domingo, 26 de julho de 2026

MEU DISCURSO NO IHG-SJDR SAUDANDO ANTÔNIO GAIO SOBRINHO EM LANÇAMENTO DE SEU NOVO LIVRO HISTÓRICO

Por Francisco José dos Santos Braga

"Quem sou? ? ! ... 
Um ponto de interrogação, uma pergunta, uma incerteza, uma ansiedade. 
Um ponto de exclamação, um espanto, um encantamento, uma boca-aberta, uma paixão. 
Pontos de reticências, uma ignorância, uma interrupção, uma incompletude, uma esperança." 
Antônio Gaio Sobrinho 
 
DD. Presidente Artur Cláudio da Costa Moreira, em nome de quem cumprimento toda a Diretoria de nosso IHG, 
DD. Presidente da Academia de Letras de São João del-Rei, Antõnio Carlos Galvão Delmônaco,
Ilmo. Sr. Antônio Gaio Sobrinho, 
Prezados confrades, 
Distinta audiência. 
 
Estou imensamente penhorado pela confiança que o presidente Artur depositou em mim ao convidar-me para saudar esta figura ímpar, que na verdade dispensa apresentação por ser quem é. De fato, Antônio Gaio Sobrinho é uma celebridade icônica deste IHG, conhecida de todos os são-joanenses e que se destaca como o que de melhor existe nesta Casa: membro atuante sempre disposto a desincumbir-se de seus compromissos inerentes à sua condição de associado, como assessorar o presidente em assuntos históricos, responsável durante anos pelo preparo das efemérides da cidade, ex-presidente deste Instituto no período de 2001-2002, ex-vice presidente da gestão de José Antônio de Ávila Sacramento e organizador da Biblioteca "Geraldo Guimarães". Com o seu exemplo tem se distinguido na defesa das nossas ricas tradições. Prof. Gaio é membro efetivo deste IHG desde ..., ocupando a cadeira patroneada por Maria Thereza Baptista Machado, a qual fundou em 1925 com seu próprio nome um conhecido educandário de nossa cidade, a atual Escola Municipal Maria Teresa. 
Devo ainda referir-me às estreitas relações de amizade que permeiam nossas famílias. Minha mãe Celina foi catequista de seus filhos Márcio Augusto e Maira Susana, minha irmã Elizabeth foi aluna do Prof. Gaio na Faculdade Dom Bosco,  na sua disciplina História da Pedagogia, onde absorveu muitos conceitos e pensamentos do mestre. Mesmo antes de conhecer meu homenageado, dentro da minha própria casa, já dispunha de ótimas referências a seu respeito como mestre consagrado e notável pensador, que logo em seguida comprovei serem todas verdadeiras. 
É muito prazeroso para mim iniciar essa louvação com a seguinte pergunta: Como definir Prof. Gaio? 
Teólogo, filósofo, pensador, /exegeta, escritor, pedagogo, /professor, ensaísta, poeta, /memorialista, historiador? Qual desses títulos definiria melhor meu homenageado? Qualquer um desses; com certeza, afirmo: todos eles. 
Fiquemos aqui com a definição que mais interessa a esta Casa: Prof. Gaio é a mais viva, mais completa expressão da história da nossa terra. Apesar dessa solene definição, ele sempre tem agido com humildade franciscana  como se diz , embora tenha haurido seus sólidos conhecimentos em fonte salesiana. 
 
O autor Antônio Gaio Sobrinho



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Muitos dos que aqui se encontram certamente desconhecem a história de vida de meu homenageado. É o que me proponho a relatar em breves pinceladas nesta seção. 
Cidadão são-joanense, Antônio Gaio Sobrinho nasceu em Conceição da Barra de Minas  então distrito de São João del-Rei, em 28 de novembro de 1936, filho de Pedro Gaio e Maria Christina Fonseca. Em 1968, casou-se com Inácia Teixeira e foi agraciado com 4 filhos: Moema Cristiana, Maira Susana, Marco Antônio e Márcio Augusto. 
Alguns dados biográficos do meu homenageado podem dar uma dimensão do seu cabedal humanístico obtido nessa fonte inesgotável do saber. Aos 14 anos ingressou no Colégio São João, sob a proteção dos padres Tiago Lara, Marcos dos Prazeres e Hélio Gaio. No final do seu curso ginasial, atuou como catequista no Oratório Festivo São Caetano. O Noviciado cursou-o em Barbacena em 1956, com a duração de um ano. De 1957 a 1959, cursou Filosofia, sendo que durante um semestre esteve no Instituto Pio XI na Lapa; ali ficou conhecendo o padre Antônio Charbel, diretor e professor de hebraico que o marcou profundamente. Nesta altura, já tinha professado os primeiros votos. Professou, então, os votos perpétuos quando foi para a Teologia, mas não concluiu essa fase por não se sentir vocacionado para a vida sacerdotal. 
Em junho de 1963, retorna a São Tiago e, em seguida, assume o cargo de professor num ginásio local onde permanece por dois anos. É dispensado do serviço militar. Segue para Santo Antônio do Amparo, onde colabora na fundação de um ginásio. 
Em 1968 e 1969, há dois fatos marcantes na sua vida: o seu casamento com Inácia Teixeira e sua aprovação em 1º lugar no concurso para atendente da Caixa Econômica de Minas Gerais, a Minas Caixa. 
Em 1970 nasce seu primeiro filho Marco Antônio. Também no mesmo ano, é como licenciado em Filosofia que leciona Lógica no curso básico na Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras a convite dos padres João Bosco de Castro Teixeira, Ilário Zandonade e Antônio Pinheiro. Ainda em 1971 substitui na Faculdade Dom Bosco o padre João Duque em História, que passa a ser a área de sua especialização no curso universitário, dedicando-se à História da Educação no curso de Pedagogia e à História Geral no curso de Filosofia. Para alunos do curso médio, ensina História do Brasil. 
Simultaneamente a essas atividades acadêmicas, durante o dia presta serviço na Minas Caixa. 
Desliga-se dessa instituição bancária em 1988, quando também assume o cargo de professor auxiliar-4 na FUNREI que se achava em processo de federalização. 
Funda em 1990 no Movimento Comunitário Dom Bosco um grupo de estudos bíblicos, ainda hoje em funcionamento. 
Em 8 de junho de 1992 aposenta-se como professor adjunto da UFSJ, despedindo-se da vida acadêmica, "deixando um legado de respeito, dedicação, entusiasmo, coragem e humildade." 
Prof. Gaio foi homenageado na Semana Santa Cultural 2012  uma homenagem do portal São João del-Rei Transparente de Alzira Agostini Haddad , em reconhecimento da comunidade por suas pesquisas e trabalhos durante todos esses anos. 
Tocado pelo sentido da solidariedade cristã, Prof. Gaio continua ativo e completamente envolvido com seus estudos bíblicos que compartilha com a comunidade, formando grupos que se reúnem à noite em sala da UFSJ. Neste ano de 2026, o tema proposto para estudo é a eclesiologia, ou seja, o ramo da teologia cristã que estuda a Igreja, analisando sua origem bíblica, espiritual, estrutura, formas de governo (com foco nos papas), história e missão no mundo. 

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O orador, gerente do Blog do Braga


Nesta seção intermediária, peço vênia para declamar o inspirado poema do Prof. Gaio em forma de elogio a este IHG: 
LETRA DO HINO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO JOÃO DEL-REI | (2019) 
Música do Prof. Abgar Campos Tirado 
 
Vigil sentinela, em guarita avançada, 
Qual Anjo da Guarda, qual Nume Seráfico, 
Cuidando da grei.  
Assim é quem zela da herança passada, 
Tal qual o Instituto Histórico e Geográfico 
De São João del-Rei. 
 
Salve Casa das lutas herdeira 
De um passado de glória imortal! 
Viva chama que vela altaneira 
Em defesa da história local. (bis) 
 
Na pátria materna do herói Tiradentes, 
De Bárbara Bela e dos templos divinos 
Erguidos ao céu. 
Tu és, Instituto, com brados frequentes, 
A voz desta culta cidade dos sinos, 
Briosa e Fiel. 
 
Salve Casa das lutas herdeira 
Dum passado de glória imortal! 
Viva chama que vela altaneira 
Em defesa da história local. (bis)” 
 
Em seguida, a cantora Rute Pardini cantou a cappella o Hino do IHG. 

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Nesta seção, proponho passearmos pela vereda de sua produção bibliográfica. 
 
LIVROS:  
1) 4 livros exaltando sua "aldeia" 
Memórias de Conceição da Barra de Minas (1990), 254 p. 
Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas (1994, 2001, 2014), 230 p. Conceição da Barra: minha terra natal (2001), 111 p. 
Efemérides de Conceição da Barra de Minas (2025), 99 p. 
Et Cætera ¹ (2016), 208 p. 
 
