Sigmund Freud - Bruno Ganz
Otto Trsnyek - Johannes Krisch
Anezka - Emma Drogunova
Margarete Huchel - Regina Fritsch
Preininger - Fritz Egger
Egon Vermelho - Michael Fritz
Sr. Rosshuber (açougueiro) - Rainer Wöss
Sra. Rosshuber - Sabine Herget
Martha Freud - Elfriede Irrall
Anna Freud - Karoline Eichhorn
Sra. Dra. (freguesa da tabacaria) - Gerti Drassl
Porteiro da Gestapo - Alexander E. Fennon
Garçom do café - Anton Algrang
Carteiro - Manuel Celeda
Padre ou pastor - Carl Achleitner
Música - Matthias Weber
Roteirista - Klaus Richter/Nikolaus Leytner/Robert Seethaler
Fotografia - Hermann Dunzendorfer
Gênero: Drama
Mal Franz se adaptou um pouco ao mundo confinado da tabacaria, o filme já insinua o perigo iminente que paira sobre a existência do veterano de guerra Otto Trsnyek e seu aprendiz: um cliente pede um jornal simpático aos ideais nacional-socialistas, mas Trsnyek, por convicção, se recusa a vendê-lo e expulsa o cliente.
A postura de Trsnyek não lhe rende amigos; até mesmo o açougueiro vizinho é abertamente antissemita e anseia pelo "Anschluss" (anexação) à Alemanha. O fato de seu vizinho Trsnyek continuar atendendo seus clientes, incluindo sua clientela judaica, com educação e gentileza, enfurece o açougueiro. As cabeças de galinha decepadas e os restos do matadouro, os insultos antissemitas na placa da porta e na vitrine da tabacaria, são facilmente atribuídos ao açougueiro.
O público não é informado exatamente por que Otto Trsnyek, a segunda vítima, é preso. As revistas pornográficas vendidas servem de pretexto para sua prisão, por ele ignorar a ideologia racial e permanecer leal à República da Áustria. Franz suspeita que o açougueiro simpatizante da causa nazista tenha denunciado o tabaqueiro. Trsnyek morre sob custódia da Gestapo, sem acusações formais ou testemunhas. Franz recebe os pertences de Otto em uma caixa de papelão com um bilhete informando que Otto morreu de ataque cardíaco. A terceira vítima, o satirista do cabaré, é preso por apresentar um número político e parodiar Hitler. Franz pergunta laconicamente a Anezka, durante seu último encontro, se ela recebeu um pacote. Em protesto contra o assassinato de Otto Trsnyek, Franz faz "uma denúncia", como Freud havia aconselhado: ele amarra as calças de uma só perna de Trsnyek a um mastro de bandeira, e esse ato de crítica irônica o coloca na mira do novo regime. Franz também é preso pela Gestapo. Nada sabemos sobre seu destino posterior.
Representando a população judaica de Viena na época do "Anschluss" ³, o filme aborda o destino de Sigmund Freud. Nós, como espectadores (espectadoras), ficamos sabendo que, apesar de sua fama, Freud agora tem pacientes quase exclusivamente internacionais. Quando Freud e Franz visitam um café, não são convidados a se retirar, mas conduzidos a uma área separada por uma divisória. Freud e seus familiares quase nunca saem de casa depois disso. Na última visita de Franz, um policial da Gestapo está em frente à residência do cientista e o impede de entrar. A filha de Freud, Anna, está profundamente preocupada com os acontecimentos no país e quer persuadir o pai a emigrar para Londres, mas ele, debilitado pela doença e pela idade, recusa-se a deixar sua terra natal. Finalmente, alguns meses depois da ascensão dos nazistas ao poder, Freud cede à pressão da família e deixa a Áustria em junho de 1938.
O filme A Tabacaria começa no lugar onde Franz cresceu. Essas cenas se passam ao redor de um lago. No filme, o lago, no qual Franz mergulha na sequência de abertura, simboliza sua infância. O diretor Nikolaus Leytner afirma:
“A casinha à beira do lago é mais do que apenas um lar para Franz. Debaixo d'água, no lago – o mundo que existe ali, essa é a sua infância. E ele perde tudo isso num instante. Ele chega à metrópole agitada de Viena, sofrendo sob a intensa pressão do período pré-guerra, onde há grande tensão entre as pessoas. Algo que Franz nunca viu ou experimentou antes. E isso contrasta fortemente com o mundo idílico de sua infância, onde colecionava besouros e animais mortos.”
Fonte: Material de imprensa da distribuidora do filme
Sonhos – Visualizando Imagens Oníricas
No filme A Tabacaria, as sequências de sonho de Franz se destacam nitidamente das outras cenas, que se passam na realidade do filme. A linguagem visual é surreal, mas sempre faz referência à realidade do filme: um rato enorme jaz na margem do lago; Franz cai de um barril de água da chuva, onde está encolhido, nas profundezas do lago e afunda; o teatro de marionetes do parque de diversões acontece na janela da cabana à beira do lago onde Franz cresceu. Uma das marionetes se parece com Anezka, e assim por diante. O visual das sequências de sonho é frio e difuso, as cores são acinzentadas e apenas os detalhes são efetivamente destacados em cores. O som é reverberante e as vozes são estridentes e exageradas.
A atmosfera das sequências de sonho é, portanto, sinistra e ameaçadora, ou mística. O mundo onírico se passa em grandes espaços que simbolizam o vazio e uma sensação de estar perdido. Isso contrasta fortemente com a atmosfera apertada e desordenada da tabacaria, o novo mundo que Franz precisa navegar. Tematicamente, os sonhos sempre giram em torno da convergência de experiências da infância com eventos atuais. O lago onde Franz cresceu quase sempre desempenha um papel, envolto em uma névoa densa e emoldurado por montanhas ameaçadoramente escuras. No final do sonho, algo assustador e perigoso geralmente acontece: uma boca tenta engolir Franz, o barco a remo dispara com ele em direção a um iceberg...
No filme, o personagem Sigmund Freud aconselha Franz a anotar seus sonhos ⁴. O curioso e sonhador Franz o faz e começa a examinar seu conteúdo. Depois que Trsnyek é preso, ele exibe seus sonhos, escritos em pedaços de papel, na vitrine da tabacaria, como um aviso público. Ao expor seus sonhos, ele espera despertar "algo de significado ou duração" no observador casual. Ele próprio é incapaz de tirar conclusões de seus sonhos. Freud, absorto pela perseguição por ser judeu, não está lá para apoiá-lo.
Personagens e Relações
A figura central do filme é Franz Huchel. Ele oferece aos jovens espectadores uma infinidade de pontos de identificação. O protagonista ainda muito infantil da sequência de abertura (protegido por uma paisagem montanhosa cinematograficamente austera, poderosa e serena ao mesmo tempo), que se aconchega debaixo das cobertas após o banho antes de uma tempestade ou mergulha em um barril de água da chuva com um rato morto pouco antes da partida de seu trem, transforma-se ao longo do filme em um jovem que desenvolveu uma posição clara contra a repressão do regime nacional-socialista desumano.
Quando Franz chega à agitada Viena (em contraste visual com a tranquilidade e a clareza do mundo montanhoso), ele é como uma esponja, pronto para absorver tudo o que encontra. Os dois mentores que o moldam, Trsnyek e Freud, são muito diferentes, mas igualmente eficazes: eles incutem no menino uma atitude humanista e conscientemente corajosa. O menino, criado sem pai, mas em um ambiente protegido, e enviado ao mundo pela mãe, apega-se a Sigmund Freud com silenciosa persistência, reconhecendo nele um homem que pode apoiá-lo em sua desorientação juvenil em relação ao amor e ao amadurecimento, e ajudá-lo a lidar com a confusão que o domina cada vez mais. Essa amizade é, sem dúvida, o eixo relacional mais importante do filme, pois todos os outros relacionamentos de Franz — com Anezka, com Otto Trsnyek ou mesmo com sua mãe — são medidos, refletidos e desenvolvidos em função dela.
Além de Freud, interpretado por Bruno Ganz com uma mistura de excentricidade intelectual e um brilho travesso no olhar, o outro mentor de Franz é o rabugento, porém compassivo, tabaqueiro Otto Trsnjek. Ele perdeu uma perna na Primeira Guerra Mundial e administra uma tabacaria devido à sua deficiência. "Otto é um homem marcado pela vida", diz o ator Johannes Krisch sobre seu personagem. Ele acolhe o filho de sua namorada de infância e lhe transmite o que sabe sobre a vida e o que faz um bom tabaqueiro. Esses relacionamentos positivos com seus pais substitutos são cada vez mais ofuscados para Franz pelos eventos políticos contra os quais até mesmo Freud e Trsnjek são impotentes. Com força destrutiva, o nacional-socialismo penetra o pequeno (visualmente, até então, intacto) mundo tolerante da tabacaria e o destrói para Franz.
