sexta-feira, 17 de abril de 2009

Elogio fúnebre em memória de LEONARDO PARDINI JOTA


Por Francisco José dos Santos Braga

Há mortes e mortes. Há mortes que são uma bênção de vida, pois não deixam saudade. Por outro lado, há aquelas mortes que nos amputam um pouco da vida. Essas deixam profundas marcas.

No dia 9 de março, às 21h 30 min, faleceu, após vinte dias de permanência numa U.T.I., num hospital em Divinópolis-MG, o pai de minha esposa Rute Pardini, vítima de falência múltipla dos órgãos. Desde a internação, o diagnóstico médico não deixara dúvidas quanto a uma improvável recuperação de Leonardo Pardini Jota, com 76 anos, já que o quadro evoluíra de um mal de Alzheimer que se instalara há dois anos antes, para uma pneumonia progressiva.

Nos últimos encontros, via-o alto, esguio, sempre silencioso e alheio àquele ambiente tumultuoso que o cercava. Parecia que a doença lhe punha nas feições macilentas uma dolorosa expressão, impossível de comunicar-se. Era como uma sombra evadida às regiões do além-túmulo. Já não se alegrava com minha chegada, que antes era tão comemorada. Também já não assobiava, nem contava seus casos intermináveis, sempre repletos de humor e de curiosos desfechos. Um bater secreto do coração me advertia cá dentro que não duraria a sobrevida daquele boníssimo amigo.

Embora Rute e eu estivéssemos acabrunhados e entristecidos pela situação de piora que presenciávamos exigindo nossos deslocamentos permanentes àquela cidade, tomamos conhecimento do último suspiro do Leonardo após o jantar num restaurante em São Paulo, aonde fôramos nos tratar. Não conseguindo consolá-la neste momento de aflição, levei-a ao encontro de minha irmã buscando o apoio de seu carinho.

Na manhã seguinte rumamos para a cidade mineira para trazermos, ao amigo que tantas vezes nos visitara em Brasília, nossa última despedida. Nossa viagem foi tensa e entrecortada por soluços de ambos os lados, enquanto revivíamos na memória os momentos felizes que tivemos na companhia daquele que então realizava sua "última viagem".

Quando lá chegamos, o corpo de nosso amigo estava sendo velado num bairro afastado. Rute não quis falar com conhecidos que se encontravam postados na rua, em frente ao salão do velório. Entrando resoluta, dirigiu-se imediatamente ao caixão, e tomando as mãos do seu velho pai, cantou "a cappella", em sua homenagem, a ária "Ebbene? ... N' andrò lontana" da ópera "La Wally" de Alfredo Catalani, levemente adaptada e alterada para as circunstâncias. Em língua vernácula assim ficou o que ouvimos em italiano naquela hora emocionante:

E então?... Eu irei para longe,
como vai o eco do sino piedoso
lá, no meio da neve branca,
lá, no meio das nuvens douradas;
lá onde há esperança, longe de
tanta lamentação e tristeza.

Ó casa alegre da minha mãe,
papai irá p'ra longe de você,
de você também p'ra longe,
e a você, a você
nunca mais eu voltarei,
nem você vai ver-me de novo!
Nunca mais, nunca mais!

Eu irei sozinho e p'ra longe,
como é o eco do sino piedoso,
lá no meio da neve branca;
eu irei, irei sozinho e p'ra longe!
e no meio das nuvens douradas!

Mais tarde, Rute me disse porque, num arroubo de tristeza e emoção, naquela tarde memorável, se decidiu por tal ária: "A letra é belíssima (refere-se a uma moça chamada Wally), que eu adaptei para meu paizinho nesta hora de despedida. Ele sempre valorizou a minha arte. Só não pude mostrar-lhe minha gratidão com toda a nitidez naquela hora por estar tomada de soluços e dor. Naquele momento tudo o que eu conseguia era cantar, e não rezar. O que ele mais gostava era ficar em silêncio ouvindo-me cantar. E ali, naquele silêncio de morte, eu cantei só para ele pela última vez, em despedida."

