domingo, 4 de janeiro de 2026

SENADOR FREITAS VALLE E SUA VILLA KYRIAL


Por Francisco José dos Santos Braga
 
Freitas Valle, o singular animador da Villa Kyrial, 1912 - Fonte: CAMARGOS, Márcia: Villa Kyrial..., 2001, p. 36.
 
I. BREVE BIOGRAFIA
 
José de Freitas Valle, também conhecido por Senador Freitas Valle (Alegrete, 1870-São Paulo, 1958) era filho de migrantes que deixaram Ilha Bela com destino aos pampas em 1838 e lá fizeram fortuna. No início de 1886, mudou-se para São Paulo e ingressou neste mesmo ano na Faculdade de Direito de São Paulo. Antes de terminar o curso, com apenas 18 anos, casou-se com Antonieta Egídio de Souza Aranha, pertencente a uma família dos maiores produtores de café na região de Campinas. 
[CAMARGOS, 2004, 51-2] sintetiza a sua atuação pública a serviço da modernização e do desenvolvimento paulista:
Múltiplo de político, mecenas, literato, educador e gourmet, membro da maçonaria e do restrito círculo da elite paulista, (...) Valle foi o que se pode chamar de um legítimo legislador da República Velha. Como deputado de 1904 a 1924 e, depois, senador da bancada do Partido Republicano Paulista-PRP até a Revolução de 30, quando saiu do cenário e abandonou a vida pública, ele desenvolveu uma atuação parlamentar focada na educação e nas artes.
Em 1895 foi nomeado subprocurador do Estado de São Paulo, cargo que exerceu até 1937, ano em que se aposentou como subprocurador-geral e, neste mesmo ano, prestou concurso para a cadeira de Francês e Literatura Francesa no Ginásio do Estado, onde lecionou até 1936. Em 1903 iniciou-se na política, sendo eleito deputado pelo PRP-Partido Republicano Paulista para a Câmara Estadual de São Paulo na 6ª Legislatura (1904-6) sendo sucessivamente reeleito até a 12ª Legislatura. Em 1922 se candidatou e foi eleito para preencher uma vaga aberta no Senado Estadual, tendo sido reeleito para o mesmo cargo até a extinção deste pelos revolucionários de 1930. Foi especialmente fiel ao PRP e a seus amigos e correligionários, Washington Luís Pereira de Sousa e Júlio Prestes, igualmente alijados do poder. 
Em 1904 o Senador Freitas Valle adquiriu de alemães uma chácara com 7.000 m quadrados, chamada Villa Gerda. Na ocasião, a cidade contava com 240.000 habitantes, com apenas 83 automóveis circulando pela cidade, não podendo ultrapassar 30 km/h de velocidade. A propriedade se localizava na rua Domingos de Morais nº 10, próxima à Av. Paulista, na Vila Mariana. Mais tarde, esse espaço foi rebatizado com o nome de Villa Kyrial pelo amigo do senador, o poeta Alphonsus de Guimaraens, colega de Freitas Valle e um de seus mais ilustres frequentadores, que utilizava a terminologia greco-latina para compor os seus versos. Entendendo que o nome original não soava muito bem nem combinava com o espírito do lugar, decidiu alterar o seu nome para Villa kyrial, segundo ele, uma villa para os eleitos do kyrios (dono, mestre ou senhor), onde o senhor era o senador José de Freitas Valle. Logo, a Villa Kyrial transformou-se em um salão artístico literário, inspirado na moda dos "salões europeus". Durante as primeiras décadas do século XX, a Villa Kyrial, passou a ser o point paulistano para encontro de artistas, poetas e declamadoras, como também de políticos, que se reuniam em magníficos saraus lembrando os da "Belle Époque" parisiense.
Convidados no terraço de Villa Kyrial, durante um almoço de domingo, em 1916. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Leis & Letras..., 2004, p. 61.


