quarta-feira, 20 de maio de 2015

QUE HORROR! VEJAM COMO VÃO ENSINAR AS CRIANÇAS DO 5º E 6º ANOS DO CURSO PRIMÁRIO A ESCREVEREM, A PARTIR DO NOVO ANO LETIVO

Por Francisco José dos Santos Braga



 I.  INTRODUÇÃO

O texto em grego que se lerá abaixo na minha tradução me foi gentilmente enviado pelo Prof. Alexandre Orfanídis, residente em Atenas, motivando-me, de certa forma, a traduzi-lo e a procurar material que constituiria o contraditório, na própria Internet. 

O texto em si (que está nas redes sociais desde 2012), anônimo, corresponde a um suposto ataque de pessoas letradas e mães de alunos do 5º e 6º anos do curso primário, indignados com a extrema simplificação da língua grega escrita no alfabeto "fonético", promovida pelo governo representado por seus ministros da Educação que, em última análise, são os que baixam portarias oficializando o material didático a ser utilizado no ensino da Língua Grega, o que na opinião dos primeiros constitui uma deformação, aleivosia ou crime de lesa-pátria, suprimindo a Gramática tradicional. Por outro lado, é apresentado aqui também o contraditório: a posição do ex-ministro da Pasta da Educação, Sr. G. Bambiniótis, e do presidente do Centro de Língua Grega, oficialmente o conselho científico do Ministério da Educação grego. ¹

Acredito que esse tema seja de interesse para todos os que nos preocupamos com problemas linguísticos, recomendando sempre muita cautela e bom senso por parte de acadêmicos e de comissão de entendidos na hora de conduzirem estudos propondo reformas linguísticas, conforme já tive a oportunidade de mencionar em artigo anterior intitulado "Implicações da Reforma Ortográfica da Língua Grega em 1976", de minha autoria. ²

A tradução que ofereço abaixo para o texto grego e para as referências em inglês é de minha inteira responsabilidade.

II.  TEXTO


QUE HORROR! VEJAM COMO VÃO ENSINAR AS CRIANÇAS DO 5º E 6º ANOS DA ESCOLA PRIMÁRIA A ESCREVEREM, A PARTIR DO NOVO ANO LETIVO  ³


Os traidores da nação só sabem uma coisa: que tudo será eficientemente destruído. O que não sabem, contudo, é quando virá a sua própria destruição...!!!

De acordo com as novas "regras" de 2012 já aprovadas pelo Ministério da Educação, eis como vão ensinar as crianças gregas do 5º e 6º anos da escola primária a escreverem, a partir do próximo ano letivo. Já eliminaram a disciplina de Gramática da nossa Educação.

Fragmento de uma redação escolar com o novo 
alfabeto "fonético" das 5 vogais e das 15 consoantes


Minha transcrição (para o demótico padrão) do texto acima escrito com o novo alfabeto "fonético", para fins de comparação:


Είμαι η Ειρήνη και πηγαίνω στην πέμπτη δημοτικού. Αγαπώ πολύ το σχολείο μου και είμαι καλή μαθήτρια. 'Οταν τελειώσει το σχολείο, θα πάμε στο χωριό της θείας μου. Μας ειδοποίησε η ξαδέρφη μου ότι η θεία είναι πολύ άρρωστη. Λυπήθηκα.
Ο ξάδερφός μου είναι στρατιώτης και ο θείος μου ψαράς. Και στο χωριό όλα ευωδιάζουν και έχει και μια ωραία εκκλησία. 'Οταν μεγαλώσω θέλω να γίνω ηθοποιός.

Trad.: Sou Irene e vou ao 5º ano da escola primária. Gosto muito da minha escola e sou boa aluna. Quando terminar a escola, iremos à aldeia da minha tia. Minha prima nos informou que titia está muito doente.  Fiquei triste.
O meu primo é soldado e o meu tio, pescador. E na aldeia tudo é aromático e há também uma bonita igreja. Quando crescer, quero virar atriz.
––––––––––––––––––

Este pequeno exemplo é de arrepiar. Todos quantos (dizem que) se interessam pelo futuro da língua grega mas também das nossas crianças já deveriam ter-se rebelado! Mães gregas, salvem suas crianças: exijam a aula de Gramática!

Enquanto todos reconhecem as palavras  A Educação constitui o maior investimento para o futuro do país , na prática fazem o que podem para desacreditá-la. Com uma incrível precipitação e leviandade, o governo vem sem diálogo, sem um consenso mínimo demolir uma série de reformas que tinham sido decretadas em passado recente, pela primeira vez talvez com o mais amplo apoio parlamentar. Mudanças, que não tiveram suficiente tempo de serem postas em prática nem de serem avaliadas, retroagiram a um regime da década de 80, que, quando foi posto em prática, pode ter funcionado por impulso, mas hoje, depois de décadas de experiência, se revelou ultrapassado e ineficaz.

