúrgica e sua forma, e talvez também à sua prestigiosa posição na liturgia.

Para o compositor francês Olivier Messiaen, não há como contestar a supremacia do canto gregoriano sobre outras formas musicais adotadas pela liturgia católica. Mesmo assim, o Concílio Vaticano 2º decidiu, nos anos 60, que a missa não ia mais ser cantada em latim. O resultado é o que se vê hoje nas igrejas: vozes desafinadas gritando, violões agredindo os ouvidos dos fiéis, hinos com letras rudimentares. Enfim, um inferno. Exatamente o oposto do canto gregoriano, "sólido como a terra e tranquilo como a esperança", na definição de Gounod.
Cd de áudio - Ilustração: Fra Angelico da Fiesole

A tradição do canto gregoriano é justamente a de conter os excessos. Há nela uma tentativa de reprimir a tendência natural da espécie em se afogar com o prazer dos sentidos. Claro, os pais da Igreja tinham horror à licenciosidade pagã, o que incluía a música feita com essa finalidade. Quando Messiaen fala que só existe uma música litúrgica, ele não só está se referindo ao canto gregoriano como catalisador da pureza universal, mas elegendo o cantochão como o meio mais rápido de a "alma chegar à Verdade", evitando as armadilhas emocionais. Daí o escândalo que provoca uma versão debochada como a do Enigma ¹, que "samplerizou" vozes de monges com a batida "house". 

A ignorância do Enigma é perdoável, mas o mesmo não se pode dizer de algumas gravações de cantos gregorianos que confirmam o medo daqueles que assistiram à decadência do gênero após a Reforma. Isto é, quando o ofício religioso degenerou em concerto. Felizmente não é o caso do segundo volume de canto gregoriano da Schola Cantorum da Hofburgkapelle de Viena, produzido agora pela PolyGram em Hanover. A precisão e o respeito à tradição pelo coral austríaco dirigido pelo jesuíta Hubert Dopf são as principais características dessa gravação, realizada em outubro de 1985 ²

O primeiro disco vinil trazia dez cantos do Graduale Romanum, que fixou, em 1974, o repertório oficial da liturgia católica. Incluía também uma missa completa para a festa da Imaculada Conceição. O segundo disco vinil, gravado dois anos depois, reúne quase toda a música (a exceção fica por conta do "Credo") cantada na terceira missa do Natal, tradicionalmente celebrada antes do meio-dia. Faz sentido, já que o formato corresponde a uma antologia, que pretende transmitir ao ouvinte exemplos da diversidade melódica  e não o simulacro de um ofício religioso. 

Como no primeiro disco, o segundo volume também traz cantos natalinos extraídos dos Próprios das missas. A gravação é primorosa e as vozes dos monges obedecem rigorosamente ao princípio básico de construção do canto gregoriano, que é deixar de lado tudo o que se diferencia. Essa "monótona" uniformização tem efeitos poderosos sobre os ouvintes. Santo Agostinho reconheceu que o canto gregoriano teve grande influência em sua conversão. Não há razões para duvidar. Cientistas já descobriram que a música pode alterar o metabolismo, chegando até mesmo a ter efeitos desastrosos sobre a pressão sanguínea. 

Os ouvidos também sofrem com outras gravações disponíveis no mercado. Em geral elas oferecem como "atrativos" corais mistos com acompanhamento de órgão, uma contradição absurda em se tratando de modais gregorianas, apresentadas em falsa embalagem harmonizada. O sentido da monodia  nunca é demais lembrar  converge para a auto-suficiência. A palavra deve estar em perfeita união com a melodia. São indivisíveis. 

Foi exatamente o que o protestantismo não entendeu, ao eleger o caminho oposto quando lançou o coral a quatro vozes. A polifonia vocal foi um golpe violento na tradição, uma deformação que até hoje os ortodoxos não aceitam e identificam como uma perigosa nostalgia dos ritos pagãos da Antiguidade. 

As gravações dos dois volumes de cantos gregorianos pela Schola Cantorum da Hofburgkapelle de Viena funcionam, assim, como peças de resistência às deformações que o cantochão sofreu através dos séculos. Qualquer dúvida pode ser tirada ouvindo os dois cantos da "Missa da Festa da Epifania" incluídos no disco. Eles podem converter até o mais ortodoxo dos roqueiros. 

Fonte: com base na Folha de S. Paulo, edição de 10/07/1991, p. 5-3. Ilustrada, remodelei o texto de 1991, ampliei os exemplos em epígrafe e introduzi as seções de Notas Explicativas e Bibliografia.

 
II. NOTAS EXPLICATIVAS pelo gerente do Blog
 

¹  Grupo de rock mexicano.

²  LISTA DE FAIXAS:

A1   Hymnus Ad Vesperas Tempore Nativitatis Domini   2:42
        In Nativitate Domini Ad Missam In Die:    
A2   Introitus: Puer Natus Est Nobis  2:52
A3   Kyrie V                                     1:47
A4   Gloria V                                    3:30
A5   Graduale: Viderunt Omnes         2:23
A6   Alleluia. Dies Sanctificatus         1:51
A7   Offertorium: Tui Sunt Caeli        1:38
A8   Sanctus V                                  1:22
A9   Agnus Dei V                               1:50
A10 Communio: Viderunt Omnes       2:28
        
   
A11 Hymnus Ad Laudes Matutinas Tempore Nativitatis Domini  3:51
        In Nativitate Domini Ad Missam In Vigilia:    
B1   Introitus: Hodie Scietis                2:03
B2   Graduale: Hodie Scietis               3:20
B3   Alleluia. Crastina Die                   1:29
B4   Offertorium: Tollite Portas           1:14
        
   
B5   Responsorium: O Magnum Mysterium          3:05
B6   Graduale Infra Octavam Nativitatis Domini  2:52
B7  Introitus Dominicae Secundae Post Nativitatem 3:30
        In Epiphania Domini:    
B8   Introitus: Ecce Advenit                  2:27
B9   Graduale: Omnes De Saba              2:29
        In Baptismate Domini:    
B10  Offertorium: Benedictus                1:52
        
   
B11 Antiphona Beatae Mariae Virginis    1:42

Glossário:
A1: Hino para as vésperas no Tempo do Natal do Senhor
A2 a A10: No Natal do Senhor para a missa no dia
A11: Hino para as laudes (6-9 h) no Tempo do Natal do Senhor
B1 a B7: No Natal do Senhor para  a missa na vigília
B8 e B9: Na epifania do Senhor
B10 e B11: No batismo do Senhor

Para que o leitor possa ouvir os cantos acima, o gerente do blog localizou no YouTube os seguintes vídeos correspondentes às faixas dos dois discos com canto gregoriano pela Schola Cantorum da Hofburgkapelle de Viena: 
A1 https://www.youtube.com/watch?v=8myQhXbidCE
A2 https://www.youtube.com/watch?v=iJvteu6R6Jo
A5https://www.youtube.com/watch?v=qsmjmh8Y8wY
A6 https://www.youtube.com/watch?v=xRsXH--NdD4
A7 https://www.youtube.com/watch?v=3-cEnhTmRyI
A8 https://www.youtube.com/watch?v=FmbLdeztN0I
A9 https://www.youtube.com/watch?v=3S4SQYLdm2g
A10 https://www.youtube.com/watch?v=BaDP2_3ycsQ                   https://www.youtube.com/watch?v=Tm90XCfM-lo
https://www.youtube.com/watch?v=qsmjmh8Y8wY
A11 https://www.youtube.com/watch?v=dFmA29UUxwk

B1 https://www.youtube.com/watch?v=iVb10kx8-Hs
B3 https://www.youtube.com/watch?v=zekIrQyedAM
B5 https://www.youtube.com/watch?v=dC8hpJ62iYA
B7 https://www.youtube.com/watch?v=dFmA29UUxwk
B8 https://www.youtube.com/watch?v=7hdTOXC9A-s
B9 https://www.youtube.com/watch?v=7Zir_5cvuJ8
B10 https://www.youtube.com/watch?v=ynuyECWiG1Q
B11 https://www.youtube.com/watch?v=4N-Y8i5zLHQ 


III. BIBLIOGRAFIA

 
ALETEIA: Quando realmente acaba o Período do Natal?, 2015
 
GAUDIUM PRESS: Canto Gregoriano: a música que brota da vida interior, 2025
 
WIKIPEDIA: verbete Prefácio (canto)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS: análise descritiva e interpretativa

Por Francisco José dos Santos Braga

Este texto tem o objetivo de analisar "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto, realizando, de forma sucinta, a análise descritiva e interpretativa desse conto, com base inicialmente em conhecimentos adquiridos no decorrer do 2º semestre de 2002 na disciplina Leitura e Produção de Textos, ministrada pelo professor Ignácio Camillo Álvares Navarro na UnB, e em leitura diversificada posterior.
Gostaria adicionalmente de confessar minha simpatia atual por um estudo com o título "O homem que não sabia javanês" (paradoxalmente em oposição ao título escolhido por Lima Barreto para seu célebre conto) por Cid Ottoni Bylaardt, publicado na Revista Contexto (revista semestral do programa de Pós-graduação em Letras pela UFES), 2011/1, pp. 303-321), cujas contribuições aproveito principalmente na parte introdutória.

Livro em javanês - Crédito: https://paginadoricardo.wordpress.com/2020/04/04/resumo-o-homem-que-sabia-javanes-lima-barreto/

 
Lima Barreto, 1917

I. INTRODUÇÃO 
 
Um dos estudos teóricos mais relevantes sobre o malandro é "Dialética da malandragem”, de autoria do crítico Antônio Cândido (1970). O referido estudioso caracteriza o malandro como o indivíduo que vive fora das normas estabelecidas, utilizando seu talento para não trabalhar, desse modo tentando conseguir a ascensão social de forma facilitada. 
Outro estudioso que se dedicou à pesquisa da malandragem brasileira foi o antropólogo Roberto da Matta. Para ele, o malandro é um personagem deslocado, que “não cabe nem dentro da ordem nem fora dela: vive nos seus interstícios, entre a ordem e a desordem, utilizando ambas e nutrindo-se tanto dos que estão fora quanto dos que estão dentro do mundo quadrado da estrutura" [DAMATTA, 1997, 172]
Assinala também que o malandro vive entre a ordem e a desordem, não tem um lugar determinado na sociedade, pois ele transita de um polo a outro, sem se fixar em nenhum deles, corroborando o posicionamento de Cândido, que aponta a itinerância e o trânsito entre a ordem e a desordem como elementos fundamentais de sua caracterização. 
DaMatta ainda ressalta que o personagem malandro na literatura brasileira resulta em um “anti-herói” que representa uma sociedade problemática e com princípios não fundamentados. O anti-herói malandro, por suas atitudes anti-heróicas, não segue padrões estipulados pela sociedade, passa momentos conturbados, almeja viver na riqueza, não gosta do trabalho formal, lança-se a buscar novos desafios e sempre dá um “jeitinho” para se safar de situações conflituosas. O malandro é definido como um ser marginal, que narra suas próprias aventuras, busca a ascensão social e denuncia os problemas sociais existentes. 
 
