segunda-feira, 7 de maio de 2018

RESENHA CRÍTICA DE LIVRO SOBRE A HISTÓRIA DE ITUMIRIM-MG


Por Francisco José dos Santos Braga


Livro de Maria Terezinha de Resende - Crédito pelas fotos: Rute Pardini Braga

Neste pequeno trabalho, proponho-me a fazer uma resenha crítica de um livro que traz a história particular do Município de Itumirim, intitulado “De Rosário de Lavras, Vila Coruja e Estação Francisco Sales a Itumirim”, da professora e genealogista Maria Terezinha de Resende.

As 397 páginas do presente livro cobriram o período compreendido entre 1700 e 1950, mas não foram suficientes para cobrir toda a história particular do Município de Itumirim. Portanto, o livro em questão constitui a primeira parte da história do município de Itumirim, dos anos 1700 à década de 1950, demandando da autora nova disposição para completar suas pesquisas que serão mostradas num segundo volume, em gestação. Este seu primeiro livro de pesquisas genealógicas contou a colaboração do digitador e primeiro revisor Renato, da segunda revisora Rosemary Chalfoun e de prefácio de autoria da filha Patrícia Maria de Resende Nassur.
 
Observa-se na autora um grande pendor pela genealogia, ciência auxiliar da História, cujas descobertas são basicamente feitas em fontes primárias (documentos antigos, muitas vezes carcomidos pelo tempo, e pesquisas materializadas através de inventários, testamentos, livros de batismo, casamento e óbito, cadernos de anotações da família, etc.) e em fontes secundárias (trabalhos de pesquisa de outros pesquisadores).

Neste ensaio sobre a sua terra natal, observa-se na autora uma enorme garra de historiadora, uma auto-convocação para escrever sobre Itumirim um trabalho de maior vulto (que é sua intenção), pois talento não lhe falta para a empresa e já lhe é familiar o documentário sobre o assunto ¹.

Desde já, alguns capítulos merecem o nosso destaque. O capítulo 15 (páginas 110-136) intitulado “Mascates e Tropeiros” reconhece a contribuição desses grupos sociais como agente ativo introdutor de progresso e propagador de civilização, destacando principalmente a presença de Italianos e “Turcos” (Sírios e Libaneses) na comunidade itumirinense. Além disso, o capítulo 16 (páginas 137-156) sobre a imprensa em Itumirim, — noticiando mais amplamente sobre matérias constantes dos jornais “O Sabiá”, na década de 1920, e “A Rajada”, na década de 1930 —  é uma preciosa contribuição para um estudo completo da Imprensa em Minas, trabalho que um dia ainda terá de ser feito. Nas décadas seguintes, segundo a autora, eram lidos ainda “A Gazeta”, de Lavras, e “O Sul Mineiro”, de Varginha, que mantinham correspondentes em Itumirim. Desde o início do século, jornais de Lavras, dirigidos por partidos políticos rivais (Rolinhas X Gaviões) tinham adeptos em Francisco Sales e Rosário: inicialmente, “O Republicano” (jornal da situação) e a “Folha de Lavras” (jornal do Partido da Lavoura e Comércio); na década de 1920, a “Tribuna do Povo”, defensor do PRM, e “O Município”, jornal dos Gaviões. Por fim, o capítulo nº 29 intitulado “Anexo fotográfico”, — que mereceu destaque por parte da autora do livro, independente dos valiosos registros fotográficos espalhados ao longo dos 28 capítulos anteriores, — concentra uma coletânea rica de preciosas fotografias cedidas por pessoas amigas dela, com legendas explicativas de inegável valor histórico, trazendo maior consistência aos anteriores capítulos do livro, razão por que não poderia deixar de consignar aqui a importância das fotografias de época num trabalho informativo desse tipo, de inegável cunho histórico.

DO LIVRO


Na Introdução (p. 2), a autora inicialmente esclarece que a história da atual Itumirim se apresenta intrincada na história de sua célula-mãe, Lavras do Funil do Rio Grande, ao mesmo tempo que se disse incomodada com o histórico oficial de Itumirim (1730-1892), o qual citava duas datas (1730: construção da igreja Nossa Senhora do Rosário da Cachoeira do Rio Grande, e 1891: construção da capela de São José do Capivari, na Vila Coruja) e concluía com a afirmação de que houve uma grande apatia no período. Foi por discordar dessa informação que a autora escreveu seu primeiro livro sobre a história de Itumirim (que em tupi significa pequeno salto, ou cachoeira pequena), redigindo 397 páginas para cobrir a referida lacuna de 160 anos ².