Sem qualquer preparativo, sem diálogo, instituições como as escolas experimentais e as regulares, que comprovadamente foram exitosas, são derrubadas porque não combinam com as ideologias dos ministros que estão à frente da Educação.   O mesmo se dá com os Conselhos das universidades e o status quo de eleição dos reitores, para retrocedermos à partidarização, que tantos males tem amontoado no espaço da Educação nas últimas décadas. É deletada completamente a experiência internacional, enquanto se suprime até mesmo a votação eletrônica, para retroagirmos ao estado em que as minorias organizadas puderem impor sua vontade. Em vez de o governo procurar o que acontece nas melhores universidades estrangeiras, ao invés de ouvir o parecer de dezenas de cientistas gregos que ensinam em universidades de ponta mundo a fora, opta por adotar o que houver de modelo mais anacrônico, de mais fracassado para ... mudar a Educação. Com expedientes precipitados, sem nenhuma margem de diálogo, contra o mais importante segmento da comunidade docente, mas também da opinião pública, como ao menos está registrado nas pesquisas de opinião , o governo e os ministros de Educação individualmente, sem solucionarem os problemas, se preparam para criar outros ainda maiores. Enquanto ainda houver tempo, caso haja alguns ajuizados no governo e na maioria parlamentar, que apliquem o freio aos planos de demolição...


III.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Como a língua inglesa é de uso mais extensivo e intensivo do que qualquer outro idioma do mundo, vou referir-me a ela aqui, supondo, de forma mais direta, analisar a correlação existente entre ortografia e pronúncia, na citada língua. 

A primeira observação é que a correlação entre ortografia e pronúncia em inglês é notoriamente irregular, ou seja, em inglês o mesmo grafema (letra) não corresponde sempre ao mesmo fonema (som), resultando daí dificuldades enormes para o aprendizado e a pronúncia da língua pelo falante não nativo. Não é apenas a pronúncia que se torna difícil para os estrangeiros, mas também a ortografia constitui um verdadeiro problema para os que falam inglês como língua materna, especialmente para as crianças em escola de primeiro grau.

Essa constatação levou o dramaturgo Bernard Shaw a escrever o seguinte no prefácio à sua peça teatral Pygmalion: "Os Ingleses não têm qualquer respeito por sua língua e não ensinarão seus filhos a falá-la. Soletram-na tão abominavelmente que ninguém consegue aprender como soa. É impossível para um Inglês abrir sua boca sem causar em algum outro Inglês ódio ou desprezo por ele. As línguas alemã e espanhola são acessíveis a estrangeiros: a inglesa não é acessível nem aos Ingleses. O reformador que a Inglaterra precisa hoje é um energético entusiasta fonético: essa é a razão por que eu o transformei no herói de uma peça teatral popular. (...) Mas se a peça tornar o público ciente de que há tais pessoas como foneticistas, e que eles estão entre as pessoas mais importantes na Inglaterra no momento, prestará seu serviço."

Relembrando: a peça Pygmalion, do irlandês George Bernard Shaw, escrita em 1913, conta a história de uma mulher do povo, Eliza Doolittle, transformada em dama da alta sociedade. Ela não passava de uma mendiga que vendia flores pelas ruas escuras de Londres em busca de uns trocados. Nessa sua rotina noturna, certa vez, Eliza conheceu um culto professor de fonética, Henry Higgins, que possuía incrível capacidade de descobrir muito sobre as pessoas apenas através de seus sotaques. Quando ouviu o horrível sotaque de Eliza, o foneticista apostou com o amigo Hugh Pickering que seria capaz de transformar a simples vendedora de flores numa dama da alta sociedade, dentro de seis meses. A peça teve várias adaptações, sendo a mais famosa a feita para o cinema com o nome My Fair Lady (Minha linda dama), um filme norte-americano de 1964, do gênero comédia musical, dirigido por George Cukor. 

Essa peça, e muitas outras da época vitoriana, baseia-se no mito do pigmalião, segundo Ovídio, poeta romano contemporâneo de Augusto. Segundo essa versão, Pigmaleão era um escultor e rei de Chipre que se apaixonou por uma estátua que esculpira ao tentar reproduzir a mulher ideal. A deusa Vênus teve pena dele que não encontrava na ilha uma mulher que chegasse aos pés da sua escultura em beleza e pudor e, atendendo a um seu pedido, transformou a estátua numa mulher de carne e osso sem nome (Galateia foi o nome que lhe deu o Renascimento), com quem Pigmaleão casou-se e, nove meses depois, teve uma filha chamada Pafos (nome atual de uma ilha a sudoeste de Chipre).

