segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

RÉQUIEM

Por Francisco José dos Santos Braga
 

RÉQUIEM ¹

Por Vanderley 
 
A névoa tornou-se corpo em meu corpo, 
Me envolveu, e os meus olhos se tornaram 
Cristalinos, e já não conseguem descrever 
As suas trajetórias, dentro de suas órbitas. 
 
Meu sangue se esfriou e as partículas 
Congeladas tentam tapar as minhas 
Artérias e veias  principais. Minhas 
Mãos não conseguem se erguer para 
Tapar o espanto de minha boca. 
 
A melodia (mais melancolia) entra pelos 
Meus ouvidos e fica batendo nas paredes 
Da minha mente  aberta,  até derrubá-las. 
Só agora eu entendo muita coisa. 
Só agora é que eu sei que já vivi. 
E, que este réquiem é para mim. 
Só agora, eu entendo muita coisa. ²
 
II. Produto de alucinação e de gênio
 
Seria esse poema produto de alucinação ou de gênio? Ou de ambos?
O fato de "Réquiem" de Vanderley ter-se mantido inédito por mais de 50 anos suscita algumas indagações e incita-me a investigar um pouco sobre o gênio cujo mérito provavelmente não lhe tenha sido reconhecido.
Seria talvez a sua humildade a sua principal condicionante para o poema não se tornar conhecido?
Indago-me se ele tivesse o incentivo inicial, aonde teria chegado? Ou teria lhe faltado a determinação 
a busca persistente da sua paixão poética, independente das dificuldades que surgissem?
Os estudiosos da genialidade ainda estão evoluindo em sua compreensão de quais podem ser as características essenciais para que ela se manifeste.
Segundo eles, o considerado gênio tem realizações excepcionais em pelo menos um domínio, com originalidade e talento que são reconhecidos por outros especialistas na mesma disciplina. Outra condição fundamental é que a inteligência (QI elevado
³) deve estar combinada com uma série de outras características para que surja algo verdadeiramente original que se destaque. É o caso, por exemplo, da curiosidade que, unida ao QI mais alto, seria a fórmula da genialidade. Por outro lado, a sede de conhecimento certamente motivará o gênio a forçar seus limites dentro da sua própria disciplina. 
Mas essas condições preenchidas não são suficientes para o surgimento do gênio. Ou seja, qualquer gênio, em qualquer disciplina, deve primeiro dominar uma enorme quantidade de conhecimento e técnicas antes de poder fazer suas próprias descobertas. Isso pode levar anos de prática.
Além da necessária determinação supracitada, ainda deve ser levado em conta que o tempo deve ser empregado em práticas ou explorações frutíferas.
Finalmente, há o fator sorte que, "sem dúvida, desempenha um importante papel para determinar quem se destacará entre seus pares. O gênio precisa estar no lugar certo, no momento certo, rodeado pelas pessoas certas, para poder fazer o máximo uso possível dos seus talentos. E até os indivíduos mais promissores podem facilmente perder as oportunidades para brilhar. (...) Isso, sem mencionar as barreiras estruturais associadas à etnia, gênero ou sexualidade 
que evitam que muitas mentes brilhantes atinjam seu potencial e o reconhecimento que elas merecem."
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS 
 
¹ Inicialmente, vale lembrar que réquiem (derivada da palavra latina requies; no acusativo requiem) significa repouso ou descanso, mais comumente utilizada para Missa de Réquiem (do latim: Missa pro defunctis ou, em português, missa dos fiéis defuntos), uma cerimônia da Igreja Católica oferecida para o repouso da alma de alguém, usando uma forma particular do Missal Romano, sendo frequentemente, mas não necessariamente, celebrada no contexto de um funeral. 
 