De acordo com a autora, nas páginas 7 e ss. do seu livro, Fernão Dias Paes Leme, já experiente bandeirante por ter desbravado sertões paulistas, recebeu do Governador Geral, Afonso Furtado de Menezes, Visconde de Barbacena, na forma dos respectivos alvarás, a carta patente de 20/10/1672, concedendo-lhe todos os poderes e nomeando-o chefe da expedição projetada e governador das terras das esmeraldas, tendo partido de São Paulo com sua bandeira na manhã de 21/07/1674. Foi uma das maiores bandeiras até então conhecidas; tendo transposto serras e rios, a expedição se estabeleceu em Ibituruna, dando origem ao mais antigo lugar de Minas Gerais. Pelos idos de 1694, o escriba real Bento de Souza Pereira Coutinho escreveu ao Rei de Portugal a respeito do itinerário palmilhado pela bandeira do caçador das esmeraldas, tendo mencionado a colina da cachoeira afunilada do rio Grande, que serviu de pouso à bandeira de Fernão Dias: “a conquista da citada colina dos ferozes Cataguases marcou a primeira etapa da etimorada bandeira...”. Segundo a autora, talvez o feito mais significativo dessa bandeira tenha sido a luta travada com uma horda de índios Cataguases comandada pelo temível cacique Jaci, no sopé da dita colina, na época um verdadeiro promontório entre os campos da serra da Bocaina e as florestas do rio Grande. Os belicosos íncolas abandonaram suas ocas nas redondezas da citada colina, recuando para as brenhas do rio São Francisco, onde dois anos mais tarde, em outro sangrento entrevero, foram batidos definitivamente por outro sertanista paulista do século XVII, Lourenço Castanho, no lugar que recebeu o nome de Conquista, hoje Itaguara.

Às páginas 12 e ss., a autora informa que, mais tarde, Francisco Bueno da Fonseca, natural de Santana do Parnaíba e neto do famigerado Amador Bueno de Ribeira, dito O Aclamado ³ (c. 1584-c. 1649), se distinguiu na Guerra dos Emboabas (1707-1709). Dominada a disputa, ele voltou à Parnaíba, onde foi morador por muitos anos. Consta ainda de sua biografia que, na Vila de São Paulo, foi cabeça de uma revolta pela expulsão do Desembargador Antônio da Cunha Souto Maior para pacificar e melhor administrar a região. Como consequência da Guerra dos Emboabas, que demonstrara a fragilidade do controle da Coroa Portuguesa sobre a região das recém-descobertas minas de ouro, foi criada em 3 de novembro de 1709 a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Estabelecidas as primeiras vilas na região das Minas (Vila Rica e Vila de Nossa Senhora de Sabará), chegou o momento de dividi-la em três Comarcas: Vila Rica (com sede em Vila Rica), Rio das Velhas (com sede em Sabará) e Rio das Mortes (com sede em São João del-Rei).

Às páginas 27 e ss., a autora, citando Ari Florenzano, informa que, mais ou menos em 1720, o citado Francisco Bueno da Fonseca formou uma bandeira, junto com seus filhos, um parente, seus escravos e outros sertanistas, e veio a se estabelecer à margem esquerda do rio Grande. (Esclarece na p. 37 que do outro lado desse rio, à sua margem direita, estavam o Rosário Velho e Ibituruna.) Estes primeiros habitantes eram paulistas da vila de Santana do Parnaíba, e poucos anos depois de sua chegada, fundariam o arraial dos Campos de Sant'Ana das Lavras do Funil, em 1729, e erigiriam a capela de Nossa Senhora da Conceição do Rosário da Cachoeira do Rio Grande, em 1730. (Esclarece na p. 38 que o epíteto “do Funil” no topônimo se deve ao desenho formado pela confluência dos rios Grande, Capivari e das Mortes, conforme mapa na p. 14, onde esclarece que é possível ver o Ribeirão do Rosário Velho à margem direita do rio Grande, bem defronte ao Rosário à margem esquerda do dito rio.) 

Mapa na p. 14 dos encontros dos rios Capivari, Grande e das Mortes. É possível ver o Ribeirão do Rosário Velho à margem direita do rio Grande, bem defronte ao Rosário da margem esquerda do mesmo rio.


