quarta-feira, 31 de agosto de 2016

LIMA BARRETO OU A SINCERIDADE


Por Francisco José dos Santos Braga



I.  TEXTO: LIMA BARRETO OU A SINCERIDADE


Lima Barreto (1881-1922)

Além de autor de romances, contos e crônicas, Afonso Henriques de Lima Barreto (⭐︎ Rio de Janeiro, 13/5/1881 ✞ Rio de Janeiro, 1º/11/1922) deixou-nos manuscrito o seu "diário íntimo", em todos os sentidos, um diário extravagante. Valioso por documentar a trajetória de vida de LB ¹,  esse diário  expõe seu autor, apresentando o ofício de escritor destituído de qualquer glamour, possibilitando que o apreciemos como um indivíduo, uma pessoa comum, um outro qualquer que realiza um trabalho e depende de sua remuneração para sobreviver. Aqui, o autor LB está inserido no movimento da história e seus escritos podem ser examinados não só com as ferramentas da análise literária, mas também sob a ótica da história social.

O pré-modernismo brasileiro, que coincide aproximadamente com o período de vida de LB, acompanhando o momento de maturidade mental, estética e social do País, buscava atingir a sua afirmação com novos símbolos. As letras contribuíam para a configuração de um perfil específico para a nova realidade brasileira consubstanciada na queda do Império e instalação da República. Na prosa, LB e Euclides da Cunha foram os autores mais representativos do pré-modernismo. Embora os textos produzidos por esses autores tenham temáticas e características estéticas diversas, ambos apresentam-se comprometidos com as ideias de representação do País no início do século XX. Diz [GARDEL, 2009, p. 18]: 
"A narrativa  de Lima Barreto consiste num tipo de texto que se fundamenta muito mais no plano das ideias e reflexões, em sintonia com as questões sociais do seu tempo, do que no trabalho com a sintaxe e o significante linguístico. O crítico Sérgio Milliet destaca, no texto de Lima, exatamente o seu caráter "antiliterário" (MILLIET apud BARBOSA, 2002, p. 176) e a busca pela exatidão na construção das frases. (...) Isaías Caminha é o 'alter ego' de Lima Barreto. Servia, às vezes, como pseudônimo do autor. O narrador desse romance assume a predileção pelos seus autores literários mais amados: Dostoiévski, de Crime e Castigo, Voltaire, de Contos, Tolstói, de Guerra e Paz, Flaubert, de Educação Sentimental e, dentre outros, Eça de Queirós e Stendhal."
Outro aspecto de extrema importância, a ser considerado na análise de qualquer texto de LB, é sua opção pelo "subúrbio" e pelos pobres que nele habitam em contraposição ao "bom gosto" de outros escritores de só escreverem sobre a "corte".  [SCHWARCZ (org.), 2010, 15-54] escreve em sua Introdução aos "Contos Completos de Lima Barreto": 
"(...) Aí está, pois, uma literatura de oposição ou por oposição que, ao produzir a ficção, cria, ao mesmo tempo, o artista a partir da noção de não pertencimento e de exclusão. 
O Rio de Janeiro de Lima Barreto também seria "outro": em vez da corte, tão descrita pelos colegas de geração, o escritor selecionaria o "subúrbio carioca". Se o autor se acostumara a transitar por toda a cidade, já sua geografia simbólica elegeria um cenário ficcional particular. Por contraposição aos monumentos, ruas alargadas, praças vistosas e renovadas, edifícios cada vez mais altos, a imagem do subúrbio aparece como um resumo da desorganização: misturas arquitetônicas, espaços pouco aproveitados, ruas estreitas, lazeres considerados pouco civilizados, casas térreas, personagens exóticos e pequenos animais vagando pelas ruas. Por fim, sua literatura surgia na contramão do modelo da Academia Brasileira de Letras, instituição da qual durante certo tempo acalentou o desejo de fazer parte. Acusado de praticar erros gramaticais em suas edições baratas e sem cuidado, alegou sempre, em seu favor, afastar-se propositadamente do formalismo, dando à sua literatura uma oralidade aproximada ao espetáculo por ele observado nas ruas que percorria diariamente. (...)"
Inicialmente apreciemos, de forma exemplificativa e comprovando como foi apropriado o título escolhido para o presente trabalho, o que LB anotou no seu diário na data de 5 de janeiro de 1908 ², portanto aos 26 anos de idade, comentando sobre visita que fizera em companhia de Manuel Ribeiro a José Veríssimo [MENDONÇA (org.), 81]
"Recebeu-nos afetuosamente. Ribeiro falou muito, doidamente, difusamente. Eu estive calado, ouvi, dei uma opinião aqui e ali. Deu-me conselhos, leu-me Flaubert e Renan, aconselhando aos jovens escritores. Falou da nossa literatura sem sinceridade, cerebral e artificial. Sempre achei a condição para obra superior a mais cega e absoluta sinceridade. O jato interior que a determina é irresistível e o poder de comunicação que transmite à palavra morta é de vivificar. (...) O Veríssimo nos disse coisa semelhante, dizendo-nos que a glória dos segundos românticos, do Castro Alves, do Fagundes, do Laurindo, do Casimiro, era imperecível, tinha-se incorporado à sorte da nação, porque eles tinham sido sobretudo sinceros. Concordei, porque me acredito sincero. Sê-lo-ei? Às vezes, penso ser; noutras vezes, não. (...)"   (grifo nosso)

Três anos antes, em 12 de janeiro de 1905, registrou em seu diário um sonho que pretendia realizar no futuro, conforme [MENDONÇA (org.), 49-50 e XX] : 
" (...) Veio-me à idéa, ou antes registro aqui uma idéa que me está persiguindo. Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma especie de Germinal negro, com mais psychologia especial e maior sopro de epopéa. Animará um drama sombrio, tragico e mysterioso como os do tempo da escravidão. 
Como exija pesquiza variada de impressões e eu queira que esse livro seja, se eu puder ter uma, a minha obra prima, adial-o-ei para mais tarde. ³
Temo muito pôr em papel impresso a minha literatura. Essas ideias que me perseguem de pintar e fazer a vida escrava com os processos modernos do romance, e o grande amor que me inspira pudera! a gente negra virá, eu prevejo, trazer-me amargos dissabores, descomposturas, que não sei se poderei me pôr acima delas. Enfim  'une grande vie est une pensée de la jeunesse réalisé par l'âge mûr', mas até lá, meu Deus!, que de amarguras!, que de decepções!
Ah! Se eu alcanço realizar essa ideia, que glória também! Enorme, extraordinária e quem sabe? uma fama europeia.
Dirão que é o negrismo, que é um novo indianismo, e a proximidade simplesmente aparente das cousas turbará todos os espíritos em meu desfavor; e eu, pobre, sem fortes auxílios, com fracas amizades, como poderei viver perseguido, amargurado, debicado?
Mas... e a glória e o imenso serviço que prestarei a minha gente e a parte da raça a que pertenço. Tentarei e seguirei avante. 'Alea jacta est'.
Se eu conseguir ler esta nota, daqui a vinte anos, satisfeito, terei orgulho de viver! Deus me ajude!"
Como contraponto ao que foi abordado anteriormente, nove dias antes da anotação supracitada, ou seja, no dia 3 de janeiro de 1905, LB anotou em seu diário, conforme [MENDONÇA (org.), 44]
"(...) Eu tenho muita simpatia pela gente pobre do Brasil, especialmente pelos de cor, mas não me é possível transformar essa simpatia literária, artística, por assim dizer em vida comum com eles, pelo menos com os que vivo, que, sem reconhecerem a minha superioridade, absolutamente não têm por mim nenhum respeito e nenhum amor que lhes fizesse obedecer cegamente. (...)"
Em 1909 vê publicado seu romance de estreia: Recordações do Escrivão Isaías Caminha, que constituía uma sátira ao Correio da Manhã, o mais influente jornal carioca da época, onde se considerava "excomungado" . Buscava produzir impacto, mas a recepção que logrou foi um silêncio hostil dos jornais cariocas, só quebrado por uma crítica sumária de Medeiros e Albuquerque. 

Desde fins de 1907 circulava no Rio de Janeiro a revista literária Floreal, fundada por LB e alguns amigos, como Antônio Noronha Santos, Domingos Ribeiro Filho, Curvelo de Mendonça, Fábio Luz e Heitor Malagutti. Em 1909, nessa revista, LB dá início à publicação do seu primeiro romance (a revista não resistiu e acabou encerrada em seu quarto número) e em dezembro do mesmo ano consegue estrear com a 1ª edição em forma de livro, pela Livraria Clássica, de Lisboa. [MENDONÇA (org.), 213 apud BARRETO,  Lima, 1956, vol. XVI, p. 67-8] informa que Antônio Noronha Santos levou para Lisboa os originais de Recordações do Escrivão Isaías Caminha a fim de conseguir que A. M. Teixeira editasse o livro. Um precedente animava a empreitada: a publicação pelo mesmo editor de Selvas e Céus, livro de versos de João Pereira Barreto, conhecido de ambos e que se prontificou a recomendar o romance. Em carta a Lima Barreto, de 13 de março de 1909, Noronha Santos relatava o encontro com o editor: 
"Pelo que ele me disse ou antes resmungou, eu cá percebi que ele está pronto a publicar o livro, mas muito menos a pagá-lo. Se me é permitido dar-te um conselho, não seja muito exigente na questão do pagamento. Não te adianta grande cousa e demora a impressão; e o livro precisa sair. Eu o autorizei friamente a mandar o livro para a tipografia". Na mesma carta, Santos informa que o editor temia a repercussão: "é um livro de escândalo, repetiu-me duas ou três vezes."
Em resposta à carta de Noronha Santos, segundo [MENDONÇA (org.), 213], LB escreve em 3/4/1909: 
"Não tenho pretensão alguma de lucro com o Caminha. Além de saber que um primeiro livro tem fortuna arriscada, sabes muito bem o que penso sobre esta cousa de 'make money' com livros. Decerto, se eu estivesse aí, em Paris, havia de guardar bem escondida a pretensão de ter um castelo com o produto das minhas obras, mas aqui, dentro do Brasil e da língua portuguesa, as minhas pretensões são mais razoáveis. Não quero acabar como o Coelho Neto." 
[QUEIROZ, 123] julga que "A. M. Teixeira... preocupava-se com a repercussão da obra no Brasil, que, devido à densidade e ao caráter combativo, não viesse a ser noticiada pelos jornais e resultasse em poucas vendas. Tratava-se ainda de um romance de estreia, de um autor ainda não consagrado e extremamente polemista. Sem grandes informações sobre o jovem romancista, chegou a perguntar a João do Rio  nome já consagrado nas letras nacionais  se já tinha ouvido falar do escritor, e este afirmou que não. Em carta datada de 13/3/1909, Noronha Santos relatou o episódio ao amigo: 
"Agora ouve esta: o Paulo Barreto, que aqui chegou há dias, foi lá parar creio que a inscrever-se num banquete ao Júlio Dantas. O M. Teixeira perguntou-lhe, sem falar no romance, se ele te conhecia. Ele respondeu que não. Que f. da p.!" (SANTOS apud BARRETO, Lima, 1956, p. 68) 
(...) Com as condições da publicação acertadas e após duas revisões, por volta de maio/junho de 1909, saiu pela Livraria Clássica, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, anunciado nos prospectos de propaganda como um livro de intriga jornalística fluminense. "