²  O poema acima tem um significado muito especial para mim. Foi escrito por um moço que morava na mesma casa de pensão que eu, que se localizava na rua Dr. Lund, um logradouro que ligava a rua Conselheiro Furtado (no bairro da Liberdade) à baixada do Glicério. Refiro-me a 55 anos atrás, ocasião do citado encontro. Ali, naquele local éramos todos moradores jovens em busca de um emprego ou recém-admitidos em alguma empresa. Ele não era um rapaz típico: pouco comunicativo, triste mesmo; era, a meu ver, sério demais para sua idade. Naquela época não tínhamos mais do que vinte e poucos anos. 
Ele não parecia possuir um conhecimento tanto da literatura brasileira, muito menos da universal. Portanto, nunca fez qualquer menção ao "Eu" de Augusto dos Anjos (1884-1914), nem à obra de Edgar Allan Poe (1809-1849) ou a Anna Akhmátova (1889-1966) em idêntico título, que exploraram bem o tema da morte e do além-túmulo. Também não demonstrou ter afinidade com as grandes missas de réquiem de Mozart ou Verdi. 
Deu-me apenas uma cópia desse poema que me comoveu bastante ao lê-lo e nunca mais tive qualquer contato com o autor. Não sei se esse poema foi o único que escreveu e se ele continuou na senda poética depois. Também não sei de onde veio e para onde se dirigiu, se teve sorte na vida com o dom que recebeu de Deus ou se já partiu para outra dimensão. 
Verifiquei na Internet e encontrei uma cidade com o nome de Vanderley (Bahia). Não sei se esse fato tem a ver com o nome do poeta precoce com quem tive a sorte de conviver durante minha primeira estada na cidade de São Paulo, no início da década de 70. 
 
³ Os testes de QI estão longe da perfeição, mas sabemos que os altos QI's estão correlacionados a realizações educacionais e à renda da população. Fatores como a classe social a que pertence, o ganho financeiro dos pais, as oportunidades de viagens e aprendizado de línguas também respondem pelo QI alto, afetando-o favoravelmente, embora não sejam os únicos fatores preponderantes, haja vista a história real recente  de Maria Clara Dutra, de 19 anos, a jovem nordestina que, aprovada em 7 universidades norte-americanas, provou que com determinação, apoio e muito estudo é possível atingir os sonhos mais altos.
 
 
IV. BIBLIOGRAFIA 
 
BBC News Brasil: Por que algumas pessoas são gênios esquecidos?, matéria de 04/12/2022
Link: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-63639344
 
BRAGA, F.J.S.: Recupere seu latim > > Parte 13: Missa de Réquiem, matéria publicada no Blog do Braga em 05/08/2022 
_____________: Essa Pavana é para uma defunta, matéria publicada no Blog do Braga em 02/02/2026 
Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/02/essa-pavana-e-para-uma-defunta.html  _____________: Os últimos dias de Edgar Allan Poe, matéria publicada no Blog do Braga em 19/0l/2022 
Link: https://bragamusician.blogspot.com/2022/01/os-ultimos-dias-de-edgar-allan-poe.html _____________: O Corvo (2012), thriller sobre os dias finais de Edgar Allan Poe, matéria publicada no Blog do Braga em 29/01/2022 
 
NORDESTEINFORMA: Conheça uma nordestina aprovada em 7 universidades americanas, matéria de 12/01/2026
 
SILVA, João Bosco da: A ponte do terceiro encontro, conto de terror publicado no Blog de São João del-Rei em 02/02/2013

domingo, 15 de fevereiro de 2026

RESENHA DO ROMANCE “O NÁUFRAGO” DO AUSTRÍACO THOMAS BERNHARD

Por Francisco José dos Santos Braga
 
O Náufrago de Thomas Bernhard/Ed. Companhia das Letras/Ed. Schwarcz, 1996, 235 p. 235 p.