Franz mantém contato com sua mãe até o fim, que lhe pede para escrever cartões-postais quando deixar sua terra natal. O que começa como cartões de felicitações superficiais se transforma em uma troca de cartas mais profunda à medida que o filme avança. A correspondência oferece consolo a ambos. A mãe reconhece a transformação e o amadurecimento de Franz, ao mesmo tempo que percebe que não pode mais estar presente para o filho.
Da perspectiva do apaixonado Franz, Anezka se comporta de maneira completamente irracional e dolorosa. Ela aparece, parece gostar dele e depois desaparece novamente. Há algo enigmático no comportamento de Anezka, algo para o qual nem mesmo Freud tem resposta. Seguindo o conselho de Freud, Franz não desiste, mas procura a moça e a encontra em uma casa comunitária dilapidada e miserável. Os dois passam a noite juntos, e nada parece impedir sua felicidade, mas Anezka se isola mais uma vez. Impulsionado pelo desejo, Franz a espia e a segue até um pequeno cabaré onde ela — vestida com roupas leves — dança no palco. Em sua ingenuidade, Franz é incapaz de entender por que Anezka se comporta de maneira tão cruel, por que ela sai com outros homens mesmo ele a amando e acreditando sentir que ela gosta dele ou até mesmo o ama também. Somente quando ele a pede em casamento e ela o rejeita, fugindo com um homem da SS, é que ele desiste, decepcionado. Franz está "cego" de amor e inexperiente demais para perceber que Anezka está além de seu alcance. Desde o primeiro encontro, ele poderia ter percebido que, como mero aprendiz, não tinha a menor chance com ela: no parque de diversões, após o baile, Anezka pergunta: "O que fazemos agora?". Franz conta o dinheiro que lhe resta. É o suficiente para quatro cervejas ou duas voltas no carrossel — Anezka o deixa plantado ali. No fim, a oportunista Anezka é a única que sobrevive. Ela veio de sua aldeia boêmia para Viena — presumivelmente impulsionada pela extrema pobreza — para ganhar dinheiro. Ela nunca vacila nesse objetivo. Então, quando Franz a pede em casamento e sugere que voltem juntos para a Boêmia e morem em sua aldeia, ela recusa. Nikolaus Leytner se pronuncia a respeito:
“É também a história de um primeiro (e infeliz) amor. Desejo e confusão dominam os encontros entre Franz e Anezka, que é alguns anos mais velha e muito mais experiente sexualmente — um amor que, em um mundo à beira do abismo, ganha ainda mais exuberância apaixonada – e, ao mesmo tempo, uma profunda tristeza.”
Fonte: Material de imprensa da distribuidora do filme
O protagonista Franz Huchel
A TABACARIA é uma adaptação cinematográfica do romance homônimo de Robert Seethaler. Portanto, comparar o livro com o filme é uma opção natural. Ambientados em um contexto historicamente significativo, tanto o filme quanto o livro exploram a transição da infância para a vida adulta do protagonista. Através da história fictícia de Franz Huchel, somos levados a explorar o profundo impacto que as circunstâncias políticas podem ter em nossa vida individual. Como a fase da vida de Franz se sobrepõe às suas próprias experiências, o personagem oferece um alto grau de identificação principalmente para os mais jovens. Temas como primeiro amor, amadurecimento, busca pelo próprio caminho e incerteza sobre a própria identidade também ressoam com elas.
Franz Huchel personifica uma visão inclusiva e humanista da humanidade. Serve como um modelo a ser seguido sua postura abertamente corajosa, atenciosa e leal em relação a Freud, que é submetido a assédio e discriminação racistas, e a Trsnyek, um prisioneiro político. Ao mesmo tempo, sua lealdade inabalável e senso de dever ironicamente se tornam sua ruína, um ponto que também deve ser considerado. O filme oferece a oportunidade de discutir o aumento do discurso de ódio e da hostilidade entre grupos (como o ressurgimento do antissemitismo) e de considerar possíveis desenvolvimentos futuros rumo a uma sociedade que permaneça aberta e pluralista ou fechada e excludente. A relevância particular de A TABACARIA reside na forma como utiliza um destino aparentemente insignificante para reexaminar um capítulo sombrio da história austríaca, traçando paralelos sutis com os dias atuais, época em que já não parece impossível que a história se repita.
Crédito pela matéria: clicar em Der Trafikant - filmwerk (texto em alemão)
É uma senhora muito elegante que veio comprar um maço de cigarros Gloriettes.
Ela olha de alto a baixo o garoto e, percebendo a sua inexperiência sexual, dá mole para ele, descobrindo o manto de pele de urso que trazia nos ombros, desabotoando o botão superior de seu corpete e deixando à mostra o colo do peito para excitá-lo. Em seguida, diz:
Otto lhe acende o cigarro com um isqueiro.
Diante de tal dádiva dos deuses, o rapaz fica estupefato, boquiaberto e absolutamente sem ação.
E sorvendo a fumaça do cigarro com muito charme e prazer, ela ainda dá uma baforada em direção do rapaz a título de despedida.
O tabaqueiro se despede dela com um cumprimento:
Em seguida, dá sua opinião:
Ao mesmo tempo, que os cheira e dá a cheirar ao rapaz, diz finalmente:
— São caros?
— Moro algumas casas abaixo, no térreo. Mas não gosto de cozinhar. Vamos ao restaurante Homem Selvagem. Você pode dar uma olhada no banheiro.
Neste instante, chega um senhor querendo ser atendido.
— Olhe só quem está aqui, Egon Vermelho.
— Exatamente dez segundos após eu fechar, como sempre.
— Um maço de Esporte e o Bandeira Vermelha!, diz o cliente.
— Claro, por que você se importaria com minha pausa para almoço?
Neste instante, Franz e o cliente observam um açougueiro vizinho espionando o que falavam. Otto retorna com os jornais e mantém o seguinte diálogo com Egon:
— Bem, o que se passa com isso da paz mundial e da justiça? Tudo são só ilusões...
— Sim, continue falando, Trsnyek, a revolução está chegando! E em breve!
— Sim, sim. Vou dar-lhe o troco amanhã. Não vou reabrir só para você. Bom almoço!
Otto e Franzl se dirigem ao restaurante, enquanto o cliente se afasta.
Neste mesmo instante, observa-se a chegada de um policial que parece acenar com a cabeça ao açougueiro, enquanto o tabaqueiro e seu funcionário se dirigem ao restaurante do outro lado da rua.
Querida mamãe,
O trabalho é interessante.
Otto Trsnyek envia-lhe seus cumprimentos.
Como está você?
Eu estou bem.
Com carinho,
Franz.
Enquanto ele escreve, acontece algo digno de nota: uma aranha indiscreta tece sua teia de cima a baixo da tela.
Antes de dormir, pega um charuto de uma caixa e põe-se a cheirá-lo. Antes de fechá-la vira todos os charutos como recomendou Otto.
— Bom dia!, diz Freud.
— Trabuccos, como sempre?
— Por favor, duas caixas e um jornal Nova Imprensa Livre.
Otto, ao entregar-lhe o jornal, se esquece de dar-lhe as duas caixas de charutos, distraindo-se ao lhe apresentar o novo ajudante:
— Por falar nisso, este é Franz. Vem de Salzkammergut e ainda tem muito a aprender.
— De Salzkammergut. Muito bonito, diz Freud.
— Obrigado. Adeus!, diz o garoto, despedindo-se.
— Adeus!, diz Freud.
— Tenha um bom dia, Professor, diz Otto.
E Otto continua a referir-se a respeito do Professor:
— Por falar nisso, esse era o Professor Sigmund Freud. Tenho certeza de que já ouviu falar dele.
— Professor Freud?, pergunta o garoto.
— Sim.
— É médico dos loucos. É mundialmente conhecido. Põe a cabeça no lugar de muita gente, mentalmente. Ao menos àqueles que têm condições financeiras para tal. Uma hora com ele custa tanto quanto metade de um terreno.
— Os charutos dele..., diz o garoto percebendo que Freud não os levou consigo.
— Espere, Professor, seus charutos.
— Muito gentil, obrigado.
Freud teve a intenção de recompensá-lo pelo trabalho.
— Por favor, não é necessário.
— Nestes tempos nada é óbvio. Obrigado!
— Posso acompanhá-lo?, pergunta o garoto.
Da porta do açougue, o açougueiro espião sai de seu estabelecimento para controlar a clientela e o movimento da tabacaria.
Pondo-se ao lado do professor no seu caminho para casa, o garoto diz:
— Posso perguntar-lhe uma coisa, Professor?
— Depende de quê.
— É verdade que o sr. pode endireitar a cabeça das pessoas?