Acreditamos que as observações dos dois autores contribuem para a análise psicológica do malandro brasileiro, entretanto não são suficientes para a análise do conto barretiano em questão. 
Segundo [BYLAARDT, 2011, 318], é impensável uma dialética da malandragem neste conto de Lima Barreto quando os enigmas não se resolvem, a escritura não se estabiliza, os contrários não se apaziguam. Também foi infrutífera a tentativa de apreender a semântica através da burla do malandro no caso de Massaud Moisés [MOISÉS, 2004, 93], que aponta no conto em questão uma "falha no plano de ação, que consistiria em "breves deslizes representados por minúcias completamente dispensáveis, no caso a cena dos personagens a beberem cerveja numa confeitaria do centro do Rio de Janeiro durante a fabulação do relato. Completou sua crítica ao declarar que as informações "inúteis" de Lima Barreto "decerto promanam do intuito detalhista do narrador, e, portanto, de seu horror às implicações ou aos subentendidos”. Podemos sim identificar tais subentendidos também noutros grandes contistas brasileiros, tais como Machado de Assis (no capítulo LXXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas, intitulado "O senão do livro", onde confessa que "este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem"; e Guimarães Rosa em "O meu tio o Iauaretê" e "Antiperipleia", em que se instalou um falar, que é a pura desordem, ideológica e linguística, o delírio da cachaça. 
 
Em vez de um relato das artimanhas e subterfúgios de um malandro brasileiro através dos quais atinge ascensão social, o conto "O homem que sabia javanês" admite é verdade a leitura de um texto sobre um indivíduo que transita entre a ordem e a desordem como elementos fundamentais de sua caracterização. Entretanto, o relato do personagem central (Castelo)/narrador em 1ª pessoa no conto, regado a cerveja, nunca é da ordem da compreensão; antes, é uma escritura desprovida de espelho, na qual é impensável a visão simplista de uma dialética da malandragem no texto de Lima Barreto, "uma vez que os enigmas não se resolvem, a escritura não se estabiliza, os contrários não se apaziguam". A impropriedade da desordem permanece como traço da escrita em seu devir, excluindo a propriedade da ordem como algo empobrecedor e instaurando uma configuração mais próxima da festa da linguagem  encharcada de cerveja , da celebração de um não-saber.
Deste modo, é possível pensar o texto principalmente como desprovido do conforto da ordem e do saber, a partir do seu título que deveria ter sido "Um homem que não sabia javanês" dentro de uma visão realística; por outro lado, o título original restabeleceu a ilógica escritural que foi instaurada com a noção da desordem que vai persistir ao longo do conto. 
 
II. ANÁLISE DESCRITIVA E INTERPRETATIVA DO CONTO 
 
Na abertura do conto, somos informados de que dois amigos conversavam numa mesa de confeitaria. Um deles, Castelo, contava a seu amigo Castro "as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver." Com tal referência, já se observa que o seu discurso não se fará dentro dos padrões tradicionais de civilidade e que do diálogo nascerá alguma contestação de alguns valores geralmente aceitos. Também, logo de imediato cognatos essenciais desfilam no bate-papo: viver, vivido, vida, etc., todos eles relacionados ao personagem central/narrador. 
Antes do diálogo propriamente dito, ficamos sabendo, pelo narrador, que é o próprio Castelo algo que pode ser considerado seu primeiro "causo". Quando esteve em Manaus, "foi obrigado a esconder a sua qualidade de bacharel, para ganhar mais confiança dos clientes na sua arte de feiticeiro e adivinho". 
Aqui também se observa sua ojeriza às formalidades, a etiquetas e a títulos.
 
Na primeira aparição no diálogo entabulado com seu amigo Castro, Castelo resume sua posição contrária ao trabalho formal. Paradoxalmente critica a rotina diária dos funcionários com emprego fixo; não obstante, reconhece que tem aguentado a rotina no consulado. Conforme o narrador: "Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas, Castro? Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado!" Diante da admiração de Castro por ter vivenciado tantas aventuras "neste Brasil imbecil e burocrático", Castelo informa que, ainda assim, aqui mesmo é possível "arranjar belas páginas de vida" e exemplifica com o fato de ter sido professor de javanês, no Brasil antes do consulado. 
Convidado pelo colega para contar como foi, relembrou tempos difíceis quando chegou ao Rio (vindo de Canavieiras, na Bahia, como ficamos sabendo mais tarde, e "fugindo de casa de pensão em casa de pensão", em absoluta miséria). Regado por várias garrafas de cerveja, Castelo conta ao amigo como, em condições tão desfavoráveis de sobrevivência, leu no Jornal do Comércio um anúncio de que alguém precisava de um professor de javanês. Pensou que provavelmente não haveria muitos pretendentes a ensinar uma língua tão esquisita. Antes de redigir a resposta afirmativa, dirigiu-se à Biblioteca Nacional e consultou a Grande Encyclopédie, letra J de Java, onde obteve informações gerais sobre a sua língua, o seu alfabeto malaio, convencendo-se erroneamente de que aquela era "a língua mais fácil do mundo". No dia seguinte, foi à redação do jornal e propôs-se ao professorado do idioma oceânico. Enquanto aguardava a resposta, de volta à biblioteca, continuou acumulando conhecimentos sobre Java e a língua malaia. Castelo nos conta:
Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.
E, continuando seu diálogo com o amigo Castro, observa:
É preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder "como está o senhor?" — e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.
Dois dias depois, recebeu uma carta para ir falar com o Barão de Jacuecanga (título pomposo, mas sem lastro no novo regime político: República), na sua residência.
 
Sem dinheiro no bolso, teve que empreender a "viagem" a pé. Chegou suadíssimo. Entretanto, foi "com maternal carinho" que a natureza o acolheu, reconfortando-o e, de certa forma, conspirando para o êxito feliz do primeiro encontro com o aluno. 
Não passa despercebido o olhar cômico e humorístico do narrador principalmente na descrição de pessoas e coisas a partir deste momento. Assim, não lhe escapa o maltrato que sofria o solar ("os beirais do telhado... como dentaduras decadentes ou mal cuidadas" e "a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias"). Porém, teve ótima impressão do interior do solar com sua sala munida de uma galeria de retratos e um jarrão de porcelana chinesa ou indiana; seu lado cômico se manifesta nos "doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão". 
A apresentação do dono da casa não foi tão favorável: ancião, trôpego, cheirando rapé e surdo. Para fazer-se respeitado pelo Barão, o suposto professor de javanês inventou que seu pai "era javanês, tripulante de um navio mercante" que viera dar na Bahia. 
Neste primeiro contato, o Barão disse que o seu interesse em aprender javanês se prendia a um "velho calhamaço" que seu avô, Conselheiro Albernaz, tinha ganho de um hindu ou siamês em Londres, com a promessa de que o tal livro "evitava desgraças e trazia felicidades para quem o tinha", deixando claro que sua motivação interior para estudar o javanês era cumprir um juramento de família. Em seguida, contou a Castelo que seu pai não acreditava muito na história e que ele próprio chegou até a esquecer-se do livro, mas "de uns tempos a esta parte, vinha passando por tantos desgostos, tantas desgraças que se lembrou do talismã da família", chegando à conclusão de que precisava lê-lo para conciliar o sono e recuperar a boa sorte. Entre suas desgraças, resumiu algumas: "perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante". Indagado se queria ver o tal alfarrábio, Castelo assentiu. 
Como o velho livro é na realidade o móbil de toda a trama do conto (podendo ser considerado um personagem), a sua apresentação é objeto de viva expectativa, principalmente da parte do candidato a professor de javanês. Quando chegou o livro, Castelo foi salvo pelo gongo, simbolizado em "umas páginas de prefácio em inglês", que, lidas sofregamente, lhe deram condições de esclarecer o aluno de "que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito". Claro, o velho barão não percebeu que ele havia chegado aí pelo inglês e ingenuamente atribuiu ao seu saber malaio essas informações que lhe eram dadas. Para florear o seu dito, Castelo ficou ainda "folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço". Finalmente, foram contratados o preço e hora, comprometendo-se o pretenso professor de javanês a "fazer com que o aluno lesse o tal alfarrábio antes de um ano". Logo ficou claro que o barão não conseguiria atingir seu objetivo: "aprendia e desaprendia", isto é, tinha péssima memória. 
Nesta altura, o narrador volta ao diálogo entre Castro e Castelo, no momento em que entram em cena a filha do Barão, Maria da Glória, e o genro, "que era desembargador, homem relacionado e poderoso", e ambos podiam, se quisessem, intervir no bom trato dispensado pelo velho Barão a seu professor de javanês. O narrador informa que, pelo contrário, "acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo", e o genro, este então, nutria a maior admiração pelo professor de javanês. 
"Ao fim de dois meses, (o velho Barão) desistira da aprendizagem" ("Basta entendê-lo", disse) e contentou-se com a tradução de trechos do "livro encantado", um dia sim outro não. 
 