 
É verdade que havia outros salões sociais de grandes figuras da oligarquia cafeeira paulista, além do pertencente ao Senador Freitas Valle, como os de Veridiana da Silva Prado, Paulo da Silva Prado e de Olívia Guedes Penteado, todos mecenas comprometidos em maior ou menor escala com a modernização de São Paulo e do país. Vê-se, em todos esses casos, a articulação entre os interesses econômicos e políticos, bem como a cópia de modelos oriundos da capital do país e internacionais, evidenciando a abertura e receptividade de São Paulo a modelos externos. 
 
Do Arquivo Freitas Valle: senador Freitas Valle, ladeado pelo presidente de Estado Washington Luís e deputado federal Júlio Prestes, todos pelo PRP, em 1925. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Leis & Letras..., 2004, p. 54.

 
Em 1911 o então deputado Freitas Valle participou da comissão organizadora da 1ª Exposição Brasileira de Belas Artes. Nesse ano passou a integrar as equipes e bancas de seleção do então criado Pensionato Artístico do Estado de São Paulo (1912), que concedia bolsas de estudos gratuitas de cinco anos em instituições europeias a jovens que demonstrassem reconhecida vocação para as artes plásticas, música instrumental e canto. Dessas bolsas valeram-se, dentre outros, João de Souza Lima, Estelinha Epstein, Leonor Aguiar, Francisco Mignone, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Helena Pereira da Silva Ohashi, Guiomar Novaes, Lúcia Branco, Mário Camerini, Mário Barbosa, Raul Larangeira, Bráulio Martins, Pureza Marcondes, os irmãos Romeu e Artur Pereira, Alonso Aníbal da Fonseca, Ernesto De Marco, José Wasth Rodrigues, Paulo Vergueiro Lopes de Leão, Túlio Mugnaini, Paulo do Valle Júnior, José Joaquim Monteiro França, Diógenes de Campos Ayres, Alípio Dutra, Gastão Worms e Mozart Camargo Guarnieri. O Pensionato tinha por finalidade promover o desenvolvimento da produção artística no Estado, uma vez que São Paulo não tinha nenhum instituto de ensino superior na área de artes plásticas, de música instrumental ou de canto. Para esse fim concedia bolsas de estudo a serem cumpridas na Europa (Roma ou Paris) aos estudantes que a requeressem e fossem julgados merecedores do benefício. 
Além do Pensionato Artístico, onde lhe era dado o poder da escolha do pretendente à bolsa na Europa, Freitas Valle foi figura influente no Liceu de Artes e Ofícios (1873), o qual pretendia formar mão de obra especializada para a lavoura, a indústria e o comércio, de acordo com os ideais positivistas que pregavam a "dignificação do homem através do trabalho". 
[CAMARGOS, ibidem, 52] ilustra a sua brilhante influência sobre o governo de Washington Luís como educador:
Para divulgar os métodos pioneiros de ensino, popularizados pelo governo de Washington Luís, Freitas Valle publicou dois livros condensando seu discurso na Câmara, a lei e a regulamentação do ensino público, que inspiraria iniciativas semelhantes Brasil afora. Presidente da Comissão de Instrução Pública por muitos anos, Valle apresentou projetos de lei criando escolas operárias e agrícolas para menores, reformulando os cursos da Escola Politécnica e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e fundando a Escola Normal do Brás. (...) Sempre pelo Partido Republicano Paulista-PRP, elegeu-se senador estadual em 1924 na vaga aberta com a morte de Gustavo de Oliveira Godoy, com 90.470 votos. Seria reconfirmado no cargo em 25 de abril de 1925, levando para o Senado o mesmo estilo, voltado para os problemas educacionais de São Paulo.
Capa do livro O Ensino Público no Governo Washington Luís, publicado pela Editora Garraux, em 1924. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Leis & Letras..., 2004, p. 52.
 
Após seu falecimento em 1958, seus herdeiros venderam a Villa Kyrial à Joelma S.A. Importadora Comercial e Construtora. No ano seguinte, a mansão foi demolida, dando lugar a um edifício de apartamentos, no trecho da Av. Domingos de Morais na esquina com a rua Dr. Eduardo Martinelli. 
Essas são as breves notas biográficas do maior mecenas paulistano de todos os tempos. 
 