— Quem lhe disse isso?
— Otto Trsnyek. Mentalmente, ele disse.
— É uma bonita metáfora. Parece que posso às vezes, se tivermos sorte, meus pacientes e eu.
— Como o sr. faz isso?
— As pessoas se deitam no meu divã e começam a falar.
— Num divã?
— Poderiam ficar em pé. Mas num divã é mais conveniente para elas, se deitadas.
— Parece confortável.
— A verdade raramente é confortável. Então, é aqui que eu moro. Posso ficar com meus charutos, por favor? Muito obrigado.
— Vou comprar todos os seus livros e estudá-los.
— Pelo amor de Deus! Você não tem coisas melhores para fazer? Você é jovem. Saia para a rua. Divirta-se! Encontre uma namorada!
— Uma namorada? Como se fosse tão fácil!
— Até agora, a maioria das pessoas conseguiu.
— Isso não significa que eu vou conseguir.
— Por que você não conseguiria, de todas as pessoas?
— De onde eu venho, as pessoas entendem tudo de madeira. Mas do amor...
— Isso não é incomum. Ninguém sabe nada sobre amor.
— Nem o sr.?
— Não. Eu também não.
— Mas as pessoas estão se apaixonando constantemente!
— Você não precisa entender de água para jogar-se nela. Desejo-lhe que tenha um dia muito agradável.
— Adeus!
— Não te apresses em vê-las. Algumas acabam de chegar.
Franz, vindo do fundo da loja, fica curioso sobre que revistas são aquelas. Otto o repreende com um gesto, indicando que se afaste do cliente. O cliente, satisfeito com o que viu, pede a Otto:
— Empacota com um papel neutro, por favor.
— Claro, nem precisa dizer.
— Perfeito, diz o ciente, pagando a Otto pela revista.
Franz vai até a porta, abre-a para ele passar.
— Muito grato, cavalheiro. Adeus!
— Adeus!
Após a saída do cliente, Franz fecha a porta enquanto Otto comenta:
— Franzl, ponha bem na sua cabeça: discrição é imprescindível nestas situações!
— Ao que o sr. se refere?
— À revista erótica, rapaz! Um tabaqueiro vende prazer e desejo.
Assim dizendo, toma-o pela mão, agora sem as colegas, e dirige-se com ele a uma sessão de tiros. No cartaz está escrito: "Dispare no negro sorridente". Debaixo do cartaz há vários bonecos, todos negros, dispostos em fileira, convidando o atirador a derrubá-los com um tiro. Ela está feliz quando acerta no alvo.
— Morto! Outra vez!
Sua alegria é esfuziante. Ganha uma rosa pelo feito e diz:
— Agora você!
Na vez de Franzl, ele não é tão feliz quanto ela, pois erra o alvo. Consolando-o, Anezka diz:
— Não sabe atirar, mas tem um bumbum gostoso! Vamos!, dando-lhe um tapinha no traseiro.
E o leva para uma mesa ao ar livre para tomarem uma cerveja. O garçom Pepa que os serve também é da Boêmia.
E fixando seus olhos nos de Franz, indaga:
— Qual a sua idade?
— Dezessete.
— Não importa. Vamos dançar?
— Não.
— Venha. Vamos!
— Não sei dançar.
Encorajando-o, levou-o a dançar um tango numa pista de dança improvisada ao som de uma banda. Em seguida, ela pega os seus braços e os põe na sua anca para ficarem agarradinhos e com os narizes bem colados um ao outro.
E mexendo bem os quadris, diz:
— Tem alguma coisa aí embaixo?, pergunta ela maliciosamente.
— Desculpe.
— Por que se desculpa? Isso foi um elogio.
— Então, já dançamos, já bebemos e agora, o que temos?
Ele a toma nos braços e beija-lhe os lábios com sofreguidão.
A seguir, ela diz:
— Oi, você está bem?
— Ainda tenho 2,5 xelins. Então, dão para 4 cervejas e dois passeios de carrossel.
— Eu volto daqui a pouco.
— Não.
E pagando-lhe pela cerveja e pela gorjeta, o garçom lhe agradece. Ele se levanta levemente bêbado com a rosa na mão que a moça boêmia deixara para trás. Aproxima-se imediatamente de duas moças a quem oferta aquela rosa dizendo: Eu sou Franz Huchel natural de Attersee...
As moças se assustaram e se desviaram dele.
Continuando seu caminho, senta-se no banco de um teatrinho infantil de marionetes. Assiste a uma pequena cena violenta de alguém castigando um jacaré com um pau, encenada através de uma janela. Ele se indigna com os golpes que alguém desfere contra o animal e, levantando-se, grita "Pare", vai até a janela e toma o pau do agressor e o atira ao chão. O profissional que dava vida aos fantoches fica indignado com o intruso e aparece à janela revoltado com sua atrevida atitude.
— Ah, para com isso, grita-lhe a plateia.
E Franzl se retira sem se importar com a reação do público.
"Agora que os últimos hóspedes se foram embora, posso ver que o lago está especialmente bonito. Não é culpa do lago se alguém decide nadar durante uma tempestade.
De onde você está tirando essas ideias - de que a verdade é raramente confortável e de que você não precisa entender sobre a água para dar um mergulho no lago?
Você não está apaixonado, está?"
Depois de fechar o caderno, abre uma revista erótica e, inspirado por suas imagens, masturba-se antes de dormir. Sonha então com um lago sobre o qual navega com uma velocidade crescente e, ante um obstáculo, um grande urso negro, alça um voo sobre um desfiladeiro em "V" formado pela junção de duas montanhas, e projeta-se para cima, para o céu, enquanto ouve sua mãe gritando Franzl duas vezes. Depois se vê dentro de uma bolha como uma placenta que o mantém preso e que se rompe, jogando-o nas águas do lago, onde mergulha. Finalmente, essas mesmas águas o tragam para suas profundezas.
Neste instante, Franzl é acordado por gritos na rua. Veste de qualquer jeito sua calça e vai até a porta da tabacaria, onde presencia a indignação de Otto.
— Saia daqui, seu aleijado, retruca o açougueiro Rosshuber.
— O jovem também sai rastejando de sua toca, diz Otto ao ver Franzl.
— O que foi?, pergunta Franzl.
— Abra os olhos! Sangue! Sangue de porco! Pessoalmente espalhado aqui pelo nosso amigável vizinho Rosshuber!, responde Otto.
— Não podes demonstrá-lo!, diz a mulher do açougueiro.
— Além disso, esse não é sangue de porco, mas de galinha. Qualquer um pode ver isso, interrompe um transeunte.
— Então vem de uma galinha, e daí?, pergunta Otto. Quem é tão estúpido a ponto de profanar a fachada alheia? Quem tem uma suástica nas costas da lapela só esperando para virá-la?, indaga Otto.
— O que eu tenho debaixo da gola não é da sua maldita conta!, responde o açougueiro.
— Essa pessoa, esse tal açougueiro, tem sangue nas mãos e maldade negra no coração!, acrescenta Otto.
Ao terminar essas palavras, ouvem-se palmas, não para saudá-lo, mas para enervá-lo, possivelmente vindas da mulher do açougueiro. Por isso, continuou:
— E eu te direi outra coisa, Rosshuber! Eu, lutando por este país em 1917, perdi a perna em um buraco fétido e lamacento. Ainda sobrou uma. Está um pouco rígida no quadril. Mas é boa o suficiente para chutar sua bunda.
— É só o que és: um traidor, responde a mulher do açougueiro.
— É só o que és: um covarde.
E virando-se para os outros transeuntes, diz:
— O que vocês estão olhando? Vocês não têm o que fazer?
Então, voltando-se para Franzl, ordena:
— E você, pegue um balde e lave isso! O mais rápido que puder.
Depois, dentro da loja, Franzl questiona Otto na presença do pintor Egon Vermelho:
— Por que a esposa do açougueiro chamou o sr. de traidor?
— Porque ela está mal da cabeça. Os dois. Eles estão com inveja porque eu tenho mais clientes. Eu também atendo socialistas como ele e judeus. Por que não deveria?
Neste instante, Egon Vermelho anuncia a chegada do Professor Freud:
— Falando em judeus, aí vem Freud.
— Que alegria vê-lo, Professor, após o que, chama o garoto para atendê-lo.
— O de sempre, Professor?, pergunta Franzl.
— O de sempre, sim, responde Freud.
E acrescenta num tom confidencial como num cochicho:
— E alguma novidade? Alguma boa sorte com as moças?
— Mais ou menos, responde o rapaz.
— E isso, o que significa?
— Encontrei uma.
— Parabéns! Você não gosta de perder tempo, hein?
— Mas ela me escapou.
— Essas coisas passam. Não te preocupes. Haverá outra.