Após essa pequena digressão, voltemos ao tema da correlação entre ortografia e pronúncia em inglês. A explicação que [D'EUGENIO, 1982, 319] encontrou para a irregularidade verificada entre a ortografia e a pronúncia é que "a ortografia do inglês iniciou seu processo de padronização com a introdução da imprensa no início do século XVI e tornou-se fixa até as formas atuais durante o século XVIII com a publicação dos dicionários por Samuel Johnson (1755), Thomas Sheridan (1780) e John Walker (1791). Desde aquela época, a ortografia do inglês mudou apenas em pequenos detalhes, enquanto que a sua pronúncia sofreu muitas alterações grandes. Assim, hoje temos um sistema ortográfico estereotipado no século XVIII sendo usado para representar uma pronúncia do século XX."

Apesar desse reconhecido alto grau de irregularidade entre a ortografia e a pronúncia do inglês, não é considerado algo grave pelos Ingleses, conforme [CHOMSKY & HALLE, 1968, 49]: "A ortografia do inglês, apesar de sua inconsistência frequentemente mencionada, chega impressionantemente perto de ser um ótimo sistema ortográfico para os Ingleses." Isso porque os autores consideram ortografia "um sistema projetado para leitores que conhecem a língua, que compreendem frases e portanto dominam a estrutura superficial das frases."

² Cf. in http://bragamusician.blogspot.com.br/2013/03/implicacoes-da-reforma-ortografica-da.html

³  Este artigo circulou de forma anônima na Internet em 2012 na Grécia, mas agora, em 2015, reaparece com força total.
Cf. in http://www.diadrastika.com/2015/05/katarriptetai-katargsi-merikon-fonienton-symfonon.html
O ano letivo na Grécia começa em setembro.

   Por exemplo, em um artigo intitulado "Guerra sobre as... vogais", de Papamatthéou Márni, de 12/07/2012, veja o que diz sobre o assunto o Sr. G. Bambiniótis, ex-ministro da Educação, em seu site: "Pelo que sei, houve questionamento sobre quantas são as vogais em nossa língua. Cinco (5), como está escrito na nova gramática escolar (e na gramática de Triantafyllídis desde 1940! e na nossa gramática científica de Kléri-Bambiniótis de 2011), ou sete (7), como aprendemos nas mais antigas gramáticas escolares?"
E continua: "Resposta linguística científica: as vogais como fonemas são cinco (a, e, i, o, u). As letras com que os escrevemos são sete (αειη, ο, υ, ω) ou, mais precisamente, doze, se somarmos os dígrafos ει, οι, υι (que utilizamos também para a versão escrita do fonema /i/), o αι (para a versão do /e/) e o ου (para a versão do /u/). (...) 
Na mais antiga gramática escolar — antes do desenvolvimento da fonética e da fonologia na ciência da linguística , estavam confundidos os fonemas (sons que pronunciamos em nossa língua) com as letras (com as formas que representamos na nossa grafia os sons, isto é, os fonemas).
Na nossa língua pronunciamos cinco (5) sons vocálicos cinco (5) vogais , mas temos mais letras: sete (7) monogramas e cinco (5) dígrafos para declararmos, na grafia das palavras, as 5 vogais: para o fonema /i/ (considero-o foneticamente) que pronunciamos, por exemplo. na palavra πύλη (por razões que se relacionam com a etimologia e a ortografia histórica da palavra) utilizamos, na versão escrita da palavra, as letras υ e η. Para o fonema /i/ que pronunciamos na palavra θείοι usamos os dígrafos ει e οι.
Atenção! É pena — se não vergonha — retrocedermos, hoje no século XXI, aos erros, isto é, à confusão de sons e letras ou, de outra maneira, à confusão entre pronúncia e grafia, que foram feitos nas gramáticas mais antigas. Temos tantos outros problemas a enfrentar", concluiu o catedrático de linguística."

O presidente do Centro de Língua Grega, o qual constitui, pela lei, o conselho científico do Ministério da Educação, aponta as seguintes características:
Primeiro, "as letras do alfabeto grego, que usamos na linguagem escrita, são 24. Em consequência, não se elimina nem se suprime nenhuma letra no manual de ensino escolar."