Naquele transe emotivo, não pôde conter-se e cantou ainda "O mio babbino caro" da ópera "Gianni Schicchi", de autoria de Giacomo Puccini. Nesse caso, a sua explicação para a escolha foi apenas a súplica que se faz ao final da ária: "Babbo, pietà, pietà! " (Papai, tenha piedade, tenha piedade!). "Senti-me fraca e indefesa diante daquele pai tão seguro que me abandonava", contou-me depois.

Leonardo Pardini Jota, meu sogro, será lembrado pelo ótimo exemplo que deixou para esposa, filhos, amigos e conhecidos. Trabalhador incansável, foi um guerreiro, educando para o bem seus dez filhos, aos quais nunca faltou o alimento. Jamais se descuidou do bem estar deles, mesmo diante das maiores agruras que passava. Homem pobre, com talento mas sem diploma, colocou os braços e a inteligência a serviço da grande família que Deus o agraciou: brinquedos os fazia em madeira, ferro e barro para os filhos pequenos, pois não tinha com que comprá-los em lojas.

Dotado de talento nato para as invenções, levantou ele próprio os fornos para sua fábrica de farinha. Depois construiu sozinho prensas para amassar a farinha de mandioca. Ainda montou máquinas picadeiras de cana. Finalmente fabricou móveis de ferro para alpendre de fazendas. Seus últimos vinte anos de vida ativa dedicou-os, como representante comercial, a viagens pelas cidades de Minas, vendendo vidros.

Certamente será lembrado ainda como fino contador de casos, escolhendo os pequenos grupos para levá-los às gargalhadas. Gostava especialmente de reunir as pessoas a seu redor, sobretudo quando comemorava seu aniversário em família rodeado pelos seus, ocasião em que todos cantavam e tocavam instrumentos musicais improvisados no momento. Impossível esquecê-lo como organizador das inesquecíveis e animadas festas juninas. Sua fogueira...

"Um quê misterioso aqui me fala,
Aqui no coração", diria Gonçalves Dias *.

Católico fervoroso, muito temente a Deus, deu muitas demonstrações de amor ao próximo, alimentando vizinhos pequenos miseráveis e acolhendo em sua casa muitas pessoas carentes de sua caridade.

Do que presenciei e ouvi, pus-me a fazer algumas reflexões, não exatamente na ordem que as coloco nos próximos parágrafos.

Inicialmente, relembrando meus tempos de infância, tive saudade dos elogios fúnebres que eram tão frequentes na hora dos sepultamentos e que hoje em dia têm se rareado ou simplesmente caíram no olvido. Que honra para mim ter participado, através de inúmeros elogios fúnebres que presenciei, da comemoração da passagem de uma grande alma pela terra! Nessas ocasiões, o orador estendia-se sobre as virtudes do falecido, relembrando com rasgo de eloquência os seus principais atos de bondade, bravura, nobreza de caráter ou desprendimento, inscrevendo o seu nome nos fastos da história.

Agora, ali, naquele velório, de certa forma estava eu percebendo, na voz de uma cantora lírica e na sua espontaneidade, o mesmo arroubo que dominava esses grandes oradores transidos de dor no momento do enterro.

Depois, lembrei-me do generoso necrológio de Franz Liszt publicado na Gazette Musicale em 23 de agosto de 1840, quando da morte de Nicolò Paganini em Nice. Tinha então 28 anos o magistral pianista húngaro. Naquela histórica matéria, depois de pagar tributo à estonteante virtuosidade do violinista ("um milagre que o reino da arte só viu uma vez"), Lizst sentiu a necessidade de emitir algumas ressalvas, em especial sobre o egoísmo do epigrafado: "Seu deus nunca foi outro senão seu próprio melancólico, triste 'Eu' ".