— Não, não haverá outra como ela. Ela tem o espaço entre os dentes mais precioso do mundo.
— Entendo. E agora estás sofrendo. Posso te garantir que esta dor se pode tratar.
— Não acredito nisso.
— Por favor, pode me aconselhar, Professor?
Otto que havia ouvido a conversa interrompe-a com a seguinte ordem:
— Opa! O Professor tem coisas melhores a fazer do que dar conselhos a pirralhos mimados como você. Deixe-o em paz, de acordo?
Freud discorda de Otto:
— Talvez um jovem como ele o que mais precise é de um conselho, retrucando a admoestação de Otto para o rapaz. E continua, dirigindo-se ao rapaz:
Vou te dar três receitas e — olhe — por via oral. A primeira é para tua cabeça: Para de pensar em amor. A segunda é para dor de estômago e essas especiarias: Sempre coloca papel e caneta ao lado de tua cama e escreva todos os teus sonhos assim que acordes. A terceira receita é para o coração: Recupera a garota de volta ou esquece-a.
— Não posso esquecê-la.
— Por que?
— Poderia sentar-me em seu divã, Professor?
— E para que crês que deve sentar-te em meu divã?
— Eu não sei. Mas eu descobrirei quando me sentar em seu divã.
— Tu o crês? Obrigado.
E Freud, pegando suas duas caixas de charuto, despede-se da porta:
— Que tenham um bom dia!
— Adeus!, responde-lhe Egon Vermelho.
À noite, ao apagar das luzes na tabacaria, Franzl pega uma caixa de charutos de Havana e lê na tampa: "Hoyo de Monterrey coletados por homens valentes e enrolados delicadamente por belíssimas mulheres em suas coxas".
Durante a noite, sonha que volta à casa paterna na zona rural onde seu pai encontrou a morte por afogamento. Chama sua mãe duas vezes. Sem resposta, chega seu rosto a uma janela aberta onde há um teatro de marionetes que identifica como um homem e a moça boêmia que se divertem com abraços e beijos, com grande prazer por parte desta que é vista batendo palmas. Logo, o homem desaparece e no seu lugar se ergue um esqueleto macabro ao lado dela. Ela continua rindo quando o cenário é alterado para duas arcadas dentárias que se precipitam na direção dele para "devorá-lo". Digno de nota é que os dentes que avançam em sua direção são separados — característica dos dentes de Anezka. Ele também abre a própria boca que avança para dentro daquela outra.
Ao acordar, escreve avidamente o sonho, antes de tê-lo esquecido, conforme tinha sugerido o Professor Freud.
— Quem está lá fora?, pergunta Anna, sua filha.
— Você não deveria fumar tanto, diz sua mulher Martha sentada numa poltrona, ao ver que seu marido sofria de um acesso de tosse.
— Quem está tossindo, você ou eu?, pergunta Freud.
— Não sabe o que é fumar. A fumaça incomoda muito, disse a filha.
Enquanto Freud leva sua mão esquerda à bochecha direita, sente forte dor, tendo sido socorrido por sua filha, que se aproxima do pai, olhando dentro da sua boca, sugere:
— Não percebes que estás ofendendo mamãe? A dentadura?, enquanto tenta ajustá-la ao seu maxilar superior.
— Obrigado. Talvez devesse ter pedido a um carpinteiro e não a um médico especialista, ou diretamente a um polidor de lápides, diz Freud.
— Outro paciente cancelou seu encontro, informou-lhe sua esposa.
— Ao menos, os pacientes estrangeiros continuam vindo. Assim, tenho mais tempo para dedicar-me a escrever meus livros. Porém, se ao menos pudesse concentrar-me um pouco.
— Precisa se movimentar mais; assim sua alma vai também se movimentar, observa sua filha.
— Boa noite, diz ao garoto.
— Olá, Professor, diz Franzl mostrando um charuto que tinha trazido embrulhado num papel adequado.
— É para mim? Ah, obrigado.
Freud cheira o charuto com grande prazer.
— É um Hoyo de Monterrey. Um charuto aromático de Havana, de sabor leve mas elegante e complexo. Foi colhido por homens de coragem e depois enrolado nas coxas das mais lindas e belas mulheres. Eu li isso, diz o rapaz.
— E o que você quer: precisa de mais um conselho?
— Estamos quase no inverno. Eu escrevi todos os meus sonhos, as partes que consigo me lembrar. Mas eu não estou melhorando. Eu dancei com a garota mais linda que já vi e quando dei por mim, ela tinha sumido como se nunca existisse.
— As mulheres são como charutos. Tem que puxar devagar senão não vai sentir nenhum prazer.
— Eu não a puxei, Professor. Eu nem mesmo a toquei. Nós só dançamos.
— Hum... hum...
— Está frio... não deve colocar sua saúde em risco.
— Na minha idade já não temos muito saúde para arriscar.
— Experimente o cachecol de lã que minha mãe fez.
Freud aceitou a sugestão de Franzl.
— Você não sabe o endereço da garota com os dentes separados?
— Não.
— Você não conhece ninguém que a conheça?
— Não.
— Olá!, diz Franzl.
— Posso ajudar?
— O sr. estava na feira. Eu estava com aquela moça da Boêmia. Ela falou com o sr. em tcheco. O sr. se lembra?
— Isso depende, diz-lhe o garçom.
— É só uma simples pergunta, enquanto lhe oferece uma moeda.
— Eu espero mesmo que seja uma simples pergunta.
Franzl agora lhe dá uma nota.
— Bem..., diz o garçom, enquanto dá alguns passos seguido pelo garoto.
— Preciso do endereço dela. Está muito difícil de lembrar.
— É que eu conheço muita gente.
— Ficou mais fácil agora?
— Por que está atrás de uma qualquer?
— Ela não é uma qualquer.
— Não foi o que eu ouvi dizer.
Franzl avançou no seu pescoço e, para se desvencilhar do garoto raivoso, o garçom desferiu-lhe um soco. O garçom diz-lhe:
Franzl tem o nariz ensanguentado e pergunta novamente:
— Pode me passar o endereço agora?
— Como é teimoso! É no 2º Distrito, ela mora em Rotensterngasse. É só seguir os ratos. Casa número 11.
— Obrigado.
E Franzl segue para o endereço fornecido. Lá chegando, dirige-se a uma mulher idosa em uma área livre interna. Ali, bem defronte a ele, um porco faz sua refeição.
— Com licença. Por acaso uma jovem da Boêmia mora aqui?
Ela apontou para cima como uma muda faria.
— Obrigado, diz-lhe Franzl.
Subindo as escadas, bate na porta à sua frente. Como ninguém o atendeu, ele próprio abriu a porta. O interior do apartamento é escuro e muitas moças moram ali em vários quartos.
— Com licença. Uma jovem da Boêmia mora aqui?
Para sua surpresa a moça irrompe de um dos quartos.
— O garoto com o bumbum gostoso? Você pode me pagar uma refeição hoje se quiser...
Dentro do restaurante, enquanto comem, conversam.
— Hum... que delícia! Obrigada pelo convite, garoto.
— Meu nome é Franz.
— É mesmo. Me esqueci.
— E o seu?
— Anezka. Sou de Dobrovice.
Toma um gole de sua caneca de cerveja. E continua:
— E eu sou de Dobrovice. É uma vila linda. É aconchegante como os braços de um amante.
Um garçom se aproxima e pergunta a Franz:
— Não está bom?
— Está.
— Você tem dinheiro, não tem?
— Claro que tenho, por que?
O garçom se retira sem responder à questão.
— Com o que você trabalha?, Franzl pergunta então a Anezka.
— Trabalho com um pouco de tudo. Eu sou babá, sou cozinheira, sou camareira...
— E as outras mulheres?
— São da Boêmia. Elas todas são mulheres muito bonitas. O único problema é que não temos autorização para estar aqui. Então algumas trabalham divertindo os homens, mas não eu, porque um cavalheiro rico ou pobre nem sempre é um cavalheiro, me entende?
— Sim, eu sei o que quer dizer.
Ela se recosta na cadeira e, após um silêncio de reflexão, diz:
— E agora eu quero você.
Franzl a leva para a tabacaria.
No dia seguinte, ele volta ao local onde ela mora com um presente e bate à sua porta e seus olhos buscam por Anezka no interior. A moça que o atendeu diz-lhe:
— Ela não está aqui. Está trabalhando.
— De novo? E amanhã?
— Também não vai estar aqui amanhã! Nem no resto da semana. Pode deixar isso aqui.
Assim dizendo, toma-lhe das mãos o presente para Anezka.
— O que você tem? Você está horrível. Parece um velho. Se continuar desse jeito, poderá se aposentar no ano que vem.
Neste momento, entra Freud na tabacaria.
— Seja bem vindo, sr. Professor.