Em 20 de abril de 1914, LB escreveu em seu diário, retratando fase de desalento que o acabrunhava, sem editor nem jornais, segundo [MENDONÇA (org.), 119]
"Hoje puz-me a ler velhos números do Mercure de France. Lembro-me bem que os lia antes de escrever o meu primeiro livro.  Publiquei-o em 1909. Até hoje nada adiantei. Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensamentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam elles e tambem um tedio da minha vida domestica, do meu viver quotidiano, e bebo. Uma bebedeira puxa outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Que lastima!  Despeço-me de um por um dos meus sonhos. Já prescindo da glória, mas não queria morrer sem uma viagem à Europa, bem sentimental e intelectual, bem vagabunda e saborosa, como a última refeição de um condenado à morte.
A minha casa me aborrece. O meu pai delira constantemente e o seu delírio tem a ironia dos loucos de Shakespeare. Meus irmãos, egoístas como eles, queriam que eu lhes desse tudo o que ganho e me curvasse à Secretaria da Guerra.
O que me aborrece mais na vida é esta secretaria. Não é pelos companheiros, não é pelos diretores. É pela sua ambiência militar, onde me sinto deslocado e em contradição com a minha consciência.
Não posso suportá-la. É o meu pesadelo, é a minha angústia.
Tenho por ela um ódio, um nojo, uma repugnância que me acabrunha.
Queria ganhar menos, muito menos, mas não suportar aqueles generais do Haiti que, parece, comandaram ou vão comandar em Austerlitz.
Demais, o meu feitio é tão oposto àquela atmosfera de violência, de arranjar para substituir aquilo, e a minha gana de sair de lá é tão grande, que não me promovem, não me fazem dar um passo à frente.
Eu fiz parte do júri de um Wanderley, alferes, e condenei-o . Fui posto no índex."
Lima Barreto na 1ª fila, de mão no queixo 
Crédito: [MENDONÇA (org.), XIX]

Ainda em 1914, LB anotou em seu diário em 13 de julho, conforme [MENDONÇA (org.), 120]
"Noto que estou mudando de gênio. Hoje tive um pavor burro. Estarei indo para a loucura?" 
 Em seguida, sem precisar a data, anotou no mesmo diário imediatamente após o registro anterior: 
"Estive no hospício de 18-8-14 a 13-10-14."
Esta foi a primeira internação no Hospício Nacional dos Alienados. Foi removido em carro-forte, depois de mais uma crise de alucinação, provocada pelo alcoolismo, por iniciativa do irmão Carlino, que já trabalhava na polícia.


Triste Fim de Policarpo Quaresma veio a público em 52 folhetins do Jornal do Comércio, no vespertino, de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911. A sua primeira edição em livro foi publicada em 1916, no Rio de Janeiro, pela Tipografia Revista dos Tribunais, única em vida do autor. Veja a sua anotação no seu diário em março de 1916, sem data precisa, segundo [MENDONÇA (org.), 126]

"Meu livro, o Policarpo, saiu há quase um mês. Só um jornal falou sobre ele três vezes (de sobra). Em uma delas, Fábio Luz assinou um artigo bem agradável. Ele saiu nas vésperas do carnaval. Ninguém pensava em outra coisa. Passou-se o carnaval e Portugal teve a cisma de provocar guerra com a Alemanha. As folhas não se importavam com outra coisa senão com o gesto comicamente davidinesco de Portugal. Enchiam colunas com notícias como esta: 'A esquadra portuguesa foi mobilizada. Acham-se em pé de combate o couraçado Vasco da Gama, o cruzador Adamastor, a corveta Dona Maria da Glória, a nau Catarineta, a caravela Nossa Senhora das Dores, o brigue Voador e o bergantim Relâmpago'. E não têm tempo de falar no meu livro, os jornais, estes jornais do Rio de Janeiro."

E, logo em seguida, ainda em março, mas sem data precisa, conforme [MENDONÇA (org.), 126-7]:
"O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco, depois publicado em folhetins no Jornal do Comércio da tarde, em 1911. Quem o publicou foi o José Félix Pacheco. Emendei-o como pude e nunca encontrei quem o quisesse editar em livro. Em fins de 1915, devido a circunstâncias e motivos obscuros, cismei em publicá-lo. Tomei dinheiro daqui e dali, inclusive do Santos, que me emprestou trezentos mil-réis, e o Benedito imprimiu-o.  Os críticos generosos só se lembravam diante dele do Dom Quixote. V. Oliveira Lima e Afonso Celso. Audaces fortuna juvat. (...)" (Trad. A sorte protege os audaciosos. Ou a sorte favorece os audaciosos. Ou a sorte sorri para os que ousam. Virg. Eneida, X, 284)

Numa e a Ninfa nasceu inicialmente como conto publicado em 3/6/1911 na Gazeta da Tarde. No ano seguinte, em 1912, o autor publicou em fascículos o conto "Aventuras do Dr. Bogóloff". Esses dois contos constituíram o núcleo central do romance intitulado Numa e a Ninfa: romance da vida contemporânea, cujos dez capítulos foram escritos de um só fôlego, tal como registrado no diário do escritor em março de 1916, sem data precisa, segundo [MENDONÇA (org.), 127]
"(...) O Numa e a Ninfa foi escrito em vinte e cinco dias, logo que saí do hospício. Não copiei sequer um capítulo. Eu tinha pressa de entregá-lo, para ver se o Marinho me pagava logo, mas não foi assim e recebi o dinheiro aos poucos. Escrevi-o em outubro de 1914. O Marinho ¹⁰ era o diretor da A Noite.

Em 1915, o jornal A Noite anunciou com destaque e publicou como folhetim no vespertino (de março a julho) seu terceiro romance Numa e a Ninfa, baseado em figuras reais, desta vez do meio político. Quase todas as personagens são caricaturais, por servirem como modelos do discurso irônico. As Oficinas Gráficas d' A Noite editou o romance em formato de livro em 1917 com o selo "Empresa de Romances Populares". A obra flerta com a História: é um retrato da Primeira República e reproduz de forma crítica o clima em que se deu o governo do marechal Hermes da Fonseca, retratado no personagem General Bentes. A repercussão foi muito aquém das expectativas. ¹¹

[MENDONÇA (org.), 143] transcreve em dezembro de 1918, mas sem data precisa, a seguinte anotação de LB: "Fui aposentado por decreto de 26/12/1918. Presidente da República, vice em exercício, Delfim Moreira e ministro da Guerra, Alberto Cardoso de Aguiar." Essa aposentadoria foi precoce, por invalidez, do cargo na Secretaria da Guerra. Como LB deixou claro em sua anotação de 20/4/1914 acima citada, ele não nutria nenhuma simpatia por seu emprego nessa Secretaria.  Tal incompatibilidade pode ter sido um fator importante para o agravamento de seus problemas de saúde.


Sobre Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá[MENDONÇA (org.), 144] transcreve do diário íntimo de LB: "O meu Gonzaga de Sá, editado em São Paulo, apareceu no Rio de Janeiro em 25 de fevereiro de 1919." Sobre a edição de São Paulo, sabe-se que foi promovida por Monteiro Lobato, através de sua Revista do Brasil

[MENDONÇA (org.), 254] transcreve correspondência de Monteiro Lobato para LB, datada de 22/2/1919: 
"Prezado amigo Lima Barreto, 
Saúde. 
O livro está pronto. Remeti-o hoje para todas as livrarias e agentes da Revista (cerca de duzentos) de maneira que a penetração se fez em regra, com 2.000 exemplares de um baque. Mando-lhe vinte exemplares para distribuir entre os críticos do Rio e jornais. Querendo mais, peça. Para os jornais de São Paulo e resto do Brasil, já remetemos. A edição é matadinha, porque continua a crise de papel. Estamos montando oficina, e logo poderemos iniciar edições decentes. Você precisa fazer aí propaganda da Revista e nela farei do livro. 
Adeus. 
Lobato"
Esse romance é mais uma crítica feita por LB à burocracia e pedantismo da imprensa brasileira. O enredo é tecido através de um diálogo satírico entre o personagem e um interlocutor, em passeios pelo Rio de Janeiro. É uma reflexão sobre a velhice (o velho Gonzaga de Sá tem um pouco de conhecimento de filosofia e, apoiando-se nisto, debate sobre política, literatura e problemas brasileiros como o racismo), de modo parecido com o Memorial de Aires, de Machado de Assis, só que Gonzaga de Sá é mais divertido e politizado.

A Academia Brasileira de Letras, que havia preterido sua entrada em 1917 e 1919, premiou esse romance de LB com menção honrosa no ano seguinte. LB ainda apresentou mais uma candidatura à ABL em 1921, só que desta vez o próprio escritor desistiu antes das eleições "por motivos inteiramente particulares e íntimos". ¹² 

No seu diário, LB anotou resumidamente, em 1920, sem precisar a data, sobre a sua segunda internação no hospício, segundo [MENDONÇA (org.), 146]
"A segunda vez que estive no hospício de 25 de dezembro de 1919 até 2 de fevereiro de 1920. 
Trataram-me bem, mas os malucos, meus companheiros, eram perigosos. Demais, eu me imiscuía muito com eles, o que não aconteceu daquela vez que fiquei de parte."
Lima Barreto em 26/12/1919. Livro de registro de entrada de pacientes do Hospício
 Nacional.  Acervo do Museu da Memória Psiquiátrica, Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