¹ Das páginas 158-197 fala de suas raízes italianas piemontesas, quando da imigração italiana de seus antepassados e de memórias de sua infância na localidade de Teixeira ², de seu internato no Colégio São João em São João del-Rei, do seu tempo de noviciado em Barbacena, finalizando com seu texto de rara beleza: "Adeus Teixeira". 
 
² Pequena localidade de Conceição da Barra de Minas, antigo distrito subordinado ao município de São João del-Rei, que foi elevado à categoria de município com a denominação de Cassiterita (topônimo ligado a extração de cassiterita) pela lei estadual nº 2764 de 30 de dezembro de 1962, sendo renomeado para Nossa Senhora da Conceição da Barra, simplificada para Conceição da Barra de Minas em 1989. No contato inicial de Gaio com os salesianos, Conceição da Barra de Minas ainda era distrito do município de São João del-Rei. 
 
2) Livros em louvor de sua "terra adotiva" 
São João del-Rei: 300 Anos de História (2006), 196 p. 
Sanjoanidades (1996), 90 p. 
História do Comércio em São João del-Rei (1997), 82 p. 
Santos negros estrangeiros (1997), 153 p. 
História da Educação em São João del-Rei (2000), 159 p. 
Retalhos de uma Cidade (2008), 104 p. 
Visita à colonial cidade de São João del-Rei (2001), 128 p. 
São João del-Rei através dos Documentos (2010), 257 p. 
Fontes Históricas de São João del-Rei (2013), 153 p. 
120 anos Sanjoanense Pirapora Têxtil (em parceria com José Carlos Dias) (2011), 40 p. 
São João del-Rei através dos Documentos - 2º volume (2026), 246 p.
 
3) Livro homenageando Tiago Adão Lara, exímio exegeta bíblico e um ideólogo do CEBI-Centro de Estudos Bíblicos 
Nova et Vetera (2020) ³, 208 p. 
³ Trad.: Coisas Novas e Antigas 
 
4) Ensaio homenageando Joaquim José da Silva Xavier intitulado "Tiradentes: um Sonho bissecular de Liberdade", in revista "O Alferes" da Polícia Militar de Minas Gerais, edição especial de abril de 1992, pp. 56-72  
 Antônio Gaio Sobrinho teve sua publicação garantida por ter obtido o 1º lugar em concurso público promovido pela PMMG. 
 
5) Conferência homenageando Nhá Chica intitulada "São João del-Rei: Contexto Histórico-Religioso, no século XIX. Santo Antônio do Rio das Mortes. Nascimento de Nhá Chica" publicada nos Anais do I Encontro de Estudos sobre Nhá Chica (Mulher de Deus e do Povo no Contexto da História) pela Associação Beneficente Nhá Chica (ABNC) de Baependi/MG, pp. 61-76 
 
6) Estudos bíblicos 
Textos Bíblicos Escolhidos e Comentados (2019), 253 p. 

7) Livros de poemas 
No Jardim da Ilusão (1994), 95 p. 
De tudo fica para sempre uma Saudade (2021), 120 p. 
Adeus, vou-me embora (2022), 208 p. 
 
8) Miscelânea de homenagem 
Ponto Final (2025), 147 p., onde se destacam uma homenagem póstuma ao saudoso Agostinho Guimarães, ex-tesoureiro do IHG-SJDR; uma saudação ao Prof. Abgar Campos Tirado pronunciada no dia 11/12/2023 em comemoração do 85º aniversário do homenageado; uma saudação póstuma ao Prof. Fábio Nelson Guimarães e outra saudação póstuma a Sebastião de Oliveira Cintra, ambos fundadores do IHG-SJDR. 
 
9) Livros ainda inéditos em forma de apostilas
Descobrindo São João del-Rei
Passeio de Emaús no Jardim da Ilusão
Celebrações Eucarísticas com Grupos Bíblicos
Caminhando a Via Sacra com Jesus em companhia com Cecília Meireles 
  
⁵ Obra mais recente (não publicada), à qual se dedicou com admirável zelo e que se encontra inédita nesta data, com textos religiosos tradicionais em português, textos latinos com comentários do autor e textos em português para meditação de Pe. António Vieira, Luther King, José Saramago, Rubem Alves, Renan, checo Tomáš Halík, cabalista Daniel C. Matt, Martim Vaz, Dostoiévski, María López e José Ignacio Vigil, Frederico Lourenço e Edmar Jacinto. 
 
TÍTULOS 
1) Diploma Ordem do Mérito Educacional, datado de 14/11/2001 e assinado pelo presidente Itamar Franco e pelo ministro da Educação Murílio de Avellar Hingel. 
2) Diploma de Cidadão Honorário de São João del-Rei, concedido pela Câmara Municipal de São João del-Rei, por indicação do Vereador Professor Leonardo. 

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Já me encaminhando para o fim desta fala, gostaria de mencionar algo sobre o valioso livro que está sendo lançado nesta data, cujo título é São João del-Rei através dos Documentos - 2º volume (2026), 244 p., publicado pelo IHG de São João del-Rei, da autoria de ANTÔNIO GAIO SOBRINHO, dedicado às seguintes funcionárias da Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida: Rosy, Glória, Ana Lúcia Nogueira, Maluh, Cláudia, Marisa, Natália, Cleonilda, Auxiliadora, Janandréia e ao funcionário Luciano.
O livro obedece a uma transcrição cronológica de fatos e feitos históricos para a história do Brasil, Minas Gerais e, mais especificamente, para a história de São João del-Rei desde 1715 a 1939, cobrindo o Brasil Colônia, o Brasil Império e a República.
A sugestiva capa do livro reproduz texto do "Auto de arrematação que faz Joaquim Bernardes Chaves da ponte de pedra da rua que vai para a Intendência na forma do risco e condições abaixo declaradas pelo preço de 5:100$000". (p. 88)                                          
A efeméride é de 24/02/1798, no livro de Termos TER 218, p. 146 verso e ss., existente na Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida.
Do texto se depreende que
Joaquim Bernardes Chaves arremata por cinco contos e cem mil réis a construção da ponte da Intendência (ponte da Cadeia). Este, por sua vez, cedeu os direitos da arrematação a João Gonçalves Gomes, que em vereança de 28/11/1798, na qualidade de arrematante da obra, assinou o termo de obrigação e fiança." (CINTRA, vol. I, 2ª ed., 1982, 94)
Acontece que João Gonçalves Gomes, sendo vereador não podia por lei arrematar. Se quisesse o serviço, poderia conseguir em nome de outrem. De modo que Joaquim Bernardes Chaves se prestou a arrematar a factura da dita ponte e, um mês depois, foi o verdadeiro construtor da nossa Ponte da Cadeia, que teve inicialmente o nome de Ponte Nova da Intendência. E o Prof. Gaio acrescenta:
E assim, no Brasil, desde aqueles velhos tempos, para tudo se vem tendo um jeitinho." (GAIO SOBRINHO, 2º vol., 2026, 92)
Observe que a referida Real Casa da Intendência e da Fundição do Ouro era onde se arrecadavam impostos pela exploração do ouro e de pedras preciosas, e se localizava onde funciona atualmente a Escola Municipal Maria Teresa. 
Entre as condições para que a arrematação fosse aprovada, consta a de "que toda a obra da referida ponte será feita com toda segurança e perfeição e dirigida pelo Mestre Francisco de Lima Cerqueira". (Idem, ibidem, 89), destacado em negrito pelo transcritor. 
 