Voltando ao diálogo entre Castro e Castelo, este comentou em tom de pilhéria sua nova burla: "Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote..." E, em tom sarcástico, comentava: "Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo.
Em breve, crescia a familiaridade entre os dois: o aluno convidava o professor para morar em sua casa, enchia-o de presentes, aumentava-lhe o ordenado. O narrador concluiu: "Passava, enfim, uma vida regalada". Ali começava uma fase de boa sorte para a qual não participou em absolutamente nada. 
Conforme o narrador, "contribuiu muito para isso o fato de vir o barão a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês"; que, por sua vez, acrescentou ironicamente: "e eu estive quase a crê-lo também". Com esse evento favorável para ambos, não surpreende que Castelo sentiu aplacar sua própria consciência com a seguinte observação: "Fui perdendo os remorsos..."
Castelo tinha certeza de que estava burlando do velho barão, fazendo-se passar por professor de uma língua malaia, da qual possuía vaga noção do seu alfabeto e informações gerais colhidas na Grande Encyclopédie. O seu maior temor é "que lhe aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio". O seu temor aumentou, "quando o doce barão o mandou com uma carta de apresentação ao Visconde de Caruru", para fazê-lo diplomata. Mesmo a contragosto, obedeceu e foi ter com o Visconde. 
A reação do Visconde foi realista, mais ou menos a esperada por Castelo que dele ouviu: "O senhor não deve ir para a diplomacia: o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Linguística...
Eis o contrassenso: Castelo estava empregado! Logo ele, que na abertura do conto criticara o emprego formal.
[BYLAARDT, 2011, 310] assim se manifesta sobre esse contrassenso:
Belas páginas de vida, vida contada como professor de javanês, que subiu na escada social devido a um não-saber, e ao chegar lá, chegada que não garante o desenlace – no caso, ao cargo de cônsul – não sabe como tem-se aguentado, ou como a escritura tem-se aguentado, apesar de se mostrar contente ao final... A própria ambiguidade de quem conta sua história reflete a errância do relato: ser cônsul é bom, sem dúvida, mas permanecer como tal não é cair no vulgar?...
A seguir, o narrador traz a informação da morte do barão, não sem antes constituí-lo herdeiro no testamento, passando o livro ao genro com a indicação de fazê-lo chegar ao neto quando chegasse a uma idade conveniente. 
O narrador ainda encerra essa fase envolvendo o barão e seu livro com a seguinte observação: "pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio!"
Para [Idem, ibidem, 311],
as condições da enunciação a seguir remetem ao estado alterado de consciência pela ação do álcool, que mata a memória erigindo qualquer coisa linguageira em seu lugar, misto de sonho e desejo. No plano desdobrado subsequentemente, entremostra-se um enunciador misterioso, que não revela a ninguém o conteúdo de seu texto, o referente vazio que propicia todas as outras elocuções, a sustentação da literatura, seu início impossível, e único possível. (...)
Ao mesmo tempo, percebe-se que, a partir daqui, a carreira do narrador decola, pelo menos no que é relatado. Castelo, que em Manaus se transmutara de bacharel em feiticeiro, no Rio adaptou-se ainda mais, e, aproveitando o golpe de sorte que o destino lhe oferecia, alçou-se a professor de javanês e, agora, a cônsul.
 
[Idem, ibidem, 317-8] coloca alguns questionamentos sobre
um fato curioso: ele paga uma fortuna em um jantar em sua própria homenagem, 'oferecido' pelos 'leitores' de suas obras. Mas que leitores? De que obras? As obras que ele não escreveu? Há referência a um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna, em que o autor copia 'dicionários e umas poucas de geografias', citando 'a mais não poder', publicado no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Há menção a um outro texto, com o retrato do autor, e 'notas biográficas e bibliográficas' publicado no Mensageiro de Bâle (no Rio de Janeiro? Em Paris? Na própria ilha de Bâle, próxima ao arquipélago de Java?) Desse artigo  científico? , foram publicados extratos  resumos do que já não era nada  em Berlim, Paris e Turim. E ele que não estudou nada, que não escreveu nada, que não sabia língua estrangeira, fala em aperfeiçoar os estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia  em Havana!
Finalmente o "estar contente" do diálogo final, enunciado por Castelo, não sinaliza para uma situação estável, ao chocar com o "Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado!", enunciado no diálogo inicial pelo mesmo Castelo. 
Também, conforme [Idem, ibidem, 319], a alternativa de ser "bacteriologista eminente", caso não estivesse contente no consulado,
deve ser entendido como aquele caminho tão improvável quanto o consulado patrocinado pelas ciências da linguagem, desta vez ao abrigo das ciências microbiológicas, aquelas que pretendem revelar ao mundo o que não se vê a olho nu. É de se esperar que Castelo, como microbiólogo, vá fazer revelações semelhantes às que fez como linguista de idiomas exóticos (...) no consulado.
Parece que o termo "bacteriologista eminente", enunciado por Castelo, faz referência ao périplo de desgraça e sucesso do cientista Oswaldo Cruz.
 
 
III. OBSERVAÇÕES FINAIS
 
 
São vítimas da própria estupidez o barão, seu genro, o visconde, os sábios e todos os que se convenceram da notoriedade de Castelo, e por isso mesmo, legitimaram suas ações, burlas e fraudes. Além de estúpidos e crédulos sem critério, esses mesmos senhores normalmente foram forjados por uma política corrupta, regida pelos favores, pelo QI ("Quem Indica") e pelo nepotismo, que são aspectos de uma realidade minada pela desordem  o avesso daquilo que se apresenta como ordem. 
As obras de Lima Barreto e, em especial "O homem que sabia javanês", apresentam uma linguagem coloquial e fluida. Uma das características é o teor satírico e humorístico presente em seus escritos. 
Com a história de Castelo, Lima Barreto nos apresenta um país que sofre de anomia social e pouco preocupado com o mérito autêntico, talentos comprovados ou inteligências sinceras. 
Satírico na sua essência, "O homem que sabia javanês" é uma crítica acerba aos políticos, a muitas figuras públicas na gestão de sua imagem (os assim chamados "influencers" e "socialites"), dadas à mania de ostentação, ao vazio intelectual e à incompetência  denúncias que, lamentavelmente, permanecem atuais. 
 
O conto em questão parece ter sido escrito como uma sátira dirigida a Afrânio Peixoto, pois o autor não compreendia o seu sucesso e duvidava do seu conhecimento. A respeito disso, [BARBOSA, 2003, 221-222, apud ADORNO & BOTOSO, 2019, 172-173] faz o seguinte comentário:
Um de seus melhores contos, “O homem que sabia Javanês”, história de um mistificador que se torna, por isso mesmo, a glória nacional. Castelo, o professor de javanês, era de Canavieiras, e construíra toda sua reputação como especialista em Língua malaio-polinésia, as quais (sic) conhecia apenas da leitura da Grande Encyclopédie. A sátira parece dirigida a Afrânio Peixoto, a quem Lima Barreto sempre considerou um falso erudito e um péssimo escritor. No entanto, Afrânio tinha prestígio. E ele, não. Afrânio subia. E ele não podia subir, porque não o deixavam subir.
Lima Barreto foi o crítico mais agudo da época da Primeira República Brasileira (1889-1930), rompendo com o nacionalismo ufanista e pondo a nu a roupagem republicana que manteve os privilégios de famílias aristocráticas e dos militares.
 
A certa altura do presente conto, Castelo confidencia a seu amigo Castro: "Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios", trecho que representa uma crítica contundente à predominância das aparências nos meios sociais e políticos do período retratado.

Em sua obra, de temática social, privilegiou os pobres, os boêmios e os arruinados, assim como a sátira que criticava de maneira sagaz e bem-humorada os vícios e corrupção da sociedade e da política. Foi severamente criticado por alguns escritores de seu tempo por seu estilo despojado e coloquial, que Manuel Bandeira chamou de "fala brasileira" e que acabou influenciando os escritores modernistas. 
 
Conforme [MARTHA, 2000], de 1909 a 1922 foi excluído da crítica oficial com um "silêncio implacável" quanto aos seus escritos. Sua "posição combativa" e sua "crítica contundente" custaram-lhe a marginalidade e a indiferença da elite cultural.
 
 
IV. BIBLIOGRAFIA
 
 
ADORNO, V.N.M. & BOTOSO, A.: O personagem malandro no conto "O Homem que sabia javanês", de Lima Barreto, Campo Grande: Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul-UEMS, Miguilim – Revista Eletrônica do Netlli | V. 8, nº 3, pp 161-186, set-dez 2019 
 
BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto (1881-1922). 9ª ed., Rio de Janeiro: J. Olympio, 2003.
 
BARRETO, Lima: O homem que sabia javanês, Rio de Janeiro: Gazeta da Tarde, edição de 28/04/1911

BYLAARDT, Cid Ottoni: O homem que não sabia javanês, Vitória: Revista Contexto (revista semestral do programa de Pós-graduação em Letras pela UFES), 2011/1, pp. 303-321).
 
CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem (Caracterização das ‘Memórias de um sargento de milícias’). Revista do instituto de estudos Brasileiros, nº 8. Universidade de São Paulo, 1970, pp. 67-89.

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

FLORES, Tânia Maria Dantas: A representação das identidades no conto "O homem que sabia javanês" de Lima Barreto, Santo Amaro: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia-IFBA, pp. 45-50.
 
GODOY, A.S.M. & FUGA, B.A.S.: Triste Fim de Policarpo Quaresma - O homem que sabia javanês: Nacionalismo e Estelionato
 
GOMEZ, Nicolas: Lima Barreto no Rio da Prata: tradução comentada do conto "O homem que sabia javanês" para o espanhol rio-platense, Brasília: UnB, dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação  para obtenção do grau de Mestre em Estudos da Tradução,  2019, 449 p. 
 
MARTHA, Alice Áurea Penteado (2000). Lima Barreto e a crítica (1900 a 1922): a conspiração de silêncio. [S.l.]: Espéculo: Revista de Estudios Literarios. Universidad Complutense de Madrid. Consultado em 15 de dezembro de 2025.
 
MOISÉS, Massaud: A Análise Literária. São Paulo: Cultrix, 2004.

OLIVER, Élide Vilarini: O saber em "O homem que sabia javanês", São Paulo: Revista USP, nº 87, pp. 214-224, set/nov 2010.
 
VIEIRA, C.A., COSTA, F.L. & BARBOSA, L.O.: O "jeitinho" brasileiro como um recurso de poder, Rio de Janeiro: revista de Administraçao Pública, abr/jul 1982, pp. 5-31.