Dessa sua segunda internação no Hospital Nacional de Alienados, LB dá um relato importante, este detalhado, anotado em seu diário íntimo em 4/1/1920, transcrito por [MENDONÇA (org.), 153-6]. Nele LB faz longa descrição do pavilhão e das Seções Pinel e Calmeil, juntando-lhe suas impressões. Nesta descrição LB traz informacões sobre o histórico da doença e as razões de suas internações: 
"(...) Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material, há seis anos, me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro.  
Além dessa primeira vez que estive no hospício, fui atingido por crise idêntica, em Ouro Fino, e levado para a Santa Casa de lá, em 1916; em 1917, recolheram-me ao Hospital Central do Exército, pela mesma razão; agora, volto ao hospício. 
Estou seguro que não voltarei a ele pela terceira vez; senão, saio dele para o São João Batista, que é próximo. (...)"
Importante ressaltar que essa segunda internação, por ter sido voluntária, demonstra a consciência do escritor com a decadência do seu estado não só físico, mas também mental. No seu prontuário de internação lê-se: Affonso H. de Lima Barreto, cor parda, idade de 38 anos, brasileiro, solteiro, profissão de jornalista, entrada em 25 de dezembro de 1919, diagnóstico: Alcoolismo. Para recuperar a sanidade e manter uma ligação com o mundo que engolfava o belíssimo palácio na entrada da Urca, onde estava situado o hospício, LB passou a escrever o Diário do Hospício, parte interessante de seu diário íntimo que reúne as suas impressões sobre os dois meses que passou no Hospício Nacional dos Alienados do Rio de Janeiro; escrevia esse diário como exercício para um futuro romance que ele não chegaria a ver editado: O Cemitério dos Vivos, um romance inacabado. Em 31/1/1920, A Folha, do Rio de Janeiro, publicou "Lima Barreto no hospício", subtítulo: Uma interessante palestra com o notável romancista. O seu novo livro será um estudo sobre loucos e suas manias", uma interessante entrevista que um de seus jornalistas fez com LB. Aqui está o início, que nos interessa mais diretamente: 
"Lima Barreto, o romancista admirável de Isaías Caminha, está no hospício. Boêmio incorrigível, os desregramentos de vida abateram-lhe o ânimo de tal forma, que se viu obrigado a ir passar uns dias na Praia da Saudade, diante do mar, respirando o ar puro desse recanto ameno da cidade. Lá está seguramente há um mês. É verdade que não está maluco, como a princípio se poderá cuidar; apenas um pouco excitado e combalido. O seu espírito está perfeitamente lúcido, e a prova disso é que Lima Barreto, apesar do ambiente ser mui pouco propício, tem escrito muito. Ainda há dias, numa rápida visita que lhe fizemos, tivemos ocasião de verificar a sua boa disposição e de ouvi-lo sobre os planos de trabalho que está construindo mentalmente, para realizar depois que se libertar das grades do manicômio. Lima Barreto apareceu-nos vestindo a roupa de zuarte, usada no estabelecimento, os cabelos desgrenhados e os dedos sujos de tinta, sinal evidente de que escrevia no momento em que fora chamado.  
— Então, Lima, que é isso?  
— É verdade. Meteram-me aqui para descansar um pouco. E eu aqui estou satisfeito, pronto a voltar ao mundo.  
— Boa, então, esta vidinha?  
— Boa, propriamente, não direi; mas, afinal, a maior, senão a única ventura, consiste na liberdade; o Hospício é uma prisão como outra qualquer, com grades e guardas severos que mal nos permitem chegar à janela. Para mim, porém, tem sido útil a estadia nos domínios do Senhor Juliano Moreira. Tenho coligido observações interessantíssimas para escrever um livro sobre a vida interna dos hospitais de loucos. Leia O Cemitério dos Vivos. Nessas páginas contarei, com fartura de pormenores, as cenas mais jocosas e as mais dolorosas que se passam dentro destas paredes inexpugnáveis. Tenho visto cousas interessantíssimas. (...)" ¹³
[GARDEL, 2009, 18] pondera que 
"Em 1920, após deixar o hospício pela segunda vez, começa a escrever um importante romance que deixou inacabado: O Cemitério dos Vivos. A obra, cujo trecho foi publicado na Revista Sousa Cruz, aponta para uma temática mais fortemente metafísica e existencial. Trata-se de um denso registro, como atesta a voz de Vicente Mascarenhas   o narrador (BARRETO apud BARBOSA, 2002, 360): 'eu sentia que interiormente eu resplandecia de bondade, de sonho de atingir a verdade, do amor pelos outros, de arrependimento dos meus erros e um desejo imenso de contribuir para que os outros fossem mais felizes... uma vontade de descobrir nos nossos defeitos o seu núcleo primitivo de amor e de bondade'."
 O efeito devastador do álcool no organismo do escritor constitui tema constante em "O Cemitério dos Vivos", onde mostra certo arrependimento, socialmente esperado, de ter-se submetido a esse vício, que o levou a pelo menos cinco internações para tratamento de crises dipsomaníacas: duas no Hospício Nacional de Alienados, duas no Hospital Central do Exército e uma vez na Santa Casa de Ouro Fino, esta última mencionada em correspondência ao amigo Antônio Noronha Santos, escrita em 10 junho de 1916, segundo [MENDONÇA (org.), 231-2]. Nessa carta LB informa que está em Ouro Fino, Colônia Inconfidentes, desde quase oito dias. Informa sobre Emílio Alvim, colega da redação do Correio da Noite, jornal em que colaborava desde 1914: 
"O Alvim prendeu-me por dias, pois tive uma grande descarga. O resto do tempo que passar aqui pretendo levá-lo mais bem comportado. (...) Já passeei de charrete com o médico que não se intimidou com o meu aspecto rebarbativo, não tanto o administrador. (...)" 
Em 16 de junho ganhou um mês de licença para tratamento de saúde: "neurastenia, com anemia pronunciada", dizia o parecer médico. Em carta de 23/6/1916, explicou melhor o que se passou: 
"(...) A coisa aqui vai correndo bem, embora eu tivesse tido um acesso de nervos (coisas!) que obrigou o Alvim a recolher-me à Santa Casa, da cidade, onde estou devendo uns cobres. (...)" 


Histórias e Sonhos 

Crédito: [MENDONÇA (org.), 302]



Nos últimos três anos de sua vida, de 1920 a 1922, LB, como que pressentindo a proximidade do próprio fim, escreve cinco obras, de roldão: Histórias e Sonhos, Marginália, Feiras e Mafuás, Bagatelas e Clara dos Anjos. Dessas, só veria editada Histórias e Sonhos.  

Esta coletânea de contos e outras histórias foi editada em fins de 1920, em forma de livro. Curiosamente, consta da coletânea um texto introdutório ou prefácio escrito por LB, intitulado "Amplius!", que um jornal de grande circulação da cidade do Rio de Janeiro, A Época, publicou em 10/9/1916, anotado em seu diário íntimo conforme [MENDONÇA (org.), 129], pouco tempo depois do aparecimento do seu livro Triste Fim de Policarpo Quaresma. Dada a importância de "Amplius!" para a compreensão da obra de arte literária, sob a ótica de LB, vou deter-me um pouco nesse texto, já que na primeira edição do livro Histórias e Sonhos, publicado pela Livraria Editora de Gianlorenzo Schettino, de 1920, apareceu a sua chamada na própria capa 
"Amplius! Amplius!" 
Sim: sempre mais longe!
a revelar que não constituía apenas um texto qualquer, mas um "credo" do escritor LB, com o qual ele pretendia influenciar outros escritores brasileiros contemporâneos e jovens escritores que viessem a lê-lo, algo que ele entendia devia ser buscado incessantemente na sua prática literária. "Amplius!" é um ensaio de 6 páginas, que tinha para LB 
"o intuito de esclarecer o que poderia haver de obscuro em certas passagens dos meus humildes trabalhos." 
A seguir, LB refere-se a uma crítica que lhe chegou através de carta anônima, mostrando-se disposto a responder-lhe, posto que "absolutamente não era injuriosa". Então, passa a questionar certas cobranças do crítico anônimo, que demonstrava estar preso a formalismos e a etiquetas: a primeira, por não falar na Grécia, e a segunda, por evitar a questão do amor nos seus escritos. LB assume não só sua aversão à Grécia, bem assim refuta a tese de que todo romance tem que ter o amor como seu eixo principal. Aproveitando o fio condutor dessas ideias, LB define sua concepção de literatura: 
"(...) Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros, e aproveitar de cada um deles o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação das almas individuais e do que elas têm em comum e dependente entre si. 
A literatura do nosso tempo vem sendo isso nas suas maiores manifestações, e possa ela realizar, pela virtude da forma, não mais a beleza perfeita da falecida Grécia, não mais a exaltação do amor que nunca esteve a perecer; mas a comunhão dos homens de todas as raças e classes, fazendo que todos se compreendam, na infinita dor de serem homens, e se entendam sob o açoite da vida, para maior glória e perfeição da humanidade. (...)
Não desejamos mais uma literatura contemplativa, o que raramente ela foi; não é mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava já se evolou com a morte dos que os adoravam. 
Não é isso que os nossos dias pedem; mas uma literatura militante para maior glória da nossa espécie na terra e mesmo no Céu." 
"Amplius!" ainda é revelador de que LB refuta uma dicotomia entre jornalismo e literatura, aventada pelo referido crítico em sua correspondência: 
"O meu correspondente acusa-me também de empregar processos de jornalismo nos meus romances, principalmente no primeiro. 
Poderia responder-lhe que, em geral, os chamados processos do jornalismo vieram do romance; mas mesmo que, nos meus, se dê o contrário, não lhes vejo mal algum, desde que eles contribuam por menos que seja para comunicar o que observo; desde que possam concorrer para diminuir os motivos de desinteligência entre os homens que me cercam. 
Se conseguirem isso, por pouco que seja, dou-me por satisfeito, pois todos os meios são bons quando o fim é alto; (...)" 
Essa coletânea consiste de 26 contos em que LB critica a política, a História, as instituições, a burocracia. Destacam-se na coletânea A Nova Califórnia, O homem que sabia javanês, O falso D. Henrique V e Como o "Homem" chegou (comentado na nota nº 7).

Importante destacar que, de acordo com [MENDONÇA (org.), 284-5], Austregésilo de Athayde escreveu no jornal A Tribuna, do Rio, de 19/1/1921, uma extensa carta aberta a LB, a propósito da publicação de Histórias e Sonhos, em que elogia a obra do romancista e procura estabelecer as diferenças com a de Machado de Assis. É o que motiva a carta de LB, que será transcrita abaixo em seção apropriada deste ensaio, reproduzida conforme apareceu na Revista do Brasil, Rio de Janeiro, maio de 1941.



No início de 1922, LB anunciou na imprensa carioca  que Clara dos Anjos, seu novo romance, já estava "bem adiantado", a ser publicado brevemente. Aí relata a história da personagem-título do romance, uma pobre mulata que é seduzida e, como tantas outras, desprezada por um rapaz de condição social menos humilde do que a sua, Cassi Jones de Azevedo. Na história 

"(...) ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas por sestrosos cantores como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor." 
A edição de maio da revista Mundo Literário deu a conhecer ao público carioca um dos capítulos iniciais do livro. Em 1º de novembro daquele ano LB morreu vitimado por ataque cardíaco sem ver concluído um de seus últimos e mais ambiciosos projetos literários, buscando converter esse texto, que retrabalhava desde 1904 (portanto, o primeiro romance de LB, apesar de ser um dos últimos a ser publicado), em uma espécie de epopeia suburbana a partir da malfadada trajetória de Clara dos Anjos. O romance é uma denúncia do preconceito racial e social, vivenciado por uma jovem mulata do subúrbio carioca. O romance como tal somente estava concluído no ano da morte do autor. A história foi publicada em folhetim entre 1923 e 1924 e somente apareceria em livro em 1948.

Bagatelas (publicado em 1923) e Marginália (publicado em 1953) são dois volumes que reúnem crônicas e artigos produzidos por LB entre 1911 e 1922, ano de sua morte. A maioria das crônicas integrantes das duas obras foi originalmente publicada em periódicos modestos, de pouca circulação. O que distingue esses dois livros de outras coletâneas importantes de LB, como Feiras e Mafuás, Vida Urbana e Impressões de Leitura está no fato de aqueles dois terem sido concebidos, organizados e entregues aos respectivos editores pelo próprio LB.