Também Prof. Gaio fez a transcrição do Código de Posturas Municipais de 1829 (pp. 169-210). Como Preâmbulos, informa que
A Vila de São João del-Rei-Rei, como as demais vilas dos tempos coloniais, era regulamentada por posturas, acórdãos e provimentos, e também por editais. Um Código de Posturas era uma espécie de Constituição Municipal, onde quase tudo se previa. Sua execução era supervisionada por Almotacés, nos tempos coloniais, denominação que foi substituída, para a mesma função pela de Fiscal, na época imperial. (...) 
A Lei Imperial de 1º de outubro de 1828 reorganizou, em consonância com a independência recém-proclamada, a vida municipal e, inclusive, determinou que as Câmaras atualizassem as suas posturas, o que a Vila de São João del-Rei fez, com a publicação de um novo código delas, em 1829. (...) (Idem, ibidem, 169)
A Lei de 1º de Outubro (de 1828) foi considerada o Regimento das Câmaras Municipais do Império, praticamente a sua Lei Orgânica até o ano de 1891. O seu artigo 24 subtraía das Câmaras brasileiras toda e qualquer competência em matéria judicial contenciosa, pondo de lado, neste particular, o estabelecido anteriormente pelas Ordenações Filipinas. Elas se tornaram meras corporações administrativas, bem mais dependentes do poder central, que lhes retirava a autonomia de que desfrutavam nos tempos coloniais. Símbolo dessa subtração de autonomia era o Juiz de Fora, que presidia as Câmaras dos Municípios ou Concelhos mais importantes, em lugar dos Juízes Ordinários ou da Terra. Tinha por insígnia de sua autoridade uma Vara branca, quando os Juízes Ordinários as tinham vermelhas. (...)” (Idem, ibidem, 171)
O objetivo do Prof. Gaio com a reprodução do Código de Posturas Municipais de 1829 no seu livro é retratar como foi esse conjunto de leis municipais que regulamentava as normas de conduta, direitos e deveres dos cidadãos para garantir a ordem, a higiene, a segurança e o bem-estar coletivo no espaço urbano. Vejamos resumidamente como o Código de Posturas funcionava como manual de convivência da cidade. Aqui daremos destaque apenas às menções mais curiosas, a saber:
 
O CÓDIGO 
 
O Conselho Geral da Província de Minas Gerais, tendo feito nas Posturas da Câmara da Vila de São João del-Rei as alterações que julgou convenientes, as confirma pela maneira seguinte: A Câmara da Vila de São João del-Rei, em execução da Lei de 1º de outubro de 1828, resolve as seguintes Posturas: 
TÍTULO I - DAS DISPOSIÇÕES GERAIS 
Artigo 1 - Há contravenção quando não se observa o determinado em qualquer artigo ou parágrafo de Posturas ou em Editais que delas façam parte. Contraventor é o que comete contravenção. 
Artigo 3 - Praças são os Largos no interior das povoações (...) 
Artigo 8 - Dia é o espaço de vinte e quatro horas. 
 
TÍTULO II - DO ASSEIO DAS POVOAÇÕES 
Capítulo I - Do alinhamento 
Artigo 34- A Câmara fará levantar com urgência planos (entenda-se urbanísticos), segundo os quais serão formadas as Ruas, Praças e Edifícios desta Vila e dos Arraiais do seu Termo. (...) 
Capítulo II - Da Limpeza 
Artigo 49 - É proibido empachar as Ruas e Praças com materiais ou qualquer gênero de entulho. Multa de 600 rs. 
Capítulo III - Das obras públicas 
 
TÍTULO III - DA SAÚDE PÚBLICA 
Capítulo I - Sobre a salubridade do ar, água e alimentos 
Artigos 61, 62 e 63 sobre cemitérios 
Artigo 64 - Reputam-se contraventores dos Artigos 61 e 62: 
§ 3 - Os Párocos que mandarem fazer os enterros no recinto dos Templos e fora dos Cemitérios designados pela Câmara. 
Capítulo II - Sobre alguns meios preservativos de enfermidades 
Artigo 88 - A Câmara pedirá ao Governo da Província a vacina e os meios necessários para sua propagação (...) 
Artigo 89 - É proibida a entrada de comboios de negros novos, com bexigas, em qualquer das povoações. (...) 
Artigo 93 - É proibido abrir Boticas sem licença. Prisão de dous dias e multa de 4$000 e do dobro nas reincidências. 
 
TÍTULO IV - DA SEGURANÇA PÚBLICA 
Capítulo I - Sobre artifícios prejudiciais 
Artigo 99 - É proibido pedir esmolas para quaisquer invocações. Multa de 4$rs e prisão de 4 dias. (...) 
Artigo 103 - É proibida a Escravo toda a qualidade de jogo. (...) A mesma proibição compreende o jogo de moços imberbes. O dono da Casa Pública de jogo ou de negócio que admitir ou consentir nela jogo de Escravos ou de moços imberbes será multado em 4$rs e no dobro e preso por quatro dias por reincidências. O escravo apanhado a jogar em lugares públicos será castigado com cinzenta açoutes. 
Artigo 105 - É proibido 
§ 1 - Fingir-se inspirado por Potências invisíveis (...) 
§ 2 - Inculcar-se curador de enfermidades ou moléstias por via de futricas ou orações. Prisão de quatro dias e o dobro nas reincidências. 
Capítulo II - Sobre medidas preventivas de danos 
Artigo 108 - Quando as escavações ou precipícios de que trata o Artigo 107 forem feitos ou causados por alguém será este obrigado ao conserto e à reposição de tudo no seu anterior estado, e multado em 4$rs se não atenderem a advertência do Fiscal. 
Artigo 129 - É proibido correr a cavalo de noite nas Ruas, Praças das Povoações. 
Artigo 134 - Não haverá Espetáculo algum público sem licença da Câmara. (...) Os presépios  não terão o passo da Escritura. 
⁶ No Preâmbulo, o Prof. Gaio escreve sobre essa menção a presépios, dizendo que "parece que se tratava de algum tipo de folguedo". Artigo 136 - É permitido aos Escravos tocar, cantar, dançar nas Ruas e Praças das Povoações, mas os Juízes de Paz poderão determinar a este respeito o que for conveniente ao Público, podendo-se recorrer dos mesmos para a Câmara. 
Capítulo III - Sobre as contravenções contra as pessoas 
Artigo 144 - É proibido: 
§ 1 - Açoitar Escravos fugidos sem o participar a seus Senhores (...) 
Artigo 151 - É proibido jogar entrudo nas ruas e Praças das Povoações. Multa de 300 $rs quando o brinquedo for com cheiros, água limpa ou lavandas artificiais; e quando for com as naturais: limões ou quaisquer outras cousas que possam induzir perigo ou causar dor ou com águas fétidas será a multa de 12 $rs e prisão de três dias. 
 
TÍTULO V 
Capítulo I - Sobre a Indústria 
Artigo 152 - Nenhum gênero de trabalho de cultura, indústrias, ou comércio pode ser proibido uma vez que se não oponha aos costumes públicos, à segurança e saúde dos cidadãos. 
Artigo 156 - Nas Povoações, é proibido: 
§ 1. Soltar cabras que não estejam peadas, de maneira que não possam prejudicar as plantações alheias. 
§ 2. Soltar porcos, sem pastor, três meses depois de publicadas estas Posturas. (...) Multa de 100 $rs por cabeça provando-se que o contraventor costuma soltar cabras ou porcos contra a disposição deste Artigo. 
Artigo 170 - É proibido: 
§ 1 - Caçar codornas nos meses de Agosto, Setembro e Outubro. 
§ 2 - Matar Emas, Siriemas ou Urubus. A contravenção será punida com multa de 600 $rs por cabeça (...) 
Capítulo II - Sobre servidões públicas e estradas 
Capítulo III - Sobre a venda dos gêneros 
Artigo 198 - Em tempo de fome serão obrigados os condutores e vendedores dos gêneros do Artigo 199 a conduzi-los aos lugares que forem designados em Edital da Câmara e nesses lugares os venderão ao Povo pelo preço que livremente fixarem. (...) 
Artigo 199 - A fome quando a produção foi tão minguada que é provável não seja suficiente para a subsistência do Povo ou por qualquer incidente temporário alteiam os preços dos gêneros neste Artigo especificados. Os gêneros que fazem o fundo da subsistência do Povo são os únicos que ficam compreendidos na disposição do Artigo 198. Tais são o feijão, o milho, farinha e toucinho. 
Artigo 204 - Todos os pesos, medidas e balanças deverão ser aferidas antes que se abra a casa de negócio ou se estabeleça o talho e depois se hão de aferir no princípio de cada um ano e rever no mês de Julho ou no tempo que a Câmara declarar. 
Artigo 218 - A nenhum Escravo se concederá licença para ter casa de negócio (...) 
 
TÍTULO VI - SOBRE A EDUCAÇÃO 
Capítulo I - Sobre casas de Caridade
Capítulo II - Sobre inspeção das Escolas de primeiras letras 
Villa de São João de El'Rey em Sessão de 9 de Outubro de 1929 
 
Com esses retoques finais do livro "São João del-Rei através dos Documentos-2º volume", enriquecido com a transcrição de alfarrábios são-joanenses devidamente comentada, concluo esta apreciação dessa obra que constitui inestimável contribuição para o conhecimento do passado são-joanense através de datas corretamente indicadas acopladas a textos selecionados ainda inéditos, todos reverenciando o passado glorioso de nossa terra. 
 