Concluiu a autora, às páginas 28: “Rosário, que deu origem à região conhecida como Lavras do Funil, é o que hoje ainda existe à margem esquerda do rio Grande, cuja capela resistiu até os anos de 1960.” Reiterou a sua convicção na página 36: “É, pois, o Rosário, berço de nossa História, com a construção da igreja e casas. Lavras nasceu dentro dessa Sesmaria, de 1737, com a ampliação do território com a petição da Sesmaria, de 1753.” De fato, nesta região, a família de Francisco Bueno da Fonseca estava empenhada na busca do ouro e também na abertura de novos caminhos até às Minas dos Goiases. Nesta mesma região, em 1737, os exploradores receberiam do governador Martinho de Mendonça uma carta de sesmaria confirmando a ocupação da terra, que se despontava na agricultura e pecuária. A carta de Sesmaria de 1753, cuja petição é feita pelo Guarda-mor Diogo Bueno da Fonseca, não somente garante a posse dos sesmeiros da carta de 1737, mas também amplia o território coberto em direção ao Rio Grande abaixo e também de leste para oeste. Na página 34, a autora foi ainda mais específica: “Foi a Capela de Nossa Senhora do Rosário da Cachoeira do Rio Grande o marco da povoação do município de Lavras, Itumirim e toda a região que, no passado, compunha o grande território das Lavras do Funil.” O Capitão-mor Francisco Bueno da Fonseca cuidou da capela até sua morte em 12/04/1752 e aí foi sepultado. 

Às páginas 38, a autora transcreveu os registros de óbito dos pioneiros, por considerá-los documentos importantes. Assim, transcreve do livro de assentos de óbitos da igreja de Carrancas o registro de óbito do Capitão-mor Francisco Bueno da Fonseca. Da mesma forma, transcreveu o registro de óbito do filho do patriarca, o Guarda-mor Diogo Bueno da Fonseca, aos 12/12/1779, fornecido por Diogo de Vasconcelos, in História Antiga de Minas Gerais (2ª edição de 1904, p. 186), sepultado na mesma capela junto do pai. A autora observou ainda uma curiosidade: “No óbito de Francisco Bueno cita a capela do Rosário como filial da matriz de São João del-Rei e no óbito de Diogo Bueno cita o Rosário como sendo filial da Matriz de Santana de Lavras do Funil.” Infelizmente, as lápides dos túmulos, que em seu interior havia, foram utilizadas na construção da nova capela inaugurada em 07/10/1964.

SOBRE LAVRAS  ⁴
 
Em 1813, o arraial de Sant’Ana das Lavras do Funil fora elevado à categoria de freguesia, quando do desmembramento de Carrancas. Já na época do Império, a freguesia obteve sua emancipação política e administrativa passando à condição de vila, em 1831, e à categoria de cidade, em 1868, quando houve alteração na toponímia municipal de "Lavras do Funil" para "Lavras".

O final do Século XIX e início do Século XX foi um momento de rápido desenvolvimento em Lavras, a começar pelas novas ligações fluviais e ferroviárias criadas. Em 18 de dezembro de 1880 foi inaugurada a navegação fluvial de 208 km entre os portos de Ribeirão Vermelho (município de Lavras) e de Capetinga (município de Piumhi), feita pelo barco a vapor "Dr. Jorge". Em 14 de abril de 1888 a EFOM inaugurava a primeira estação em Ribeirão Vermelho, e em 1.º de abril de 1895 inaugurava a estação na cidade de Lavras.

Na organização territorial de Lavras, no período de 1908, Rosário (a partir de 1924: Itumirim) aparece como um dos nove distritos do Município de Lavras. Os outros distritos eram: São João Nepomuceno, Perdões, Ribeirão Vermelho, Conceição do Rio Grande (atual Ijaci), Ingahy, Santo Antônio da Ponte Nova (atual Itutinga), Carrancas e Luminárias. Respectivamente em 1911 e 1912 os distritos de São João Nepomuceno e de Perdões se tornaram cidades, desmembrando-se do Município de Lavras. A partir de 1º de janeiro de 1944, emancipou-se também o Município de Itumirim, trazendo para sua composição territorial os distritos de Luminárias, Ingahy e Itutinga, que antes pertenciam também ao Município de Lavras. Nos anos abaixo discriminados desmembram-se do Município de Itumirim, sendo elevados à categoria de municípios: a partir de 1949, Luminárias; a partir de 1954, Itutinga e a partir de 1963, Ingaí. No caso deste último, a lei estadual que o desmembrou (nº 2764, de 30/12/62), anexou o distrito de Macuco de Minas ao município de Itumirim.