II.  RESENHA do capítulo Villa Kyrial do livro autobiográfico de Souza Lima ¹

O primeiro dos bolsistas mencionados, João de Souza Lima, o consagrado príncipe dos pianistas brasileiros, deixou páginas memoráveis sobre seu benfeitor Freitas Valle. O seu livro autobiográfico dedica um capítulo à Villa Kyrial (pp. 43-51), à qual deve o impulso definitivo que determinou a sua carreira e vida futura. [SOUZA LIMA, 1982, 44-5] retrata seu ídolo com as qualidades de um artista integral:
Vou me referir agora a outro ambiente, onde fui recebido muito simpaticamente e onde a minha carreira artística teve o impulso definitivo que me levou à situação que desfruto agora. (...) Esse local foi a famosa Villa Kyrial, mansão de propriedade do Dr. José de Freitas Valle, advogado, político, que ocupou altíssimos cargos no nosso governo. Este homem, de uma cultura excepcional, além de desempenhar com grande brilho e competência as atividades na vida pública de nossa cidade, era um autêntico artista: poeta, escritor, músico, perfumista, conhecedor perfeito de vinhos (possuidor de uma riquíssima adega) e organizador de lindíssimas recepções quando da visita de importantes personalidades a São Paulo. Sua Villa Kyrial se tornou célebre e única por ter sido o centro mais famoso de artistas.
Recepção ao grupo modernista, logo após o lançamento da Semana de Arte Moderna. O último à direita, no primeiro plano, é Mário de Andrade. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Villa Kyrial..., 2001, p. 193.

 
A partir dessas observações sobre si mesmo e seu mecenas, [Idem, ibidem, 44-5] descreve com muita objetividade e rigor como o seu ídolo se sentia tocado "pela atmosfera de estetização da vida que ali reinava, centro que marcava desenvolvimentos e superava esferas convencionais e profissionais inserindo-os numa compreensão integral da arte e da vida", na feliz expressão de [BISPO, 2016:02]:
Para fazer-se uma ideia do quanto nosso anfitrião prezava os artistas e cultivava o seu convívio, basta dizer que em todos os dias da semana, sem exceção, reunia um grupo para jantar ao seu lado. Assim, nas segundas-feiras recebia pintores, nas terças-feiras escultores, nas quartas-feiras músicos (aos quais chamava o "Pessoal da Lira" ², nas quintas-feiras poetas, nas sextas-feiras escritores, aos sábados políticos e amigos e aos domingos, em almoços magistrais, realizados no grande terraço de sua bela vivenda, todos os que estiveram durante a semana, em quantidade fácil de se imaginar. Nesses domingos passávamos o dia. Depois do lauto almoço, passeávamos no parque que rodeava a casa, divertindo-nos, completamente à vontade até a tarde, quando então, já à noitinha, éramos reunidos na 'Galeria', grande salão onde se apreciava a imensa coleção de valiosíssimos quadros (para os quais havia iluminação própria e adequada), esculturas e objetos de arte. Ali tínhamos, então, alguns momentos de cultura, quando se exibiam músicos, poetas, declamadoras, etc. Nessas tardes tinha-se oportunidade de ouvir o que havia de melhor; por vezes, até obras em primeira audição, leitura de obras literárias, que iam ser lançadas, pequenas palestras sobre os assuntos do momento, enfim, era um prazer espiritual com plena vivência.
[Idem, ibidem, 47] fala da predileção que gozava o "Pessoal da Lira" da estima do anfitrião nos seguintes termos:
era o grupo que mais gozava a camaradagem do nosso chefe e amigo. Nos dias do nosso jantar em sua companhia, fazia questão que chegássemos em sua residência com uma hora de antecedência, para permanecermos em sua maravilhosa biblioteca, lendo e aproveitando para nos instruir. Por aí se vê o interesse que nos dispensava, desejando nos tornar mais cultos.
Depreende-se desse depoimento de Souza Lima que a intenção de Freitas Valle era elevar o nível cultural dos músicos que participavam das reuniões reservadas aos músicos. Significativo também foi o fato de Freitas Valle ter pedido aos compositores a composição de uma paráfrase sobre seu hino com letra e música do próprio punho:
Freitas Valle dotou sua Villa Kyrial de um hino de sua lavra, não só na música como na letra e sempre com aquela intenção de estimular os seus amigos músicos, fez questão que os compositores escrevessem uma paráfrase sobre o hino. Assim, depois de pouco tempo, apareceram trabalhos do professor Cantú, de Mignone, de João Gomes Jr., todos para piano. Apenas o meu foi escrito para piano a quatro mãos. Todas essas composições apresentaram interesse de concepção, muito bem elaboradas e escritas com entusiasmo pelos seus autores; (...)
Sob a batuta do Jefe, o hino era entoado de pé pelos fiéis cavalheiros (ou melhor, cavaleiros). Fonte: CARMARGOS,  Márcia: Villa Kyrial..., 2001, p. 126.