E agora, ciente da fluência do autor homenageado em língua latina, termino esta minha saudação com esta breve elocução nessa língua de sua estima: 
"Laudemus et plaudamus hunc virum sapientem et dignum justissimæ reverentiæ et imitationis, et vos, honestissimæ puellæ quæ auditis me, et juvenes qui hanc patriam diligitis, et seniores populi, date mihi, manibus plenis, pulchros et olentes flores, ut huic viro qui hanc civitatem honorat offerre possim.
 
Trad.: "Louvemos e aplaudamos este homem sábio e digno de justíssima reverência e imitação, e vós, honradíssimas meninas que me ouvis, jovens que amais esta pátria, senhores do povo, dai-me, a mancheias, belas e perfumadas flores, para que eu (as) oferte a este homem que honra esta cidade." 
 
O orador e a bibliotecária Glória conversam com o autor do livro

 
Prof. Gaio em companhia de sua família

Crédito pelas imagens: Rute Pardini Braga, minha amada esposa, a quem agradeço por sua participação na perfeita entonação do hino do IHG e pela formatação de todas as fotos.

domingo, 21 de junho de 2026

PYRAMIDEN, cidade-fantasma soviética congelada no tempo

Por Francisco José dos Santos Braga


I. INTRODUÇÃO 
 
O assunto do qual me ocuparei na presente matéria tem a ver com notícias que circulam na Internet dando conta de algumas cidades-fantasmas de elevado interesse dos estudiosos e turistas interessados no porquê do abandono de assentamentos populacionais e nas causas determinantes dessa fuga de vilas e cidades que antes floresciam com certa pujança. No Brasil, as cidades-fantasmas que atraem maior interesse são: Fordlândia no Pará, Airão Velho no Amazonas, Igatu na Bahia, Cococi no Ceará, Ararapira e Vila da Copel no Paraná, São João Marcos no Rio de Janeiro, etc. 

Assim como se deu em nosso país, a Rússia se caracteriza por ter abandonado muitos assentamentos populacionais ao longo da sua história. Consta que há cerca de 20.000 vilarejos abandonados na Rússia. A maioria foi esvaziada devido ao colapso da União Soviética e ao consequente declínio de indústrias estatais, à exaustão de minas de carvão em regiões inóspitas, ou a desastres ambientais e projetos de represamento de rios. 
 
Os principais exemplos de assentamentos abandonados com forte apelo histórico incluem: Kadykchan; Mologa; Pyramiden: uma antiga cidade de mineração de carvão administrada por uma empresa estatal russa, localizada no arquipélago de Svalbard (território norueguês); Skrunda-1, uma cidade militar secreta na Letônia; Ilha de Vozrozhdeniya. Além disso, há algumas "cidades russas" abandonadas na Alemanha que são antigas bases e quartéis do Exército Vermelho construídos durante a Guerra Fria no território da antiga Alemanha Oriental (RDA). Após a reunificação alemã e o fim da União Soviética, essas instalações foram evacuadas, transformando-se em cidades fantasmas em meio às florestas. São estas as mais importantes: Wünsdorf e Vogelsang. Há ainda uma base soviética na Polônia: Garnisonstadt Pstrąże. 
 
No caso em questão, vou analisar o abandono de um assentamento em uma ilha localizada no Círculo Polar Ártico denominada Pyramiden, assim chamada por ter formações montanhosas em formato de pirâmides. Na época do florescimento do assentamento, o local chegou a ter 1.000 habitantes, que gabavam da excelente experiência de viverem naquele local. Neste estudo, analisaremos as condições que levaram os habitantes a deixar sua estabilidade na ilha. Minha análise vai cobrir duas situações bem diferenciadas através de registros e filmes, ambas documentadas através de documentário: no primeiro caso, o destaque irá para um concerto que teve lugar no teatro abandonado e reativado para o evento único; no segundo caso, serão acompanhados os passos de um guia turístico armado, devido à presença de ursos polares no local, e roqueiro que se candidatou ao cargo de tomar conta das instalações lá existentes e lá residir colocando-se como guia à disposição de turistas que porventura viessem a procurar a ilha. Em ambos os casos, houve o cuidado do registro cinematográfico, de forma que nosso trabalho é relativamente simplificado.  
Pois bem. Vejamos então as principais informações que consegui coligir sobre Pyramiden, a cidade-fantasma soviética que ainda apresenta condições de destaque devido a seu estado de relativa conservação, apesar de inundações e outras intempéries da natureza, possibilitando que turistas se interessem por conhecê-la nos dias atuais. Onde foi possível, forneço minha tradução do inglês e do russo. 
 
Crédito pela imagem: Jan Erik Waider
  
 
II. Documentário 1: O CONCERTO (com minha tradução do inglês)
 
Preliminarmente devo dar crédito a uma matéria produzida pela CNNstyle intitulada Dentro da cidade mineradora abandonada de Pyramiden, sob a direção em Emma Tucker, em artigo de 26/03/2019, originalmente publicado por The Spaces, uma publicação digital que explorava novos modos de vida e trabalho, com fotos de Jan Erik Waider.
 
O fotógrafo Jan Erik Waider captou a cidade assustadoramente vazia de Pyramiden, no arquipélago de Svalbard (Noruega), que agora é habitada principalmente por ursos polares. 
 
Suas imagens envoltas em névoa focam nos edifícios desertos e na paisagem rochosa do antigo centro de mineração soviético, que está inativo há 20 anos. Outrora lar de cerca de 1.000 pessoas, o local contava com piscina, campo de esportes e um rebanho de vacas.
 
Waider descobriu a cidade enquanto assistia a documentários sobre Svalbard e tirou suas fotografias em duas visitas à região. Ambas foram acompanhadas por um guia armado, que estava de prontidão para avistar os ursos polares que vagam por Pyramiden. Há relatos de ursos invadindo o hotel da cidade  um dos poucos edifícios ainda em uso  e saqueando o bar. 
 
(Nesta altura, há um breve documentário sobre o concerto com o título: This Russian ghost town hosts a unique concert, que significa Esta cidade fantasma russa acolhe um concerto único.” Sugiro ao leitor que assista ao referido documentário, clicando no link: https://edition.cnn.com/style/article/the-spaces-pyramiden-mining-town/)
Legenda do documentário 
Por Ingvild Pettersen Högberg - coordenadora de projetos, RYK:
Não é todo dia que fazemos um concerto em um assentamento russo abandonado. Vivenciar a música e os artistas em um ambiente como esse é algo único. Você nunca mais verá esse artista dessa forma. (Pyramiden é uma mina de carvão no Círculo Polar Ártico que está abandonada há mais de 20 anos. É o lar de um dos concertos mais singulares do mundo.) A única maneira de chegar lá é em uma viagem de barco de uma hora e meia. Todos os equipamentos, todo o som, toda a iluminação: tudo é transportado de barco. (Artistas, dançarinos e mais de 50 convidados selecionados viajaram até lá em temperaturas abaixo de zero para participar de uma apresentação única de música do norte da Noruega.) Todas as casas e tudo mais ainda estão lá. Parece que as pessoas saíram do jantar, simplesmente atravessaram a porta e nunca mais voltaram. É possível encontrar ursos polares em quase todos os lugares, então você precisa ser acompanhado por guardas armados o tempo todo. 
Kjetil Holmstad-Solberg - Músico e vocalista da banda norueguesa de folk-rock Violet Road: 
Tocar em cenários como este mexe com você de um jeito difícil de explicar. É como ir para outro planeta, sabe? Tipo uma viagem no tempo. É louco e lindo ao mesmo tempo. 
Quando a gente está em Pyramiden, não há distrações. A gente tem que estar presente no momento e em nenhum outro lugar. 
Este lugar conquista a gente, é simples assim, conclui Kjetil.
Apresentações de
- Ánnásuolo
- Julie Alapnes
- Kartellet
- Mariann Torset
- Mork
- Violet Road
(crédito: CNNstyle) 
 
Voltando às fotos de Waider, suas imagens captam quão bem preservada está a arquitetura sobrevivente, destacando o enorme esforço que deve ter sido necessário para construir a cidade. Há painéis de madeira, e não há madeira em toda a Svalbard, então eles tiveram que importá-la da Rússia, diz Waider. Dá para perceber que eles prestaram muita atenção aos detalhes.
 
As fotografias também focam em alguns dos danos causados ​​à cidade pelas frequentes enchentes da primavera, causando erosão aos edifícios e deixando atrás de si vastas áreas lamacentas. 
 
Gosto de captar a história dos edifícios, diz ele. É um lugar que foi simplesmente deixado para trás. Nada mudou, e a natureza encontrou seu caminho de volta.
 