O romance intitulado Os Bruzundangas, bem como as duas coletâneas de crônicas acima citadas (Bagatelas e Marginália), dormitavam nas gavetas de editores, como LB informou em carta a Almáquio Cirne, antes que a morte o acometesse em 1º de novembro de 1922. Sob o nome de Bruzundanga, um país ficcional, pode-se identificar facilmente o Brasil. O livro é um diário de viagem de um brasileiro (LB), que residiu durante algum tempo na Bruzundanga, conhecendo sua literatura, sua cultura (quase nula), a escola samoieda (falsa, monótona e afastada da cultura, com autores fúteis e aconchegados com a classe dominante) e sua economia confusa que exauria a riqueza do país, senso dominada pelos cafeicultores da província de Kaphet.  LB mostrou naquele país também a obsessão por títulos como os de nobreza e de doutor, mesmo quando os que os detinham não eram nobres nem letrados; fez ainda pesadas críticas à legislação, à política, ao processo democrático (tão corrupto como na República Velha), à ciência, ao exército e à política internacional. Eis um pequeno exemplo de sua crítica acerba à maneira como eram escolhidos os políticos da Bruzundanga, extraído do capítulo "Um Mandachuva": 
"(...) A não ser que suba ao poder, por uma revolta mais ou menos disfarçada, um General mais ou menos decorativo, o Mandachuva é sempre escolhido entre os membros da nobreza doutoral; e, dentre os doutores, a escolha recai sobre um advogado. 
É justo, pois são os advogados ou bacharéis em direito que devem ter obrigação de conhecer a barafunda de leis de toda a natureza, embora a arte de governar, segundo o critério dos que filosofam sobre o Estado e o admitem necessário, não peça unicamente o seco conhecimento de textos de leis, de artigos de códigos, de opiniões de praxistas e hermeneutas. (...) 
Como dizia, porém, na Bruzundanga, em geral, o Mandachuva é escolhido entre os advogados, mas não julguem que ele venha dos mais notáveis, dos mais ilustrados, não: ele surge e é indicado dentre os mais néscios e os mais medíocres. Quase sempre, é um leguleio da roça que, logo após a formatura, isto é, desde os primeiros anos de sua mocidade até aos quarenta, quando o fizeram deputado provincial, não teve outro ambiente que a sua cidadezinha de cinco a dez mil habitantes, mais outra leitura que a dos jornais e livros comuns da profissão  indicadores, manuais, etc.; e outra convivência que não a do boticário, do médico local, do professor público e de algum fazendeiro menos dorminhoco, com os quais jogava o solo, ou mesmo o 'truque' nos fundos da botica." 
E finaliza: 
"(...) é este homem cuja única habilidade se resume em contar anedotas; é um homem destes, meus senhores, que depois de ser deputado provincial, geral, senador, presidente de província, vai ser o Mandachuva da Bruzundanga. (...)" 

Em Bruzundanga ocorrem ainda o nepotismo desenfreado, bem assim privilégios e favorecimentos aos políticos. O livro compõe-se de uma coletânea de crônicas originalmente publicadas no jornal A.B.C., durante o ano de 1917, publicada em forma de livro em 1923. Ao todo, são 22 capítulos além de outras histórias dos bruzundangas. 

LB deixa transparentes as restrições que tinha aos membros da Academia Brasileira de Letras. Igualmente se antipatizava com o formalismo dos parnasianos, cuja literatura pouco dizia porque  nada ou pouco tinha a dizer. LB disparou sua crítica mordaz em direção às "histórias" que corriam a respeito dos que praticavam na Bruzundanga essa literatura convencional: 
"Os literatos, propriamente, aqueles de bons vestuários e ademanes de encomenda, não lhes dão importância, embora de todo não desprezem a literatura oral. Ao contrário: todos eles quase não têm propriamente obras escritas; a bagagem deles consta de conferências, poesias recitadas nas salas, máximas pronunciadas na intimidade de amigos, discursos em batizados ou casamentos, em banquetes de figurões ou em cerimônias escolares, cifrando-se, as mais das vezes, a sua obra escrita em uma plaquette de fantasia de menino, coletâneas de ligeiros artigos de jornal ou num maçudo compêndio de aula, vendidos, na nossa moeda, à razão de quinze ou vinte mil-réis o volume. Estes tais são até os escritores mais estimados e representativos, sobretudo quando empregam palavras obsoletas e são médicos de larga freguesia. São eles lá, na Bruzundanga, conhecidos por 'expoentes' e não há moça rica que não queira casar com eles. Fazem-no depressa porque vivem pouco e menos que os seus livros afortunados. (...)" 
A respeito da curiosa escola literária conhecida na Bruzundanga por "Escola Samoieda", a qual caracteriza a literatura daquele país, LB esclarece: 
"Não que todo o escritor bruzundanguense pertença a semelhante rito literário; os mais pretensiosos, porém, e os que se têm na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados nela. (...) Os samoiedas, como vamos ver, contentam-se com as aparências literárias e a banal simulação de notoriedade, umas vezes por incapacidade de inteligência, em outras por instrução insuficiente ou viciada, quase sempre, porém, por falta de verdadeiro talento poético, de sinceridade, e necessidade, portanto, de disfarçar os defeitos com pelotiquices e passes de mágica intelectuais." 


 

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II.  SOBRE MACHADO DE ASSIS


Por fim, não poderia excluir deste meu trabalho a sinceridade de LB no que tange o futebol entre nós e a opinião que nutria de Machado de Assis. [MENDONÇA (org.), 284-5] transcreve o que sobre Machado de Assis escreveu LB em correspondência a Austregésilo de Athayde, datada de 19 de janeiro de 1921, não para rebaixar o autor de Brás Cubas, mas para distinguir a obra machadiana da sua própria.


Todos os Santos, 19 de janeiro de 1921.
Meu caro Senhor Austregésilo de Athayde.
Saudações. 
Agradeço-lhe muito a bondade que teve, dirigindo-me a carta aberta que a Tribuna publicou, em 18 último. (...)
Gostei que o senhor me separasse de Machado de Assis. Não lhe negando os méritos de grande escritor, sempre achei no Machado muita secura de alma, muita falta de simpatia, falta de entusiasmos generosos, uma porção de sestros pueris. Jamais o imitei e jamais me inspirou. Que me falem de Maupassant, de Dickens, de Swift, de Balzac, de Daudet vá lá; mas Machado, nunca! Até em Turguênieff, em Tolstói podiam ir buscar os meus modelos; mas, em Machado, não! "Le moi"...
Machado escrevia com medo do Castilho e escondendo o que sentia, para não se rebaixar; eu não tenho medo da palmatória do Feliciano e escrevo com muito temor de não dizer tudo o que quero e sinto, sem calcular se me rebaixo ou se me exalto.
Creio que é grande a diferença. Havemos de conversar, mesmo porque preciso que me traduza aquele pedacinho de Horácio. De latim, só sei o que há nas páginas rosadas do pequeno Larousse.
Sem mais, (...)
Lima Barreto 



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III.  SOBRE "VERDADEIRAS ATROCIDADES PROMOVIDAS PELO FUTEBOL"


Entrevistado pelo Rio-Jornal a respeito da fundação de uma "Liga contra o football", LB expõe sobre os inconvenientes dessa modalidade de esporte, o periódico publicou em 13/3/1919 a seguinte entrevista, reproduzida por [MENDONÇA (org.), 305-7]:

A LIGA CONTRA O FOOTBALL
Um jogo de pés que concorre para a animosidade e malquerença entre os filhos de uma mesma nação

A notícia de que Lima Barreto e alguns companheiros tratavam de fundar uma "Liga contra o football", levou-nos esta manhã à sua casa, para obter mais esclarecimentos sobre os destinos e fins da liga. Lima Barreto reside, há dezesseis anos, na pacata estação suburbana de Todos os Santos. A sua casa é modesta, porém clara e ampla, cercada de fruteiras e respirando sossego. A sua sala de trabalho, ao mesmo tempo dormitório, é também clara e ampla, tendo livros, móveis, quadros tudo em ordem. A desorganização de Lima é para uso externo. Estava lendo os jornais matutinos, quando chegamos.
Você por aqui! exclamou ele logo ao ver-nos.
É verdade. Quero saber bem esse negócio da 'liga' que você fundou.
Nós já nos havíamos sentado e o Lima, na cadeira de balanço, deixou os jornais e respondeu:
O negócio é simples. Há cerca de um ano eu e o Valverde... Você não conhece o Valverde ¹?
Conheço.
Bem. Eu e ele, conversando sobre os sports, em uma confeitaria do Méier, Valverde me expôs, com a sua competência especial de médico que conhece o seu ofício, os prejuízos de toda a ordem que o abuso imoderado dos sports, sobretudo o football, trazia à nossa economia vital. Ele mos explicou singelamente, sem pedantismo, nem suficiência doutoral. Impressionei-me. Dias depois, ele me lembrou a fundação da liga. Passaram-se dias e meses e não mais falamos nisto; ultimamente, porém...
Com a decisão da congregação do Pedro II, proibindo o football?
Não; antes. Eu explico a você. Nos últimos meses do ano passado, estive no Hospital Central do Exército, tratando-me. Lá, sem ter que fazer, nem distrações, eu, por desfastio, lia todas as seções dos jornais, inclusive as esportivas que são as únicas enfatuadas e enfáticas. Verifiquei que havia uma irritação inconveniente entre os players.
Você já sabe a técnica do football?
Isso é técnica? Player está ali no Valdez.
—  Vamos adiante. 
—  ... entre os players, amadores, torcedores, enfim entre o público do bola-pé de lá e o daqui. Você sabe disso?
Sei. 
Saindo do hospital, tive notícias mais completas. Entre a gente do football de lá e a daqui há uma rivalidade feroz que se manifesta em chufas, vaias, apelidos deprimentes, até em rolos. A esse respeito escrevi dous ou três artigos... 
Onde?
No A.B.C. ... Mas, a cousa não seria tão importante, se nestes últimos dias, realizando-se no Recife, um match entre um club de lá e um daqui, não se repetissem as chufas, as vaias e os rolos. 
Concluiu você, daí... 
Concluí que, longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma mais forte coesão moral entre as divisões políticas da União, separava-as. 
Não será exagerado, Barreto? 
Julgo que não. Entre São Paulo e Rio foi assim; entre Rio e Recife também; e o lógico é provar que as coisas se repetirão entre Rio e Belém, entre Rio e Porto Alegre, etc. etc. 
É um argumento. 
E não é só este. Os grandes clubs daqui, aqueles que têm para cerimoniais o caucásico Coelho Neto, são portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça etc., você não pode negar isto! 
Não nego; é verdade. 
Está aí, uma grande desvantagem social do nosso football. Nos  nossos dias em que, para maior felicidade dos homens, todos os pensadores procuram apagar essas diferenças acidentais entre eles, no intuito de obter um mútuo e profundo entendimento entre as várias partes da humanidade, o jogo do ponta-pé propaga a sua separação e o governo o subvenciona.
Subvenciona?
Sim. Parece que a Liga e a tal Confederação estão inscritas no orçamento da despesa da República. Não estou certo, vou verificar; mas, favores e favorezinhos, elas têm recebido do governo para lançar cizânias entre estados da União e criar distinções idiotas e anti-sociais entre os brasileiros.
Que favores são esses?
Os poderes governamentais reconheceram de utilidade pública a tal Confederação, o que naturalmente redunda em alguma vantagem de ordem administrativa; e aquela casa de espantos, que é o Itamarati, quando há os tais matches internacionais, subvenciona clandestinamente as équipes que vão para as repúblicas vizinhas "defender as nossas cores", como dizem eles infantilmente. De modo... 
Você é capaz de provar que receberam essas subvenções?
Nem eu nem ninguém. O Itamarati, depois de Rio Branco, fez-se a caixa dos segredos e das mistificações da nossa administração. Não há quem arranque de lá a mais simples certidão...
Então, como você?
Como? digo, sob a responsabilidade de meu nome, denuncio, e chamem-me a juízo. Espero. Contudo...
Mas, Barreto, penso em que vocês não ficarão nesse aspecto político-social-administrativo do football não é?
Não ficaremos aí. Esta é a minha parte, mas a que se refere à higiene pessoal, ao funcionamento da boa saúde, às reações de ordem psicológica, às perturbações ao desenvolvimento mental que ele possa trazer, esta parte difícil, árdua e técnica é com o Valverde. Eu tratarei da minha, no que tenho o apoio de todos, pois nenhum de nós está disposto a admitir que o Brasil ¹ pague impostos para o governo obter dinheiro e ele venha a dar um pouco desse dinheiro à sociedade dos que cavam a separação, não só das divisões políticas da nação, mas entre os próprios indivíduos desta nação. Você pode dizer que nós não estamos dispostos a consentir que se forme, à custa dos contribuintes, uma aristocracia que se baseia nas habilidades dos pés... Representaremos ao Congresso...