SOBRE ITUMIRIM


Sobre o atual Município de Itumirim a autora escreve inúmeras páginas, especialmente a respeito das diferentes denominações dessa localidade. O próprio título do livro “De Rosário de Lavras, Vila Coruja e Estação Francisco Sales a Itumirim” dá uma ideia da riqueza de denominações para a localidade que hoje conhecemos por Itumirim. Às páginas 40 e ss., a autora trata do primeiro topônimo, registrando que o distrito de Rosário de Lavras teve sua denominação ligada à Capela de Nossa Senhora do Rosário da Cachoeira do Rio Grande, cuja construção data de 1730 pelo Capitão-mor Francisco Bueno da Fonseca e outros sitiantes. Fotos da antiga capela são mostradas nas páginas 33 e 34. Pesquisando os inventários dos anos de 1800 arquivados no CEMEC (Centro de Memória Cultural do Sul de Minas), ela descreve como conseguiu identificar várias fazendas e sítios localizados nessa região, às páginas 53 e ss. Sua pesquisa se centrou na fazenda Recreio, onde residiu Diogo Bueno da Fonseca, filho do citado Francisco Bueno da Fonseca e capitão-mor que fazia a guarda da travessia do rio Capivari, evitando a passagem de aventureiros que quisessem alcançar o Rio Grande e, consequentemente, o Rio das Mortes em busca do caminho do ouro. E é da referida fazenda que surgiu a história (ou lenda) do romântico casal contada de geração a geração e que marca o povoado denominado “Coruja”, o segundo topônimo pesquisado pela autora. (Os dois primeiros e o último parágrafo do famoso “causo” abaixo reproduzidos, em itálico, foram retirados de certo conto não referenciado pela autora nas páginas 54 e 55, sendo que encontramos o miolo da narrativa no blog No Rastro da Memória (Santa Rita do Sapucaí) de Nídia Telles, que, também sem qualquer referência a autor, livro, etc., passamos a transcrever na íntegra com a impressão de que ambas tiveram acesso à mesma fonte, com leves variantes:)
“Situado à margem do rio Capivari, lugar histórico, por ter sido desde a época dos bandeirantes uma passagem para as minas de ouro, que at raíam e fascinavam as populações do litoral. Essa localidade, hoje Itumirim, se constitui pela energia dos seus habitantes e pela sua posição geográfica e topográfica, um ponto de largas perspectivas de engrandecimento.
A origem da história de Itumirim é conhecida somente após o drama amoroso de uma das netas do valente bandeirante Amador Bueno da Fonseca com um comerciante de nome Goulart Brum.
Na atual fazenda do Sr. Augusto Pinto residiu um dos filhos do intrépido bandeirante. Como naqueles dias o socorro e a agressão se faziam mutuamente, tinha este povoador de Minas a missão de garantir a passagem do Rio Capivari, vedando-a, a quem que fosse quando ouvisse um estampido de arma de fogo em determinado lugar, conforme a combinação que tinha com seus parentes residentes nas margens do Rio Grande.
Tronco de numerosa família mineira, Goulart Brum que negociava com gêneros da Campanha para o norte se enamorou de uma das filhas do bandeirante Bueno. Este amor nas selvas teve contra si a vontade do velho pai de sua enamorada. Os jovens enamorados não se desiludiram e dominaram dificuldades incríveis criadas pelas asseclas da fazenda.
Fugiu a mimosa mineira descendo despida por uma das janelas, por sua família lhe ter apreendido a roupa como meio de evitar a fuga. Brum que a esperava com roupas, cavalo para a viagem e homens corajosos para a luta talvez inevitável, partiu com a noiva ao trotar acelerado dos cavalos para se casarem em Campanha. Descobertos e perseguidos quando soou o estampido, avisando a guarda da ponte, já os fugitivos estavam a grande distância.
Pode-se acentuar de passagem que passado poucos dias, apesar dos avisos, das ordens e ameaças do seu sogro, Brum penetrava com sua esposa nos currais da fazenda demonstrando tal bravura que a oposição da família se transformou em aliança indissolúvel.
Desse incidente em diante foi aperfeiçoada a guarda da ponte, por ser uma passagem forçada do Sul de Minas para as minas de ouro de São João del-Rei e construídas as primeiras casas que serviam de alojamento a policiadores e que hoje já não mais existem.”  