Três amigos da classe média alta ficam se conhecendo em 1953 como alunos de piano em uma masterclass ministrada por Vladimir Horowitz na renomada academia de música de Salzburgo, o Mozarteum. Dos três protagonistas do romance O Náufrago, lançado em 1983, pelo menos um deles, Glenn Gould, é uma pessoa real. Glenn Gould foi um célebre pianista canadense que encantou o mundo com suas interpretações revolucionárias da música de Bach, especialmente por sua versão das Variações Goldberg ¹ do compositor alemão e que parou de se apresentar em público em 1964 e morreu em 1982. Porém, o personagem principal é Wertheimer  trazendo à nossa lembrança Werther, o herói romântico de Goethe, cujo nome prenuncia seu destino , que estudou piano juntamente com Gould em Salzburgo sob a tutela de Horowitz durante um curso de verão na década de 1950. A partir da audição das Variações Goldberg, se inicia o naufrágio de Wertheimer, cujo nome está subentendido no título do romance, e do próprio narrador anônimo, apesar de este se colocar em uma posição superior à de Wertheimer. Diante do brilho de Gould, os outros dois parece não conseguirem conciliar — enquanto um, o narrador-protagonista, abandona o piano completamente, o outro, Wertheimer,  finalmente se suicida no mesmo ano em que Glenn falece de morte natural (1982). Wertheimer e o narrador, embora também virtuoses do piano, foram aniquilados pela genialidade de Glenn e se contentaram em escrever, após o ouvirem interpretar as famigeradas Variações Goldberg. Para eles, esse momento, na sua juventude, foi de abandono de um projeto de carreira de pianista. O narrador chegou à conclusão de que "a cabeça de Wertheimer era mais parecida com a minha que a de Glenn, pensei, que tinha de fato uma cabeça de virtuose, ao passo que nós, Wertheimer e eu tínhamos cabeças de intelectuais." (pág. 81) Quando desistiram do piano, enveredaram pelas ciências do espírito e pela filosofia, respectivamente Wertheimer e o narrador: "Wertheimer leiloou seu Bösendorfer no Dorotheum; eu, para não ser mais atormentado por ele, doei meu Steinway à filha de nove anos de um professor de Neukirchen, nas proximidades de Altmünster." (pág. 11) Foi o próprio Gould que enunciou pela primeira vez o apelido para Wertheimer, "o náufrago" (pág. 44), embora o narrador o alcunhasse "o ofendido" (pág. 45). Glenn via Wertheimer por dentro desde o primeiro instante, como via por dentro e de imediato todos que conhecia (pág. 60).  Por exemplo, Glenn chamava o narrador de "filósofo", o que não o incomodava (pág. 26). Sobre Wertheimer, ficamos sabendo ser herdeiro de uma família judia vienense da classe média alta e recentemente (1982) ter cometido suicídio na Suíça, tendo-se enforcado logo após a morte de Glenn por causas naturais. Desde 1953, ou seja 28 anos atrás, ficou evidente para o narrador que se estabeleceu uma verdadeira oposição entre Glenn e Wertheimer a começar pelas marcas dos seus pianos prediletos: "O Bösendorfer de Wertheimer contra o Steinway de Glenn Gould, pensei; as Variações Goldberg de Glenn Gould contra a Arte da Fuga de Wertheimer, pensei."  (pág. 213-4) Portanto, dos três amigos, apenas o narrador em 1ª pessoa está vivo; seu relato sobre a amizade que uniu os três protagonistas pelo resto de sua vida é a maneira que ele encontrou para enfrentar esse período de luto.  