A conversa ameaçava eternizar-se, despedimo-nos, pois: o serviço do jornal nos esperava.

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O tema das desvantagens do futebol, ironicamente chamado por LB de "jogo de pontapés na bola", é recorrente nas suas crônicas, especialmente as da última etapa de sua vida. Observa-se que nos dois últimos anos de vida, LB escrevia textos cada vez mais panfletários, indiferente à paixão nacional, convergindo finalmente para a criação da citada "Liga contra o football ", criada por LB, Mário de Lima Valverde, Antônio Noronha Santos e Coelho Cavalcanti, que constituiu uma resposta à altura das "verdadeiras atrocidades promovidas pelo football".

A partir da leitura das crônicas de LB, organizadas por [RESENDE & VALENÇA (org.), 241, 372; 29, 195, 230, 232, 273, 342, 432, 519, 520, 526, 531, 551, 563, 569, 576], percebe-se que o cronista LB implicou cada vez mais com o futebol. No período de 1890-agosto de 1919, que constituiu o primeiro volume de "LIMA BARRETO: Toda Crônica", as duas organizadoras localizaram apenas 2 crônicas versando especificamente sobre football; no período de setembro de 1919-novembro de 1922, que constituiu o segundo volume do livro, localizaram 14 crônicas tratando especificamente de football, às quais vou acrescentar mais uma, intitulada 'O Centenário'. 

Aqui serão examinados trechos extraídos de todas as 17 crônicas de LB sobre football, nos quais serão apreciados sucintamente o conteúdo da crônica e  a argumentação do cronista LB contra o football.

1 ) VOLUME I de "LIMA BARRETO: Toda Crônica"

O ideal, p. 241, originalmente publicada pela revista Careta em 2/10/1915: LB constata a impressionante ascensão social dos "futebolescos" ou players, em relação a outras profissões reconhecidas.    


Sobre o football, p. 372-5, originalmente publicada pelo jornal Brás Cubas em 15/8/1918: LB observa a beligerância encenada por jornalistas que cobrem as disputas futebolísticas, visitando trechos de crônicas de várias seções esportivas. Comentando a crônica "Rio versus São Paulo" ironizou o seu autor: "Se assim fosse, se as partidas de football entre vocês de lá e nós daqui apaixonassem tanto um lado como o outro, o que podia haver era uma guerra civil; mas, se vier, felizmente, será só nos jornais e, nos jornais, nas seções esportivas, que só são lidas pelos próprios jogadores de bola adeptos de outros divertimentos brutais, mas quase infantis e sem alcance, graças a Deus; dessa maneira, estamos livres de uma formidável guerra de secessão, por causa do football!"



2) VOLUME II de "LIMA BARRETO: Toda Crônica"



Uma partida de football, p. 29, originalmente publicada pela revista Careta em 4/10/1919: LB começa sua crônica dizendo que, entre as coisas cariocas mais elegantes, se destaca uma partida de football, um espetáculo da maior delicadeza. Claro que essa introdução não passa de uma fina ironia. "Não há, portanto, nos nossos hábitos, fato mais agradável do que assistir uma partida de bolapé." Logo se põe a desfiar os seus vitupérios:  "(...) As senhoras que assistem são as chamadas 'torcedoras' e o que é mais apreciável nelas, é o vocabulário. Rico no calão, veemente e colorido, o seu fraseado só pede meças ao dos humildes carroceiros do cais do porto. (...) O que há, porém, de mais interessante nessas festanças esportivas, é o final. Sendo um divertimento ou passatempo, elas acabam sempre em rolo e barulho."



Vantagens do football, p. 195-6, originalmente publicada pela revista Careta em 19/6/1920: LB começa sua crônica da costumeira forma irônica, dizendo estar convicto de que "o jogo de football é um divertimento sadio, inócuo e por demais vantajoso para a boa saúde dos jogadores respectivos." A seguir, volta-se para "o eminente Senhor Coelho Neto ¹", há tempos defensor de ataques de ignorantes e bárbaros (como o próprio LB), que, segundo ele, "citou Spencer sem felicidade", mas diz que não importa, "porquanto basta a opinião do notável homem de letras, para convencer toda a gente que o esporte bretão merece os favores excepcionais que os governos lhe dão e ainda vão dar." Continua sua crônica com fina ironia: "Não querendo eu passar como retrógrado e atrasado e no intuito de também defendê-lo, tenho tido a paciência de colecionar nos quotidianos as notícias mais edificantes sobre as excelentes vantagens do divertimento de dar pontapés em uma bola." Só então desfia "algumas amostras do que tem colhido nos jornais, para encanto e satisfação das gentilíssimas 'torcedoras'":  fratura, luxação, gangrena seguida de morte e morte súbita. E finaliza em tom provocativo: "Depois de semelhantes provas, não se pode esperar do nosso governo senão fornecer aos futebolescos os trezentos contos que precisam, para mostrar as suas belas gâmbias simiescas em Antuérpia."



O Haroldo, p. 230-1, originalmente publicada pela revista Careta em 4/12/1920: LB relata como o dinamarquês Haroldo Hartings, atendendo o desejo de seu pai, tentou ser advogado, mas sem sucesso. De novo, ouvindo seu pai, seguiu para New York para estudar eletricidade. "Voltou e nunca propôs-se a montar a mais simples campainha elétrica. Vendo, entretanto, que muitos dos seus antigos colegas ganhavam nome no foro, nas letras e em outras atividades, teve desejo de ser também notável. Mas, em quê?" Depois de muito pensar, "lembrou-se que, em New York, tinha demonstrado certa habilidade para o jogo de football. Fez-se apóstolo desse jogo de pontapés e, graças à sua fortuna, em breve, era uma celebridade nele."



Divertimento?, p. 232-3, originalmente publicada pela revista Careta em 4/12/1920: LB inicia sua crônica, falando de um hábito seu de toda segunda-feira: "quando os jornais estão frouxos, ao recebê-los pela manhã, o meu divertimento é ler neles o noticiário policial e as crônicas esportivas." Escolhe um determinado "tópico" ("o encontro que, no campo do Botafogo, teve lugar, ontem, entre esta entidade e o São Cristóvão, caracterizou-se por uma grande desordem.") E qual foi essa desordem? "Os assistentes, partidários de uma e outra entidade, invadiram a arena e o conflito generalizou-se. Houve bengaladas, rasteiras, cabeçadas, etc., etc. Foi preciso a intervenção enérgica da autoridade para que o rolo cessasse." Constata que "coisa parecida se passou no campo do Bangu; no ground do Fluminense; no Inhaúma Football Clube; e por todo este vasto Rio de Janeiro se deram conflitos, alguns sangrentos, por causa do football." E conclui taxativo: "Não quero que se acabe com semelhante jogo; como não quero que se acabe com a capoeiragem. (...) É preciso, porém, dar os nomes aos bois. Essa coisa não é divertimento, não é esporte. Pode ser tudo, nunca isto. Nos Estados Unidos, conta J. Huret, quando se dá o tradicional encontro entre as Universidades de Yale e Harvard, os jogadores vão quase com armaduras e tomam a precaução de levar médicos, enfermeiros e boticas. Os nossos patrícios que gostam de semelhantes justas devem seguir o exemplo dos americanos. Seria mais lógico..."



Uma conferência esportivap. 273-7, originalmente publicada pela revista Careta em 1º/1/1921: LB começou sua crônica de forma hilariante, prenunciando que o que viria a seguir era muito paradoxal: "No sábado último, no salão nobre da Liga Metropolitana dos Trancos e Pontapés, em presença de numerosa e seleta assistência, o doutor Francoso Hell Jacuencanga, consultor literário da liga, pronunciou afinal a sua anunciada conferência sobre 'A Educação física, o football e as suas conquistas e progressos, entre nós'. E começou invocando os manes da defunta e vagabundíssima Grécia; citou filósofos e educadores, omitindo cautelosamente o nome de Spencer, porque, certamente, já tinha notícias de que existia um livro desse grande filósofo inglês, em cujas páginas o jogo dos pontapés não é lá muito bem-tratado." Em seguida, abordou o serviço de estiva e a musculatura dos estivadores, ambos inúteis à sociedade. "Como é perfeito! Os músculos de todas as partes dos seus corpos, como que foram calculados com paciente precisão, para funcionarem harmonicamente. Que beleza! Que perfeição! Mas para que servem? Para nada — podemos dizer; pois carregar fardos de alfafa, de algodão, sacos de café não é trabalho útil à sociedade." Em contraposição, o conferencista falou do útil futebol com empáfia e presunção: "Entretanto, se nos colocamos no alto da arquibancada de um 'field' de 'football', a contemplação dos músculos desarmônicos dos 'players', as suas longas pernas superenriquecidas de força, o 'mollet' muito proeminente, a contrastar com o seu andar bambo, e também as suas cabeças de chuchu, é quando vemos e percebemos a utilidade da educação física. Ela não está no emprego para serviços de que toda a sociedade precisa; ela está no seu platonismo, no seu desinteresse, em não se aplicar ou em dar sem proveito algum dia e noite pontapés num pelotaço. Continuou por aí, e, afinal, veio a falar nos progressos e vantagens do 'football', entre nós. Foi, essa parte da conferência, muito documentada." O conferencista citou, paradoxalmente, então, o que entendia serem vantagens que obtivemos com o football
1) "armar uma rixenta rivalidade entre o Rio e São Paulo, cousa que só é sentida por nós, os olímpicos.E emendou: "O que, porém, convence todos de que o nobre esporte bretão prospera e se enraíza nos hábitos das nossas gentes, são as pugnas, lutas, rixas, conflitos, até tentativas de suicídio que ele suscita."; 
2) "conseguir o ressentimento dos uruguaios que aqui vieram disputar um campeonato." E  continuou a esse respeito: "Não há dúvida alguma que isto foi uma vitória para a fraternidade sul-americana, obtida pelo football."; 
3) "convencer as "torcedoras" dos grandes clubes a usarem um vocabulário viril, até o próprio calão, para animar os do seu partido ou desnortear os do adverso! / É mais uma conquista do football, essa da civilização vocal das senhoras e senhoritas." 
Nesta altura, o conferencista afirma que, no Rio, todo domingo, há confusões em todos os campos da cidade, referindo-se particularmente à última disputa que houve entre o Mangueira e o Fluminense, em que ocorreu conflito "soberbo", destacando que as confusões vinham ganhando espaço nas disputas entre clubes de elite. Serviu-se de matéria noticiada pela A Noite, de 13 de dezembro de 1920, reproduzindo-a: "Já não é só nos campos dos clubes de terceira ordem que tais cenas se verificam. Nos dos outros, nos de primeira ordem, nos últimos tempos, também se tem timbrado nesses desrespeitos à assistência, não atendendo sequer à presença de senhoras, que são atropeladas nas correrias e até agredidas, devido à confusão." O comentário do conferencista à observação do jornalista da A Noite foi: "Curioso, esse jornalista! / Pois ele queria que os clubes aristocráticos e puros ficassem atrás dos clubezinhos dos subúrbios? O football é uma e mesma cousa, em toda a parte!" Citou, em seguida, conflitos que se verificaram nos jogos disputados por clubes de elite, do qual saíram vários feridos: em Niterói, citou o jogo disputado pelo Clube de Football Guanabara e o Malta; em São Paulo, a partida disputada pelos clubes Aliados e Oficinas São Paulo e a disputa entre os clubes Palestra Itália e Paulistano. Desses fatos o conferencista extraiu a seguinte conclusão lógica: o conflito é virtualmente o fim próprio e natural do jogo. Trancos e pontapés são típicos da modalidade futebolesca; logo "clubes aristocráticos e puros" não são distintos dos "clubezinhos dos subúrbios". 
Entretanto, neste ponto da conferência ocorre o inesperado: o ilustre conferencista conclui de forma paradoxal, da mesma forma que analisou as vantagens do futebol: "Penso bastarem as provas que aí ficam, para demonstrar à sociedade a prosperidade e as vantagens advindas à comunhão brasileira, com a introdução do 'association' entre nós. O que é preciso é que os 'players' se façam também políticos, a exemplo do que fizeram os 'sportsmen' de jogos antigos de ligeireza e golpes singulares, para que o 'football' preencha plenamente o seu destino superior. Tenho dito." (grifos nossos)



