segunda-feira, 30 de abril de 2012

MAX UND MORITZ ("Juca e Chico") NA OBRA DE WILHELM BUSCH


Por Francisco José dos Santos Braga






I.  INTRODUÇÃO


Antes de finalizar-se o mês de abril, gostaria de prestar minha homenagem ao pintor, desenhista e poeta alemão Wilhelm Busch, nascido em 15 de abril de 1832, em Wiedensahl, na Baixa Saxônia. No último 15 de abril, comemorou-se o 180º aniversário de seu nascimento e em 4 de abril, pela primeira vez, foi publicada "Max und Moritz" há 147 anos atrás (1865). De lá para cá, as aventuras dos dois peraltas de W. Busch já foram publicadas em quase 300 idiomas. Um dos maiores clássicos da literatura infantil da Alemanha, seu livro "Max und Moritz: eine Bubengeschichte in sieben Streichen" ("Juca e Chico: História de dois meninos em sete travessuras", em célebre tradução de Olavo Bilac), teve a sua 1ª edição no Brasil em 1901, publicada pela Editora Laemmert. A partir da 4ª edição, de 1911, "Juca e Chico" passou a ser publicado pela Livraria Francisco Alves. Em 1943, o livro mudou novamente de editora, passando para as Edições Melhoramentos, onde atingiu 12 edições, até 1955.

Esse trabalho de Busch pode ser considerado responsável indireto pela criação de Mickey Mouse, já que Steamboat Willie, o primeiro camundongo de Walt Disney, em 1928, foi inspirado em um cartoon de 1897 que apareceu no New York Journal intitulado "The Katzenjammer Kids" ("Os Sobrinhos do Capitão" no Brasil) ¹ . Os referidos sobrinhos chamavam-se Max e Fritz.

Apesar de Busch ser considerado o "ancestral dos quadrinhos alemães", sua obra é mais atual do que nunca, pois além dos personagens que criou, também ficaram muito famosas suas "charges" sobre os costumes alemães. Muitas de suas tiradas caíram na boca do povo e até hoje ecoam nos anais do imaginário popular por meio de expressões e frases de efeito. É tido como pioneiro da "Nona Arte" entre os alemães.

Além das obras literárias de Busch que serão vistas nos textos constantes do presente artigo, posso acrescentar que ele pintou cerca de mil quadros a óleo, tendo sido também escultor de algumas obras de arte. Mas o que o fez passar à História foram as suas histórias satíricas ilustradas com textos em verso, muito próximas ao dia-a-dia das pessoas. Os seus trabalhos mais conhecidos foram, dentre outros: Max und Moritz (dois meninos peraltas, Juca e Chico na imortal tradução por Olavo Bilac da obra precursora dos quadrinhos, aparecida em Munique em 1865), Die fromme Helene (A piedosa Helena-1872), Plisch und Plum (dois cães abusados-1882), Hans Huckebein, der Unglücksrabe (Hans Huckebein, o corvo infeliz-1867), Die kühne Müllerstochter (A corajosa filha do moleiro), Maulwurf (A toupeira), Fipps der Affe (traduzido para o português como Rico, o mico-1879) e Knopp-Trilogie (3 obras, em que o personagem central é o gordão Tobias Knopp, intituladas "Aventura de uma jovem", "Sr. e Sra. Knopp" e "Julchen, o bebê"-1875 a 1877). ²


II.  MINHA TRADUÇÃO DE "WILHELM BUSCH", texto assinado por Rieke C. Harmsen ³

Wilhelm Busch



Rieke C. Harmsen *

A história dos peraltas Max e Moritz está entre as obras mais conhecidas da literatura infantil alemã. Ela foi traduzida em quase trezentos idiomas, foi por outros autores parodiada e dramatizada, tendo recebido arranjo musical. Hoje mal se pode imaginar que o criador Wilhelm Busch, em 1865, tivera a maior dificuldade para publicar a sua história de dois meninos em sete travessuras.

Naquela época, com 33 anos de idade, ele tinha ilustrado justamente quatro histórias, que mal se vendiam. Quando Busch apresentou "Max und Moritz" a seu editor Ludwig Richter, este nem sequer quis imprimir a obra. Busch precisou procurar outro editor. Kaspar Braun, o editor do jornal "Folhas Voadoras", pagou mil florins em espécie — para alegria de Busch, que há tempos não ganhara nenhum dinheiro. O editor tinha um faro certo: dez anos mais tarde, as histórias ilustradas de Wilhelm Busch eram conhecidas em todo o mundo.