Segundo, "os fonemas (ou sons) que são usados na linguagem falada distinguem-se em vogais e consoantes. Como unanimemente ensina a ciência da Linguística (desde a grande ou "estatal" Gramática de Triantafyllídis de 1940 até a de Kléri-Bambiniótis de 2011), as vogais, isto é, os fonemas vocálicos, são 5 (a, e, i, o, u), enquanto as letras, isto é, a versão escrita delas, são 12: sete monogramas (αειη, ο, υ, ω) e cinco dígrafos: os ει, οι, υι (para a versão escrita do fonema /i/), o αι (para a versão escrita do /e/), e o ου (para a versão escrita do /u/)."

Terceiro,  "em muitas gramáticas escolares mais antigas — pré-científicas se confundem os fonemas (o que pronunciamos) com as letras (o que escrevemos). Ao contrário, na 'Nova Gramática Grega do 5º e 6º Anos do Curso Primário' em uso, também é apresentada com simplicidade e precisão a distinção científica dos sons ouvidos e dos símbolos escritos, e a prática dos alunos na grafia correta é sistemática e analítica através de exercícios claros e apropriados. Aqui também se observa a tradicional e histórica ortografia (a que impõe a distinção qualitativa e aritmética de 'fonemas' e 'letras') e a verdade científica se expressa na totalidade."

Quarto, "a correção científica constitui a única base tanto para o ensino exato dos alunos gregos, quanto para a salvaguarda da Língua Grega".   


Cf. in http://ellinikahoaxes.gr/2015/05/11/greek-letters/


IV.  BIBLIOGRAFIA


CHOMSKY, Noam & HALLE, Morris: The Sound Pattern of English, New York: Harper, 1968.

D'EUGENIO, Antonio: Major Problems of English Phonology. Foggia, Italy: Atlantica, 1982.

9 comentários:

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Grato pelo seu texto. É um tema recorrente e que exige de nós reflexão. Saudações à Rute. Deus o guarde. Fernando Teixeira

Anderson Braga Horta (poeta, cofundador da ANE e de várias outras Casas de Cultura, membro da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil) disse...

Obrigado, meu caro, pelo interessante texto.
Mando-lhe também alguma coisa minha, de algum modo relacionada ao assunto.
São dois artiguinhos e uma “novela ortográfica” (anexos), precedidos desta mensagem:

Caros amigos:

Sou contra a nova ortografia, mas não acolho razões patrióticas (ou supostamente tais), políticas etc. Sou-o pela razão única de que o Acordo de 1990 é ruim, contraditório até mesmo em suas propostas de simplificação, pois em verdade complica, como, só para exemplificar, nas regras sobre o emprego do hífen e na admissão de grafias múltiplas. A justificativa de que seria um passo importante para a aceitabilidade do português como língua oficial da ONU parece-me improvável e pouco digna de consideração.
Sabedor de que se interessam pela questão, peço-lhes que abram os dois artiguetes que lhes envio, anexos, sob o título “Uma Dissensão Atual”.
À parte, brincando meio a sério, reinvento algumas regrinhas, embutidas num esboço de “novela ortográfica”...

Cordialmente,
Anderson Braga Horta

Sônia Vieira (pianista e membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Prezado amigo Braga,

Meu marido faleceu no sábado passado. Agradeço-lhe por ter incluído seu nome em suas preces.
Este artigo que o sr. acaba de me enviar, mostra-nos que há um plano mundial, promovido por governos "esquerdistas", para acabar com a educação, da mesma forma que ocorre atualmente nas escolas brasileiras, com o programa estabelecido pelo PT. É uma grande desgraça. Não podemos
ficar calados diante desta atrocidade.
Parabenizo-o por sua atitude e peço-lhe que observe o que está ocorrendo com o ensino no Brasil.
Carinhosamente, a amiga
Sonia Maria Vieira

Sérgio Vasconcelos Correia (compositor e membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Excelente, meu caro Braga. Parabéns!!!

Gilberto Mendonça Teles (poeta e crítico literário, autor de muitos livros, membro da Academia Goiana de Letras) disse...

Francisco Braga, Parabéns. Abraqço do Gilberto Mendonça Teles.

Benedito Eneas Moraes disse...

Agradeço o presente que me mandou. Desejo sucessos.

José Ribas da Costa Filho disse...

Caro Braga, apreciei seu artigo e, principalmente, a mensagem nele implícita. O caminho do saber é árduo, e não admite a "falsidade ideológica" da falta de esforço, característica dos tempos atuais. O sistema de cotas, a proibição de reprovação do aluno, as facilidades de obtenção de diplomas, toda essa utopia de sucesso escolar, só resulta em profissionais mal preparados e mal capacitados. Na Grécia os intelectuais se revoltam. Aqui buscam, eles também, auferir vantagens prejudicando a nação.
Abs
Ribas

Prof. José Luiz Celeste (professor universitário, ex-professor da EAESP-Fundação Getúlio Vargas, tradutor e pesquisador) disse...