Educação física, p. 342-3, originalmente publicada pelo jornal A.B.C. em 9/4/1921: LB, em resposta a um articulista anônimo que publicou longas considerações sobre o assunto no O Jornal, na edição de 31/3/1921, começou por discutir a afirmação genérica do referido articulista de que "todos os pedagogistas, higienistas e filósofos que se preocupam com os problemas sociais, proclamam-na (a educação física) como útil e indispensável como o cultivo intelectual." LB ponderou que considerava válida a generalização para "meninos e rapazes, mas não para marmanjos que, à falta de outras habilidades superiores para atrair a atenção das damas, se põem por aí seminus a dar pontapés numa bola, a esmurrarem-se e a soltar palavrões." LB recorreu à autoridade de Herbert Spencer, um pedagogista e filósofo inglês, para apoiar a sua tese: segundo ele, Spencer "se insurgiu contra a estupidez, a brutalidade dos esportes atuais, no livro 'Fatos e comentários', em ensaio célebre a que ele intitulou 'Regresso à barbaria'." Para Spencer, "um dos fatores desse regresso, nos nossos tempos, é o esporte, principalmente o tal de football." Em seguida, LB contestou afirmação do articulista que "as sociedades devem convergir todos os seus esforços e atividades para a guerra", contrapondo que "o fim da civilização é a paz, a concórdia, a harmonia entre os homens; e é para isso que os grandes corações de sábios, de santos, de artistas têm trabalhado." LB acrescentou que essa cultura da guerra é que levou ao declínio de Roma: "À proporção que a cidade romana crescia, para chegar a império, mais bárbaros admitia nas suas legiões, dando-lhes o direito de cidadão. Era necessário: por isso mesmo, além de outras causas, o império desapareceu." E finalizou: "Se a guerra tem de continuar, deve ser feita com pequenos efetivos; e esse afervoramento para a luta guerreira, por intermédio do esporte, levando toda uma nação a pensar na guerra, é um mal, e dos piores que podem advir à humanidade. Os homens de governo, os que têm a responsabilidade dos destinos dos povos, devem abster-se de proteger os clubes esportivos, sobretudo os nossos, que são verdadeiros grêmios de dança."



Bendito football, p. 432-4, originalmente publicada pela revista Careta em 4/12/1920: LB inicia sua crônica com seu veio satírico, louvando o football por ser "uma instituição benemérita, cujo rol de serviços ao país vem sendo imenso e parece não querer ter fim." Cita, em seguida, três principais serviços prestados ao país pelo football
1) "ter trazido, para a notoriedade das páginas jornalísticas e das festanças e rega-bofes dos Césares destas bandas, nomes de obscuros cavalheiros, doutores ou não, sequiosos de glória, que, sem o football, não teriam um destaque qualquer, fosse de que natureza fosse"; 
2) "ter permitido que os trabalhadores de ofícios em que se exige grande força muscular nas pernas e nos pés (...) realizassem as suas respectivas profissões com perfeição e segurança de quem dispões de poderosos extensores, etc."; 
3) "ter conseguido, graças a apostas belicosas e rancorosas, estabelecer não só a rivalidade entre vários bairros da cidade, mas também o dissídio entre as divisões políticas do Brasil", isto é, entre Estados da Federação. LB reitera que "o papel do football é causar dissensões no seio da nossa vida nacional. É a sua alta função social. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização de turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional." Com indignação citou LB o que apareceu no O Correio da Manhã, na edição de 17/9/1921: "O Sacro Colégio do Football reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro  homens de cor, enfim." Essa notícia o aborreceu tanto que incluiu os seguintes comentários: "O que me admira, é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas subvenções com que são aquinhoadas as sociedades futebolescas e seus tesoureiros infiéis, não tragam também a tisna, o estigma de origem, pois uma grande parte deles é paga pela gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro que tivesse tão malsinada origem. Aceitam-no, entretanto, cheios de satisfação. Havia um remédio para resolver esse contesto estado de coisas: o governo retirava do doutor Belisário Pena ¹  as verbas com que ele socorre as pobres populações rurais, flageladas por avarias endêmicas que as dizimam ou as degradam; e punha-as à disposição do football. Dava-se o seguinte: o football ficava mais rico e mais branco; e a gente de cor, de que se compõe, em geral, os socorridos por aquele doutor, acabava desaparecendo pela ação da malária, da opilação e outras moléstias de nomes complicados que não sei pronunciar e muito menos escrever. O governo, procedendo assim, seria lógico consigo mesmo. Ilógico é querer conservar essa gente tão indecente e vexatória, dando-lhes médico e botica, para depois humilha-la, como agora, em honra do football regenerador da raça brasileira, a começar pelos pés. Ab Jove principium..."



Na Avenida, p. 519, originalmente publicada pela revista Careta em 15/4/1922: LB estampa um diálogo entre duas pessoas. A primeira indaga: "Quem é aquele sujeito alto, tão solene, que fala naquele grupo com tanta gravidade?" A resposta do interlocutor "é o doutor Paniatércski, doutor em medicina", o que constitui o pretexto para uma longa conversa, em que ficamos sabendo que aquela personalidade "já tem ido à Europa, várias vezes, à custa do governo", mas não por causa de sua profissão. Só ao final LB mata a nossa curiosidade, informando que "é sabichão no football. Eis aí!".



Ainda e sempre, p. 520, originalmente publicada pela revista Careta em 6/5/1922: LB retoma tema tratado de forma satírica na crônica "Vantagens do football". Agora LB faz a seguinte abertura: "Certa vez, eu disse que os esportes violentos causavam mais mal que os vícios, os mesmos cujos efeitos os tais jogos pretendiam combater. Disseram uns idiotas que escrevem sobre football, não ter eu autoridade por não ser médico. Isso é mais uma tolice do Brasil que passou para o execrando football." Acrescenta que, fora daqui, "ninguém indaga dos títulos escolares do sujeito para discutir os seus argumentos." Mas, independente disso, informa que, "quando eu disse isto, não o disse por sua conta; mas porque o tinha ouvido de pessoas competentes, entre as quais o meu inolvidável amigo doutor Mário Valverde."  Informa que, agora, a sua tese ganha um grande reforço na figura do doutor Nicolau Ciancio, o qual "resume estudos do sábio alemão Herxheimer, no Correio da Manhã, de 24 de abril, em que assevera que os esportes violentos causam lesões no coração. Diz ele textualmente, falando da doença que causam tais desportos (vá lá), doença de Stokes-Adams, como se denomina em medicina tal afecção (...)."




Não queria, mas..., p. 526, originalmente publicada pela revista Careta em 3/6/1922: LB abre sua crônica com a observação de que "já tinha disposto a não falar mais em semelhante coisa de football; entretanto não me é possível deixar de fazê-lo, porquanto isto é uma campanha de honra a que me entreguei e não abandono." Finaliza-a com uma hipérbole bastante expressiva: "O football é uma escola de violência e brutalidade e não merece nenhuma proteção dos poderes públicos, a menos que estes nos queiram ensinar o assassinato."


O football, p. 531, originalmente publicada pela revista Careta em 1/7/1922: Por ser muito curta, é conveniente transcrever a crônica na íntegra: "Não é possível deixar de falar no tal esporte que dizer ser bretão. / Todo dia e toda a hora ele enche o noticiário dos jornais com notas de malefícios, e mais do que isto, de assassinatos. Não é possível que as autoridades policiais não vejam semelhante cousa. / O Rio de Janeiro é uma cidade civilizada e não pode estar entregue a certa malta de desordeiros que se querem intitular sportsmen. / Os apostadores de brigas de galos portam-se muito melhor. Entre eles, não há questões, nem rolos. As apostas correm em paz e a polícia não tem que fazer com elas; entretanto, os tais de footballers todos os domingos fazem rolos e barulhos e a polícia passa-lhes a mão pela cabeça. / Tudo tem um limite e o football não goza do privilégio de cousa inteligente."



O nosso esporte, p. 551, originalmente publicada pelo jornal A.B.C. em 26/8/1922: Esta crônica de LB reflete o seu desencanto com a constatação da velocidade com que o futebol ganhou a simpatia dos cariocas, tornando-se paixão compulsiva: "Quem abre qualquer um dos nossos jornais, principalmente nestes dias de centenário ¹ festejados faustosamente em meio da maior miséria, há de concluir que este nosso Rio de Janeiro não é o paraíso do jogo do bicho, a retorta monstruosa da politicagem, a terra dos despautérios municipais e de poetas. / Concluirá que é um imenso campo de football. Senão, vejam: os quotidianos ocupam uma ou duas colunas, em semana, com política, um cantinho com cousas de letras, algum pouco mais com as patacoadas do nosso teatro, quase nada com artes plásticas, tudo o mais de suas edições diárias, isto é, a quase-totalidade da folha, enche-se com assassinatos, anúncios e football. / De resto, as gazetas têm razão. Vão ao encontro do gosto do público, seguem-no e, por sua vez, excitam-no. Toda a gente, hoje, nesta boa terra carioca, se não fica com os pés ferrados, ao menos com a cabeça cheia de chumbo, joga o tal sport ou esporte bretão, como eles lá dizem. Não há rico nem pobre, nem velho nem moço, nem branco nem preto, nem moleque nem almofadinha que não pertença virtualmente pelo menos, a um club destinado a aperfeiçoar os homens na arte de servir-se dos pés. / Até bem pouco, essa habilidade era apanágio de outra espécie animal; hoje, porém, os humanos disputam entre si o primado nela. Deixo a explicação desse fenômeno à inteligência e sagacidade dos sociólogos de profissão. O que verifico é que toda a nossa população anda apaixonada pela eurritmia dos pontapés e os poderes públicos protegem generosamente as associações que a cultivam./ Abram o Diário Oficial, lá verão, no orçamento e fora dele, as autorizações inúmeras ao governo para auxiliar com subvenções de cem, duzentos e mais contos, tais e quais ligas de "desportos", como eles, os sportsmen, dizem, na sua comichão de vernaculismo. / (...) / A proteção dispensada ao football não se limita à que lhe dá o Congresso. O Conselho Municipal vai além... / Sendo assim, o nosso Conselho Municipal derrama-se, esparrama-se, derrete-se em favores aos moços de mais de quarenta anos que se dão ao sacrifício de dar pontapés numa bola (...) / Os nossos edis, tendo em conta esse aspecto de beleza do nosso football, isentaram-lhe de impostos, enquanto sobrecarregam os outros divertimentos de ônus asfixiantes; entretanto, uma função de football rende, às mais das vezes, uma fortuna, sem despesa alguma, enquanto as diversas outras... / A edilidade, porém tem razão. Os clubes de football são de uma pobreza franciscana, tanto assim que há alguns que compram vitórias a peso de ouro, peitando jogadores dos contrários a contos de réis e mais... / Bem haja o Conselho Municipal que protege o desenvolvimento físico das pernas de alguns marmanjos! Ele se esquece de estimular os poetas, os músicos, os artistas naturais ou filhos adotivos da cidade que representa; mas, em compensação, dá "arras" de sua admiração pelos exímios "ponta-pedistas" de toda a parte do mundo. É mesmo essa a função de uma municipalidade."  