— Muito bom dia.
E voltando-se para Franz, diz, devolvendo um cachecol que lhe tinha emprestado para protegê-lo do frio:
— Vim devolver isso. Está lavado, passado e cheirando a rosas. Na verdade, as mulheres capricharam.
— Agradeça a elas por mim.
Percebendo certa modificação no seu comportamento e seu desinteresse e uma perceptível indiferença em relação ao assunto, o Professor pergunta:
— O que é que você tem? Não encontrou a sua garota?
— Encontrei. O nome dela é Anezka.
— Da Boêmia?
— Sim. De uma vila linda e aconchegante como os braços de um amante moreno.
— Como os braços de um amante moreno? Veja só!
E o Professor corre os olhos pela tabacaria que encontram a mesma estranheza em Otto que acompanha a estranha conversa. O Professor continua:
— A culinária da Boêmia é maravilhosa.
— Sim, é maravilhosa.
— Você está monossilábico hoje. O que aconteceu entre você e a Anezka?
— Eu a toquei, Professor. Foi a experiência mais linda que tive em minha vida.
— Fico feliz. Espero que ela tenha tocado você também.
— Com certeza. E depois ela sumiu.
— De novo?
Franzl se afasta arrasado, sem completar sua ideia.
Otto intervém, tirando o Professor de sua reflexão.
— Seus charutos, Professor.
— Quase me esqueci deles.
Freud vai até o balcão, pega suas caixas de charutos e despede-se:
— Obrigado. Espero que tenham um ótimo dia.
— Para o sr. também, responde Franzl.
— Até logo, Professor!, responde Otto.
Quando ficam a sós, Otto é o primeiro a falar:
— Bom, agora você tem que me ouvir, garoto. Você não pode deixar escapar desse jeito. Eu já cometi esse mesmíssimo erro. Tire o dia de folga, vá até lá e fique na porta da casa dela. Então fique esperando porque, quando ela aparecer e ela estiver com outro homem, você tem que derrubá-lo com um golpe só. Ou vai querer a minha muleta emprestada, hein?
— Não, obrigado.
— Então vai!
Franzl fica de tocaia perto da casa de Anezka até o cair da noite, quando a vê fumando sair bem vestida e encapotada para se proteger do sereno. Ele a segue até o ponto em que ela entra no cabaré "Schwarze Katze".
— Quero um ingresso.
— Custa um xelim.
— Pode escolher um assento. Não tem intervalo. Aproveite bem!
Ele mal entrou e uma garçonete já o aborda:
— Deseja alguma coisa?
— Uma cerveja.
No palco do cabaré um humorista trajando calça preta, camisa branca, colete marrom e gravata borboleta faz todos os presentes rirem.
— Estou faminto. Como leão me alimente, sirva-me minha pátria austríaca. Eu vou devorar a Áustria pedaço por pedaço.
Entra em cena uma moça vestindo um traje sexy com ligas pretas e entrega-lhe uma pizza no formato do mapa da Áustria.
— Eu espero que você vomite, gritou alguém da plateia.
— E eu vou... e eu vou fazer arn..., significando um vômito.
A mesma moça agora reaparece sádica com chicote e vestindo o mesmo traje sexy com ligas pretas. Diz para o comediante que atua como um cão na mímica:
Ele imita a atitude de um cão obediente. Ela põe uma coleira no cão.
— Muito bem!, diz ela aprovando. Meu cachorrinho! Hum, que gracinha!
Ela vai para trás dele e vai chutando o quadril dele, como faz um cocheiro.
O aplauso é geral.
No próximo número, o mesmo comediante se veste no palco com o auxílio da moça, transformando-se num cavalheiro. E fala como se fosse um discurso:
"Senhoras e senhores,
É uma sensação internacional nas vastas pradarias, onde os coiotes uivam, as águias rodopiam e onde os búfalos pastam, nós a encontramos. Nua e indefesa, sem tabus e nem vergonha, nesta noite aqui e agora recebam esta garota, N'Djina, linda e tímida garota que veio das terras dos índios."
Franzl abandona sua cadeira e se dirige para uma outra bem contígua ao palco.
Neste instante, entra em cena Anezka, oculta sob plumas, mas logo a seguir, mostrando seu meigo rosto, depois fazendo trejeitos com o corpo e por fim virando seu bumbum para a plateia. Sentindo-se extremamente decepcionado, Franzl se levanta e abandona o cabaré.
Fora do cabaré, um inseto faz um voo vertiginoso ao redor de um globo de lâmpada.
Ele fica algum tempo à espera de Anezka, até que ela aponta à porta. Ela acende um cigarro com seu isqueiro, enquanto aguarda seu parceiro que desce em seguida, abraçando-a e conduzindo-a pelo pátio.
Na do sonho de Franzl, este investe contra o namorado que prontamente empunha seu punhal enquanto diz:
Franzl foi mais ligeiro e esbofeteia o seu oponente que cai gritando de dor.
Anezka fica muito excitada com a violência de Franzl devido a ciúme, não se comove com a dor do amante derrubado e corre até Franzl para beijá-lo apaixonadamente.
Agora, vejamos a segunda versão, a da realidade, apresentada após a filmagem da primeira. Nela, o mundo real reflete o que acontece, algo muito diferente do sonho de ficção de Franzl. Ou seja, a versão real é menos romântica e mais distante do que ele gostaria.
Franzl sai do seu posto de observação no escuro e, antes que possa desferir um violento murro no rosto do namorado de Anezka, conforme sugeriu Otto, o homem que acompanha Anezka saca prontamente um punhal, mas Anezka não permite o duelo, dizendo-lhe para soltar o punhal e que conhece o agressor e que precisa conversar com ele a sós.
— Eu não te conheço e acho melhor não querer me conhecer. Eu fui claro?, diz o namorado atacado.
Quando o namorado se afasta e se posta a certa distância, Anezka diz a Franzl:
— Eu te vi lá dentro. Você andou me seguindo. Gostou do show?
— O que é que você tem com ele?
— Ele é meu amigo. Nos divertimos no cabaré.
— Ele não usa a sua faca com você, não é?
— Uns guardam na calça, e outros, não. Foi uma pergunta bem idiota, garoto.
— Eu já disse que meu nome é Franz. Aqui estão 3 xelins para me mostrar a sua bunda de novo.
— Bem aqui no meio deste pátio. Me desculpe.
Ela se aproxima de Franzl e acaricia seu rosto. E resume seu modo de ver a sua própria vida com a seguinte frase:
— Todo o mundo precisa sobreviver, garoto.
E ela se afasta dele, deixando-o só e andando resolutamente para se juntar a seu parceiro que a aguardava. (A câmera em close-up mostra a sua bota, pisando regular e compassadamente se afastando de Franzl.) A cena termina no momento em que seus passos passam ao lado de uma borboleta morta.
— Eu tenho vergonha de tudo. Das minhas pernas, do meu pescoço, das manchas de suor nas minhas axilas. Eu tenho vergonha de tudo que tenho. De tudo que faço, de quem eu sou.
Freud se ergue da poltrona e pergunta-lhe:
— E nunca sente desejo? A senhora nunca tem uma sensação de prazer? Hein, sra. Buccleton?
E dirigindo-se à janela vê Franzl sentado, a quem acena com a mão.
— Sinto prazer quando como. Exemplo: uma fatia de bolo.
— Sabe, sra. Buccleton? Prazer e vergonha andam juntos. Me parece que no seu caso um dos dois foi negligenciado.
— O sr. acha?
— É... eu acho que sim.
— Pare de comer tanto bolo.
Freud desce para encontrar-se com Franzl. Saem andando pelas ruas de Viena.
— Há quanto tempo está sentado naquele banco?
— Não sei; acho que duas horas.
— Já pensou em tocar a campainha? Acho que tudo seria mais simples.
— Eu pensei em fazer isso, mas não quis incomodar o sr.
— Pode deixar que eu aviso se estiver incomodando.
— Olhe, esse charuto é muito mas é muito bom mesmo. Nossos encontros estão saindo muito caro para você.
Neste instante ouve-se: "Extra! Extra! Teremos referendo para a liberdade na Áustria!"
— Talvez eu não sirva para amar, retoma Franzl.
— Você ama essa garota, essa tal de Anezka? Ou tudo isso é por causa da sua libido?
— Libido?
— Ela é a responsável pela alegria e pela dor. Podemos dizer que é aquilo que os homens escondem dentro da calça.
— Até o sr.?
— A minha libido já foi embora faz tempo.
Sentam-se num banco numa praça. Chega um policial inspecionando as lixeiras, dizendo:
— Com licença, senhores, preciso checar aqui. Podemos ter bombas ou outros objetos proibidos pelo Município.
— Que tipo de objetos?, pergunta Freud.