A antiga capela de São José do Capivari, construída em 1891, é considerada marco de nascimento da Vila Coruja, utilizada especialmente como parada de tropeiros, no pequeno povoado à margem esquerda do rio Capivari, denominado “Coruja”.

Enquanto isso, a vila Coruja, na outra margem do rio Capivari, ia se desenvolvendo com os benefícios de progresso que a Estrada de Ferro Oeste de Minas estava trazendo para a região com a inauguração da Estação Francisco Sales em 1897, em homenagem ao Presidente do Estado à época.

Foi considerada natural a mudança da sede do distrito de Rosário para a Vila Coruja, abordada nas páginas 78, porque, para a autora, “Coruja tinha a seu favor a estação (ferroviária) Francisco Sales, construída em 1897, o que facilitava o entrosamento entre o distrito sede, Lavras, e o distrito de Rosário. Este fator influenciou a mudança de sede deste distrito para a vila Coruja.”  Aí, a autora estabelece a data precisa em que o distrito passa a ser conhecido pelo topônimo Francisco Sales: 7 de agosto de 1918, ocasião em que, com o surto do progresso, “a sede distrital é transferida para Coruja e o distrito passa a denominar-se Francisco Sales.” Às páginas 79 a autora adverte o leitor para o fato de que “há datas diferentes, assim como oscila a denominação da sede do distrito, ora Coruja, ora Francisco Sales. (...) Fatores políticos influenciavam nas alterações dos nomes. Quando mudava o poder administrativo, oscilava também o nome do lugar. E foi por motivos políticos que se resolveu em definitivo, por lei (Lei Estadual nº 843, promulgada em 7 de setembro de 1923), alterar o nome Coruja para Itumirim e a estação, em 1930, passou a ser oficialmente Estação de Itumirim. Até esta data de 1924, o lugar era conhecido pelos dois nomes: Coruja e Francisco Sales, além de ser conhecido também como São José do Capivari, em razão da capela aí existente.” Segundo a autora, foi a Lei estadual nº 860, de 09/09/1924 que alterou o nome de Coruja para Itumirim, permanecendo este, até 1943, distrito de Lavras. 

No capítulo 25, às páginas 300 e ss., pode-se ler que apenas com o Decreto-lei estadual nº 1058, de 31/12/1943, o distrito de Itumirim é emancipado, elevado à categoria de município, mas permanecendo subordinado ao termo e à comarca de Lavras no quinquênio vigente 1944-48 e no quinquênio seguinte 1949-53. 

A foto 119 na página 303, no capítulo 25 do livro documenta a emancipação político-administrativa de Itumirim, festejada em 1º de janeiro de 1944. 

No mesmo capítulo 25.3, nas páginas 313-4, a autora fornece a informação de que “há, na Câmara Municipal de Itumirim, um arquivo bem organizado e conservado, onde é possível pesquisar livros de atas, leis e decretos do Município desde a sua criação”, comentando o que julgou importante nos 33 decretos-leis nos primeiros quatro anos de interventores indicados pelo governador (1944-47). 

No mesmo capítulo 25.4, nas páginas 316 e ss., são mencionadas as denominações de ruas e logradouros de Itumirim por decreto-lei nº 13, de 17/06/1945, retratando o núcleo do povoado na década de 1940, bem como a interpretação da autora para as referidas denominações. 

No mesmo capítulo 25.5, nas páginas 322-34, a autora trata da primeira eleição para prefeito e vereadores de Itumirim (1948-1950). 

De um histórico sobre o Município de Itumirim, nas páginas 328-331, datado de 11/11/1949, extraímos as seguintes informações sobre a indústria de pecuária e laticínios, base da economia do Município: Manteiga (4 fábricas e 1 fabriqueta) e Queijo (7 fábricas de queijo prato e 3 de queiro mineiro). Possui, ainda o Município 1 fábrica de calçados, 2 fábricas de aguardente, 4 fábricas de polvilho, 1 cerâmica, 1 indústria de cal e 6 produtores de fumo. 