Defendendo que a arte deveria ser mais do que uma virtuosidade a serviço de si mesma, Liszt formulou seu imperativo característico Génie oblige! (isto é, que o gênio preste serviço!), pelo qual a pessoa possuidora de gênio estaria especialmente obrigada a servir o restante da humanidade não tão bem dotada. E Liszt finaliza com essas palavras: "Possa o artista do futuro alegre e prontamente recusar-se a representar o papel presunçoso e egoísta que tenha tido em Paganini seu último representante talentoso. Possa ele colocar o seu objetivo dentro, e não fora, de si mesmo, e seja a virtuosidade o seu meio, e não o seu fim. Possa ele lembrar-se constantemente de que, embora o ditado seja Noblesse oblige! **, num grau muito mais elevado do que a nobreza, o Génie oblige!" A própria carreira de Liszt, então e mais tarde, ofereceu alguns exemplos eloquentes do bem que pode advir quando a arte é desviada de si mesma e dirigida ao benefício da humanidade em geral. (Cf. pág. 177 do livro II (The Growing Virtuoso, 1830-1834), de Walker, Alan: Franz Liszt, The Virtuoso Years, 1811-1847 em 4 livros (Revised Edition) disponível para visualização na Internet).

Em seguida, lembrei-me de que o tema da morte é muito interessante em Epicuro. Dizia ele: "Acostuma-te nesta questão a pensar que para nós a morte nada é, pois todo o bem e todo o mal residem na sensação, e a morte é a erradicação das sensações." Esse filósofo tem uma percepção naturalista, baseada na sua prática de convivência íntima com a natureza (=physis), recorrendo constantemente à Escola Atomística, mecanicista, democritiana. Para ele, os seres vivos um dia morrem (biologicamente, a tese confirma-se, salvo a rara exceção dos seres unicelulares ou átomos que, segundo observações científicas, são imortais). Consciente deste fato, o sábio não espera nem desespera pela morte: "Estúpido é aquele que afirma ter medo da morte, não porque sofrerá ao morrer, mas por sofrer com a ideia de que ela há de chegar. É verdadeiramente em vão que se sofre por esperar qualquer coisa que não nos causa qualquer perturbação! Assim, o mais temível dos males, a morte, nada tem a ver conosco: quando somos, a morte não é; quando a morte é, somos nós que já não existimos!" Consequentemente, a serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte, pois todo mal e todo bem se acham na sensação, e a morte é a ausência de sensibilidade, portanto, de sofrimento. Nunca nos encontraremos com a morte, porque quando nós somos, ela não é, e quando ela é, nós não somos mais.

É compreensível que Epicuro não tema de modo algum a morte, mas o sofrimento em vida. É em vida que o corpo sente e é em vida que o homem deve aprender a evitar os sofrimentos maiores, procurando dominar (sem tentar evitar) as sensações.

A filosofia é a arte da vida. Precisamente, é tarefa do conhecimento do mundo e da física - diz Epicuro - libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida, da morte, do além-túmulo, de Deus e fazer com que ele atue em conformidade com esse conhecimento adquirido.

Embora Epicuro tenha deixado poucos seguidores no mundo clássico e depois (pode-se citar, além de seus discípulos Metrodoro, Polistrato, Apolodoro, Fedro e outros, Tito Lucrécio Caro no século I A.C., poeta entusiasta que venerava Epicuro como uma divindade e autor de De rerum natura), houve todavia, em todos os tempos e lugares, homens famosos, pertencentes às mais diversas classes sociais, os quais aplicaram a sua doutrina à própria vida e dela fizeram a substância de sua arte.