— Não posso dizer, mas com certeza saberei quando encontrar um deles.
E o policial segue em frente na sua inspeção de lixeiras.
Franzl volta ao diálogo:
— Amor ou libido? Eu não sei. Na verdade, eu não sei de nada.
— Mesmo assim, esse é o primeiro degrau na escadaria da sabedoria.
Enquanto conversam, ecoa pela praça a seguinte palavra de ordem:
"Digam sim aos nazistas,
Seja bem-vindo, Hitler."
Freud retoma o diálogo:
— E agora Hitler está vindo para Viena e o povo vai recebê-lo com festas e comemorações.
— Professor, a Áustria é como um bife que ele vai devorar quando estiver com fome.
Freud ficou em silêncio após perceber a profundidade do pensamento de Franzl.
"Esta manhã, às 5h30min, as tropas alemãs cruzaram a fronteira em Salzburgo. Sem resistência do exército austríaco, elas avançaram em direção à capital, Viena."
Ao mesmo tempo, há a visita indesejável de uma aranha sobre o caderno aberto com a caneta.
— Olha lá! Ele está lá em cima.
Outra completa:
— Vamos lá!
Duas moças passam pela rua, olhando para cima:
— Nossa!
— O que ele está fazendo?
Um homem grita para o homem num alto telhado, onde foi afixar uma faixa:
— Desça daí! Desça imediatamente! Você vai se arrepender. Venha!
— A ajuda está chegando, diz outro.
— Desce daí!
— Vida longa!
— Não faça besteira!
O cliente da tabacaria e seu assíduo frequentador, Egon Vermelho, no telhado do edifício expõe o motivo de seu gesto numa faixa com os seguintes dizeres:
"Viva a Áustria!
A liberdade de um povo exige a liberdade de seus corações."
— Tenha calma, senhor.
— Preserve sua vida.
— Tenha cuidado.
— Tenha calma, senhor.
Quando os nazistas o encurralam no telhado, ele se lança nos ares em direção ao chão.
Franzl é um dos presentes àquela cena, que estão comovidos com o provável suicídio do pobre homem.
De novo, o filme apresenta duas versões consecutivas: a do sonho de ficção de Franzl e a da realidade.
Na primeira versão, a do sonho de ficção de Franzl, este salva a vida do suicida, arriscando-se ao auto-sacrifício e amparando o seu corpo, antes de tocar o chão. Franzl é o salvador do homem que se mostra agradecido por sua intervenção.
Na segunda versão, a da realidade, o homem salta do telhado gritando, não é amparado por ninguém e sim, estatela no chão gemendo, em suicídio calculado, para consternação geral.
— É tudo mentira, diz Franzl.
Em seguida, este vai até a vitrine da tabacaria onde estava exposta a edição do jornal Tempos de Abertura. Franzl a recolhe e Otto afixa um cartaz com os dizeres da faixa do suicida do dia anterior: "A liberdade de um povo exige a liberdade de seus corações", em memória de um homem corajoso que doou a sua vida por acreditar no valor da liberdade. Em seguida, Franzl pendura novamente a edição do jornal, que se posicionou bem abaixo do cartaz em destaque.
"Querida mamãe,
Viena está linda: tudo está florescendo e os parques parecem com cartões postais. As prímulas estão dando flores por todo o lado. (Otto nesta altura pede que diga que manda lembranças.)
Também tem muita gente louca correndo de cá para lá sem parar.
Eu não acho que seja só por causa da primavera. É por causa dos políticos. As coisas estão muito estranhas. Ou será que sempre foram estranhas e eu nunca percebi?
Até ontem eu era só uma criança. Não sou um adulto ainda. Esse é meu dilema."
A carta da mãe de Franzl tem o seguinte teor:
"Meu querido Franz,
Agora a bandeira de Hitler está nos bares e escolas, bem ao lado da imagem de Jesus. Mas ninguém sabe o que eles acham um do outro. O prefeito agora é um nazista e, por isso, todos querem ser também. Até o nosso guarda florestal usa uma faixa vermelha e ainda se pergunta porque os animais fogem dele.
Franz, meu querido filho, onde este mundo vai parar? Preininger faleceu e você está longe de mim. (...)"
Neste instante, a mãe de Franzl relembra que ganha a vida como camareira de hotel e o gerente do hotel tenta agarrá-la por trás. Ela o rejeita:
Diante dessa informação, o gerente do hotel teme alguma represália do amante nazista e imediatamente se retira do quarto, interrompendo a sua tentativa de estupro.
Após essa lembrança, é assim que, no filme, ela conclui a sua carta:
"(...) Às vezes, me deito e choro no meu travesseiro porque não posso mais cuidar de ninguém por aqui."
Otto está voltando de algum compromisso e percebe que as bandeiras do Nazismo estão por toda a parte nas ruas e fica estarrecido com a agressão à sua tabacaria, principalmente no que ficou estampado na fachada: "O judeu compra aqui!" e na ausência de sua porta principal. Vemo-lo chorar pela primeira vez no filme.
Enquanto Franzl o ajuda na coleta das carcaças em sacos de lixo e na recolocação de postais no seu estande, percebe que os charutos foram jogados fora de sua caixa, indicação de que a agressão estava tendo como alvo o Professor Freud, que era judeu. Do lado de fora da loja, usa uma esponja para apagar a injúria cometida contra o povo judeu. Tudo isso está sendo feito em profundo silêncio. De repente, ele deixa cair a esponja e um menino que o observava em silêncio, corre para buscar a esponja e entregar-lhe nas mãos.
— Por nada!
Na noite daquele dia, enquanto Otto bebe uma cerveja, alguém estaciona um carro à porta da tabacaria.
Otto comenta:
— Eu acho interessante como você consegue ficar calado.
Três senhores descem do carro e adentram a tabacaria. O mais alto dos três e que parece ser o chefe dos outros dois diz:
Ele se ergue da cadeira e declara:
— Estamos fechados.
— Isso não importa. Otto Trsnyek, o sr. está preso por possuir e distribuir material pornográfico.
Otto vira-se para Franzl, mas não diz palavra. O mais gordo dos três entra para recolher o material, enquanto o primeiro vai dizendo:
— Onde você escondeu aquelas revistas indecentes, aqueles folhetos vergonhosos?
— Um momento. Eu... eu não escondi nada, diz Otto.
— Já sei. Nas gavetas do balcão, é claro. Abra essas gavetas!
Lá dentro há uma coleção de revistas Vênus, que o mais gordo manuseia.
— Interessante! Para quem vende essas coisas? Para os seus amigos judeus e comunistas.
Franzl se adianta e tenta atribuir a si a posse das revistas:
— São minhas revistas.
— Fique quieto, diz-lhe Otto.
— Eu as comprei, sr.
— Eu já lhe disse para você ficar quieto, seu idiota.
O chefe continua:
— Sr. Trsnyek, não estamos na rua. Por que fala assim com seu aprendiz?
Um dos três que até então não tinha se manifestado aproxima-se de Otto e chuta sua muleta. Sem equilíbrio, o tabaqueiro cai no chão da tabacaria, não sem antes tentar inutilmente agarrar o balcão. Franzl se debruça sobre ele, dizendo:
— Sr. Otto!
— Você é meu aprendiz. Então faça exatamente o que eu disser. Por favor, sente-se e não fale mais nada. Pode deixar comigo. Deixe que eu resolvo.
Resultado: Otto é carregado por um dos homens para o carro sem a muleta, o que o obrigado a caminhar aos saltos.
Franzl para à porta da tabacaria e o mais gordo que ficou para trás lhe pergunta:
— De onde você é?
— De Attersee.
— Mesmo? Eu também. Gosto muito de lá.
— Ahn... Do jeito que as coisas estão, garoto, você não deve arruinar seu futuro.
— Meu nome não é garoto. É Franz Huchel.
Franzl corre até o interior da tabacaria para buscar a muleta para Otto, mas não consegue alcançar o carro que já partira.
Neste instante, chega um cliente e entra na tabacaria sem Franzl perceber.
— Vocês ainda estão atendendo?
— Claro, sr. Juiz. ¹¹
Entrando, procura a recepção:
— Olá!
— Heil Hitler!
— Eu vim em busca de informações sobre um homem inocente que foi levado, preso ou sequestrado: o vendedor de tabaco Otto Trsnyek, sr.
— Não podemos dar esse tipo de informação.
— Mas...
— Eu já falei. É melhor ir embora, antes que seja preso também, garoto.
— O sr. pode pelo menos entregar a muleta do sr. Otto. Ele precisa muito dela.
— Vai entregar para ele?
— Heil Hitler! E não apareça mais aqui.
À noite, Franzl vai procurar Professor Freud no endereço dele. Ao bater na porta, surge uma senhora:
— Em que posso ajudar?