O capítulo 28, nas páginas 360 e ss, trata da Comarca de Itumirim. A Lei estadual nº 1039, de 12/12/1953, que aprovou a nova divisão do Estado para vigorar no quinquênio 1954-58, criou a comarca de Itumirim, tendo, em sua jurisdição, o município de Itutinga que, nessa mesma data, se emancipava. Por motivos econômicos do Estado, a Comarca de Itumirim foi extinta em 1967, voltando a pertencer à Comarca de Lavras, mas tendo suas atividades prorrogadas até 1970 para finalizar os processos já em andamento. A 4 de janeiro de 1988, a Lei nº 9548 cria novamente a Comarca de Itumirim que só veio a ser reinstalada a 10 de setembro de 1994. 

Finalmente, a autora inclui, nesse último capítulo 28, sua contribuição voluntária, em 2007, com base em “observações feitas do ponto de vista histórico na releitura dos processos cíveis do período de 1955 a 1970 que se encontram arquivados no Fórum de Itumirim”, excluídos os processos criminais que não estavam lá arquivados. Essa sua contribuição atendia pedido da MM. Juíza da Comarca, Dra. Fernanda Icassatti Corazza, para satisfazer um ofício do IPHAN, que solicitava fosse enviado para fins de arquivo o que pudesse ser analisado sob o ponto de vista histórico. As anotações que fez e que transcreveu na íntegra nas páginas 361-71 não serviram propriamente para o arquivo do IPHAN, mas, sem dúvida, a sua pesquisa serviu muito para a história do Município e da Comarca.



NOTAS  EXPLICATIVAS



¹  O escritor russo Liev Tolstói (1828-1910), autor de “Guerra e Paz” e “Anna Karênina” foi muito feliz ao cunhar a seguinte frase não só de grande efeito, mas que também encerra uma grande verdade: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. O verbo pintar neste caso específico admite uma conotação mais ampla, podendo significar também contar, narrar ou, até mesmo, cantar.
Alguns historiadores conseguem seguir a recomendação de Tolstói à risca. Posso citar aqui, pelo menos, outros três que conseguiram brilhantemente “cantar” a sua aldeia, anotando, cronologicamente, os fatos principais da história do seu município, dando de cada um deles notícia fiel, com base em documentos, cuidando, contudo, de elaborar um resumo histórico do município, isto é, uma condensação de episódios marcantes da história do município que é muito ampla. Por ser muito ampla, o historiador corre o risco de se perder em muitas particularidades da vida do município, que podem acabar por desviá-lo do reto caminho historiográfico. Na minha opinião, são verdadeiros modelos de aplicação desses conceitos, começando pela minha aldeia, Dr. Augusto das Chagas Viegas, inNotícia de São João del-Rei”, ou pela aldeia dele, na menos conhecida “Notícia Histórica do Município de São Tiago”; Dario Cardoso Vale, inMemória Histórica de Prados”; e Dr. Altair José Savassi, inBarbacena - 200 Anos”, os quais conseguiram dar “pinceladas” seguras e produziram autênticas obras de arte literária ao falarem da história particular de sua terra natal.

²   De fato, consultando sobre a cidade de Itumirim na Wikipedia, o leitor consegue muito poucas informações.

³  “Amador Bueno de Ribeira, capitão-mór e ouvidor da capitania de S. Vicente, cargo que ocupou em 1627, foi aclamado rei em S. Paulo em 1641 pelo poderoso partido formado de influentes e ricos castelhanos...” (trecho da Genealogia Paulistana, de Luiz Gonzaga da Silva Leme, vol. I, pp. 418-460, título Buenos da Ribeira).

  Servi-me da longa matéria na Wikipedia para registrar resumidamente o que aqui está estampado sobre o município de Lavras.

  Segundo Silva Leme, um dos filhos de Amador Bueno de Ribeira se chamava Amador Bueno (o Moço), que se casou em 1638 em S. Paulo com Margarida de Mendonça e faleceu em 1683 em S. Paulo. Este deixou um filho chamado Bartholomeu Bueno de Mendonça que em 1682 estava no sertão, foi inventariado em Taubaté em 1702 no estado de viúvo de Domingas Ribeiro da Silva e teve um filho chamado Amador Bueno.
 
A moça protagonista do “causo” seria neta de um Amador Bueno da Fonseca, mas de qual deles?