WIKIPEDIA: verbete Lima Barreto.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

PRESENÇA DE FREI JOEL POSTMA EM BRASÍLIA (1984-1997)

Por FRANCISCO JOSÉ DOS SANTOS BRAGA

Artigo originalmente publicado na revista FREI JOEL: Cantando e tocando a esperança e a alegria, Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 2025, 150 p.
Et verba musica facta sunt. (E as palavras se tornaram música.)

 

Partiu de frei Joaquim Fonseca de Souza o convite de minha participação nesta prestigiosa revista, focando a atuação de frei Joel Postma em Brasília (1984-1997), tendo em vista que fiz com este proveitosa parceria na sua especialidade como mestre do canto coral e um dos expoentes da música litúrgica no Brasil. Portanto, atendendo o convite de frei Joaquim, brilhante ex-aluno de frei Joel, grande divulgador da obra musical de seu mestre e ele mesmo um notável pesquisador da música litúrgica no Brasil, apresento ao leitor alguma memória daquele período. 

Inicialmente, importa apresentar rapidamente a figura do meu biografado: o frade holandês Joel Postma OFM, radicado no Brasil desde 1959, foi um dos principais responsáveis por animar e organizar a música litúrgica, no País no período pós-Concílio Vaticano II. Por 13 anos, coordenou o setor de Música Litúrgica da CNBB, quando colaborou ativamente na elaboração do Hinário Litúrgico e do Ofício Divino das Comunidades. Gosto muito da forma como resumiu Ir. Penha Carpanedo a figura de frei Joel, quando convidada para dar a sua melhor versão sobre a vida de seu amigo, com quem colaborou ativamente:

“Frei Joel foi um homem apaixonado pela música, pela música brasileira: ele, como holandês, se encantou pelos nossos ritmos, as nossas melodias, os nossos jeitos de cantar e trabalhou incansavelmente para colocar isso a serviço do louvor de Deus, na liturgia de modo geral, mas sobretudo no Ofício Divino das Comunidades, pelo qual ele tinha uma verdadeira paixão, e colaborou muito para que esse Ofício chegasse à boca e ao coração do povo de Deus no Brasil.
Resta acrescentar que ele, compositor e maestro, fundou corais em Divinópolis, Santos Dumont e Brasília, e seu ecumenismo serviu de inspiração para músicos e todos os católicos do Brasil. 
 
Devo preliminarmente dizer que, com a passagem do tempo, muitas lembranças se tornam vagas e a gente se deixa equivocar por não ter feito apontamentos à medida que os fatos foram transcorrendo e que seriam de grande valia na hora de se escrever sobre um grande amigo de cuja amizade privei por trinta e seis anos. 
 
Devo ser leal e reconhecer que não tive papel marcante nem influência sobre a percepção de frei Joel de valores da nossa própria cultura, bem como sobre o fato de ter ele valorizado as características da música nordestina ou ter realizado pesquisas sobre os tons modais na música nordestina, o que é um fato. Também não participei do grupo de músicos litúrgicos que oferecia critérios para ajudar a perceber valores da nossa própria cultura, nem mesmo cheguei a conhecer Pe. Geraldo Leite Bastos da Arquidiocese de Olinda-Recife, nem Pe. Jocy Rodrigues ou Reginaldo Veloso. Nossa parceria foi apenas no campo da performance, ou seja, houve entre nós um acordo informal pelo qual eu deveria executar as suas partituras ou de outros com correção e eficácia. Jamais pediu minha opinião sobre as decisões que tomava e, talvez, por isso mesmo, tenhamos mantido excelente convivência até ele deixar a CNBB em 1997 e, mesmo depois, após o seu retorno ao Seminário Seráfico Santo Antônio em Santos Dumont-MG, onde ele fazia questão de que o Ofício Divino das Comunidades fosse cantado cotidianamente, tendo continuado seus trabalhos musicais e a docência e retomado a regência do Coral Trovadores da Mantiqueira, fundado por ele em 1965, durante sua primeira estada na cidade. 
 
Fazendo um pequeno retrospecto para situar o seu período de Brasília, [SATLER, 2018, 18] ¹ informa que
O período de frei Joel em Santos Dumont (1964 a 1984) corresponde à sua fase mais produtiva como compositor. Todo esse trabalho produtivo, além da sua participação nas diversas edições dos cursos de canto pastoral, Brasil afora, tornaram-no a pessoa apropriada para assumir um serviço importante na Igreja do Brasil: assessor do Setor de Música Litúrgica da Comissão para a Liturgia da CNBB.
De fato, frei Joel ao assumir o cargo na CNBB levava em sua bagagem larga experiência: entre 1959 e 1964 em Divinópolis-MG, tornara-se regente dos corais: "Coro do Santuário Santo Antônio", "Pequenos Cantores da Cruz de São Damião" e "Coro dos Franciscanos" com os quais gravou em português dois célebres LPs: “Salmos e Cânticos”(1961) e “Cantai ao Senhor, ó terra inteira” (1963) do compositor e liturgista francês Joseph Gelineau (1920-2008); no ano de 1962, foi a vez da antológica composição e gravação do “Cântico das Criaturas², para tenor-solo e saxofone, interpretada pelo próprio compositor. Data de 1971 a versão para coro misto e piano, gravada pelos "Canarinhos de Petrópolis", antológica obra que posteriormente passaria a incorporar a cantata O Peregrino de Assis (1966). 
 
Em Santos Dumont-MG, a partir de 1964, fundou o Coral Trovadores da Mantiqueira em 1965 que passaria a ser o primeiro intérprete de suas composições. Em 1966, compôs a cantata O Peregrino de Assis, seguida de outras obras igualmente inspiradas: Missa João XXIII, em 1967; cantata Francisco Jogral de Deus, com letra de frei Urbano Plentz, em 1969; Missa do Matrimônio, com letra de Pe. Jocy Rodrigues, em 1971; Missa da Ressurreição, em 1972; Missa do Coração de Jesus, com letra do Pe. Jocy Rodrigues, em 1972; Oração da Tarde, com letra extraída da “Oração do Tempo Presente" e três coletâneas de Cantos Litúrgicos: “Louvação do Divino”, “Cantos Quaresmais” e “Cânticos de Natal”. Ao aceitar o convite para assumir o cargo na CNBB em 1984, frei Joel transferiu a regência do coral Trovadores da Mantiqueira para frei Geraldo de Reuver. De 1993 em diante, assumiu a regência desse coral frei Joaquim Fonseca de Souza, após ter obtido o grau de bacharel em Música, com concentração em órgão, na UFRJ, em1992, até o retorno de frei Joel em 1997, quando retomou a direção do coral. ³ E [SATLER, ibidem] continua:
“O convite para (frei Joel) trabalhar na CNBB partiu de Dom Geraldo Majella Agnelo. Outros bispos com que Frei Joel trabalhou estreitamente próximo na CNBB, e com quem manteve uma grande amizade foram Dom Clemente José Carlos de Gouvea Isnard (1917-2011) e Dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006). Frei Joel foi indicado para esse trabalho por Pe. José Weber, SVD, que ocupara, até então, essa função por 16 anos. Frei Joel já havia trabalhado intensamente com Pe. Weber na metrificação dos salmos para uso na Igreja do Brasil. [...]
Indicação aceita e malas prontas, Frei Joel mudou-se da Serra da Mantiqueira para o Planalto Central. Passou a residir junto com os frades da Paróquia Santo Antônio na Asa Sul de Brasília, permanecendo nessa função de 1984 a 1997, quando regressou a Santos Dumont. Nessa fraternidade, Frei Joel foi prontamente acolhido e atuou muito próximo a eles e às irmãs franciscanas que trabalhavam no Colégio Santo Antônio, junto à paróquia.
Pouco tempo depois de chegar a Brasília, Frei Joel recebeu um feliz pedido dos antigos membros de um coral fundado por Frei Beraldo José Hanlon OFM, propondo continuar a atuação do coral na Paróquia Santo Antônio. O coral, então, renasceu com o nome de Trovadores do Planalto. Além de cantar semanalmente na missa dominical da paróquia, o coral atuava, frequentemente, na catedral de Brasília, no tempo do Arcebispo Cardeal José Freire Falcão.
A partir de 1988, durante o período de 13 anos de seu assessoramento em música litúrgica na CNBB, tive excelente relacionamento com o seu Coral Trovadores do Planalto, e depois disso, durante os 28 anos seguintes, me relacionei muito bem com os membros do Coral Trovadores da Mantiqueira
 
Em 2023, frei Joel foi transferido para a Fraternidade São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, a fim de receber maiores cuidados, devido à sua idade avançada. Ao todo, foram 46 anos residindo em Santos Dumont. Continuei fiel ao Mestre Frei Joel até a sua páscoa eterna em 30/10/2024. 
 
Frei Joel, Rute Pardini e o autor numa ida a Pirenópolis

Capa do CD da cantata de frei Joel em 1997 sob a coordenação de frei Joaquim, composta em 1966

 
Eu, juntamente com minha esposa, cantora lírica Rute Pardini, eventualmente várias vezes por ano participávamos de todos os eventos: por exemplo, da cantata O Peregrino de Assis (1966) com texto de frei Urbano Plentz , da cantata Louvores do Irmão Francisco (2001) com texto de frei Óton Silva de Araújo Júnior , da opereta Legenda de Santa Clara (2003) com texto de Reginaldo Veloso , e da cantata Francisco e o Sultão, homens de paz (2019) com texto de frei Óton Silva de Araújo Júnior . Nossa participação em todos os Encontros de Corais de Santos Dumont era garantida todo ano no mês de novembro, sempre a convite dos organizadores do evento. Finalmente, muitas peças avulsas da autoria de frei Joel, como missas e arranjos de frei Joel para quatro vozes com acompanhamento, eram interpretadas pelos corais tanto em Brasília como em Santos Dumont. Após 1997, era necessário o nosso deslocamento de Brasília (de 1997 até 2010) ou de São João del-Rei (de 2011 a 2023) até o local dos ensaios e das apresentações, que regularmente aconteciam no Seminário Seráfico Santo Antônio em Santos Dumont-MG. Vez ou outra, fazia-se necessário deslocar todo o grupo até o local da apresentação. Normalmente, chegávamos até mesmo uma semana antes das apresentações e ficávamos à disposição para o ensaio de todos os naipes e o ensaio geral, antes da apresentação que se dava no último dia, quando então retornávamos à nossa residência. 
 