— Eu gostaria de falar com o Professor.
A esposa de Freud se aproxima para dizer:
— Meu marido não atende mais.
A esse respeito, Franzl lhe responde:
— Sra., eu não venho como paciente dele. Sou só um amigo.
— Um amigo?
— Ele disse para eu tocar a campainha. É assunto urgente.
Agora aparece uma terceira mulher, a filha de Freud:
— Tudo bem, mamãe. Pode entrar.
Dentro do apartamento, o barbeiro atendia seu cliente Freud. A moça o anunciou:
— O sr. tem visita, papai.
— Só um minuto, diz Freud a seu barbeiro e virando-se para Franzl diz:
— Ah! Franz, você quer dar uma caminhada?
— Mas é claro, Professor.
Sua esposa acha conveniente recomendar que ele não saia:
— Não deveria mais sair de casa.
— E por que não?
— Você sabe o motivo.
— Não sei, não. Preciso um pouco de ar fresco, Martha, ou vou me transformar em um fóssil. Desse jeito eu vou acabar na minha própria coleção de antiguidades, pode acreditar.
— Em Londres você poderia caminhar livremente, retruca ela.
— É... pare de falar de ir para Londres.
— Não.
E explica-lhe o triste destino de Otto.Ao saírem do prédio, Franzl diz a Freud:
— Não o deixaram levar nem a muleta.
— Que lástima!
— Você bebe café?
— Hoje vou beber.
Então Freud o leva a um café muito bem frequentado.
— Olá, Josef, cumprimentando o garçom, ao entrar.
— Sim, Professor. É melhor o sr. ficar numa mesa isolada hoje. Venha comigo, por favor.
Freud e Franzl se entreolham surpresos com a sugestão do garçom.
O garçom os leva a passar por dois guardas nazistas jogando boliche de mesa. O garçom os encaminha a uma área separada por uma divisória nos fundos do café. Então ali o garçom pergunta:
— O que desejam?
— Só dois cafés, por favor.
— Agora mesmo, Professor. Só um instante.
Franzl puxa a conversa:
— Por que sua esposa falou sobre Londres? Vocês vão viajar?
— Viajar, é... antes fosse. Elas querem fugir: estão apavoradas e com razão.
— Minha mãe sempre diz que nosso país é nosso lar, Professor. O sr. precisa conhecê-la. Minha mãe sabe muito da loucura das pessoas. Vocês teriam muito que conversar. Ela também faz torta de batata. A melhor torta, para ser sincero.
O garçom retornando com os dois Verlängerte ¹² sugere:
— Aqui está, senhores. Com licença. Que tal uma sobremesa?
— Não, obrigado, responde Freud.
— Onde eu estava?
— Falando da torta de batata que sua mãe sabe fazer muito bem.
— Ah! é verdade. Minha mãe faz com uma panela de ferro com manteiga, com ou sem lentilhas, do jeito que o sr. preferir. Acho que nunca falei tanto assim.
— Pode falar, meu amigo. Ouvir os outros é a minha especialidade. Gostou do café?
— Muito bom.
— Eu não quero ir embora.
— Você de novo? Não posso falar nada, já disse.
— A muleta ainda está aqui. O sr. prometeu que iria...
— Eu não te prometi nada. Saia daqui, antes que vá para o porão também.
— Então ele está no porão.
Indignado com a informação, Franz agarrou o funcionário pelo colarinho.
— Me leve ao sr. Trsnyek agora mesmo.
— Garoto, garoto...
O funcionário disca um número no telefone.
— Tem um garoto aqui que não sabe o que é um não.
Um guarda se aproxima e lhe dá uma chave de braço. Imobilizado pelo golpe, Franzl é arrastado para fora e, quando tenta se desvencilhar do guarda, leva um murro no rosto. Ele tomba ferido no rosto. Aproxima-se dele seu conhecido de Attersee que prendeu Trsnyek e oferece-lhe um lenço, dizendo:
— Limpe o sangue de seu rosto. Eu acho melhor você voltar para Attersee.
E dá-lhe a mão para que ele se levante:
— Venha. Estou dizendo porque é melhor para você.
Em seguida, a Dra. sai da tabacaria ouvindo um "bom dia" de Franzl ao qual retribui com o mesmo voto.
Após sua saída, Franzl está tatuando o próprio braço com o nome Anezka em vários pontos da sua mão esquerda.
Em seguida, dorme sobre o livro de controle de estoque e sonha com Egon, o socialista que se suicidou. Ele está sentado na torre de uma igreja e ouve uma voz dizendo "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" e se lança para baixo. E um milagre acontece, pois ele aterrissa no solo não sob o efeito da gravidade, mas de uma forma amortecida. No chão, ele se encontra com Trsnyek que lhe oferece um charuto, enquanto a marcha fúnebre de Chopin para banda se ouve ao fundo.
Acordando, anota o sonho premonitório.
Saindo para fora da tabacaria, Franzl encontra o carteiro que está lendo em voz alta uma de suas anotações afixadas à vitrine: "Uma garota passeia no Prater, e vai para a roda gigante. As suas suásticas estão por todo o lado e ela sobe cada vez mais alto. A roda gigante se solta do chão e sai rolando pela cidade, destruindo tudo no seu caminho."
— O que isso quer dizer?, pergunta-lhe o carteiro.
— Nada.
— Nada? Tem um encomenda oficial para você. Assine o recebimento aqui.
E lhe entrega uma caixa. Despede-se de Franzl com a expressão já usual:
— Heil Hitler!
— Igualmente.
Dentro da tabacaria, abre a caixa e encontra uma carta oficial com o seguinte teor:
"Queremos informá-lo do falecimento do sr. Otto Trsnyek e também dizer que ele faleceu devido a um problema no coração na noite de 14 de maio no Quartel General da Gestapo. O enterro organizado pela cidade de Viena ocorreu no cemitério central. Como é o nosso dever, estamos devolvendo os pertences do sr. Trsnyek."
Os pertences dele são a sua bota.
Franzl não se contém, sai da tabacaria e bate na porta do açougueiro Rosshuber. Como ele não atende, dá a volta ao estabelecimento e encontra o açougueiro moendo carne e vai logo dizendo:
— O que você quer?
— Otto Trsnyek está morto. Você o insultou e denunciou.
Então deu dois passos à frente para acusá-lo:
— Você o assassinou.
E pegando o braço de Rosshuber, enfiou a mão dele no moedor de carne, espirrando sangue no rosto dele, enquanto sua mulher gritava, dizendo:
— Edward, faça alguma coisa.
E olhando para as próprias mãos, Franzl comentou:
— Minha mãe disse que eu tenho as mãos delicadas.
E estapeou o açougueiro.
Saindo dali, se dirige à casa de Freud.
— O que foi?, pergunta Freud. Aconteceu alguma coisa?
— Eles mataram Otto Trsnyek.
Foi uma notícia terrível para Freud, porque não teve palavras para expressar sua emoção. Diante disso, Franzl conclui com o seguinte conselho:
— Professor, vou sentir a sua falta, mas o sr. tem que ir para Londres.
— Obrigado pelo conselho.
— É um bom conselho, reforça a filha dele.
— Nós vamos embora de Viena, definiu Freud com resolução.
— Eu preciso ficar para tomar conta da tabacaria, diz Franzl.
— Eu entendo. É claro que precisa, conclui Freud.
Em seguida, aproximando-se de Franzl, pergunta:
— Mas, fora isso, tem mais alguma coisa que o impede de deixar Viena?
Olhando mais detidamente para a mão esquerda de Franzl cheia de nomes de Anezka, suspende a manga de seu casaco para deixar a mão bem visível.
Franzl entende o silêncio do mestre.
— A garota ainda está aqui?
— O show dela está quase acabando. Custa a metade para entrar.
Franzl paga e entra. Ela faz a cena da índia com plumas cor de rosa, veste uma calcinha da mesma cor e tem os seios descobertos. Diante dos aplausos ela se agacha, e quando entra o comediante ela dá-lhe um selinho no rosto.
Começa a parte cômica em que o homem diz:
"Um navio cheio de judeus estava afundando. Qual é o lado ruim disso? É que um deles sabia nadar." (risos)
"Qual é a diferença entre um judeu e um tumor?"
Alguém responde: Nenhum.
O comediante continua: "Tem sim, tem sim. É que um tumor pode ser benigno." (gargalhadas)
"E agora, senhoras e senhores, o mágico Massimo e sua belíssima assistente." (...)
Neste instante, Franzl entra no camarim de Anezka, que o reconhece de imediato.
— Garoto, o que houve com seu dente?
— Não sei.
— Está parecendo comigo.
— Você é mais bonita.
Enquanto ela retira a maquiagem, ele pergunta:
— Cadê o seu amigo?
— Ele já se foi. A Gestapo levou.