7 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Devemos sempre saudar o propósito de alguém escrever a história particular de um município. Quando o município tem a ver com São João del-Rei, seja pela proximidade seja por ser o caminho natural entre o Sul de Minas e São João del-Rei e, consequentemente, a Corte (Rio de Janeiro), maior ainda é o entusiasmo do leitor como eu, que neste presente trabalho de resenha me aventuro a resumir e a manifestar minha visão sobre um livro com tais características.

O título do livro de que falo é "De Rosário de Lavras, Vila Coruja e Estação Francisco Sales a Itumirim", que traz quatro denominações diferentes para o mesmo espaço territorial desde o primeiro quartel do século XVIII até hoje, escrito em 2012 pela novel escritora, professora e genealogista MARIA TEREZINHA DE RESENDE, itumirinense, isto é, nascida em Itumirim, que se radicou em Lavras por longo tempo, mas voltou à terra natal para engajar-se neste grande empreendimento.

Prof. Mário Celso Rios (professor, escritor, conferencista e presidente da Academia Barbacenense de Letras) disse...

BRAGA,
tudo em paz?
MARIA TEREZINHA DE RESENDE, itumirinense, de fato traz relevante contribuição para a compreensão das Minas Gerais a partir de nossa região ( falo da nossa, porque esses pontos por ela abordados nos são familiares e mostram fundamentos da ocupação humana no Campo das Vertentes!
Parabéns a ela!
Parabéns a você e RUTE por colaborarem com talento para que o livro chegue a mais pessoas!
Abraço, Mário Celso

Prof. José Lourenço Parreira (capitão do Exército, professor de música, violinista, maestro, historiador e escritor, além de redator do "Evangelho Quotidiano") disse...

Caríssimo amigo Braga, aqui em Campo Grande, o relógio marca uma hora da manhã. Único horário que consegui para ler-lhe as sempre cativantes letras.
Ao fazê-lo sobre sua detida e rica análise desse precioso livro de Maria Terezinha de Resende sobre Itumirim, senti a emoção de encontrar os nomes de várias localidades que, quando residia na querida São João del-Rei, soavam-me como bela melodia/poesia alimentando meu interior de criança e adolescente.
E quando retroajo-me na linha do tempo, encontro o querido amigo, na mesma idade, nos colóquios sobre música e posturas dos desafios próprios abordados nos livros que nos marcavam para o futuro de cidadãos honrados.
MUITO GRATO, caríssimo amigo, por honrar-me com seus preciosos escritos!

Lourenço

Dr. Mário Pellegrini Cupello (escritor, pesquisador, presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, e sócio correspondente do IHG e Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Caro amigo Braga

Que privilégio ter consigo a preciosidade deste livro. Apreciamos seus destaques pontuais sobre essa importante obra. Parabéns!

Agradecemos pelo envio.

Abraços, de Mario e Beth.

Prof. Cupertino Santos (professor aposentado da rede paulistana de ensino fundamental) disse...

Professor Braga.
É curioso como um estudo bem conduzido sobre as origens específicas de uma localidade lança luz sobre toda a História de toda uma região e do próprio país, abrindo áreas de interesse para inúmeros aspectos econômicos, geográficos, políticos, sociais e culturais.
Importante também a sua acolhida e brilhante divulgação dessa obra que tão bem fez a "pintura" de Itumirim.
Cumprimentos.
Cupertino

Mamãe das Chicas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Bom dia! É com alegria que leio essa resenha! Esse trabalho, de fato, muito edifica nossa cidade. A pequena Itumirim se alegra em ter sua história tão ricamente registrada. Esse livro traz à luz muitos esclarecimentos e curiosidades sobre a origem.
A autora, Maria Terezinha, esclareceu a pergunta feita a respeito da moça que fugiu para casar com o mascate: "a pergunta que foi feita sobre a pag 13 da resenha, onde a moça protagonista do "causo" que consta no histórico da Vila Coruja está esclarecido na página 119.
Joana Batista Bueno de Paiva, filha de Maria Jorge Bueno e está irmã do guarda mor Diogo Bueno da Fonseca que eram filhos de Francisco Bueno da Fonseca e Maria Jorge Velho, portanto neta deste( Francisco Bueno da Fonseca)".
Parabéns, Braga, pela resenha e pelo brilhantismo do blog. Atenciosamente, Patricia Resende Nassur.