 

Não deixa de causar espécie no leitor das memórias do notável pianista [Idem, ibidem, 48] que
A Villa Kyrial (...) era uma espécie de 'Ordem Cavaleiresca' , e todos os comensais dos domingos tinham um título, uns sendo 'Cavaleiros', outros, menos graduados, 'Aspirantes'. Todos ostentavam na lapela o distintivo de seus graus. O Chefe Supremo, Freitas Valle, tinha como seu heraldo, o professor Félix Otero; a língua oficial nas reuniões era o espanhol (...)
Muitas composições de valor surgiram naquela Villa de Arte, principalmente em obras para canto e piano, que eram escritas sobre versos, em francês, de Jacques D'Avray, pseudônimo de Freitas Valle (professor e profundo conhecedor da língua). (...) De Freitas Valle são de grande valor os 'Tragipoèmes', obras literárias e filosóficas penetrando profundamente a alma humana em todos os seus aspectos. Desses poemas foram impressos poucos exemplares (não vendáveis) em edição de luxo, numerados, que eram presenteados somente a pessoas da maior intimidade. Alguns foram postos em música por Alberto Nepomuceno, João Gomes Jr. e Carlos Pagliuchi. Este teve o seu trabalho apresentado em público pelo famoso baixo francês Marcel Journet, que o cantou com acompanhamento de orquestra em concerto no Teatro Municipal. (...)
Tive a felicidade de também musicar algumas de suas poesias, entre as quais: 'Amour Avide', que encerra uma letra muito forte e 'La belle aux fleurs', muito feliz na sua ideia, cuja poesia é em forma de 'rondel'. Esses dois trabalhos desencadearam definitivamente o meu futuro e a realização de minha carreira musical. Numa das magníficas recepções na vivenda de Freitas Valle, quando foi recebido e homenageado o grande músico francês Xavier Leroux, este ouviu essas duas composições cantadas pelo tenor Santino Giannattasio. Foram acompanhadas por mim e Leroux aplaudiu-as com entusiasmo, tendo admirado suas harmonizações, que achou de muito bom gosto, cada qual com a sua concepção própria, denotando a verdadeira veia de criação de seu autor. Imediatamente interpelou Freitas Valle, dizendo: 'É preciso mandar este jovem para Paris, estudar no Conservatório, na minha classe de composição, sem perda de tempo.' Daí resultou a atribuição a mim de uma bolsa de estudos na Europa.” (grifos nossos)

 