*************** 
 
Vejamos outras fotos de Waider tiradas nas suas duas viagens a Pyramiden:
 
Glória mineira

Complexo Esportivo "Gagarin" em Pyramiden


  


 





 

III. Documentário 2: PYRAMIDEN  (com minha tradução do inglês)

 
Pyramiden: população: 6 (pessoas). A cidade-fantasma soviética congelada no tempo, no coração do Ártico. 
Gênero: documentário 
Tema: tela grande: A Natureza 
Origem: Grã-Bretanha 
Direção, filmagem, produção e edição: David Beazley 
Website: Beazley films 
Designer de som: Jason Peacock
Colorista: Brendan Buckingham 
Música: Peter Broderick: A Snowflake (Erased Tapes Records), Sensible Soccers-Maria Rosa (Groovement Organic Series), Gde b ni skitalsya ya (Leonid Utesov & his Orchestra)
Agradecimentos a "Sasha" Aleksandr Romanovsky, Alexandr Naumkin, Markus Reher, Natalya Boyce, The Mill.
 
Localizada a apenas 1.287 quilômetros do Polo Norte, na ilha de Spitsbergen, a cidade- fantasma de Pyramiden, da era soviética, é um dos assentamentos permanentes mais setentrionais do mundo. O local foi desenvolvido inicialmente como uma vila mineradora em 1936, depois que os soviéticos adquiriram os direitos de exploração das jazidas de carvão locais. Embora Pyramiden tenha sido abandonada em 1998, permanece notavelmente bem preservada devido ao clima ártico gélido. 
 
Pyramiden foi outrora um próspero assentamento soviético fundado para a mineração de carvão, localizado muito acima do Círculo Polar Ártico, no arquipélago norueguês de Svalbard. Atualmente está quase completamente abandonado desde que foi desativado em 1998. Agora uma atração turística, a extensa cidade-fantasma abriga apenas seis moradores permanentes. 
 
O documentário homônimo narra a vida tranquila e em grande parte solitária de um desses moradores, Aleksandr Romanovsky, que gosta de ser chamado pelo apelido de "Sasha" de Pyramiden e que se considera "talvez o roqueiro mais setentrional no mundo". Ele trabalha como guia turístico no assentamento russo desde 2012, quando, segundo ele, foi o único candidato à vaga. O documentário é um curta-metragem impressionante e premiado que narra a vida solitária e tranquila de Aleksandr "Sasha" Romanovsky, um dos únicos seis residentes durante todo o ano da referida cidade-fantasma. Solitário por natureza, Romanovsky se sente em casa neste lugar incomum e de outro mundo, onde passa o tempo entre as visitas guiadas a raros turistas e a tarefa de espantar ursos polares, dedicando-se a hobbies, como tocar violão e aprender espanhol. 
 
IV. Contribuição para o documentário PYRAMIDEN
 
Na seção final do documentário, como roqueiro que é, Romanovsky dá uma canja para o espectador, cabendo aqui destacar sua última peça ao violão, acompanhando sua própria voz. A canção é muito conhecida: Noites de Moscou, uma canção soviética patriótica, popular durante décadas tanto na URSS quanto na Rússia moderna, escrita no período pós-guerra pelo compositor soviético Vasily Solovyov-Sedoy, com letra do poeta Mikhail Matusovsky, para trilha sonora de uma cena do documentário sobre a competição atlética Espartaquíada dos Povos da URSS em 1956, nome de um grande evento esportivo criado como uma alternativa e contraponto aos Jogos Olímpicos.

A canção foi interpretada por Vladímir Troshin, ator e cantor da época, e alcançou uma popularidade surpreendente em 1957, quando cantada na abertura do Festival da Juventude e dos Estudantes de Moscou, onde Troshin recebeu o Primeiro Prêmio e a Grande Medalha de Ouro por sua apresentação.

Seu conteúdo lírico está ligado à nostalgia, paz e contemplação. A letra descreve uma noite de verão serena e tranquila em uma dacha (casa de campo) nos arredores de Moscou, celebrando um momento especial e romântico antes do amanhecer.
 
Abaixo apresento o texto da canção Noites de Moscou em russo, acompanhada de minha tradução em português:

Подмосковные вечера 
¹

Не слышны в саду даже шорохи,

Всё здесь замерло до утра.

Eсли б знали вы, как мне дороги

Подмосковные вечера.

Eсли б знали вы, как мне дороги

Подмосковные вечера.


 
Речка движется и не движется,

Вся из лунного серебра.

Песня слышится и не слышится

В эти тихие вечера.

Песня слышится и не слышится

В эти тихие вечера.


 
Что ж бы, милая, смотришь искоса,

Низко голову наклоня?

Трудно высказать и не высказать

Всё, что на сердце у меня.

Трудно высказать и не высказать

Всё, что на сердце у меня.


 
А рассвет уже всё заметнее.

Так, пожалуйста, будь добра.

Не забудь и ты эти летние

Подмосковные вечера.

Не забудь и ты эти летние

Подмосковные вечера.

¹ A bem da verdade, a melhor tradução para Подмосковные вечера deve ser Noites da Moscou suburbana, uma vez que o poeta se refere aos arredores ou subúrbios da capital Moscou.
 
Minha tradução:

NOITES DE MOSCOU

Nem mesmo um sussurro se ouve no jardim,
Tudo aqui permanece imóvel até o amanhecer.
Se você soubesse como me são caras
As noites de Moscou. (bis)

O rio se move e não se move,
Todo prateado sob a luz da lua.
Uma canção é ouvida e não ouvida
Nestas noites tranquilas. (bis)

Por que, minha querida, você olha de lado, 
²
Com a cabeça baixa?
É difícil expressar e não expressar
Tudo o que está em meu coração. (bis)

E o amanhecer já torna tudo mais visível...
Então, por favor, seja gentil,
Não se esqueça destas estivais
Noites de Moscou! (bis)
 
² Neste ponto o roqueiro Aleksandr "Sasha" Romanovsky se esquece da letra dos versos seguintes.  
Caso o leitor queira desfrutar a peça até o fim, recomendamos clicar no seguinte link para ouvir o próprio Vladímir Troshin: https://www.youtube.com/watch?v=T99UWQpJynY
 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Relendo o livro PASTORAL DE MINAS

Por Francisco José dos Santos Braga

Montanhas de Minas

 
I. INTRODUÇÃO 
 
O poemário de Geraldo Reis intitulado PASTORAL DE MINAS (1981) foi um marco na literatura mineira contemporânea, tendo sido agraciado com o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, dado, unanimemente pela comissão julgadora constituída dos poetas Anderson Braga Horta, Henry Correia de Araújo e Márcio Almeida em reconhecimento de sua opulenta recriação literária. De fato, o livro representou um canto inusitado, um alento e uma promessa de melhores dias para a Poesia, num tempo do consumismo diluidor e massacrante. 
 
Segundo Pascoal Motta, prefaciador de Pastoral de Minas, este é
um livro que veio contribuir de forma decisiva para o enriquecimento cultural e da Literatura Brasileira. O livro subdivide-se em duas partes: Pastoral de Minas e Retratos no Vento. Na primeira parte, anuncia-se a vocação mineira do autor, num processo de criação a um só tempo lúdico e lírico. (...)   
Pastoral de Minas é um raro livro de poemas, em que se pode constatar, além da intensa sensibilidade, aflorada em cada sequência poética, o poder mágico de seu autor em transfigurar e multirradiar esteticamente a linguagem de apoio de que dispõe. 
A sua reserva de vocabulário específico, de sintaxe e semântica poéticos vão no afastamento, portanto, da mera linearidade linguística. 
Além disso, é obra em que se configura uma abertura para o mais íntimo e eterno do ser humano, não só pela revitalização de assuntos e temas percucientes à Inconfidência Mineira, mas também no conjunto harmonioso de suas dissonâncias gritantes e na originalidade de expressão. Aqui um papel de Poeta, aqui um compromisso com a Poesia e a Vida. Aqui também sua modernidade, revelada nos arcaísmos renovados, na insólita carnavalização das abordagens históricas. É o que se pode classificar de social/histórico trazido às derradeiras consequências e inconsequências. (...)
 