Afinal, como me aproximei de frei Joel Postma OFM? 
 
Devo a meu cunhado Gil Amaral Campos, falante de holandês, a indicação de meu nome para fazer um primeiro contato com frei Joel, que na ocasião era Assessor de Música Litúrgica da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), localizada na SE/Sul, Quadra 801, conjunto B. O encontro se deu na CNBB em 1988, e partiu do próprio frei Joel o convite para eu acompanhar como pianista o Coral Trovadores do Planalto, fundado por ele e sob a sua regência. Desde o início, percebi que frei Joel passaria a integrar meu rol de amigos na Capital Federal e que em breve se tornaria o meu melhor parceiro dentre todos, devido, primeiro, às suas qualidades de fidelidade, índole amável, ar inocente, bondoso e sereno e amizade incondicional e, depois, à sua prodigiosa capacidade de produção, por ser dotado de incrível inspiração para arranjos de textos sacros e eventualmente profanos, imbuídos de admirável prosódia e organização musical, o que mereceu da minha parte a maior admiração. 
 
Embora eu já tivesse acompanhado outros corais, tais como o do Santuário São João Bosco (missa das 8 h nos domingos) e o da igreja de São Camilo de Lellis (missa das 17 h nos domingos), e embora, naquela altura, ainda estivesse acompanhando o coral da Paróquia Nossa Senhora Consolata (missa das 10 h nos domingos) na quadra 913 Norte, ainda assim aceitei o convite de participar de ensaios e apresentação aos domingos, nas Missas das 17 h, no Santuário Santo Antônio. 
 
No meu primeiro encontro com os integrantes do Coral Trovadores do Planalto, ali estavam em verdadeiro congraçamento os seguintes cantores divididos por naipe vocal: 
1) Soprano: Ir. Diva Gonçalves Veiga, Ir. Cristiana Resque, Wanda C. de Sousa, Elza Coimbra, Marizinha Medeiros, Conceição Silva Dias, Constantina K. Nehme, Maria Euma Lima Lopes 
2) Contralto: Ir. Benedita Maria Miranda, Perpétua do Socorro Avanci, Leone Moreira Gomes, Vicentina Salviano, Sandra M.S.G. Nascimento, Maria Amélia Santos, Maria Santa de Oliveira 
3) Tenor: Frei Joel Postma, William A. Pinheiro, Jorge Oliveira, Baltazar Nunes 
4) Baixo: Luiz Gonzaga T. Borba, Ênio Beal, Sérgio de Oliveira, Hildebrando C. dos Santos, Amilton Rodrigues de Carvalho, Denilson Olivato. 
Observe que o rol de cantores na época em que ingressei no grupo observava a sequência da data de aniversário de cada um, por mês, certamente para uma comemoração mensal dos aniversariantes. 
 
Quanto a esta relação dos integrantes do coral Trovadores do Planalto, venho dar mais alguns detalhes: 
1) dela constam os nomes de três desistentes com um asterisco: o soprano Isabel Cristina Bezerra e os tenores Sebastião de Sousa Lupacini e Carlos Alfredo da Silva. De fato, infelizmente não é mencionada a data em que a lista foi elaborada. 
2) de todos os cantores, alguns se destacavam não só por sua proximidade com o regente frei Joel, mas também por sua disponibilidade para assumirem maior responsabilidade nos ensaios e nas apresentações. Irmã Diva era responsável pelo ensaio da comunidade antes do início da Missa com a entrada do coral e do celebrante. Acho que não exagero ao dizer que ela era o "braço direito" de frei Joel; sem ela, frei Joel ver-se-ia falto de seu principal apoio. Luiz Gonzaga T. Borba normalmente era o cantor escolhido para solar a(s) peça(s) avulsa(s) ou de algum personagem masculino no interior de alguma cantata (especialmente na cantata O Peregrino de Assis). Vicentina Salviano era competente na organização do grupo, nas filmagens e noutros afazeres práticos. Frei Joel era muito amigo da família dela, razão por que ele foi convidado para oficiar o matrimônio de sua filha, ao qual todos comparecemos. Wanda C. de Sousa era importante elemento de conexão do grupo e sempre exercia o papel de comunicadora, enviando cartões de feliz Natal, cumprimentando pelos aniversários, etc. 
3) Além dos ensaios semanais e da Missa de domingo, havia a apresentação de uma cantata em importantes datas religiosas comemoradas com alguma solenidade. 
 
Na época do Advento e Natal, frei Joel costumava prescindir do piano quando levava apenas um teclado portátil que ele próprio tocava e seu coral à Rodoviária de Brasília, local de grande concentração do povo, para apresentar sua coletânea de Cânticos de Natal
 
Merecem destaque três frutos concretos dos 13 anos em que frei Joel esteve à frente do setor de Música Litúrgica da CNBB: o CELMU, o Ofício Divino das Comunidades e o Hinário Litúrgico.
 
Logo nos primeiros ensaios, percebi que precisava comparecer ao curso ministrado por frei Joel, conhecido por CELMU-Curso Ecumênico de Formação e Atualização Litúrgico-Musical, oferecido nas tardes do sábado num salão do Santuário São João Bosco. Não assisti a todas as sessões, mas compareci a algumas delas. Como a CNBB se envolveu com esse curso por seu caráter ecumênico, frei Joel tinha mais uma razão para ministrá-lo a pedido das comunidades católicas e de outras denominações, não só de Brasília, mas de todo o Brasil. Para fora de Brasília, o curso era oferecido na modalidade de curso de verão, durante três janeiros consecutivos, abrangendo desde iniciação musical até técnica vocal. O CELMU, então, é o primeiro fruto concreto dos 13 anos (de 1984 a 1997) em que Frei Joel esteve como Assessor de Música Litúrgica de Liturgia da CNBB. Possuo um programa para a realização de um CELMU a ser ministrado no Seminário Franciscano Santo Antônio de Agudos-SP no período compreendido entre 09 e 25 de janeiro de 1995. As entidades proponentes daquele CELMU foram as seguintes: CNBB, Instituto Metodista de Ensino Superior de São Bernardo do Campo-SP, Centro de Liturgia da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção-SP, Faculdade de Teologia da Igreja Metodista de São Bernardo do Campo-SP e Faculdade Santa Marcelina-SP, o que evidencia o caráter ecumênico da iniciativa. As disciplinas oferecidas neste CELMU foram: 
1) Prática teórica: teoria musical, solfejo, liturgia, Bíblia, teologia, canto coral, técnica vocal, harmonia e composição 
2) Prática instrumental: piano, violão, órgão, teclado funcional, flauta doce e percussão 
3) Classificação vocal: soprano, contralto, tenor e baixo. 
 

 
O segundo fruto não dependeu da iniciativa direta do Setor de Música Litúrgica da CNBB, mas teve em frei Joel um grande colaborador e incentivador: o chamado Ofício Divino das Comunidades (ODC). A gênese desse trabalho está ligada à pessoa de Pe. Geraldo Leite que, ao regressar ao Brasil, depois de uma experiência junto com os Irmãos de Taizé, na França, tomou a iniciativa de reunir a comunidade eclesial no Morro da Conceição, no Recife, para rezar os salmos. Ele percebeu que o texto cantado é fixado mais facilmente do que o texto falado. Pe. Geraldo Leite reconhece que algumas pessoas realizaram um trabalho em equipe muito importante na elaboração do ODC, a saber: ele próprio, como letrista e artesão musical, na composição de versões dos salmos; frei Joel, como coadjuvante na elaboração das partituras dos cantos e nas primeiras gravações, feitas em uma série de seis fitas. Em entrevista com Reginaldo Veloso, em Recife, em 16/08/2017, este mencionou que frei Joel tinha em alta conta o ODC, tal um filho querido. “Ele afirma que, no seu sepultamento, deseja ter, entre suas mãos, essa obra singular: o Ofício Divino das Comunidades”. Assim foi cumprida sua última vontade no dia 31/10/2024, data do sepultamento do corpo de frei Joel em Santos Dumont. Reconhece ainda Reginaldo Veloso que frei Joel foi o grande diretor e regente, juntamente com a Ir. Penha Carpanedo, o Ricardo Brindeiro e os cantores e intérpretes do Recife; finalmente, mencionou frei Francisco van de Poel, que contribuiu muito para seu próprio aprendizado como pesquisador de música de raiz que era, sobretudo na região do Vale do Jequitinhonha-MG, realizando posteriormente pesquisas no Nordeste, na comunidade de Ponte dos Carvalhos-PE. 
 
Finalmente, um terceiro fruto do trabalho de frei Joel na CNBB são os quatro volumes do Hinário Litúrgico da CNBB. Todas as edições dos quatro volumes contaram com o trabalho artesanal de frei Joel na transcrição das partituras (escritas manualmente) e das letras (datilografadas em máquina de escrever elétrica). A gênese desse trabalho está ligada aos diversos cursos de canto pastoral quando eram apresentadas e conhecidas diversas composições, algumas delas muito boas do ponto de vista da poesia, da harmonia, do acento nas palavras, do caráter bíblico e litúrgico, embora outras fossem de pouca qualidade. Percebeu-se que era necessário fazer uma seleção. Embora tenha sido frei Joel quem, dentro da CNBB, teve a ideia de organizar um repertório litúrgico-musical, o primeiro passo nesse sentido foi estabelecer uma comissão formada por músicos de diferentes partes do Brasil com a finalidade de traçar os critérios para a seleção do repertório. Em longa exposição na Introdução ao 2º Hinário, consta que essa seleção foi feita de acordo com o código de critérios, estabelecido no Encontro Nacional de Música, em 1984, e que a comissão encarregada da seleção era composta de 9 integrantes: Pe. José Geraldo de Souza SDB, Pe. Jocy Rodrigues, Marina Azevedo Ortolan, Ione Buyst, Fr. Emílio Scheid o.f.m., Pe. Geraldo Leite Bastos, Pe. Reginaldo Veloso, Pe. Luís Mongano e Fr. Joel Postma o.f.m. A organização geral dos quatro Hinários Litúrgicos lançados pelas Edições Paulinas (atual Paulus) ficou a cargo de frei Joel. 
 