 
Glenn Gould, tocando e cantando simultaneamente, como de costume

 
O Náufrago (1983) é o romance de Thomas Bernhard explicitamente dedicado à música. O Náufrago de Thomas Bernhard, publicado originalmente em 1983, é um retrato de três pianistas obsessivos e seus problemas de primeiro mundo, escrito como um monólogo em um único parágrafo extenso. É um romance parcialmente autobiográfico, uma espécie de entrelaçamento de ficção e realidade. Por exemplo, de acordo com Renate Langer, escritora e professora austríaca especialista em Bernhard, o Glenn Gould histórico (1932–1982) nunca estudou em Salzburgo; apenas tocou peças de Bach no Mozarteum em 1958 e 1959. Além disso, Thomas Bernhard estudou música e teatro na academia Mozarteum de Salzburgo de 1955 a 1957 (e não antes), mas nunca conheceu pessoalmente Glenn Gould, o modelo para o protagonista de "O Náufrago"; também ele nunca foi aluno de Horowitz, sequer o conheceu pessoalmente. Glenn assombrou o mundo, mas em 1964 abandonou os palcos, isolando-se numa fazenda próxima de Nova Iorque, onde manteve um estúdio (que o narrador chama de jaula), em que gravava seus concertos de forma obsessiva, por não suportar a presença de plateias. É provável que Bernhard tenha utilizado elementos da vida real amplamente divulgados sobre o "mito" Gould para a constituição de seu personagem. Por outro lado, não é coincidência que Wertheimer  como o narrador recorda  tenha querido apagar todos os vestígios do livro de sua própria lavra, um ensaio em forma de autobiografia que também teria se intitulado "O Náufrago".
 
Quase todo o romance se desenrola na recepção de uma pousada, onde o narrador quer se hospedar, ou melhor, na sua cabeça, na forma de memórias, reminiscências circulares enquanto aguarda a dona da pousada. Aí, ele repassa toda a vida dos três amigos desde que se conheceram. O narrador não observa a sequência dos fatos, pois segue o fluxo de seu pensamento, dando a entender que a ordem cronológica dos acontecimentos não é o aspecto mais importante do enredo (se é que existe um), cuja essência não é prejudicada; pelo contrário, isso até o caracteriza. "Mais do que se apoiar em um enredo, constata-se que O Náufrago se sustenta numa situação exaustivamente examinada sob diversos ângulos", conforme observa [LUIZ, 2023].

É possível ver  no romance "O Náufrago" uma semelhança com a forma musical das Variações Goldberg. Para [FRIZERO, 2013], a peça musical de Johann Sebastian Bach
é composta por um tema musical que é reapresentado em diferentes variações, as quais não repetem a mesma melodia, mas antes são construídas sobre o mesmo desenvolvimento de acordes e a mesma linha de baixo da ária inicial; a novela é escrita em um estilo no qual se sobressaem as repetições vocabulares e sintáticas, bem como um contínuo revisitar de açoes e temas anteriormente apresentados. Como aquela obra de Bach (...), o texto de Bernhard gira em torno do tema inicial, apresentado nos três primeiros parágrafos: o retorno ao passado  marcado pela chegada do narrador a uma pousada austríaca frequentada por Wertheimer , a dualidade entre a obsessão e a genialidade  sugerida pela constância de Gould em estudar apenas as Variações Goldberg  e a incapacidade de lidar com as limitações humanas  o suicídio de Wertheimer, cuja elucidação é a razão maior do narrador em retornar àquela pequena hospedaria no interior da Áustria.” (grifo nosso)
O livro é composto de apenas quatro parágrafos: três curtos na primeira página e um quarto parágrafo que se prolonga até o final do relato. A narração flui, sem pausas, sem sequência lógica, sem respiros. O primeiro parágrafo constitui a epígrafe do livro, fazendo menção ao suicídio do náufrago Wertheimer:
Um suicídio calculado com grande antecedência, pensei, e não um ato espontâneo de desespero.
Cabe observar aqui a referência recorrente ao verbo pensar, uma constante ao longo de todo o livro, com base em reflexões que o narrador anônimo faz em diferentes partes do livro numa sequência lógica: assim, complementa suas reflexões com a repetitiva expressão "pensei ao entrar na pousada" até a página 32. A partir daí, suas reflexões sugerem que o narrador já está no interior da pousada, pois passa a utilizar de forma obsessiva o complemento "pensei na pousada".

Da mesma forma, o autor faz uso  do repetição ad nauseam, tão comum na retórica, que consiste em repetir insistentemente a mesma afirmação ao longo do discurso, no caso ao longo do texto com a engenhosa introdução de alguma nova faceta ainda não abordada.
 
O livro O Náufrago foi publicado originalmente pela Editora Suhrkamp Verlag, Frankfurt, 1983, e no Brasil, pela Companhia das Letras/Schwarcz, São Paulo, 1996 com tradução de Sérgio Tellaroli. 
 