O centenário, p. 563-4, originalmente publicada pela revista Careta em 30/9/1922: aqui LB aponta a atitude displicente que caracteriza o carioca com relação às grandes datas nacionais e , mais especificamente, ao "Centenário" : "O que se nota, nas atuais festas comemorativas da passagem do centenário da proclamação da Independência do Brasil, é que elas se vão desenrolando completamente estranhas ao povo da cidade. O observador imparcial não vê nele nenhum entusiasmo, não lhe sente no ânimo nenhuma vibração patriótica. Se não há, na nossa pequena gente, indiferença; há, pelo menos, incompreensão pela data que se comemora." LB chega a imaginar que o carioca raciona como o mendigo de Londres do conto de um humorista inglês: "Que me adianta José Bonifácio, Pedro I, Álvares Cabral, o Amazonas, o ouro de Minas, a feérica exposição ¹,  o ouro de Minas Gerais, se levo a vida a contar vinténs, para poder viver?" Imagina ainda um pobre chefe de família que tem que pensar constantemente no dia de amanhã: "Terá ele tempo de impressionar-se com festividades patrióticas em que mais predominam jogos de bola e outras futilidades do que mesmo manifestações sérias de um culto ao país e a seu passado? / O Brasil passa por uma crise curiosa que não sei como classificar. Com estas festas do "Centenário", nós vemos uma das suas manifestações. Abre-se um jornal qualquer. Páginas e páginas são ocupadas com notícias de pugnas esportivas que se destinam a consagrar a efeméride que passa. A data em si é esquecida; tudo que se pode relacionar com ela, o é também; mas o negócio de bola e de box ocupa o primeiro lugar. / De forma que nós não festejamos os cem anos da nossa independência política. O que nós fazemos, é transformar o Rio de Janeiro num grande campo de lutas de box e corrida de cavalos. / Disse no começo destas breves linhas que o povo não se associava às festas do "Centenário". Enganei-me. Às esportivas, ele se associa de bom grado. A elas, e às de luminárias e às paradas militares. / O povo saberá o parentesco que elas têm."



Novos ministérios, p. 569-70, originalmente publicada pela revista Careta em 14/10/1922: Assim começa LB a sua crônica: "Falam os jornais na criação de novos ministérios. Ninguém poderá dizer que seja uma desnecessidade. O Brasil é grande e rico. Estão aí a exposição e a carestia dos aluguéis de casa, para prová-lo. Até bem pouco era governado por cinco ministros: Guerra, Marinha, Viação, Justiça, Exterior. Há alguns anos acrescentaram mais um: o da Agricultura. Veio a calhar. A nossa lavoura definhava, a pecuária agonizava e a carne-seca estava barata. Mal é criado o Ministério da Agricultura, a lavoura toma um próspero surto; os  bois, as vacas, os cabritos, os carneiros, os suínos aumentam de uma forma assustadora; e a carne-seca fica cara, caríssima. / O exemplo dessa recente instalação ministerial é deveras animador, para fazermos mais outras. / Apontam a criação de um Ministério dos Correios e Telégrafos. Para quê? Os Correios e Telégrafos, como estão, vão muito bem. (...) / O que se deve criar é um Ministério de Economias Nacionais, o Ministério dos Negócios do "Pé-de-Meia". Há muito desperdício por aí, pelas nossas secretarias e repartições. (...) / Outro ministério que devia ser criado era o de "Football e outros esportes". Agora com a "exposição" nós estamos vendo como ele se faz necessário. A comemoração do "Centenário", a bem dizer tem sido totalmente esportiva; mas há, nos torneios e partidas, não sei que difusão de esforços, impropriedades que estão a exigir um aparelho centralizador que tudo consiga. (...) / Não posso compreender jogos olímpicos em que entram, já não direi o football, mas tiro ao alvo, com carabina ou pistola, boxe e water-polo, etc., etc. Há nisso anacronismos que ferem... qualquer de nós. / No jogo do disco, que dizem ser puramente grego, os nossos atuais jogadores, com o corpo horrivelmente retorcido, contraem de tal forma o rosto que, se fossem posar para autênticos escultores gregos, mesmo que não se tratasse de estatuários do século V a.C., fugiriam estes a todo o pano de tais modelos. (...) / Quanto ao boxe, eu julgo que pode ser corrigido desde já. Não há uma "Sociedade Protetora dos Animais"? Ela não se tem batido pela proibição das touradas; e, agora mesmo, não está conseguindo no Senado a passagem de um projeto de lei que as proíbe em todo o território nacional, bem assim brigas de galo, de canários e tiro aos pombos? / Para acabar com o estúpido boxe e não figurar ele mais em jogos gregos, no Rio de Janeiro, não era preciso a criação de um ministério especial para os negócios esportivos; bastava, 'ad instar' da "Protetora dos Animais" a criação de uma "Sociedade Protetora dos Homens". Estou certo de que, no fim de um ano, ela conseguiria que o Senado ajuntasse à lista dos esportes que vai proibir, esse inumano e feroz boxe."



Herói!, p. 576-7, originalmente publicada pela revista Careta em 18/11/1922: O tema desta crônica é muito parecido com o da intitulada 'O Ideal'. Se, em 'O Ideal', o diálogo transcorre entre duas amigas que buscam esposos bem sucedidos, na presente crônica o diálogo se passa entre dois homens, pais de filhos não muito afeitos à intelectualidade: um, formado em direito, bacharel sem expressão, por influência paterna chegou a escrevente no cais do porto; o outro, que o pai achava que, "por não dar nada, deixara-o no football", por causa de sua boa fortuna, tornou-se herói nacional com salário de cinquenta contos. "Venceu o Campeonato Sul-Americano de Football, com o team nacional. E dizer que ele não dava pra nada!"



 IV.  NOTAS EXPLICATIVAS




¹    Para simplificar, utilizarei a sigla LB para "Lima Barreto".

²    Nesta mesma data, LB informa em seu diário íntimo que já tinha escrito quase todo o Gonzaga de Sá, participou da revista Fon-Fon, com crônicas, fundou a revista Floreal e recebeu elogio do José Veríssimo na Revista Literária, suplemento do Jornal do Comércio, na edição de 9/2/ 1907. Conforme [MENDONÇA (org.), 81], do grupo da revista Floreal participaram também Antônio Noronha Santos, Domingos Ribeiro Filho, Manuel Ribeiro de Almeida, João Barreto, Gilberto de Morais e Mário Tibúrcio Gomes Carneiro, entre outros.

³  Permiti-me transcrever o texto de LB ipsis litteris até esta altura, utilizando xerocópia de página de seu diário datada de 12/1/1905, fornecida por [MENDONÇA (org.), XX], lamentando que não tenha sido disponibilizado todo o texto para reproduzi-lo aqui. A parte restante do texto encontra-se em [MENDONÇA (org.), 50].

⁴  [MENDONÇA (org.) apud BARBOSA, 128] dá a chave dos personagens de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de acordo com Antônio Noronha Santos:
Plínio de Andrade ou Plínio Gravatá: Lima Barreto;
Ricardo Loberant: Edmundo Bittencourt, dono do jornal;
Aires D'Ávila: Gil Vidal;
Leporace: Vicente Piragibe;
Lobo, o gramático: Cândido Lago;
Floc: João Itiberê da Cunha (sic);
Veiga Filho: Coelho Neto;
Raul Gusmão: João do Rio;
Michaelowsky ou Gregorovitch Rostolopp: o Flogliani, do Fon-Fon;
Florêncio: Figueiredo Pimentel;
senador Carvalho: marechal Pires Ferreira;
dr. Franco de Andrade: Afrânio Peixoto;
Losque: Gastão Bousquet;
Deodoro Ramalho: Floriano de Lemos;
Rolim: Chico Souto;
Agostinho Marques: Pedro Ferreira do Serrado;
dr. Demóstenes Brandão: o juiz Cícero Seabra;
Laje da Silva: Pascoal Segreto;
Lindolfo Cólor: Lindolfo Collor.

  Recordações do Escrivão Isaías Caminha.

  Da mesma forma descrita no comentário da nota nº 2, até esta altura utilizei xerocópia de página do diário de LB datada de 20/4/1914, fornecida por [MENDONÇA (org.), XXII]. A parte restante do texto encontra-se em [MENDONÇA (org.), 119].

  O tenente do Exército, João Aurélio Lins Wanderley, era o principal acusado do assassinato de dois estudantes que participaram de passeata e protesto reprimidos pela polícia militar, em setembro de 1909, batizado de "Primavera de Sangue". O episódio ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, na disputa eleitoral à Presidência da República que findou com a eleição, em 1º de março de 1910, de Hermes da Fonseca, e envolveu confronto entre a Força Policial (considerada composta de militaristas, partidários de Hermes da Fonseca) e acadêmicos (tidos por civilistas, partidários de Rui Barbosa). Imediatamente, o candidato civilista à Presidência da República, Rui Barbosa, denunciou a ação violenta da "Primavera de Sangue" no Senado, afirmando que, em um país constitucional, a farda não eximia de críticas uma categoria e muito menos a isentava de suas responsabilidades legais para qualquer um dos cidadãos do país. Com a instauração do inquérito ficou comprovada a responsabilidade de alguns oficiais do Regimento de Cavalaria, entre os quais o tenente Wanderley e muitos soldados. No final do julgamento todos os réus foram condenados e, no caso do tenente Wanderley e dos executores, treze soldados da polícia, a pena foi a máxima, isto é, de trinta anos de reclusão.

  O conto "Como o 'Homem' chegou", incluído por LB na primeira edição de Triste Fim de Policarpo Quaresma, foi inspirado nesse episódio, de que o escritor guardou grande mágoa. Este conto constitui um dos 26 contos incluídos no livro "Histórias e Sonhos", editado em 1920.

  Aqui LB faz referência a Antônio Noronha Santos e Benedito de Sousa.