O ano de 1994 foi excepcionalmente fértil em produção musical por termos sido agraciados por Deus com uma série de eventos notáveis que trouxeram excepcional visibilidade para o Coral Trovadores do Planalto e para seu regente, frei Joel. Apresento aqui alguns flashes de um dos anos mais ativos de frei Joel com resultados muito positivos para o projeto de divulgação de sua obra. 
 
Em 18 de abril de 1994, segunda-feira, ocorreu em Itaici, distrito do município de Indaiatuba-SP, durante a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) daquele ano, a apresentação da cantata O Peregrino de Assis (1966) e o Cântico das Criaturas (década de 1960), também conhecido por Cântico do Irmão Sol, ambos musicados por Frei Joel. Na primeira obra — a cantata — foi usado texto em francês de Léon Chancerel, traduzido para o português por frei Urbano Plentz o.f.m. Ela foi escrita para coro misto a quatro vozes, solista e declamador com acompanhamento de piano. O segundo é o primeiro poema escrito em língua italiana da autoria de São Francisco de Assis e traduzido para o português por Augusto de Lima. Qual não foi a nossa surpresa quando vimos, ao final da cantata, toda a plateia de pé, aplaudindo e, mais do que isso, dançando, ao som da sua peça final “A Dança da Alegria”. O detalhe é que toda a plateia era constituída de bispos, inclusive com a presença ilustre do são-joanense, cardeal e primaz do Brasil, Dom Lucas Moreira Neves, que na ocasião presidia a CNBB. A meu convite, assistiram à nossa apresentação meu cunhado Gil Amaral Campos, sua esposa Celina Maria e seus filhos Bruno Braga Campos, o qual colaborou virando as páginas da partitura, e Rodrigo Braga Campos, com apenas 3 anos de idade. 
 
No dia 30 de abril de 1994, deu-se início ao programa sobre "música clássica" intitulado “Música de Teclado”, um programa radiofônico produzido e apresentado por mim e transmitido pela ZYH Rádio Nova Aliança AM 710 da Fundação Rainha da Paz, uma emissora recém-criada sob os auspícios da Arquidiocese de Brasília, dirigida pelo cardeal Dom José Freire Falcão. Naquele dia, foi ao ar a minha estreia na rádio, com a participação do Diretor Pompeu de Souza na qualidade de meu entrevistador, numa atividade que ele chamou de Mesa Redonda, sendo eu o entrevistado. Dentro dessa Mesa Redonda, há um trecho referente à minha parceria com frei Joel, à medida que era desenvolvido nosso diálogo: 
“Pompeu — Braga, quais são as suas atividades mais recentes no campo da música sacra? Falemos primeiro de música sacra. 
Francisco Braga — Atualmente estou fazendo um trabalho lá na Igreja de Nossa Senhora da Consolata, na 913 Norte, acompanhando o coral da igreja, coisa que me dá muito prazer. Todo domingo, estou lá acompanhando durante a missa das 10 horas da manhã. Recentemente, outra atividade que está me empolgando muito é minha participação em um trabalho conjunto com frei Joel Postma o.f.m. Ele, como você sabe, dirige a Pastoral de Liturgia da CNBB e é um grande compositor. Então, estamos fazendo uma parceria nos recitais, tendo frei Joel na regência, seu coral Trovadores do Planalto e, por fim, eu ao piano. 
Pompeu — E qual foi a mais recente apresentação do coral? Fale sobre isso para nós. Foi uma coisa magnífica, eu sei. 
Francisco Braga — De fato, foi um sucesso estrondoso. Ocorreu em Itaici na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil deste ano, na 2ª feira, dia 18. Então, lá houve a apresentação do oratório O Peregrino de Assis e o Canto do Irmão Sol, ambos musicados por frei Joel. O Canto do Irmão Sol é o primeiro poema escrito em língua italiana da autoria de São Francisco de Assis. Qual não foi a nossa surpresa quando vimos, ao final do oratório, toda a plateia de pé, aplaudindo e, mais do que isso, dançando ao som de "Dancemos na praça da nossa cidade (Jerusalém celeste) sob o comando de São Francisco. 
Pompeu — Os Bispos dançando? 
Francisco Braga — Sim, os Bispos dançando. 
Pompeu — Pois é! O que prova a excelência da apresentação. É uma coisa magnífica. 
Francisco Braga — Também prova a bela receptividade, porque tudo é comunicar-se através do instrumento, através da voz. E aconteceu essa receptividade: os nossos corações bateram juntamente. 
Pompeu — E o oratório? Quando é que nós vamos conhecer, se é que ele ainda não foi apresentado em Brasília? Eu pelo menos não sei... Quando é que vamos conhecer proximamente o oratório? 
Francisco Braga — Nós estamos aguardando o patrocínio da Rádio Nova Aliança. 
Pompeu — Então está concedido! Já conversamos com o Braga, que, por sua vez, já conversou com o Frei Joel e numa próxima oportunidade nós vamos apresentar o oratório, se Deus quiser e as autoridades consentirem, lá no Memorial JK, porque lá tem um piano de cauda que é o ideal para que o Braga exerça todo o seu virtuosismo ao teclado e os ouvintes da Rádio Nova Aliança não vão perder por esperar. Pois nós contamos transmitir de lá, se nos oferecerem condições técnicas. Então, se nos oferecerem condições técnicas, vamos transmitir o oratório a partir do Memorial JK numa data muito próxima. Nós já prometemos que isso iria acontecer e realmente vai acontecer. 
Francisco Braga — E eu tenho a certeza de que vai agradar a todos os ouvintes. [...]” 

Frei Joaqui Fonseca OFM, o autor, Frei Joel Postma OFM e Irmã Diva Gonçalves Veiga
 
Ainda em 1994, a comunidade da Escola Paroquial Santo Antônio (localizada no SGAS Quadra 911, Conjunto “B” , Brasília – Distrito Federal, mantida pela então Vice-Província [hoje Província desde 2004] do Santíssimo Nome de Jesus do Brasil, com sede na cidade de Anápolis-GO) e a Paróquia Santo Antônio comemoraram com uma Missa do Jubileu de Ouro a presença franciscana no Centro-Oeste. As duas patrocinadoras do festejo agradeceram a atuação do Coral Trovadores do Planalto, sob a regência de frei Joel Postma, em todos os grandes momentos das festividades do Ano Jubilar, em Brasília-DF. 
 
Finalmente, também em 1994 aconteceu o Encontro Nacional de Músicos na Casa de Retiros Assunção na Quadra 611, via L2 Norte - Asa Norte, Brasília-DF, no período de 13 a 16 de outubro, quando todos os participantes ficaram internados, para o seu pleno aproveitamento, já que vinham de diversas partes do País. O evento se iniciou numa 5ª feira, 13/10, com um jantar seguido da Abertura do Encontro com apresentação dos participantes e intercâmbio sobre interesses e questões que cada um trazia para aquele evento. Como eu morava perto, participei de forma esporádica, especialmente das sessões de Música Mineira e de Ritmos Brasileiros/Dicionário da Religiosidade Popular nos dias 14 e 15. No dia 14/10, sexta-feira, houve as seguintes preleções: às 8h30min, Folcmúsica do Centro-Oeste por Maria Augusta Calado Rodrigues (de Goiânia); às 10h30min, Características da nossa folcmúsica por Hélio de Oliveira Senna (do Rio de Janeiro); às 14h, Música Mineira por Ademar Campos Filho (de Prados-MG); às 16h30min, continuação da palestra de Hélio de Oliveira Senna; às 20h Noitada Musical, durante a qual frei Joel apresentou sua cantata Francisco, Jogral de Deus ¹ (1969) para coro misto a quatro vozes e declamador, com acompanhamento de piano, constante das seguintes partes: 
I. O INÍCIO: Nascimento, Infância, Juventude 1, Juventude 2 
II. O IDEAL: Decisão, A Regra, Fraternismo: uma história de amor, Santa Clara, A Ordem Franciscana Secular, A Impressão das Chagas, O Cântico do Irmão Sol, A Morte de São Francisco, Epílogo ("Dancemos na praça da nossa cidade" [Jerusalém celeste]), Despedida pelo declamador. 
No dia 15/10, sábado, às 10h30min, houve continuação da palestra de Hélio de Oliveira Senna; às 14h, palestra sobre Ritmos Brasileiros/Dicionário da Religiosidade Popular, por frei Francisco van der Poel; às 16h30min, palestra sobre o Terço Cantado/Religiosidade Popular na Região de Montenegro-RS por Cristina Rolim Wolffenbüttel; às 20h, continuação da palestra de Cristina R. Wolffenbüttel com projeção de vídeo. No dia 16/10, domingo, o programa deixou a atividade em aberto. 
 
Data do ano de 1996 a publicação da partitura completa da cantata O Peregrino de Assis por frei Joel Postma para coro misto a quatro vozes, solista e declamador com acompanhamento de piano pela Concorde Gráfica e Editora Ltda de Juiz de Fora, sob os auspícios da Província Franciscana da Santa Cruz. A organização, digitação e revisão estiveram a cargo de frei Joaquim.
 
No mês de maio de 1996, frei Joel comunicou-me sua intenção de desligar-se da CNBB. Na ocasião, eu participava da equipe responsável pela modernização do Senado. Diante dessa possibilidade e procurando reter frei Joel em Brasília, tive a ideia de criar um coral do Senado Federal sob a sua regência, dentro do programa de Modernização do Senado Federal, com a participação de servidores da Casa, inclusive oferecendo minha colaboração como co-repetidor e pianista do grupo, com base na minha experiência, em anos anteriores, de ter sido regente e pianista do coral da Biblioteca Acadêmico Luiz Viana Filho, do Senado Federal, em comemoração do Natal, nas dependências da referida biblioteca. Como a apresentação tivesse sensibilizado a todos, serviu de estímulo para que eu iniciasse gestões para a criação de um Coral para toda a Casa. Levei minhas ideias ao Chefe de Gabinete do Presidente do Senado Federal, Dr. Baeri, e ao Diretor-Geral, Sr. Agaciel da Silva Maia, apresentando-lhes meu Projeto de Criação do Coral do Senado Federal, pedindo seu apoio. Comuniquei-lhes que a minha intenção era convidar frei Joel — nome muito conhecido em Brasília — para reger o futuro coral e ambos concordaram com o sugerido. No dia 26/05/1996, algumas funcionárias da Biblioteca foram em comissão à Paróquia Santo Antônio para fazer, informalmente, o convite a frei Joel, atendendo minha convocação. 
 