Embora o livro O Náufrago se refira apenas às Variações Goldberg de Bach, pode parecer ao leitor desavisado que esta foi sua única gravação. Não nos esqueçamos de que a discografia de Gould é riquíssima, variada e universalmente apreciada. Abaixo seguem as gravações dele que foram publicadas pela Sony Classical:
- Bach: Concerto Italiano, Partitas, Tocatas
- Bach: A Arte da Fuga, Handel: Suítes para Cravo nº 1-4
- Bach: Concertos para Piano - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Variações Goldberg de 1955 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Invenções a Duas e Três Vozes - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Bach: Partitas BWV 825-830, Little Prelúdios, Pequenas Fugas - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro I - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro II - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: Suítes Inglesas, BWV 806-811 - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Suítes Francesas, BWV 812-817, Abertura em Estilo Francês - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Tocatas - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Bach: Sonatas para violino e cravo, Sonatas para viola da gamba e cravo - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Variações Goldberg (1981, Versão Digital) - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. I, nºs 1-3, 5-10, 12-14 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. II, nºs 15-18, 23, 30-32 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, nºs 24 e 29 - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Beethoven: As três últimas sonatas para piano
- Beethoven: 32 Variações sobre o tema da "Eroica" Woo 80, 6, Variações Op. 34, Bagatelas Op. 33 e 126 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concertos para piano e orquestra, nºs 1-5 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concerto para piano no. 5; Strauss: Burlesco
- Byrd, Gibbons, Sweelinck: Consort Of Musicke - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Wagner: transcrições para piano, Idílio de Siegfried
- (Glenn Gould Edition Vol. 5)
- Grieg: Sonata op. 7; Bizet: Premier Nocturne, Variações Cromáticas; Sibelius: Três Sonatinas Op. 67, 3 Peças Líricas Op. 41 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Strauss: Lieder de Ophelia Op. 67; Enoch Arden Op. 38, Sonata para Piano Op. 5, 5 peças para piano op. 3 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Berg/Krenek: Sonatas; Webern: Variações para piano; Debussy: Rapsódia nº 1 para clarinete e piano; Ravel: La Valse - (Edição Glenn Gould Vol. 7)
- Schönberg: Peças para piano, Concerto para piano e orquestra, Fantasia, Ode a Napoleão Bonaparte, Pierrot Lunaire - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Schönberg: Lieder - (Edição Glenn Gould Vol. 7