II. AS EPÍGRAFES 
 
A primeira epígrafe foi extraída da abertura de um texto de João Guimarães Rosa, intitulado Minas Gerais, constante do livro "ave, palavra", a saber:
Minas é a montanha, montanhas, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade esconsa, o esforço estático, a suspensa região  que se escala.
A segunda epígrafe foi extraída do poemário "Romanceiro da Inconfidência" de Cecília Meireles. Trata-se de uma das estrofes extraída do Romance XX ou Do País da Arcádia que põe em relevo a crispada onda de sublevação, de fundas e sombrias memórias:
“O país da Arcádia, /súbito, escurece /em nuvens de lágrimas. /Acabou-se a alegre /pastoral dourada: /pelas nuvens baixas, /a tormenta cresce.
O livro Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles reporta-se a um momento da história brasileira bastante conhecido, o qual esteve relacionado à primeira escola literária eminentemente brasileira, o Arcadismo, que foi retomado, no poema, pela palavra "arcádia". O termo "arcádia" refere-se a uma sociedade literária vigente no período colonial nacional, quando a descoberta de ouro na província das Minas Gerais levou a um aumento significativo da sociedade mineira, intensificado pela ida de uma série de indivíduos àquela região mineradora. Efetivamente, o movimento árcade se desenvolveu no Brasil com a fundação, em Vila Rica, no ano de 1768, da “Arcádia Ultramarina”, tendo como referência a publicação, por Cláudio Manuel da Costa, de suas “Obras Poéticas”, constituindo o embrião de uma geração literária brasileira. Além de Claudio Manuel, vários escritores se destacaram no Arcadismo brasileiro, como Tomás Antônio Gonzaga, Frei José de Santa Rita Durão, Inácio de Alvarenga Peixoto, José Basílio da Gama e Manuel Inácio da Silva Alvarenga, quase todos envolvidos com a Inconfidência Mineira e naturais de Vila Rica. 
 
A terceira epígrafe foi extraída da mesma obra de Cecília Meireles e resumidamente aborda o Romance XXXV ou Do Suspiroso Alferes, em que, na sexta esfrofe, propõe Minas intransponível pelas "altas montanhas" e de grande extensão até à Corte pelas "infinitas campinas", acompanhado do reiterado refrão de Tiradentes: "Ah! se eu me apanhasse em Minas!", acreditando que lá em Minas tudo seria diferente: tudo iria se arranjar. Esse refrão expressa o desejo de retornar a Minas, terra dos Inconfidentes. Entretanto, o administrador de uma fazenda, em um depoimento nos Autos da Devassa, menciona que estava combinado entre ele e Tiradentes que ele arranjaria uma canoa, na qual o Alferes fugiria. Os planos de fuga acontecem, embora não concretizados, porque Tiradentes ainda ignora que não tinha mais jeito, já havia sido traído e estava totalmente desamparado.
 
III. SIMBOLOGIA DO PASTOR 
 
[CHEVALIER & GHEERBRANT, 1989, 591-2], no verbete PASTOR, discorre sobre o termo:
(...) o simbolismo do pastor comporta também um sentido de sabedoria intuitiva e experimental. O pastor simboliza a vigilância; sua função é um constante exercício de vigilância: ele está desperto e lê. Por isso é comparado ao sol, que tudo vê, e ao rei. Além disso, o pastor, ao simbolizar o nômade, como já foi dito, está privado de raízes; representa a alma que, no mundo, jamais é sedentária - está sempre de passagem. No que concerne ao seu rebanho, o pastor exerce uma proteção ligada a um conhecimento. Sabe qual o alimento que convém aos animais sob seus cuidados. É um observador do céu, do Sol, da Lua, das estrelas; é capaz de prever o tempo. Por causa das diferentes funções que exerce, o pastor aparece como um sábio, cuja ação deriva da contemplação e da visão interior. (...)

 IV. POEMAS SELECIONADOS  

Da segunda parte do livro Pastoral de Minas (1981), Retratos no Vento, selecionamos para transcrição os poemas de Geraldo Reis dedicados à memória de seu avô e de seu pai, aliada a uma visão poética de um cavalo branco fictício, de elevada simbologia. 

a) Com dísticos

I.
As botas do meu avô
eram pesadas de sono

a cabeleira dele
vaidosa de morrer.

As aventuras do meu avô
eram rios afogados

por sobre morros e vales
meu avô se desgastava.

Venho de seus erros e cangalhas
de seus burros e ravinas
de seus anseios e falhas.

II.
segunda-feira levanto
mas quase sempre deitado

como o sinistro perante
meu pai de olhos cerrados

durmo acordado com tanto
silêncio que tem me dado

há nesses pés de agapanto
meu pai de olhos cerrados

como quem na vida tanto
come o pão do desagrado

silenciosa pelos cantos
minha mãe tem desandado

no coração desabando
pesadelos acordados

e espanta o sinistro quando
meu pai acorda tocando
seus decotes arriados. 
 

b) Quase só com sextetos 

V. ária 

Eu vi um cavalo branco ¹
à hora da ave-maria
eu vi um cavalo branco
além da sinestesia
da metáfora, do canto
que ele cantava e morria.

Eu vi um cavalo baio
ao som da ave-maria
com relinchos e lacaios
de elegante simetria
era um cavalo encantado
que soluçava e morria.

Era um cavalo encantado 
era um potro de alegria
se revelava no prado
se revelava no dia
na canção de um copo d'água
que ele tomava e morria.

Era um cavalo encantado
subitamente se abria
eram pétalas de fado
com barulhos de alegria
era um cavalo encantado
que gargalhava e morria.

Desse cavalo, onze avos
era o que me competia
por isso desencantá-lo,
cavalgá-lo; quem queria
esse cavalo enviado
que me acordava e morria?

Por isso vê-lo, tocá-lo 
necessário se fazia
a canção desse cavalo
era mansa e me sabia,
por isso desencantá-lo,
cavalgá-lo. Quem seria?

Um cavalo sem remédio
sem amarras e arreio
me recomenda no tédio
me revigora no freio
esse cavalo encantado
não era belo, era feio.

O que sabia calava
o que calava hoje leio
era um cavalo de fava
feito de grama 
 e no meio
desse cavalo ficava
meu mundo de devaneio.

Por isso vê-lo, tocá-lo
necessário se fazia
a canção desse cavalo
era mansa e me sabia
por isso desencantá-lo,
depená-lo. Quem seria?

...

Era negro, era branco esse cavalo
soterrado em suspiros e recantos
pra reavê-lo um dia fui rimá-lo
minha fábula de clínica e de canto.

Era negro, era baio e erradio
sem roteiro qualquer e sem repasto
era bilíngue em canto ao fim do dia
uma babel difusa além do pasto.

Havia nele a fala indecifrável
da libido de amor que nele havia
não reavê-lo havia além do fado
que me acordava enquanto ele morria.

Nem mesmo Pégaso o noticiara
ou lhe emprestara enfim dispositivo
com que tivesse ele nova tara
e fosse morto ao mesmo tempo e vivo.

Nem mesmo Pégaso ou qualquer vivente
dele soubera ou mesmo conotara
o que dele restava dissidente.

E era um cavalo branco e era negro
e era humano e divino e nunca fora:
seu desencanto, meu desassossego.

 

V. NOTA EXPLICATIVA do Gerente do Blog

 
¹ A visão do céu aberto em que há a aparição de um cavalo branco nos remete ao livro do Apocalipse 19:11. 

Fonte: REIS, Geraldo: seções de nº I, II e V de Retratos no Vento. In Pastoral de Minas. Prefácio de Pascoal Motta. Belo Horizonte: Editora Comunicação & Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, da Prefeitura de Belo Horizonte, 1981. Seção I: p. 67; seção II: p. 68 e seção V: pp. 74-77. 

terça-feira, 2 de junho de 2026

MORTE E SOLIDÃO NA CRÔNICA VAE SOLI ! DE MACHADO DE ASSIS

Por Francisco José dos Santos Braga

 
I. INTRODUÇÃO 
 
A escolha do gênero crônica por Machado de Assis para abrigar o tema acontecimento de morte e solidão não foi acidental mas proposital, porque se optasse por outro gênero literário como o romance, a novela ou o conto, teria que adotar uma narrativa extensa que revelasse ações de personagens dentro de um enredo. Por outro lado, tendo escolhido a crônica, adotou uma narrativa breve que focou em acontecimentos do cotidiano, sem maiores pretensões. Segundo [CANDIDO et alii, 1992, 13], a crônica é um gênero menor (1992, p. 13). Parece, entretanto, que, se a crônica é da autoria de Machado de Assis, a percepção muda de figura, relativizando o dizer do crítico literário, considerando ademais ter sido o gênero por excelência explorado por Machado por mais de 40 anos de prática nos jornais cariocas. Durante praticamente toda a carreira, Machado escreveu crônicas jornalísticas, seja nos folhetins ¹ do rodapé da primeira página, seja em outras seções. Segundo Ubiratan Machado:
Como cronista, Machado foi uma testemunha de seu tempo, apaixonado na juventude, desconfiado na meia-idade, francamente desiludido na maturidade, que legou um painel para a compreensão do Brasil de sua época e de como os homens de então entendiam os acontecimentos. ² 
 
Outra curiosidade prende-se à época em que a crônica foi escrita: meados de 1892. Não devíamos esperar que Machado de Assis continuaria atrelado ao ideal romântico na sua crônica no momento em que os ares do Realismo já faziam parte de sua concepção literária. Em sua História da Literatura Brasileira, José Verissimo dedica um capítulo inteiro a Machado de Assis e lhe separa duas fases de sua obra: uma ligada à escola romântica e outra realista. No entanto, é enfático ao registrar logo de início:  
A data do seu nascimento e do seu aparecimento na literatura o fazem da última geração romântica. Mas a sua índole literária avessa a escolas, a sua singular personalidade, que lhe não consentiu jamais matricular-se em alguma, quase desde os seus princípios fizeram dele um escritor à parte, que tendo atravessado vários momentos e correntes literários, a nenhuma realmente aderiu senão mui parcialmente, guardando sempre a sua isenção. 
 