O convite foi feito oficialmente por correspondência do Diretor-Geral em 27/05/1996, conforme abaixo citada: 
Prezado Frei Joel, 
Com a convicção de que as atividades artísticas, especificamente a música e o canto coral, contribuem enormemente para harmonizar o ambiente de trabalho em empresas, instituições e organismos governamentais ou não, e imbuído do espírito que permeia a nova mentalidade que se deseja incutir nos recursos humanos do Senado Federal, visando resgatar a sua valorização e promoção humana, estamos em fase de elaboração de um projeto de criação de um coral do Senado Federal. 
A concretização desse projeto necessita, de modo prioritário, da condução regencial de alguém que, como o senhor, tem dedicado toda a sua vida à arte da música, da composição e do canto. 
Por esse motivo, estamos formalizando o convite já feito pessoalmente por um grupo de funcionários desta Casa que, ansiosos, aguardam o início de suas atividades corais. Contando com a sua compreensão e colaboração, esperamos que aceite o nosso chamamento e realize com o coral do Senado um trabalho de artesão e artista, como só o senhor sabe fazê-lo. 
Atenciosamente, 
Agaciel da Silva Maia 
Diretor-Geral do Senado Federal 
 
A resposta de frei Joel não tardou. No dia 30/05/1996, em papel timbrado da CNBB ref. Lit - nº 562/1996, houve resposta positiva do frei Joel para o convite honroso de reger o coral do Senado Federal: 
Prezado Sr. Agaciel, 
Paz e Bem! 
Venho agradecer-lhe pelo seu convite, ontem recebido, de participar do projeto de criação de um coral no Senado Federal. 
Em resposta, quero comunicar-lhe que estou disposto a colaborar com este projeto, mediante a condução regencial do coral a ser formado, na medida das minhas possibilidades. Por ser uma arte de linguagem universal, o canto, realmente, é capaz de harmonizar o ambiente de trabalho em qualquer instituição, consequentemente, também entre funcionários que prestam um serviço tão importante como o no Senado Federal. Como primeiro passo, irei, junto com o Sr. Francisco Braga, conhecer melhor o conteúdo do projeto, na próxima semana. 
Depois poderemos analisar e preparar a realização concreta dele. 
Agradecendo-lhe pelo seu convite e esperando poder colaborar de maneira eficiente com este projeto importante, subscrevo-me, 
Atenciosamente, 
Ass. Frei Joel Postma 
Assessor da CNBB 
 
Ato contínuo, redigi o Ato da Comissão Diretora, a qual tinha a atribuição de criar o coral do Senado. Sem delonga, houve a decisão da Comissão Diretora para a criação do Coral do Senado Federal, conforme publicado no Boletim Administrativo do Pessoal nº 1241, de 20/06/1996, fl. 2, nos seguintes termos: 
 
ATO DA COMISSÃO DIRETORA Nº 11, DE 1996 
 
A COMISSÃO DIRETORA, no uso de suas atribuições regimentais, e Considerando que foi identificada a necessidade de se criar um coral no âmbito do Senado Federal, composto de servidores da Casa, face à enorme demanda por atividade artística grupal por parte de inúmeros interessados; 
que a formação de um conjunto coral favorecerá a integração e co-participação de servidores de diferentes níveis hierárquicos da Instituição, através da cooperação e complementaridade que se impõe; [...]
finalmente, que educar e treinar as vozes dos servidores, interessados em sua promoção pessoal e no desenvolvimento do grupo coral, visando organizar realizações artísticas e fazer apresentações públicas, constituirão um passo firme ao encontro da valorização do servidor do Senado Federal, que é um dos esteios do Programa de Modernização; 
RESOLVE
Art. 1º Criar o Coral do Senado Federal.
§ 1º Os membros do Coral serão selecionados entre os servidores do Senado Federal, exceção feita ao regente. 
§ 2º Os servidores partícipes não farão jus a qualquer adicional remuneratório pelo exercício regular de suas atividades corais. 
Art. 2º O Diretor-Geral do Senado Federal fica autorizado a efetuar despesas necessárias para a estruturação e o bom funcionamento do Coral do Senado Federal, bem como a dispensar do trabalho os membros do Coral durante o tempo dos ensaios. 
Art. 3º Este Ato entra em vigor na data de sua publicação. 
Sala das Reuniões, em 13 de junho de 1996. José Sarney - Renan Calheiros - Ernandes Amorim - Ney Suassuna 
                                         José Sarney, Presidente 
 
Por sua vez, o Jornal do Senado, Ano II, nº 265, p. 2, de 11/07/1996, publicou matéria em destaque intitulada “Comissão Diretora aprova criação do Coral do Senado” nos seguintes termos: 
“Está aprovada a criação do Coral do Senado Federal. A decisão da comissão Diretora atende ao interesse dos servidores da Casa em desenvolver uma atividade artística em grupo. O coral, que será subordinado ao diretor-geral do Senado, Agaciel da Silva Maia, e regido pelo frei Joel Postma, integra o programa de modernização implantado pelo presidente José Sarney. 
O consultor legislativo Francisco Braga, autor da ideia, explicou que a atividade propicia treinamento para maior disciplina, espírito de cooperação e trabalho em equipe. Segundo ele, o coral representará o Senado em Brasília e em todo o País, além de abrilhantar eventos e datas cívicas. Os coralistas serão selecionados entre os servidores do Senado, no dia 1º de agosto. Os interessados devem ligar para Lisane, nos ramais 4378 e 1265.” 
 
Neste ínterim, frei Joel viajou para a Holanda, durante um mês, e no seu retorno, comunicou sua impossibilidade de ser o regente do coral ao Diretor-Geral, na seguinte correspondência datada de 30/07/1996 ref. Lit nº 794/1996: 
Prezado Sr. Agaciel, 
Paz e Bem! 
Por meio desta, venho comunicar-lhe que, aconselhado pelo meu cardiologista, que consultei ontem, dia 29/07, infelizmente, tenho que cancelar minha participação no projeto da criação de um coral no Senado, por motivos de saúde. 
Durante a minha permanência de um mês na Holanda, apareceram sintomas de um problema cardíaco, certamente agravado por causa de uma operação de varizes que fiz em maio do corrente. 
Na certeza de o sr. encontrar outros músicos em Brasília, capazes de levar para frente o projeto em questão, quero mais uma vez agradecer-lhe pelo convite honroso que o sr. me fez. 
Peço-lhe desculpas pelo incômodo que esta decisão inesperada deve ter causado ao senhor e aos que idealizaram este projeto. 
Atenciosamente, 
Frei Joel Postma 
Assessor da CNBB 
 
Essa decisão de frei Joel contou com nossa compreensão, dadas as circunstâncias. Quanto ao Coral do Senado Federal, sem a direção de frei Joel, teve seu primeiro ensaio, sob a regência da maestrina Glicínia Mendes, em 19 de agosto de 1996, no Auditório Petrônio Portela, do Senado Federal. 
 
Em resposta ao Conselho Administrativo do Coral em 10/10/1996, atendendo à solicitação contida no Encaminhamento nº 262/96-SECOPR/SSACCA, informei que o piano digital marca Roland, modelo FP-1, sugerido por mim para aquisição pelo Senado Federal em 16/08/96, encontrava-se fora de linha, fornecendo a seguir as especificações técnicas que precisavam ser observadas na aquisição de um piano substituto. 
 
Ainda continuei por cerca de quatro meses na minha função de co-repetidor do grupo, mas, não me sentindo realizado nessa missão sem a presença jovial e edificante de frei Joel, comuniquei ao Conselho Administrativo do Coral, em 1º de novembro de 1966, meu desligamento do coral , “por motivos expostos ao Sr. Diretor-Geral". 
 
Desta forma finalizei a minha correspondência: 
“Na certeza de que possam encontrar outro tecladista nos quadros do Senado Federal, capaz de desempenhar a função de co-repetição e acompanhamento, quero agradecer-lhes o carinho que sempre me foi dispensado por esse Conselho Administrativo, bem como pela Regente Dra. Glicínia Mendes, fazendo votos de que se dê continuidade, com denodo e determinação, a este projeto artístico que permite aos servidores da Casa integração e trabalho em equipe, colaborando na sua humanização e valorização. 
Francisco José dos Santos Braga 
Consutor Legislativo” 
 
Quanto ao Coral do Senado, ao longo desses 29 anos, mais de 150 cantores já passaram pelo grupo, e o grupo já se apresentou mais de 500 vezes, inclusive em palcos internacionais, como na Wiener Konzerthaus, em Viena, em 2017, e duas vezes no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 2015 e 2019. 
 
Em fins de 1997, frei Joel, tendo se desligado da CNBB e de malas prontas para seu retorno ao Seminário Seráfico de Santos Dumont, foi homenageado com um concerto pela comunidade da Escola Paroquial Santo Antônio, no seu teatro. Para esse evento, ela solicitou meus préstimos na escolha de um piano digital para fins da apresentação. Minha escolha recaiu num piano Kawai digital que foi adquirido, nas especificações requeridas para o evento. O espetáculo programado consistia numa apresentação conjunta de dois corais com meu acompanhamento ao piano: Trovadores do Planalto de Brasília e Trovadores da Mantiqueira de Santos Dumont, este, na ocasião, regido por frei Joaquim Fonseca de Souza que se deslocou até Brasília. Do programa constava a apresentação da cantata O Peregrino de Assis, que foi de pleno agrado do público presente, dos regentes e dos músicos participantes pela grandiosa performance. Foi dessa forma que frei Joel encerrou com chave de ouro sua estada em Brasília durante 13 anos. 
 