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Com o objetivo de ser mais abrangente, tomo a liberdade de oferecer uma segunda versão em língua alemã, trazendo ao leitor brasileiro a 1ª parte (de 5 ao todo) de um trabalho acadêmico por [LATINI, 2015, 137-140] em minha tradução, intitulado O Poder da Música. Sobre O Náufrago de Thomas Bernhard:
O Náufrago (1983) é o romance de Thomas Bernhard explicitamente dedicado à música, formando uma espécie de trilogia artística com Mestres Antigos (1985, dedicado às artes visuais) e Lenhadores (1984, dedicado ao teatro). É um romance parcialmente autobiográfico, uma espécie de entrelaçamento de ficção e realidade. Na realidade, Bernhard frequentou a renomada academia de música de Salzburgo, o Mozarteum, de 1955 a 1957, mas nunca conheceu pessoalmente Glenn Gould, o modelo para o protagonista de O Náufrago. De fato, o pianista canadense esteve em Salzburgo apenas para dois concertos, em 10 de agosto de 1958 e 25 de agosto de 1959 — ou seja, depois da visita de Bernhard e fora do período especificado na narrativa. Mas sua morte repentina deve ter fornecido o ímpeto para o romance. De fato, um retrato peculiar de Glenn Gould emerge das páginas de O Náufrago, retratado mais segundo a silhueta do famoso pianista — isto é, segundo a lenda, o mito — do que segundo a realidade de sua pessoa, e fortemente caracterizado por tonalidades tipicamente bernhardianas. Não é coincidência que o personagem fictício de Glenn na obra de Bernhard esteja ligado a uma única obra, sua interpretação das Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach; ou seja, o romance destaca apenas um aspecto de sua música.
Mas partamos de um ponto central: no coração de O Náufrago está a música, a arte por excelência dedicada ao absoluto e separada das trivialidades da vida, pelo menos segundo o clichê que se desenvolveu na literatura europeia do século XIX. Nesse cenário literário, a figura do músico ocupa uma posição de destaque porque representa a renúncia à vida mundana em prol da arte. É precisamente isso que acontece na trama do romance de Bernhard com o músico Glenn Gould, mas também, de forma diferente e apenas temporária, com os outros dois protagonistas: Wertheimer, o marginalizado, e o narrador. Os três colegas se conhecem na aula de Vladimir Horowitz em Salzburgo e criam um laço através de uma espécie de amizade intelectual, dedicando-se de corpo e alma à dimensão artística. Trata-se de uma prática implacável e incessante ao piano, repleta de autodisciplina, inflexível, em consonância com seu radicalismo pianístico. Nessa disciplina, porém, eles próprios são as vítimas. Para os três jovens músicos, essa atividade absorvente se traduz em uma clara separação do mundo, em uma forma extrema de idiossincrasia e isolamento. Mas apenas Glenn se esforça verdadeiramente para mergulhar completamente na música. Ele é o único dos três que se destaca imediatamente como um gênio, um prodígio capaz não só de superar os outros dois, mas também o professor (Vladimir Horowitz). E isso porque, em palavras que aludem à Crítica do Juízo de Kant (1790), seu gênio estético não precisa de conceito, não está sujeito a regras, mas as cria. O narrador explica da seguinte maneira:
'A natureza de Wertheimer era completamente oposta à de Glenn [...] ele tinha uma concepção de arte, Glenn Gould não precisava de uma.' (p. 120-1)
Durante aqueles meses em Salzburgo,
"Glenn é que fez de Horowitz o professor ideal para seu gênio por meio de seu próprio gênio, e não Horowitz (fez) de Glenn por fim um gênio, pensei." (p. 116)
É claro que Bernhard retrata Glenn Gould não apenas por meio de sua personalidade, mas também em perfeita afinidade com os protagonistas de seus romances, que se esforçam para remover elementos externos de sua obra, para conquistar um espaço diferente, esse reino utópico da arte, em contraste com a dimensão da vida. O narrador descreve Glenn com as seguintes palavras:
"Ele era a pessoa mais implacável consigo mesmo. Não se permitia imprecisões. Desenvolvia sua fala unicamente a partir do pensamento. Detestava pessoas que falavam sem terminar seus pensamentos, por isso detestava quase toda a humanidade [...] Comprou a casa na floresta [...] Ele e Bach viveram nessa casa na América até sua morte. Ele era um perfeccionista em relação à ordem." (p. 35)
Por essa razão, Glenn se recolhe ao isolamento voluntário, uma autoconcentração que também se expressa em sua postura caracteristicamente curvada ao piano. Em relação ao isolamento autoimposto de Glenn, lemos em O Náufrago:
"Ele (Glenn) se entrincheirou em sua casa. Para sempre. O desejo de nos entrincheirarmos sempre foi algo que nós três tivemos ao longo da vida. Todos nós nascemos fanáticos por barricadas; Glenn levou seu fanatismo por barricadas ao extremo." (p. 27)
Dos três fanáticos por barricadas, no entanto, Glenn será o único que realmente romperá todo contato com o mundo, enquanto Wertheimer e Horowitz, embora de maneiras diferentes, estão condenados a permanecer presos e enredados na teia da realidade.