Prezado:

Lembro-me de meu pai reclamando da mudança ortográfica de 1943.

---"Quer dizer que não é mais 'J-K-L-M...'? É 'J-L-M...' ...não está certo isso."

Eu mesmo sou de 43, era pequeno quando ouvi essa conversa. Naquela ocasião tiraram o K, Y e W do alfabeto e anatematizaram o enfoque etimológico. Quando estudei Gramática Histórica no 1º Clássico, o professor dizia horrorizado:

---" Vejam como escreviam 'tísica'...era "phthysyca" ...

Essa era a palavra-chave monstro citada para desmontar o critério etimológico. Até aí tudo bem, mas meu pai nunca se adaptou às mudanças. Sempre se confundiam o "z" com o "s", "g" com "j" , "ss" com "ç", etc. O cinema era "Jussara" mas na gramática era "juçara". E o mestre dizia:

--- "Luminoso de cinema não é gramática".

Mesmo assim lá pelos anos 80 puseram de volta as letras exiladas. Além disso, se você compulsar o Dicionário Etimológico de Silveira Bueno, escrito lá por 1960, verá que ele grafa "jussara" com "ss" e tudo o mais que venha do Tupi com som sibilante forte. Certa feita recebi uma descompustura do prof. de Português, na 2ª série do Ginásio, por responder que "misto" era com X ..."mixto"... Só que eu tinha lido num dos livros da biblioteca de casa... "mixto", "meza" etc. Era uma edição antiga de "Os Maias", encadernada de couro. Hoje fico pensando por que não levei o livro para o professor ver. Não era por saber menos que recebi nota baixa. Agora, Braga, imagine se eu (com meus 12 anos) tivesse levado "Os Maias" para o Colégio São Luís, onde estudava? Sairiam com uma vassoura atrás de mim...

Essa última mudança, a do Lula, me tornou pari passu de meu pai. Já não sei se uso hífen, se acentuo, se junto as palavras antes separadas por hífen. Me dá muita raiva. O sistema anterior estava bom, ótimo, digamos, pois hoje a coisa chega ao cúmulo de eu não saber como se pronunciam algumas palavras desconhecidas. Prá quê mudar? E olhe que lá está o Bechara, um homem honrado, parece.

Agora veja só. Isso é para descompor toda a turma da mudança, que continua de plantão. O Inglês é a língua de grafia mais antiga entre as modernas. Escreve-se de um jeito, fala-se de outro. Eles não mudam. Quem tiver a curiosidade de estudar a Teoria da Informação, no sentido de Shannon, vai verificar que esse mesmo Inglês, arcaico na grafia, é o idioma que possui a menor entropia entre as principais línguas ocidentais. Menor entropia significa menor nível de redundância. É a Língua mais enxuta. Mais que o alemão, que o francês, que o espanhol, que o italiano. Então fica demonstrado que é besteira mudar isso ou aquilo na grafia. A grafia é uma convenção, só vai passar de uma convenção para outra, trocar seis por meia dúzia. A simplicidade dos mutantes não é nada simples, só tiraniza quem trabalha, e enriquece os editores, que veem (Ó maravilha!) lucros álacres derramando-se em cascatas de novas edições de livros didáticos.

Abçs,
Celeste

Pe. Wolfgang Gruen, SDB (professor de Cultura Religiosa e Língua e Literatura Inglesa na FDB-Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras) disse...

Primeiramente, devo agradecer as excelentes pesquisas que me tem enviado, e que sempre leio com interesse, especialmente quando abordam temas ligados a S. João del-Rei e à Grécia Antiga, sua língua, literatura e cultura. Estudei um pouco de romaico quando de meu curso de Teologia (1950-1953): entre os pedreiros que trabalhavam na construção de um novo prédio, havia dois gregos analfabetos – em grego e em português (de grego só sabiam o alfabeto e escrever o próprio nome). Como eles moravam na área da construção, todas as noites eu ia lá para alfabetizá-los, em romaico e em português; e eles me ensinavam um pouco de romaico: meia hora cada. Claro que saí perdendo, pois eu dedicava mais tempo a eles; mas valeu para eu ter ao menos uma ideia das mudanças. Depois, consegui um livrinho de conversação (romaico-italiano).
Um forte abraço do amigo
Gruen