 Ainda sobre a sua cantata mais famosa, O Peregrino de Assis, [SATLER, 17] informa que:
“Depois da sua apresentação inaugural em 1966, após repetidas execuções pelo coral Trovadores da Mantiqueira e depois de a partitura ter sido transcrita para o formato eletrônico, em 1996, pelo músico-liturgista frei Joaquim Fonseca de Souza o.f.m., a cantata foi gravada em um CD, em 1997, pelo Coro de Câmera Pró-Arte, sob a regência do maestro Carlos Alberto Figueiredo e publicada pelas Edições Paulinas (COMEP).
A coroação da versão orquestral dessa obra de arte, pelas mãos do maestro Sérgio Di Sabbato, ocorreu no ano de 2008, por ocasião da abertura da Comemoração Latino-Americana e Caribenha do Oitavo Centenário do Movimento Franciscano, em Brasília, de 17 a 19 de outubro de 2008, organizada pela FFB-Família Franciscana do Brasil. A execução instrumental foi feita pela Orquestra de Cordas da Universidade de Brasília, cuja coordenadora artística era Glêsse Collet. O coral Cantus Firmus, cuja fundadora e regente titular era Isabella Sekeff, cantou o texto. O regente do conjunto era o maestro Emílio de César. O Teatro Nacional de Brasília foi o palco dessa execução memorável. [...]
A força dessa pequena obra-prima talvez esteja no fato de traduzir, de maneira poética e musical, tão cordialmente reconhecível, nossas próprias experiências de libertação interior, quando passamos do canto de "Perdoai-me, Senhor, esta tristeza amarga..." para "Dancemos na praça da nossa cidade!".” 
 
Cabe aqui acrescentar que Beatriz Salles, professora de piano da UnB, na época, salvo engano, chefe do Departamento de Música da UnB, foi quem redigiu pro bono o projeto para frei Joel captar recursos de diversas fontes para o célebre concerto de abertura comemorando no Teatro Nacional o 8º Centenário do Movimento Franciscano (1208-2008), tornando-se com justa razão coordenadora geral. Um deputado de Santos Dumont, Luiz Fernando Faria, foi quem aportou os recursos quase sozinho para a grandiosa apresentação orquestral da obra. 
 
Frei Joel e o autor, analisando suas partituras

 
O autor interpreta, sob supervisão diuturna de frei Joel

 
Certamente o seu retorno ao Seminário Seráfico Santo Antônio, de Santos Dumont, deve ter sido providencial e fato preponderante para a recuperação de sua saúde e da alegria contagiante que demonstrava na formação de seus alunos seminaristas, no canto do Oficio Divino das Comunidades e nos ensaios e apresentações do seu Coral Trovadores da Mantiqueira, que chegou a ter cinquenta seminaristas integrantes em alguns anos. Continuei fiel a frei Joel, participando anualmente de todas as suas apresentações, juntamente com minha esposa. Em substituição ao regente frei Joel, assumiu o comando do coral o músico, compositor e regente ex-salesiano, Roberto Iannini, para dirigir o coral Trovadores do Planalto. 
 
Apesar da distância por sua transferência para Santos Dumont, frei Joel manteve vínculo com seus amigos que deixou na Capital Federal, que não eram poucos, e nessas várias ocasiões éramos minha esposa e eu informados de sua chegada, quando podíamos privar de sua alegre companhia nas idas a restaurantes, viagem de turismo a Pirenópolis, visitas matutinas à UnB na época anterior ao lançamento orquestral de sua cantata O Peregrino de Assis no Teatro Nacional Cláudio Santoro, recepção de seu irmão do Canadá, etc. Com o advento da Internet, a partir de 2009, coloquei meus dois blogs (Blog do Braga e Blog de São João del-Rei) a serviço do registro dos Encontros de Corais de Santos Dumont e outros acontecimentos importantes na vida de frei Joel, deixando de falar sobre a sua atuação na Capital Federal, algo que realizo apenas agora através deste artigo. 
 
Frei Joel em nossa companhia, no salão nobre da Câmara Municipal de Divinópolis-MG, em 14/12/2016.

Fonte: revista
FREI JOEL: Cantando e tocando a esperança e a alegria, Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 2025, pp. 103-124.
 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS 
 
 
¹  SATLER, Fabiano A. Frei Joel: um poema sinfônico. Texto biográfico, publicado nesta revista, pp. 11-36; originalmente publicado com o título Frei Joel Postma: uma vida sinfônica in 1º volume de Frei Joel Postma: Composições e Arranjos, Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 2018, 80 p.
 
² A partitura do Cântico das Criaturas foi editada com aprovação eclesiástica (S. Paulo, 17/02/1971) e gravada pela Sono-Viso do Brasil, Av. Paulo de Frontin, 568, Rio de Janeiro-GB. A gravação foi feita com orquestra e coro com revisão e regência instrumental de Mozart Brandão, com arranjo para os seguintes instrumentos: flauta, clarineta, sax alto e tenor, trombone, bateria, violão e contrabaixo, acompanhando o coral Canarinhos de Petrópolis sob a regência de frei Leto Bienias. Além disso, há uma longa explicação sobre o Cântico das Criaturas na Crônica do XVII Encontro de Corais de Santos Dumont ocorrido no dia 28/11/2015 com texto publicado no Blog do Braga em 17/12/2015. 
 
³ Por sua vez, frei Joaquim Fonseca, a partir de 1997, passou a residir em São Paulo para cursar o Mestrado em Teologia. Dois anos depois, retornou a Belo Horizonte e tornou-se professor das disciplinas Liturgia e Arte Cristã na Faculdade Jesuíta (FAJE) e no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), além de coordenador da coleção Liturgia e Música da Editora Paulus e membro da Equipe de Reflexão de Música Litúrgica da CNBB. De 2003 a 2006, indicado por frei Joel, exerceu o cargo de assessor nacional da CNBB para a Música Litúrgica.
 
A cantata O Peregrino de Assis teve as seguintes apresentações: Belo-Horizonte (3 vezes, sendo duas no Colégio Santo Antônio), Betim, Santos Dumont (várias vezes; pelo menos, em 09/10/2013, em comemoração ao Dia de São Francisco de Assis, e 30/11/2013), Juiz de Fora, Divinópolis (em 28/10/1998), São João del-Rei (na Capela de Nossa Senhora de Lourdes), Anápolis-GO e Brasília-DF. 
 
A cantata Os Louvores do Irmão Francisco foi estreada em 25/11/2001 na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. 
 
Nos dois anos seguintes, a opereta Legenda de Santa Clara foi estreada em Santos Dumont (em 23 e 24/10/2004). Em seguida, foi levada para São João del-Rei no Teatro Municipal (em 05/12/2004, na comemoração dos 105 anos da presença franciscana naquela cidade), Belo Horizonte (no Teatro Dom Silvério) e Divinópolis (em 26/11/2005). Em todas essas apresentações, minha esposa Rute Pardini interpretou Hortulana, mãe de Santa Clara. 
 
A cantata Francisco e o Sultão: homens de paz com texto de frei Óton Silva de Araújo Júnior e música de frei Joel foi estreada no dia 24/10/2019 no Seminário Seráfico Santo Antônio de Santos Dumont, para comemorar os 800 anos do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão Al-Malik al-Kamil Nasis as-Din Muhammad. 
 
Resumi e adaptei o texto que vem a seguir, baseado no conteúdo descrito in [SATLER, 20-22], op. cit.
 
Cf. MÚSICA DE TECLADO, um programa radiofônico produzido e apresentado pelo pianista Francisco José dos Santos Braga, publicado no Blog do Braga em 30/01/2014, 20 anos após a sua gravação nas instalações da Rádio Nova Aliança. 
 
¹ A cantata Francisco, Jogral de Deus, com texto de frei Urbano Plentz o.f.m. e música de frei Joel, foi apresentada em 23 e 29 de novembro de 2014, durante o evento XVI Encontro de Corais de Santos Dumont. 
 
 
III. BIBLIOGRAFIA 
 
BRAGA, Francisco J.S.: 105 Anos da Presença Franciscana em São João del-Rei e o centenário do Ginásio Santo Antônio > > > Parte 4, publicado no Blog do Braga em 18/12/2009, onde se lê sobre a apresentação da cantata Legenda de Santa Clara, encenada no Teatro Municipal de São João del-Rei em 05/12/2004 
____________________: O PEREGRINO DE ASSIS, de frei Joel Postma o.f.m., publicado no Blog do Braga em 20/12/2013 
Link: https://bragamusician.blogspot.com/2013/12/o-peregrino-de-assis-de-frei-joel.html ____________________: MÚSICA DE TECLADO, um programa radiofônico produzido e apresentado pelo pianista Francisco José dos Santos Braga, publicado no Blog do Braga em 30/01/2014 
 ___________________: Frei Joel Postma é agraciado com a Medalha Mérito Cabangu, publicado no Blog do Braga em 21/07/2014 
____________________: Peregrino de Assis junto ao túmulo de São Francisco, publicado no Blog do Braga em 17/11/2014 
____________________: Crônica das duas apresentações da cantata FRANCISCO JOGRAL DE DEUS em novembro de 2014, publicado no Blog do Braga em 01/12/2014 
Link: https://bragamusician.blogspot.com/2014/12/cronica-das-duas-apresentacoes-da.html ____________________: Crônica do XVII Encontro de Corais de Santos Dumont, publicada no Blog do Braga em 17/12/2015  
____________________: Crônica do XVIII Encontro de Corais de Santos Dumont, publicada no Blog do Braga em 28/11/2016 
____________________: Crônica do XIX Encontro de Corais de Santos Dumont, publicada no Blog do Braga em 25/11/2017 
____________________: Aos 90 Anos de Frei Joel Postma O.F.M., publicado no Blog do Braga, em 11/03/2019 
 
POSTMA, Joel: A Morte de São Francisco (da cantata O Peregrino de Assis) 
_____________: Cântico das Criaturas (Cântico do Irmão Sol) 
 
PROVÍNCIA SANTA CRUZ: FREI JOEL POSTMA: Composições e Arranjos, vol. 1, Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 2018, 80 p.
_________________________: O PEREGRINO DE ASSIS-Música: Frei Joel Postma o.f.m., Juiz de Fora: Concorde Gráfica e Editora Ltda, 312 p. 
_________________________: Opera Omnia contendo 16 volumes de Composições e Arranjos de Frei Postma, Belo Horizonte: Província Santa Cruz, 2018 
 
SATLER, Fabiano Aguilar: Hoje o céu está em festa, artigo transcrito no Blog de São João del-Rei em 30/10/2024 (extraído de FREI JOEL POSTMA: Composições e Arranjos, vol. 1, pp. 7-23