Finalmente, faço ainda outra consideração, ao constatar que a morte é uma experiência universal: não há ser vivo que não morra. Entretanto, somente o ser humano tem plena consciência de sua condição mortal, e é por ser consciente disso que ele se interessa e se preocupa tanto com o tema da morte. Absurdamente, ela é uma entidade temida e negada pela nossa sociedade, constituindo um tabu em nossa cultura ocidental. A morte, dentro dessa moldura social, tornou-se um ato solitário, mecânico e desumano, e diante dos avanços tecnológicos que levaram à sua medicalização, passou a ser objeto quase exclusivo de médicos e para-médicos despreparados para o importante momento da longa viagem ao infinito que terá que ser enfrentado individualmente por todos nós. Mais do que universais, a morte e o morrer são principalmente experiências individuais, que não se resumem tão simplesmente a processos médico-biológicos, mas sim a um complexo emaranhado de dimensões sociais, mentais e espirituais.

Numa de suas encantadoras crônicas intitulada "Les Jardins de l'Histoire", narra-nos Jules Clarétie *** a impressão que lhe causou uma visita a Léon Gambetta, na sua casa de Bordeaux. O velho ex-primeiro-ministro e bravo soldado da Franca, só, ao fundo de uma poltrona, no meio de uma imensidade de papéis, os lia e ia rasgando tudo o que lhe parecia inútil, atirando a uma cesta já quase cheia. Clarétie, que o imaginava vencido, cansado, sem esperança, ouviu-lhe, a uma interpelação que lhe fizera, estas palavras:

—«Fatigado, certamente, meu amigo; desesperado, nunca. Até breve e para a frente! »

E conclui o judicioso cronista: "Ambicioso somente do bem da Pátria, zeloso e altivo dos destinos da França, Léon Gambetta, esse sentimental tão seguro como um matemático, deveria dizer, todavia, e certamente se dissera, que uma hora chega sempre em que a justiça tem de ser feita ao homem de boa fé e leal."

Não lhes parece, meus leitores, que ao meu saudoso amigo Leonardo, cuja perda hoje lamento, se possa aplicar muito bem este conceito que para o grande político francês escrevera o elegante Clarétie? E que, chegada essa hora da justiça póstuma, caiba a mim a glória de, pelo menos, reabilitar a sua digna memória?


* Gonçalves Dias, A.: Obras Poéticas, II, p. 27, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1944.
** A expressão Noblesse oblige! é geralmente usada para significar que com a riqueza, o poder e o prestígio vêm também responsabilidades. Assim, quem quer que reivindique ser nobre precisa conduzir-se com nobreza, subentendendo-se que uma pessoa nobre presta serviços a outros, não por ganho nem reconhecimento, mas simplesmente porque é a coisa certa a ser feita.
*** Jules Clarétie (1840-1913) foi historiador, cronista, romancista, autor dramático, jornalista e crítico dramático dos jornais Figaro e Opinion Nationale. Em parceria com Henri Cain, escreveu o libreto para a ópera "Navarraise" de Jules Massenet. Foi correspondente de guerra durante a Guerra Franco-Prussiana e, durante a Comuna, atuou como oficial de staff na Guarda Nacional. Foi, além disso, diretor da Comédie-Française a partir de 1885 e foi eleito membro da Academia de Letras em 1888.



* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

6 comentários:

Anônimo disse...

Oi Franz,

Muito bonito o artigo. Excelente
a analogia com a morte. Lizt,
Epicuro(grande lembrança)e Jules
Clarétie(não conhecia) enaltecem
e revivem com singela clareza a
problemática da "morte".
Que "Seu Leonardo" esteja em paz
e na luz!!!

Rafael Braga

Ávila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ávila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ávila disse...

Apreciei o seu belo elogio à memória de Leonardo Pardini Jota, caro conterrâneo, amigo e confrade dr. Francisco Braga!
Emocionou-me as suas palavras escritas, e, mesmo não estando presente no velório, pude "ouvir", através deste seu belo (triste) e bem fundamentado artigo, a ária que Rute Pardini dedicou ao finado pai.
Descanse em paz, sr. Leonardo!

Marina Vilela disse...

Magnífico e emocionante, muito lindo o artigo!
Vovô Leonardo sempre estará na memória dos amigos e familiares.
Saudades.

Anônimo disse...

Um ato muito nobre. Palavras muito bem escritas. Parabéns.