III. OS TRAGIPOEMAS

 
Sobre os Tragipoemas do poeta simbolista Freitas Valle, sob o heterônimo de Jacques d'Avray, [CAMARGOS, 2004, 53-4] observa que
contagiado por Rimbaud, Mallarmé, Verlaine e Leconte de Lisle, D'Avray criava, em verso livre, soneto ou rondel, uma atmosfera penumbrista por onde desfilavam figuras melancólicas como o cego, o louco, o leproso, o náufrago ou o palhaço. Guiado por esse Leitmotiv, publicou seus tragipoemas em requintadas plaquetas  com poucas páginas e aspecto gráfico apurado. Dedicados a um amigo ou parente, dividiam-se em duas séries, editadas entre 1916 e 1917. Um terceiro álbum (...) foi anunciado em 1920, mas não se efetivou. Impressos sob a forma de folhetos e partituras, a maioria deles chegou a um público restrito apenas a saraus literários. Da primeira série dos tragipoemas, elaborada entre 1892 e 1906, constam sete peças”,
quatro das quais foram musicadas por nomes como Carlos Pagliuchi, Félix de Otero e Alberto Nepomuceno. [CAMARGOS, idem, ibidem] continua:
A série seguinte, escrita entre 1902 e 1917, inclui 'Le miracle de la semence', em cantata para barítono e orquestra pelo maestro Alberto Nepomuceno e levada ao palco do Municipal do Rio de Janeiro em 1917; 'Hosanna', com melodia de Francisco Braga; 'L’Enseigne', musicado por Henrique Oswald e com recital em Buenos Aires em 1919, sob regência de Armand Crabbé; 'Guignol', por Xavier Leroux”,
além de três poemas não musicados. E [CAMARGOS, idem, ibidem] conclui:
As tiragens, em geral, iam de 5 a 8 de cada um em papel Whatman, 25 em Polaire ou Kaschmir e 50 em Japon ou Hollande, nunca ultrapassando um total de 81 exemplares.
Com tipologia, cor e vinhetas diferentes umas das outras, essas plaquetes, acondicionadas em caixas de papel marmorizado com título gravado em dourado, contribuíam para firmar o conceito de livro inaugurado pelos simbolistas. Considerado um espaço de significação, ele passou a ser concebido conforme normas de requinte e da busca de novos efeitos, contrastando com as obras parnasianas e realistas pelo tamanho, formato, número de páginas, pelo luxo e pequena tiragem. Confeccionados em papéis especiais, exploravam com sensibilidade artística o desenho das letras, o emprego de cores, ilustrações dentro do texto e apropriação das margens em branco. Valorizados, os recursos gráficos associavam-se ao tema abordado no poema, estabelecendo um diálogo sinestésico entre forma, conteúdo e sonoridade das palavras, tornando-se parte integrante da própria obra.
Alphonsus de Guimaraens sintomaticamente o chamava de Prince royal du symbole et grand poète inconnu (Trad.: Príncipe real do símbolo e grande poeta desconhecido), pois diferentemente dos parnasianos, pressurosos em escrever sob encomenda, Valle rejeitava comercializar seus versos.
Vendê-los significava aviltar seu valor intrínseco, conspurcar sua nobreza, trair sua essência. Mas também implicava expor sua arte ao julgamento dos críticos e da opinião pública, sujeitando-a a apreciação dos eventuais leitores de fora do anel dos amigos simpáticos, de pareceres afáveis e aplausos garantidos”,
alega [CAMARGOS, ibidem, 55], considerando que
já o uso da língua francesa por alguns simbolistas seria, no entender de Brito Broca, menos para estabelecer uma identificação mais perfeita com os modelos externos do que para acentuar a diferença entre os meios de expressão do poeta e os da massa popular e ignorante”,
enquanto José de Oiticica, militante anarquista, crítico literário e poeta, entendia que os Tragipoemas constituíam pequenas obras-primas, prodígios de sugestão, suavidade e emoção. Considerava que o fato de Freitas Valle escrever em francês não lhe retirava a brasilidade nem diminuía seu patriotismo. [CAMARGOS, ibidem, 56] menciona ainda que
Pouco conhecido fora dos círculos literários, Jacques D’Avray teve poemas publicados em revistas e jornais estrangeiros. Em 1917 e 1920 foi citado no Mercure de France, no qual trabalhou seu amigo José Severiano de Resende. Vetor do simbolismo mundial, esse quinzenário francês dera início, em 1901, a “Lettres Brésiliennes”, uma seção a cargo de Figueiredo Pimentel que procurava traçar um panorama da literatura nacional, abrangendo desde José de Alencar até Alphonsus de Guimaraens.
 
IV. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ Para a leitura de excelente biografia sucinta do pianista e Maestro Souza Lima, recomendo a consulta à Enciclopédia Itaú Cultural.
 