Isto posto, com diversos elementos contrários às tradições, os romances machadianos da primeira fase (escola romântica ou do convencionalismo) seriam Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), enquanto que os da segunda seriam todos os outros restantes de sua carreira, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899)  esses três conhecidos como Trilogia Realista , Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), pertencentes a um Realismo heterodoxo próprio de Machado. Embora esta divisão seja ortodoxa entre os acadêmicos, o próprio Machado escrevera numa apresentação de uma reedição de Helena que este romance e os outros de sua fase "romanesca" possuíam um "eco de mocidade e fé ingênua." 
 
Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Aparecem já nos romances da segunda fase, sobretudo em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e em Quincas Borba (1891), e mesmo em diversos contos, todos os elementos centrais trazidos de forma contundente pelo Realismo: a crítica social, sobretudo uma crítica dirigida à burguesia, a crítica à escravidão, ao uso do "homem pelo homem", a crítica a um sistema capitalista puramente interesseiro, financeiro, calculista do dinheiro pelo dinheiro e da mercantilização da vida, das relações, do casamento, etc.
 
Carolina Augusta (✞ Porto, 20/02/1835-Rio de Janeiro, 20/10/1904)-Crédito: Wikipedia Commons
 
Outro fato marcante na vida de Machado e que influenciou muito sua obra posterior foi seu casamento com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais em 12/11/1869. Carolina era extremamente culta e apresentou ao marido os grandes clássicos da literatura portuguesa e diversos autores da língua inglesa; além disso, a sobrinha-bisneta de Carolina, Ruth Leitão de Carvalho Lima, sua única herdeira, revelou numa entrevista de 2008 que, frequentemente, a esposa retificava os textos do marido durante sua ausência; finalmente, conta-se que ela muito provavelmente tenha influenciado no modo de Machado escrever e, por consequência, tenha contribuído para a transição de sua narrativa convencional à realista. Não tiveram filhos, entretanto. Depois de morarem no Catete, foram residir na casa nº 18 da rua Cosme Velho (a residência mais famosa do casal), onde ficaram até a morte. Do nome da rua surgiu o apelido "Bruxo do Cosme Velho", dado por conta de um provável episódio onde Machado queimava suas cartas em um caldeirão, no sótão da casa, fato que impressionou a vizinhança que passou a tratá-lo com essa alcunha. Em 20/10/1904, faleceu Carolina aos 70 anos de idade. Com a morte da esposa, Machado entrou em profunda depressão, notada pelos amigos que o visitavam, e, cada vez mais recluso e doente, encaminhou-se também para sua morte. Ou seja, ele próprio conviveu durante quatro anos com a dor e o sofrimento devido ao acontecimento de "solidão e morte" que ele havia visualizado, apenas teórica e convencionalmente, no conto Vae Soli! para a viúva solitária em busca de uma companhia afetiva. Em 29 de setembro de 1908 na casa de Cosme Velho, Machado de Assis morreu aos sessenta e nove anos de idade. 
 
A crônica Vae Soli! foi publicada pela Gazeta de Notícias, edição de 17/07/1892 e, posteriormente, em 1899 no livro Páginas Recolhidas ³, publicado pelo H. Garnier, Livreiro Editor. Neste livro a crônica, já próxima ao seu fim, omite três parágrafos, os quais foram provavelmente considerados dispensáveis pelo próprio autor, embora se desconheça a razão que o levou a autorizar o corte. Neste trabalho a crônica será oferecida nas duas modalidades: integral e reduzida, sendo os três parágrafos cortados apresentados entre chaves [ ] e em itálico. 
 
VAE SOLI!  
 
Um dia desta semana, farto de vendavais, naufrágios, boatos, mentiras, polêmicas, farto de ver como se descompõem os homens, acionistas e diretores, importadores e industriais, farto de mim, de ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um silêncio sem quietação, peguei de uma página de anúncios, e disse comigo: "Eia, passemos em revista as procuras e ofertas, caixeiros desempregados, pianos, magnésias, sabonetes, oficiais de barbeiro, casas para alugar, amas-de-leite, cobradores, coqueluche, hipotecas, professores, tosses crônicas..." 
 
E o meu espírito, estendendo e juntando as mãos e os braços, como fazem os nadadores, que caem do alto, mergulhou por uma coluna abaixo. Quando voltou à tona, trazia entre os dedos esta pérola:
Uma viúva interessante, distinta, de boa família e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia idade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ela cansado de viver só; resposta por carta ao escritório desta folha, com as iniciais M. R...., anunciando, a fim de ser procurada essa carta.” 
Gentil viúva , eu não sou o homem que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato, porque tu não és qualquer pessoa, tu vales alguma coisa mais que o comum das mulheres . Ai de quem está só! dizem as sagradas letras; mas não foi a religião que te inspirou esse anúncio. Nem motivo teológico, nem metafísico. Positivo também não, porque o positivismo é infenso às segundas núpcias. Que foi então, senão a triste, longa e aborrecida experiência? Não queres amar; estás cansada de viver só.  
 
E a cláusula de ser o esposo outro aborrecido, farto de solidão, mostra que tu não queres enganar, nem sacrificar ninguém. Ficam desde já excluídos os sonhadores, os que amem o mistério e procurem justamente esta ocasião de comprar um bilhete na loteria da vida. Que não pedes um diálogo de amor, é claro, desde que impões a cláusula da meia idade, zona em que as paixões arrefecem, onde as flores vão perdendo a cor purpúrea e o viço eterno. Não há de ser um náufrago, à espera de uma tábua de salvação, pois que exiges que também possua. E há de ser instruído, para encher com as luzes do espírito as longas noites do coração, e contar (sem as mãos presas) a tomada de Constantinopla. 
 
Viúva dos meus pecados, quem és tu que sabes tanto? O teu anúncio lembra a carta de certo capitão da guarda de Nero. Rico, interessante, aborrecido, como tu, escreveu um dia ao grave Sêneca, perguntando-lhe como se havia de curar do tédio que sentia, e explicava-se por figura: Não é a tempestade que me aflige, é o enjoo do mar. Viúva minha, o que tu queres realmente, não é um marido, é um remédio contra o enjoo. Vês que a travessia ainda é longa,  porque a tua idade está entre trinta e dois e trinta e oito anos,  o mar é agitado, o navio joga muito; precisas de um preparado para matar esse mal cruel e indefinível. Não te contentas com o remédio de Sêneca, que era justamente a solidão, a vida retirada, em que a alma acha todo o seu sossego. Tu já provaste esse preparado; não te fez nada. Tentas outro; mas queres menos um companheiro que uma companhia. 
 
Pode ser que a esta hora já tenhas achado o esposo nas condições definidas. Não estás ainda casada, porque é preciso fazer correr os pregões, e tens alguns dias diante de ti, para examinar bem o homem. Lembra-te de Xisto V, amiga minha; não vá ele sair, em vez de um coração arrimado à bengala, um coração com pernas, e umas pernas com músculos e sangue; não vás tu ouvir, em vez da tomada de Constantinopla, a queda de Margarida nos braços de Fausto. Há desses corações, nevados por cima, como estão agora as serras do Itatiaia e de Itajubá, e contendo em si as lavas que o Etna está cuspindo desde alguns dias. 
 