Olhar impiedoso sobre a sociedade


Na luta (de Busch) por espaço numa edição do New York Journal, o magnata do jornalismo Randolph Hearst impulsionou a popularidade de Max und Moritz, ao contratar o cartunista Rudolph Dirks com uma adaptação. The Katzenjammer Kids surgiram em 1897 no suplemento do jornal de domingo. Eles são, de certa forma, os herdeiros do artista Busch — e consituem um marco na história dos quadrinhos. Wilhelm Busch era um artista desajustado. As suas histórias ilustradas são cruéis e às vezes estranhas também. Gatos têm o seu rabo queimado, as pessoas são massacradas, vão pelos ares ou são penduradas pelo nariz com um anel. Busch tem um olhar impiedoso para a sociedade e os abismos da alma humana.

As histórias se tornam fascinantes através da interação entre imagem e texto. O risco do desenho é exato e rápido, não obstante as caricaturas deixarem também descobrir muita coisa numa segunda olhada. Além disso, há o grande talento de Busch para manejar cadência poética e idioma, bem como elementos onomatopaicos. As relações simples que Busch desenhava em suas histórias ilustradas, ele as conhecia por sua própria experiência: Busch nascera em 15 de abril de 1832 no vilarejo Wiedensahl, no então Reino de Hannover, como primogênito de sete crianças. O pai, um merceeiro, enviou Busch com 9 anos de idade a um tio, o pastor evangélico Georg Kleine. A viagem de carruagem até Ebergötzen, perto de Göttingen, demorou três dias.

Antes artista do que engenheiro mecânico


Quando Busch voltou à sua casa pela primeira vez depois de três anos, nem mesmo a sua mãe o reconheceu mais. O menino estava sendo bem tratado na casa do tio; ele recebia aulas particulares, lia poemas e aprendia a desenhar. Com o seu amigo, o filho do moleiro Erich Bachmann, vagava pelos arredores. Com quinze anos de idade, por vontade do pai, Wilhelm Busch iniciou um curso de engenharia mecânica na Escola Politécnica de Hannover. Mas Busch preferia ser artista: em 1851 ele fez sua transferência para a Academia Real de Antuérpia, para estudar mestres antigos como Rubens, Brouwer e Teniers.

O ensino acadêmico não agradou nada a Busch; este moço duvidava de seu potencial artístico. Após uma grave doença de tifo, Busch voltou em 1853 sem recursos à sua terra natal. Semelhante aos Irmãos Grimm, ele começou a coletar lendas e contos da região. A arte não o deixava em paz; Busch convenceu o seu pai a dar-lhe dinheiro pela última vez, a fim de estudar na Academia de Artes de Munique. Na capital bávara ele ficou conhecendo Caspar Braun, o editor do semanário satírico Die Fliegenden Blätter (As Folhas Voadoras) e o Münchener Bilderbogen (Folha Ilustrada de Munique).

Finalmente sucesso


Busch tornou-se seu assistente e publicou suas primeiras histórias, entre elas Os ladrõezinhos de mel ou O pequeno pintor com a grande pasta. Finalmente Busch obteve sucesso: agora apareciam histórias ilustradas completas. Após Max e Moritz seguiram Santo Antônio de Pádua (1870), A piedosa Helena (1872) e Pater Filucius (1872), obras anticlericais com humor mordaz e referências a pessoas vivas. Algumas obras, como a história Monsieur Jacques à Paris durante a ocupação ocorrida no ano de 1870, aparecida durante a guerra franco-prussiana, são tão odiosas e malvadas, que hoje se prefere ignorá-las. Também não se pode negar a posição anti-semita de Busch em algumas de suas obras, como em Plisch e Plum.

Com quarenta anos de idade Busch se tornara uma personalidade conhecida, graças às suas histórias ilustradas. Durante toda a sua vida, ele não encontrou alguém para casar. O artista pintava também paisagens e retratos e escrevia poemas e textos em prosa. Busch publicou em 1874 a obra poética Crítica do Coração; em 1891 seguiu o romance O sonho de Eduardo e, em 1895, A borboleta. Quanto mais Busch envelhecia, mais ele se retirava da vida pública.

Na sua terra-natal Wiedensahl ele encontrou a paz que buscava, mas sofria de falta de apetite e de insônia, possivelmente também por ter sido fumante compulsivo por muitos anos. Os últimos anos de sua vida ele passou com parentes em Mechtshausen, em Harz, escrevendo poemas e observando a natureza. Wilhelm Busch faleceu em 9 de janeiro de 1908. Hoje o Museu Wilhelm Busch de Hannover, bem como memoriais em Wiedensahl e Mechtshausen, lembram o "ancestral dos quadrinhos alemães".