² Segundo [SOUZA LIMA, ibidem, 44 e 49], integravam esse grupo musical: João Gomes Júnior (pianista), Carlos Pagliuchi (autor de tangos e flautista), Osório César (no violino), o próprio Souza Lima (pasmem!, no violoncelo), o senhor Palmieri (um alto funcionário bancário, na clarineta) e o Dr. Carlos de Campos ³, no contrabaixo, além dos cantores Ernesto de Marco e Santino Giannattasio. Ainda informa que
com todos esses elementos, organizávamos vários tipos de apresentação: ora quarteto, ora quinteto, sonatas para duos e trios de variadas conformações. Tocamos inúmeras vezes um trio (piano, violino e violoncelo) de composição de Carlos de Campos, que fazia grande efeito, obra muito bem arquitetada e que alcançava sempre muito aplauso. Além desse conjunto, fizemos muitos revelação de repertório interessantíssimo através de música a quatro mãos que tocávamos, meu irmão e eu. Assim foi ouvido pela primeira vez: ' La Mer' e 'Ibéria' de Debussy  dois poemas sinfônicos transcritos para quatro mãos.
³ Eis breves notas biográficas de Dr. Carlos de Campos, postadas pelo Conservatório de Tatuí-SP que leva o seu nome: 
Estadista, parlamentar, jornalista, político e músico. Este foi Carlos de Campos, que dá nome ao Conservatório Dramático e Musical de Tatuí. Nasceu a 6 de agosto de 1866 em Campinas e faleceu em 27 de abril de 1927 em São Paulo, antes de concluir seu mandato como presidente do Estado de São Paulo. Formado em direito, Carlos de Campos era compositor e estudioso da música. Foi fundador e membro da Academia Paulista de Letras, assumindo a cadeira número 16. Jornalista desde muito jovem, dirigiu, por várias vezes, o Correio Paulistano, jornal de São Paulo. Como músico, compôs peças líricas, destacando-se “A Bela Adormecida” e “Um Caso Singular”. Algumas de suas músicas avulsas basearam-se nas poesias das “Pedras Preciosas”, de Luis Guimarães Junior. Sua memória é reverenciada no Conservatório Dramático e Musical "Dr. Carlos de Campos" de Tatuí. Dedicou-se intensamente à vida política: foi membro do Conselho de Intendência Municipal de Amparo; deputado estadual, Secretário de Estado da Justiça e senador estadual. Na área federal, foi deputado e se tornou líder da maioria no governo do Presidente Epitácio Pessoa. Iniciou seu mandato como presidente do Estado de São Paulo no dia 7 em maio de 1924. Em seu governo, eclodiu a Revolução dos Tenentes, obrigando-o a se refugiar em Guaiaúna, onde estavam concentradas as forças legalistas. Em sua administração, criou a Guarda Civil e a Força Pública. Antes de falecer, criou, dentro da Força Pública, uma das mais importantes bandas do estado: a Banda da Força Pública que, em 1935, viria buscar músicos tatuianos para sua especialização.” 
 
Cavalaria medieval refere-se à instituição feudal dos cavaleiros nobres e aos ideais que lhe eram associados ou que lhe foram associados pela literatura, nomeadamente a coragem, a lealdade e a generosidade, bem como a noção de amor cortês. 
 
V. AGRADECIMENTO

À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação de todos os registros fotográficos utilizados neste trabalho.
 
VI. BIBLIOGRAFIA 
 
 
BISPO, A.A.: “A Villa Kyrial e a Trialogia da Noite. Simbolismo nas relações do Brasil com a Europa da elite republicana paulista no exemplo de elaboração para coro de vozes femininas do poema lírico de José de Freitas Valle (1870-1958)“. Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira 160/11 (2016:02). 
 
CAMARGOS, Marcia. Villa Kyrial: Crônica da Belle Époque paulistana, São Paulo: Editora Senac SP, 2001, 256 pp. 
___________________  Leis & letras: Freitas Valle e Jacques D'Avray: o senador-poeta, São Paulo: Revista Acervo Histórico, nº 2, 2004, pp. 51-64.
 