Mas, se ele te sair o que queres, que grande prêmio de loteria! Junto à amurada do navio, vendo a fúria do mar e dos ventos, tu ouvirás muitas coisas sérias  [. Ele te contará a retirada de uma parte da Câmara dos Deputados, muito menos interessante que a dos Dez Mil, e muito menos hábil. Dir-te-á que a anistia foi votada, depois que parte daquela parte voltou às suas cadeiras, para não demorar mais a situação dos que ela defendia; e recitará fábulas de Lafontaine, porque todos os homens sérios recitam fábulas, e dir-te-á com a melopeia natural dos que se não contentam com a música dos versos:
Rien n’est plus dangereux qu’un maladroit ami: Mieux vaut un franc ennemi.
E tu, querida incógnita, far-lhe-ás outras perguntas, e mais outras, se gosta de espinafres, se já leu o último livro de Zola. Quanto ao livro, a primeira resposta será que não; a segunda será que sim, tirá-lo-á do bolso, e ler-te-á logo os primeiros capítulos. Como todo homem sério gosta de comparações, ele dirá que esses regimentos e corpos de exército que vão e vêm, sem saber nada, dão idéia de outras campanhas de espíritos, que andam na mesma desorientação; e que assim como os exércitos franceses levavam consigo, em 1870, as cartas topográficas da Alemanha, e nenhuma da França, que nem conheciam, assim nós temos andado desde 1840 com as cartas de Inglaterra, da Bélgica e dos Estados Unidos da América, e mal sabemos onde fica Marapicu. 
 
Neste ponto, viúva amiga, é natural que lhe perguntes, a propósito de Inglaterra, como é que se explica a vitória eleitoral de Gladstone, e a sua próxima subida ao poder. E ele enfiando os dedos pela mais séria das suas duas suíças, responderá que é a coisa mais natural do mundo, e que logo que tenhamos república parlamentar isto nos há de acontecer frequentes vezes; que a oposição, como agora na Inglaterra, instará para que a Câmara seja dissolvida; que o ministério, receoso de cair, levará a negar a dissolução, como se deu na Inglaterra; que, alcançada a dissolução, o povo elegerá os oposicionistas, e o ministério irá pedir a demissão ao presidente; finalmente, que assim aconteceu até 1889 com a monarquia, e não há razão para que aconteça depois de 1889, com a República. 
 
E irás por esse modo ouvindo mil coisas sérias] e graciosas a um tempo, seguindo com os olhos a fúria dos ventos e o tumulto das ondas, livre do enjoo, como pedia aquele capitão de Nero, e por diferente regímen do que lhe aconselhou o filósofo. E a tua conclusão será como a tua premissa; em caso de tédio, antes um marido que nada. 
Gazeta de Notícias, 17 de julho de 1892.
 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS  
 
¹ O folhetim (do francês feuilleton) era uma seção, geralmente no rodapé da primeira página do jornal, onde um escritor publicava uma coluna com uma crônica (folhetim-crônica), ou um romance em capítulos (romance folhetinesco), que poderia depois ser lançado em livro. 
 
²  MACHADO, Ubiratan: Dicionário de Machado de Assis, verbete "Cronista". 
 
³ Observa-se uma ligação entre literatura e filosofia, a partir da própria epígrafe do livro "Páginas Recolhidas" que cita uma frase do livro I, cap. XLVI dos Ensaios de Montaigne: "Quelque diversité d'herbes qu'il y ayt, tout s'enveloppe sous le nom de salade." (Por grande que seja a diversidade das ervas, chamam a tudo salada'), em alusão à variedade de textos do livro, conforme esclarece o prefácio do autor: “Montaigne explica pelo seu modo a variedade deste livro.” 
Agora, em se tratando da crônica Vae Soli!, constata-se outra aproximação com a filosofia quando compara o anúncio da viúva com a carta de certo capitão da guarda de Nero ao filósofo estóico Sêneca, na qual indaga se havia modo de se curar do tédio que sentia. A resposta de Sêneca ao inquiridor foi que o remédio para o seu tédio era justamente a solidão, a vida retirada em que a alma acha todo o seu sossego. Então, voltando ao caso particular da viúva, o narrador conclui que esse preparado ou remédio já foi tentado pela viúva, sem sucesso; para não desanimá-la, sugere que tente outro, mas com a ressalva de que o que ela procura na realidade não é um companheiro, mas uma companhia. Se vivesse hoje em dia,  o narrador possivelmente sugeriria a adoção de pets para a ajudarem a amenizar a solidão. 
 
 Expressão idiomática latina corretamente escrita (frequentemente aparece de forma incorreta como vae solis) que significa "Ai do solitário!", mencionada no livro do Eclesiastes, 4: 10. Descreve a situação deplorável de alguém abandonado a si mesmo. O texto completo diz: “Vae soli, quia cum ceciderit, non habet sublevantem”, que se traduz como: Ai do solitário, porque quando cair, não tem quem o levante. No caso da crônica machadiana, a uma viúva restava apenas um de dois comportamentos, visualizando a condição da mulher no contexto romântico brasileiro: a solidão ou a "quase liberdade" da viúva de buscar um novo companheiro, onde não está ausente um interesse particular de que ele possa prover meios de vida. 
 
 O narrador em primeira pessoa introduz o leitor no universo da ficção por meio de um compartilhamento de uma notícia lida num jornal, que anunciava a viuvez de uma mulher descrita como “uma viúva interessante, distinta, de boa família e independente de meios”, que busca “encontrar por esposo um homem de meia idade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ela cansado de viver só; resposta por carta ao escritório desta folha”. Identificam-se aí os acontecimentos da morte (do marido) e da solidão de uma viúva no final do século XIX. 
 
 A partir deste ponto, o narrador (uma figura masculina) passa a tratar a viúva em tom mais coloquial, quase íntimo, tratando-a por tu e a discutir o estado de solidão dessa viúva, desencadeado pela morte de seu esposo. No caso desta crônica, a solidão é principalmente ausência da companhia afetiva de um esposo, alguém que possa conversar e trocar confidências e preferências pessoais. Em outras obras mais extensas como nos romances Dom Casmurro (1899) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), a solidão é o terreno fértil para o questionamento, onde a mente se volta sobre si mesma. 
 
 O narrador faz uma distinção entre as mulheres, apontando para uma hierarquia entre elas, ao dizer: “tu vales alguma coisa mais que o comum das mulheres”. 
 
 Aqui o narrador constata o realismo da viúva que passa longe do ideal romântico. Ela, na opinião do narrador, não demonstra possuir paixões sexuais, mas desejar o compartilhamento de afinidades afetivas e espirituais, ao expor o realismo da decisão da viúva, quando diz: Não queres amar; estás cansada de viver só e, mais tarde, quando enuncia: queres menos um companheiro que uma companhia. A partir dessa constatação, o narrador inicia um diálogo fictício com a viúva que permanece silente até o fim da crônica, não nos permitindo saber se ela concorda ou não com as pitadas de humor ou ironia de seu interlocutor que vasculha os clássicos latinos, franceses e ingleses para endossar seu juízo e raciocínio. Em todos os casos, após interpelá-la, não se segue a resposta da viúva. De fato, não dispomos da voz feminina ao longo da crônica, embora a conheçamos pelo anúncio que publicou no jornal; logo temos de nos contentar com a única voz que é a do narrador, que é onisciente. Essa postura crítica machadiana  de silenciar total ou parcialmente a voz de suas personagens femininas  fica especialmente evidente no clássico dilema da traição de Capitu que quase não fala e, ao falar, tem sua fala reproduzida por um narrador ciumento e mal-intencionado, deixando-nos incertos quanto à veracidade da sua traição. 
 
 Possivelmente julgando ser mais direto ao ponto e mais palatável para o leitor, o próprio Machado de Assis enxugou o próprio texto, tendo omitido os três seguintes parágrafos da crônica de 17 de julho de 1892 na coluna "Semana" da Gazeta de Notícias, depurados do texto integral, identificados aqui entre chaves e em itálico, tomando por base o site do MEC que disponibiliza gratuitamente todas as obras de Machado de Assis, incluindo suas crônicas. Com efeito, é a versão simplificada de Vae Soli! a que é recuperada posteriormente no Volume II, do livro Páginas Recolhidas, seção "Entre 1892 e 1894", publicado em 1899 pelo Livreiro-Editor H. Garnier, Rio de Janeiro, pp. 235-238
 
 
III. BIBLIOGRAFIA 
 
ARAÚJO, Ruy Magalhães de: Machado de Assis: Dimensão diatônica de alguns aspectos do pessimismo, revista SOLETRAS (UERJ), vol. 1, pp. 7-18, 2006 
 
ASSIS, Machado de: Páginas Recolhidas, Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1899, 262 p. 
 
CANDIDO, Antonio et alii: A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas; Rio de Janeiro: UNICAMP; Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992, 551 p.
 
FERREIRA, Iasmim Santos: Morte e solidão: acontecimentos em "Vae Soli!", revista Scriptorium, vol. 5, nº 2, jul/dez 2019, 7 p. 
 
MACHADO, Ubiratan: Dicionário de Machado de Assis, Rio de Janeiro/São Paulo: Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Imprensa Nacional de Portugal, 2ª edição, 2021 
 
WIKIPEDIA: verbete Obra de Machado de Assis 
 
___________: verbete Páginas Recolhidas 
 
___________: verbete Machado de Assis