* A autora é historiadora da arte e redatora do EPD-Evangelischer Pressedienst (Serviço de Imprensa Evangélico) em Munique. Copyright: Goethe-Institut e.V., Redação Online (out. 2009)


III.  CONTRIBUIÇÃO DO DIRETOR DO MUSEU WILHELM BUSCH DE HANNOVER

Além desse texto muito elucidativo, numa reportagem denominada "O mau, o errado e o feio em Wihelm Busch" da Deutsche Welle , o entrevistado, diretor do museu Wilhelm Busch de Hannover, Sr. Hans Joachim Neyer, à pergunta “A que se deve a grande popularidade de Busch na Alemanha do fim do século XIX?” deu a seguinte resposta: “Com seu jeito moderno, suas obras tinham algo de sensacional, algo pelo qual muitos representantes do clero se sentiam ofendidos. O problema é que Busch não aderia às normas estéticas clássicas, não escrevia sobre o verdadeiro, o belo e o bom, como o fizeram Goethe ou Lessing. Ele foi na direção diametralmente oposta ao focar o mau, o errado e o feio. E era isso o que a nova classe média emergente em um mundo industrial e capitalista queria ler. Eles queriam personagens novas.” 

Em seguida, na mesma entrevista, o entrevistador faz a observação de que Busch é geralmente descrito como “o avô das histórias em quadrinhos” e, como tal, teve grande influência fora da Alemanha. O entrevistado, corroborando a afirmação do entrevistador, citou as primeiras edições da série The Katzenjammer Kids de Rudolph Dirks, publicadas em 1897. Além de Dirks, citou o escritor norte-americano Robin Allen, que pesquisou os arquivos dos estúdios Walt Disney, tendo constatado que os primeiros desenhos de Mickey Mouse feitos por Walt Disney em 1928 – Steamboat Willie e Plane Crazy – foram diretamente influenciados pelo estilo grotesco dos desenhos de Busch.   

IV.  TRADUÇÃO DO PRÓLOGO DE "MAX UND MORITZ" POR OLAVO BILAC 

Finalmente, transcrevo abaixo o prólogo de "Juca e Chico", traduzido de forma bem livre pelo poeta Olavo Bilac:

Não têm conta as aventuras,
As peças, as travessuras
Dos meninos mal criados...
Destes dois endiabrados.

Um é o Chico; o outro é o Juca:
Põem toda gente maluca,
Não querem ouvir conselhos
Estes travessos fedelhos!

Certo é que, para a maldade,
Nunca faz falta a vontade...
Andar pela rua à toa,
Caçoar de uma pessoa,
Dar nos bichos, roubar frutas,
Armar brigas e disputas,
Rir dos homens respeitáveis,
São coisas mais agradáveis,
Que ir à escola ou ouvir missa...
Antes a troça e a preguiça!

Mas nem sempre a vadiação
Acaba sem punição...
Lede esta história: e, depois,
Vereis a sorte dos dois. 
 
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NOTAS DO AUTOR


¹  Katzenjammer é uma palavra de origem alemã cujo significado literal é "gemido de gato", podendo em sentido figurado significar som dissonante ou ruído, sendo geralmente utilizada para indicar um estado de depressão ou confusão mental, ou ainda para se referir ao estado de ressaca.

² Muitas obras de W. Busch podem ser lidas em língua alemã no seguinte endereço eletrônico: http://gutenberg.aol.de//autoren/busch.htm     
³  O texto deste artigo está disponível em língua alemã no seguinte endereço eletrônico: 
http://www.goethe.de/ins/jp/lp/de5285075.htm

O magnata do jornalismo William Randolph Hearst inspirou o personagem protagonista do filme de Orson Welles “Cidadão Kane” (1941), chamado Charles Foster Kane. Welles, além de diretor, foi roteirista e protagonista desse filme. Publicamente, Welles negava que seu filme fosse baseado na vida de Hearst. O fato é que o filme encontrou forte oposição por parte do magnata, pois ele julgava que a obra denegria sua imagem. Na realidade, não há dúvida de que há mesmo muitos pontos coincidentes nas biografias de Hearst e Kane. 