— Por que?
— Por causa das piadas.
— Respondeu à correspondência?
— Que correspondência?
— Vamos embora daqui juntos, só nós dois. Vamos? Para algum lugar calmo. Vamos para a Boêmia atrás das colinas, ou para Salzkammergut. Minha mãe não vai reclamar. Eu posso abrir uma tabacaria e podemos nos casar. (Ela se sente tocada pela ingenuidade dele, por isso põe sua mão direita sobre a bochecha esquerda dele.) Simples assim.
— Eu não posso ir embora daqui.
O oficial da Gestapo abre a porta do camarim dela.
— Por favor, deixe-nos a sós!, pede-lhe Franzl.
Mas Anezka levanta-se e vai beijar o novo namorado.
— Então é isso!, compreendeu finalmente Franzl.
— Sim, é isso. É assim que a vida é, respondeu-lhe secamente Anezka.
— E isso é vida?, indaga-lhe.
Ouvem-se palmas finais do espetáculo teatral.
Franzl retira-se com Anezka olhando para o outro lado.
Passa por um homem que guarda a entrada do prédio, encostado a seu carro e lendo um jornal.
— Vou entrar.
— Para que?
— Vim ver o Professor Freud.
— Para que?
— Estou com os ingressos dele para o teatro.
— Judeus não vão a teatros, nem hoje, nem amanhã. Agora, cai fora!
Ele usou de esperteza e rodeou o prédio, buscando a sua entrada pelos fundos.
Tocando a campainha, foi atendido pela filha de Freud.
— Franz?
— O Professor está?
— Pode entrar. Franz, por aqui.
Franz encontra o Professor no divã ouvindo Bach. Ele foi logo dizendo:
— Por que você está usando as minhas calças?
— Tive que entrar pelo seu porão. A Gestapo está lá fora.
— A Gestapo?
— É!
E aproximando-se do Professor, Franz lhe entrega o presente de 3 charutos.
— Um para agora. Um para a viagem. E um para a Inglaterra.
— Ah! Muito obrigado, enquanto desembrulha o papel e cheira o charuto com prazer.
— Já teve o prazer de fumar algo tão maravilhoso e tão perfeito na sua imperfeição como esse charuto aqui? Eh, então está na hora, meu amigo. (Caminha até uma escrivaninha.) Sente-se!
— Ahn?
— Todas as nossas cadeiras já foram despachadas. Ou então estão ocupadas pelas bundas daqueles fiéis nacional-socialistas.
Freud volta pitando o charuto e caminha para o lado de Franzl que diz:
— Não sei, Professor. Eu nunca experimentei.
— Mas há sempre uma primeira vez.
E, assim dizendo, oferece-lhe o charuto para uma tragada. Franzl se engasga e tosse. Depois, logo se acostuma.
— Bom, hein?, pergunta-lhe Freud.
Ambos sorriem.
A criada lhes traz dois copos com um chá vermelho e diz:
—Aqui está.
— Obrigado, Anna.
Freud começa a degustar seu chá.
—Talvez tudo isso tenha sido um grande erro, diz Franz.
— O amor é sempre um grande erro.
— Quando eu embarquei no trem em Schbrfling, eu senti uma dor no coração. E quando Anezka fugiu, nem dez médicos poderiam ter-me curado, Professor. Mas pelo menos eu sabia o que queria. Agora a dor está indo embora, mas eu me sinto perdido, me sinto como um barco sem remo em meio a uma tempestade, indo de um lado para o outro, Professor. E meus sonhos... eu não sei de onde vêm meus sonhos, não consigo entender como coisas estranhas surgem na minha mente sem meu controle.
— Nós não estamos neste mundo para obter respostas, mas para fazer perguntas. Só com muita coragem ou persistência ou estupidez, preferivelmente as três de uma vez, somente assim conseguiremos deixar uma marca no mundo.
— Uma marca, repete Franzl se afastando para o outro lado da sala e ficando de costas para Freud. O sr. vai voltar um dia da Inglaterra, Professor? Ou não, Professor?, como não obtém resposta, vira-se para Freud ele já está dormindo, e até soltando roncos.
Franzl percebe que era hora de deixá-lo à vontade. Toma um manto e o cobre com todo o carinho. Depois, toma seu paletó e se retira, sem se despedir, como queria.
Sob o olhar atento de Franzl que, mesmo à distância, tenta atrair a atenção dele com um pequeno espelho que reflete o raio de luz no semblante do Professor.
"Querido Franz,
Você se lembra do Hannes, o navio a vapor? Eles o renomearam e pintaram. Agora está brilhando como novo e se chama Regresso. Provavelmente signifique o regresso ao Reich. Só que, durante a primeira viagem, o motor explodiu e tiveram que usar remos para trazer todos de volta à margem. Por que não me escreve mais, meu filho?" (Neste momento, a porta range e surge o sr. Leopold, aquele seu gerente que a importuna com seu assédio sexual.)
Continua a carta: "Aconteceu alguma coisa?"
O sr. Leopold entra com a seguinte conversa mole:
— Eu estava me perguntando porque eu nunca vi um homem por aqui. Então andei perguntando. E não existe nenhum comandante Garleitner por essas bandas.
— Tire suas mãos de mim!, sacando imediatamente uma faca de cozinha.
E dando a volta à mesinha, foi peremptória:
— Eu me demito!
Na tabacaria, Franzl tem a ideia de verificar o que Otto escondia atrás de uma espécie de cofre forte. Procura uma calça do seu chefe e encontra a chave certa para a fechadura. Ao abrir, constata que o que ele escondia era uma vitrola antiga com megafone. Do lado dela, encontra um disco vinil antigo que logo põe a tocar: é uma valsa de Strauss. Escreve mais uma carta:
"Querida mãe,
Meninos dizem mamãe, mas homens dizem mãe.
Eu queria mandar um cartão postal, mas algumas palavras precisam ser colocadas em envelope.
Ontem Otto Trsnyek faleceu: o coração dele simplesmente parou. Talvez não quisesse continuar batendo em tempos como estes.
Por favor, mamãe, não fique triste, ou fique, se quiser. Trsnyek merece seu luto.
Com amor,
Franz
Franzl sai pela rua e dirige-se ao edifício da Gestapo, em cujo porão Otto faleceu. Na fachada, como vimos, havia três faixas perpendiculares do Partido Nacional-Socialista. Ele se escondeu atrás de uma delas e substituiu-a pela calça de Otto, ou seja, de um perneta. Em seguida, hasteou a calça a uma altura considerável para que todos pudessem ver a ignomínia da Gestapo e como sinal de resistência. A população vienense, com esse gesto, pode reconhecer os nazistas como assassinos merecedores de execração pública.
Franzl está afixando nova mensagem na vitrine da tabacaria, quando estaciona um carro. Dele desce o cidadão de Attersee que prendeu Otto, enquanto os outros dois ficam de pé ao lado do veículo, e vai logo dizendo:
— Isso não faz mais sentido, garoto.
— O que faz sentido ou não está para ser decidido. Aliás, meu nome é Franz, Franz Huchel. Eu posso fechar?
— A chave da loja agora é nossa.
Franzl ainda abre a caixa de charutos e tira os três últimos, pega o paletó e apaga a luz. Tranca a porta em seguida.
Do lado de fora da tabacaria lê a mensagem da vitrine que tinha afixado pouco antes: (Detalhe: a mesma aranha indiscreta passeia pela página do jornal na vitrine. Observe que ela não está mais dentro da tabacaria que era a sua moradia até então. Saiu para fora da tabacaria com Franzl, para sempre.)
"Os gerânios brilham à noite; ao amanhecer, a amante se levanta e desaparece num piscar de olhos. Sentada num balanço, a garota da Boêmia sobe até o céu. O vestido dela é leve e branco como uma nuvem. Ela ri e conquista o meu coração."
Anezka pega essa mensagem da vitrine da tabacaria, guarda-a consigo e, antes de partir, abaixa-se e pega um caco de vidro estilhaçado, guardando-o igualmente.
A última cena mostra a casa da mãe de Franzl. Ela está sentada a uma mesa do lado de fora da casa. Está só e traja um vestido negro. A tempestade ameaça com trovões e raios. Ela caminha até um tablado, sobe nele e olha para a lagoa.
Debaixo d'água, vê-se um caco de vidro rodopiando até encontrar repouso numa espécie de navio naufragado.
Ouvem-se o pulsar de um coração, a respiração de alguém, enquanto ressoa a valsa de Strauss.
IV. NOTAS EXPLICATIVAS
Dante, ao iniciar sua jornada pelo Inferno, se depara com um grupo curioso: os ignavos, pessoas que não se posicionaram nem para um lado nem para o outro. Foram neutros, covardes diante da tormenta avassalou a Áustria.