GONÇALVES, Adelto: Marcia Camargos Vila Kyrial Crônica da Belle Époque Paulistana, publicado na revista Colóquio/Letras, de Lisboa, nº 161-162, de jul-dez de 2002, pp. 483-485. 
 
MONTEIRO, Maurício: SOUZA LIMA: um brasileiro em Paris, 1ª edição, São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2023, 316 p. 
 
OLIVEIRA, Abrahão: A Villa Kyrial e sua relação com o desenvolvimento artístico de São Paulo, artigo in São Paulo in Foco de 17/08/2018.
 
PINHEIRO, V.C. & DUARTE, L.C.: Quatro tragipoemas de Jacques d'Avray (Freitas Valle): tradução e comentários 
 
SOUZA LIMA, João: MOTO PERPETUO: a visão poética da vida através da música, autobiografia do maestro Souza Lima, São Paulo: IBRASA 1982, 221 pp. 
 
ZAVAGLIA, Adriana. Vida e obra de Freitas Valle e Jacques d'Avray: O Mecenas e o Poeta sem História. Dissertação de Mestrado, UNESP, 1994. 

7 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Francisco José dos Santos Braga disse...

Pedro Rogério Moreira (jornalista e sócio da Gracián Telecom, cronista e memorialista brasileiro) disse...

Obrigado, mestre Braga. Figura ímpar, o Freitas Valle.

Francisco José dos Santos Braga disse...

Edu Oliveira (ex-seminarista salesiano, organizador e facilitador de encontros) disse...

Grande Francisco,
Como sempre divulgando cultura.
Feliz 2026
Edu

Francisco José dos Santos Braga disse...

Anderson Braga Horta (poeta, escritor, ex-presidente da ANE-Associação Nacional de Escritores e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, cujo livro mais recente de novembro 2024, Iniciações, revisita os anos felizes de sua infância na Cidade de Goiás) disse...

MEU CARO FRANCISCO BRAGA,
PERMITA-ME DIZER-LHE, NESTE COMEÇO DE 2026, QUE VOCÊ FAZ
um trabalho cultural importantíssimo.
Deus o mantenha nessa faina de ouro.
Abração de
Anderson

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Tive a grata satisfação de pertencer ao círculo do Maestro Souza Lima durante pelo menos dois anos como aluno de piano no final da década de 1970 e em 1984 adquiri seu famoso livro "Moto Perpétuo: a visão poética da vida através da música". Neste livro, seu relato, então inédito, sobre a VILLA KYRIAL que ele teve a honra de frequentar, e seu fundador, SENADOR FREITAS VALLE, que o indicou para uma bolsa de 5 anos na Cidade Luz e capital do século XIX, encheram minha imaginação, mas, àquela época, tinha outras preocupações (musicais e profissionais), e não pude concretizar o sonho de meditar mais profundamente sobre suas memórias.
Hoje, gozando de mais tempo livre, volto à fonte e sorvo a água fresca das memórias do Mestre, comentando-as, agora acrescidas de escritos mais recentes de outros autores sobre o mesmo assunto.

Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/01/senador-freitas-valle-e-sua-villa-kyrial.html

Cordial abraço,
Francisco Braga

Francisco José dos Santos Braga disse...

Raquel Naveira (membro da Academia Matogrossense de Letras e, como poetisa publicou, entre outras obras, Jardim Fechado, antologia poética em comemoração aos seus 30 anos dedicados à poesia) disse...

Caro Francisco Braga,
Gostei muito de conhecer a trajetória do erudito mecenas das artes, Senador Freitas Valle e percorrer a Villa Kyrial.
Aproveito para desejar-lhe um 2026 com Saúde, Paz e muitas realizações.
Segue em anexo nosso texto "Lírio".
Espero que goste.
Abraço fraterno,
Raquel Naveira

Francisco José dos Santos Braga disse...

Anizabel Nunes Rodrigues de Lucas (professora de música, flautista e regente de coral) disse...

Que currículo rico, que pessoa privilegiada por possuir um espírito elevadíssimo que, além de encaminhar talentos, serviu também de inspiraçao.