  Cf. “O mau, o errado e o feio em Wilhelm Busch” no seguinte endereço eletrônico: http://www.dw.de/dw/article/0,,2462464,00.html
 
  Agora apresento o texto do prólogo de "Max und Moritz" de Busch, que corresponde, em linhas gerais, à tradução do nosso maior poeta parnasiano: 

Ach, was muß man oft von bösen
Kindern hören oder lesen!
Wie zum Beispiel hier von diesen,
Welche Max und Moritz hießen,
Die, anstatt durch weise Lehren
Sich zum Guten zu bekehren,
Oftmals noch darüber lachten
Und sich heimlich lustig machten.
Ja, zur Übeltätigkeit,
Ja, dazu ist man bereit!
Menschen necken, Tiere quälen!
Äpfel, Birnen, Zwetschen stehlen
Das ist freilich angenehmer
Und dazu auch viel bequemer,
Als in Kirche oder Schule
Festzusitzen auf dem Stuhle.
Aber wehe, wehe, wehe!
Wenn ich auf das Ende sehe!!
Ach, das war ein schlimmes Ding,
Wie es Max und Moritz ging.
Drum ist hier, was sie getrieben,
Abgemalt und aufgeschrieben. 


Eis agora minha tradução quase literal que ofereço abaixo para o prólogo de "Max und Moritz": 

Quantas vezes a gente ouve falar
E lê sobre crianças malvadas.
Por exemplo, como aqui nesta história,
Dessas duas, cujos nomes são Max e Moritz,
Os quais, em vez de converterem-se ao bem
Mediante um sábio aprendizado,
Disso com frequência se riam 
E até troçavam às ocultas.
Claro, para o malefício
A gente está preparado.
Espetar pessoas, molestar animais!
Roubar maçãs, peras e marmelos,
Isto é com certeza mais agradável
E também muito mais cômodo
Do que estar preso a uma cadeira
Na igreja ou na escola.
Puxa, ó Deus, ó céus!
Se eu vislumbrasse o futuro!
Ah, foi uma coisa horrível
O que se passou com Max e Moritz.
Este livro trata do que eles criaram,
Pintaram e anotaram.

"Max und Moritz" pode ser lido tanto em alemão quanto em inglês, completamente ilustrado e a cores, no seguinte endereço eletrônico:  
http://www.fln.vcu.edu//mm/mmmenu.html
ou ainda no seguinte link:  
http://www.gutenberg.org/ebooks/17161

Em língua portuguesa, na tradução de Olavo Bilac, "Juca e Chico" pode ser lido, clicando o seguinte link:  
http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/LiteraturaInfantil/jcindice.htm




9 comentários:

musse hallak disse...

Só um Blog desta envergadura é que podemos conhecer estas pérolas.

Conhecia o poema de Olavo Bilac mas, jamais imaginaria de onde viera a sua inspiração.

Feliz lembrança e divulgação de Busch.É um daqueles mais um gênio que o Criador colocou no mundo para sempre lembrármos que "DEUS EXISTE".

Elza de Moraes Fernandes Costa disse...

Olá, Braga.
Realmente ele é merecedor de homenagens.
Parabéns pelo maravilhoso artigo!
Um abraço,
Elza de Moraes Fernandes Costa
Portal Concertino

Carlos Fernando Braga disse...

Francisquinho,
Boa tarde. Meus parabéns. Ficou excelente. Tiro o chapéu. Beijos Nando

José Ribas disse...

EXCELENTE ARTIGO, CARO AMIGO BRAGA.
ABS,
RIBAS

Adriano Benayon disse...

Caro Braga,
Parabéns por mais esse trabalho cultural dos mais interessantes, em que certamente você empregou muito trabalho de pesquisa.

Além disso,certamente você e Rute continuam ativos no campo musical.
Abraços,
Adriano Benayon

Antonio Molina disse...

Boa Tarde, Amigo !!!
Parabens , Muito bom !
Antonio Molina

Teresinha Syllos disse...

Prezado amigo,

Seus textos são muito interessantes, gosto muito!
Atenciosamente,
Teresinha Syllos

Edgar Rodrigues de Lima disse...

Professor Francisco Braga,
Muito obrigado pelo mail. É um assunto que me interessa muito sob o
ponto de vista da produção de desenhos e textos.

Os assuntos desenhos e histórias em quadrinhos, são do meu interesse no sentido de que quero atualizar a minha dissertação de mestrado que teve como tema: Cinema a arquitetura do efêmero. Onde procuro analisar a origem das expressões gráficas e como estas foram permitindo, ao longo do tempo, um novo espaço ocupado, edificado e o urbanizado. As outras questões têm a ver com a nossa capacidade perceptiva e do uso do cinema com antecipador do futuro imediato por exemplo.

Algumas das minhas coisas estão no meu blog
edgarrodrigueslima.blogspot.com.br e tenho atualizado meu curriculum
na Plataforma Cesar Lattes.

Abraço,
Edgar Rodrigues de Lima

Evagner santos disse...

Parabéns Braga pelo ilustre Blog.. AMO ÓPERA.