¹⁰  "Marinho" é Irineu Marinho, a quem Numa e a Ninfa, na versão em livro, foi dedicado.


¹²   [SCHWARCZ (org.), 2010, 15-54], na Introdução à edição dos "Contos Completos de Lima Barreto", assim se expressou com relação ao sonho de pertencer à ABL acalentado por LB: "Em 21 de agosto de 1917, declarara-se candidato à ABL, em carta dirigida a Rui Barbosa. Pleiteava a vaga de Sousa Bandeira, mas sua inscrição não foi nem sequer considerada. Em 24 de fevereiro de 1919, reinscreve-se como candidato à Academia; agora à vaga de Emílio de Menezes. Obtém dois votos no primeiro e no segundo escrutínio e tem apenas um voto no terceiro e no quarto, perdendo novamente a posição. Em 10 de julho de 1921, apresentou-se mais uma vez para concorrer à vaga de Paulo Barreto (João do Rio) na Academia Brasileira de Letras. No entanto, no dia 28 de setembro do mesmo ano retirou a candidatura "por motivos inteiramente particulares e íntimos". Lima Barreto parecia cansado e abria mão, definitivamente, da sua meta de se transformar em escritor reconhecido ou ao menos oficial. (...)"
Link: https://books.google.com.br/books?id=sNf4rhaxJvgC&pg=PT57&lpg=PT57&dq=o+intuito+de+esclarecer+o+que+poderia+haver+de+obscuro+em+certas+passagens+dos+meus+humildes+trabalhos.&source=bl&ots=dLwAvt7_Us&sig=8MlE7NDxsFZHQVoL6B4ehvlewA0&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiC6J-f8_LOAhVDiJAKHWVUCDwQ6AEIHjAA#v=onepage&q=o%20intuito%20de%20esclarecer%20o%20que%20poderia%20haver%20de%20obscuro%20em%20certas%20passagens%20dos%20meus%20humildes%20trabalhos.&f=false  Acesso em 28/08/2016.

¹³  Uma edição conjunta de Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos foi publicada em 2010, organizada por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, os quais são responsáveis também pelas elucidativas notas de rodapé, que pela primeira vez contextualizaram quem eram os médicos, corrigiram falhas de edições anteriores e sugeriram novas interpretações a passagens de LB. Além disso, o volume trouxe fotos de época, um ensaio de Alfredo Bosi como prefácio e a reunião, ao final, de contos e crônicas do próprio LB sobre o assunto, e de outros escritores, como Machado, Raul Pompéia e Bilac, como a demonstrar a importância que teve o tema da loucura, ou melhor, do encarceramento dos considerados loucos no período que vai de meados do século XIX até o início do século XX.

¹  Trata-se do Dr. Mário de Lima Valverde.

¹  O Brasil, isto é, os brasileiros.

¹  Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 1864-Rio de Janeiro, 1934) foi fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupante da cadeira nº 2 (1897-1934) e seu presidente em 1926 e pode ser considerado como integrante do parnasianismo. Sua fecunda produção valeu-lhe a crítica de "fabricante de romances", normalmente publicados na Editora Lello, na cidade portuguesa do Porto. Foi alvo de muitas hostilidades dos modernistas, que consideravam sua obra cheia de "pompa e formalismos", dotada de "artifícios retóricos" que foram também rejeitados posteriormente pelos autores regionalistas. Essas críticas podem ser consideradas como um fator responsável pelo esquecimento póstumo de sua obra.
LB, por sua vez, chegou a publicar artigos em periódicos literários, como a Revista Contemporânea e A Lanterna, nos quais ataca Coelho Neto e sua visão tradicional da literatura, dizendo que este se preocupava somente com o estilo e o vocabulário, passando ao largo de questões sociais, políticas e morais, deixando de usar a escrita como instrumento de transformação social. Lembremo-nos de que LB era favorável a uma literatura militante. 
Num de seus artigos, LB escreveu, segundo [ROSA & NEVES, 2010, p. 10-11 apud BARRETO, 1956a:76]
"Em um século de crítica social, de renovação latente das bases das nossas instituições; em um século que levou a sua análise até os fundamentos da geometria (...) Em um século deste, o Senhor Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico, um contemplativo, magnetizado pelo Flaubert da Mme. Bovary, com as suas Chinesices de estilo, querendo como os Goncourts, pintar com a palavra escrita (...) mas que não fez de seu instrumento artístico um veículo de difusão das ideias de seu tempo, em quem não repercutiram as ânsias de infinita justiça dos seus dias; em quem não encontrou eco nem revolta o clamor das vítimas da nossa brutalidade burguesa." 
Coelho Neto também foi um dos folcloristas, que, com visão romântica, procuraram resgatar a imagem da capoeira no País, como esporte genuinamente brasileiro, até então visto como praticado por marginais. Defendia que fosse ensinada nas escolas e nas Forças Armadas, nestas últimas como técnica de defesa pessoal.


¹   Belisário Augusto de Oliveira Pena nasceu em Barbacena, em 1868. Filho do Visconde de Carandaí, foi médico sanitarista, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1890, após o que retornou a Minas Gerais para clinicar, tendo sido eleito vereador em Juiz de Fora. Em 1904, transferiu-se para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar na Diretoria Geral de Saúde Pública. Nos anos seguintes, colaborou no combate à febre amarela, malária e outras doenças em diversos pontos do território nacional. Em 1918, assumiu a direção do Serviço de Profilaxia Rural, recém-criado pelo presidente Venceslau Brás. Em 1920, foi nomeado diretor de saneamento rural do Departamento Nacional de Saúde. Parece que a crônica de LB fala de sua atividade anterior como diretor do Serviço de Profilaxia Rural.

¹  Referia-se ao centenário da proclamação da Independência do Brasil.

¹  A Exposição Internacional Comemorativa do 1º Centenário da Independência, realizada em 1922, no Castelo, centro do Rio de Janeiro, foi mais imponente do que a sua predecessora (Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, em 1908, durante o período de 28/1 a 15/11/1908). Inicialmente foi sugerido aos responsáveis pela organização dos eventos comemorativos que se realizasse uma monumental Exposição Nacional. No entanto, devido à grande quantidade de países estrangeiros interessados em participar das comemorações do nosso centenário, houve, pois, uma mudança no caráter do evento  tornando-se assim internacional. A exposição internacional foi oficialmente aberta em 7 de setembro de 1922, durante o governo do presidente Epitácio Pessoa, e o seu encerramento se deu na primeira semana de julho de 1923, quando o presidente era Artur Bernardes. O evento ocupou uma extensa área decorrente de aterramentos e intervenções diversas. A área destinada à "Avenida das Nações" se estendeu do Palácio Monroe até a Ponta do Calabouço e dentre os principais pavilhões ali construídos estava o edifício do Palácio das Indústrias, que hoje abriga do Museu Histórico Nacional.






V.  BIBLIOGRAFIA




BARBOSA, Francisco de Assis: A VIDA DE LIMA BARRETO (1881-1922). Rio de Janeiro: José Olympio, 1952, 406 p.

BARRETO, Afonso Henriques de Lima: OBRAS COMPLETAS: (org.) Francisco de Assis Barbosa e Antônio Houaiss. São Paulo: Brasiliense, 1956 (17 volumes).

BOTELHO, Denilson: NUMA E A NINFA: o Brasil republicano no romance de Lima Barreto, trabalho apresentado no XXVIII Simpósio Nacional de História, disponível na Internet, 2015, 11 p. http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1438606575_ ARQUIVO_Texto_Comunicacao_Denilson_versaofinal.pdf  Acesso em 28/08/2016.

MENDONÇA, Bernardo (org.): LIMA BARRETO, UM LONGO SONHO DO FUTURO: Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas, Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 2ª edição, 406 p., 1998.

QUEIROZ, P.R.C.: Dificuldades, estratégias e contratempos de um escritor na Primeira República: uma análise da trajetória editorial de Lima Barreto. Revista online Baleia na Rede, p. 109-39, s/d. Link:https://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/BaleianaRede/Edicao04/dificuladades.pdf    Acesso em 28/08/2016.

RESENDE, B. & VALENÇA, R. (org.): LIMA BARRETO, TODA CRÔNICA, Rio de Janeiro: Agir, 2 tomos (vol. I composto de crônicas publicadas no período de 1890-1919 com 587 p. e vol. II composto de crônicas publicadas no período de 1919-1922 com 597 p.), 2004

ROSA, Juliana P. & NEVES, Maria Cândida F. A.: A construção literária no Brasil República e a formação do caráter nacional a partir da obra de Lima Barreto, novembro de 2010, 12 p.
Link: http://revistatessituras.com.br/artigos.php?exibir=Artigos&id=193  Acesso em 28/08/2016.

SCHWARCZ, Lilia Moritz (org.): "Lima Barreto: termômetro nervoso de uma frágil República", Introducão in CONTOS COMPLETOS DE LIMA BARRETO, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, 720 p.

5 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor e gerente do Blog de São João del-Rei e do Blog do Braga) disse...

O momento do pré-modernismo nas letras nacionais é precipuamente representado por Lima Barreto e Euclides da Cunha, na prosa. Embora os textos produzidos por esses autores tenham temáticas e características estéticas diversas, ambos apresentam-se comprometidos com as ideias de representação do País no início do século XX.
Lima Barreto nasceu e praticamente viveu toda a sua vida nos subúrbios cariocas, tendo passado curta temporada em Ouro Fino-MG, em 1916.
No presente ensaio, analiso as principais obras produzidas e entregues às editoras por Lima Barreto durante sua existência (1881-1922).
Em todas sobressai a sua sinceridade. Conforme ele próprio anotou em seu diário íntimo em 5/1/1905: "Sempre achei a condição para obra superior a mais cega e absoluta sinceridade."
Sob a ótica da sinceridade, nesse meu ensaio merecem destaque o que Lima Barreto deixou registrado sobre Machado de Assis e sobre o futebol.

Prof. José Maurício de Carvalho (escritor, Membro da Academia de Letras de SJDR e professor universitário) disse...

Obrigado, abraços. Mauricio

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, escritor e Membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Sou fã de Lima Barreto e seu Policarpo Quaresma.
Abs.

Rogério

Dr. Mário Pellegrini Cupello (Presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, de Valença-RJ) disse...

Caro amigo Braga.
Agradecemos pela gentileza do envio. Trata-se de uma temática interessante, que leremos a seguir com muito interesse.
Abraços, Mario.

Sônia Vieira (pianista e Membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Seu ensaio, como sempre, é notável. Meus parabéns por se dedicar a um autor que, não sei porquê (ou talvez saiba...), tem sido colocado de lado entre os intelectuais deste nosso país.
Desde criança nutro verdadeiro amor pelo que Lima Barreto nos deixou de presente: seus escritos extraordinários. Sua inteligência, fina ironia, perspicácia, extrema sensibilidade e paixão por tudo o que escolhia como tema, logo me chamaram a atenção. Inclusive, confesso que sua passionalidade e busca da verdade, em contraste com a "secura" e o enquadramento de Machado de Assis aos ditames sociais e intelectuais da época, sempre me impressionaram e me fizeram preferi-lo ao fundador da Academia Brasileira de Letras, ainda que pese seu imenso valor.
Agradeço portanto por seu belíssimo trabalho, que recomendo e tomo a liberdade de passar adiante, para que novas gerações possam desfrutar de toda a beleza, paixão e sinceridade de suas obras.
Muito grata.