 

NOTA EXPLICATIVA

 
 
¹ Quando as Variações Goldberg, BWV 988 foram publicadas em 1741, contidas no Livro IV do Clavier Übung, foram simplesmente referidas como uma "ária Goldberg com 30 variações para cravo com dois manuais". O tema principal da obra desdobra-se na extensão de 30 variações alinhadas ao baixo ostinato da ária, que é uma figura que se repete muitas vezes em uma peça musical deste tipo. 
Essa composição é destinada ao cravo de dois teclados, composta pelo compositor barroco de origem alemã Johann Sebastian Bach no ano de 1741. 
Em seus primórdios foi chamado pelo autor de ária com diferentes variações para cravo com dois teclados, a saber: Aria mit verschiedenen Verænderungen vors Clavicimbal mit 2 Manualen (para um cravo com 2 teclados). A obra musical foi arranjada nos tempos em que Bach atuava como cantor na Igreja de Santo Tomás de Leipzig. 
O nome dessa obra-prima de Bach vem do cravista e estudante de Bach, Johann Gottlieb Goldberg, que se imagina ter sido o primeiro a interpretá-la. 
Conta-se que, naquela época, Goldberg trabalhava a serviço do conde Kayserling, embaixador russo, grande admirador e, de certa forma, defensor de Bach. Então, como o conde era um homem que sofria de insônia, costumava pedir a presença de seu cravista, para que, de seu quarto próximo ao dele, pudesse ouvi-lo e se deliciasse com sua música durante a noite.
 
 
 
BIBLIOGRAFIA 


BERNHARD, Thomas: O Náufrago, São Paulo: Ed. Companhia das Letras/Ed. Schwarcz, 1996, 235 p.

BIOGRAFIA: Glenn Gould
 
FRIZERO, Robertson: Ouse Saber!: Wertheimer e o peso da genialidade

LANGER, Renate: Der Untergeher. Roman von Thomas Bernhard, erschienen 1983 im Suhrkamp Verlag (Frankfurt/Main).
_______________: Band 6: Der Untergeher: Inhalt
 
LATINI, Micaela: Die Gewalt der Musik. Zu Thomas Bernhards "Der Untergeher", in Raul Calzoni / Peter Kofler / Valentina Savietto (a c. di) Intermedialität – Multimedialität Literatur und Musik in Deutschland von 1900 bis heute, V&R, Goettingen, 2015, pp. 137-150.

LUIZ, Ademir: Bula de Livro: O Náufrago, de Thomas Bernhard, 02/09/2023, in Bula Conteúdo.
 
POSTPOSMO: Variações Goldberg: Forma, Variações, Interpretação e Mais
Cf. https://pt.postposmo.com/varia%C3%A7%C3%B5es-de-goldberg/

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

ESSA PAVANA É PARA UMA DEFUNTA

Por Francisco José dos Santos Braga
(...) para explicar sua multiplicidade poética, ele (Jorge de Lima) se vale de reminiscências longínquas – tão distantes que são dadas pelas memórias da mãe –, centradas no gosto pelo som da casa, pela “fascinação máxima que aos três anos já era realidade existencial – a caixa-de-música, um embevecimento.” [LIMA, 1958, 111]
Do que me ofertava aquele aparelho mágico, eu me lembro, eram os compassos de certo minueto que, homem feito, verifiquei ter sido o da Sinfonia 39 de Mozart. A Gavota de Bach, o Danúbio Azul de Strauss, sobretudo, nos atraíram a mim, a meu irmão e a companheiros de meninice, horas e horas. Depois surgiam uma schottisch anônima e quatro ou cinco compassos de uma valsa de Chopin, mas as minhas preferências estavam no trechozinho do minueto, talvez por ter sido melhor executado pela pobrezita caixa-de-música. Com efeito, reparava que, enquanto a schottisch era ferida quase nota a nota pelas agulhas do eriçado rolo de aço, o minueto era, nos trechos de mais bravura, atingido ao mesmo tempo por quatro ou cinco estiletes da dentada serra sonora. Já havia experimentado: a valsa de Chopin podia alcançar no máximo o meio da sala contígua, e a schottisch inda era ouvida, em toda a extensão, da segunda sala à última parede da terceira, o minueto enchia as três salas e descia pela escadaria que dá para o parque, mesmo quando as notas não surgiam geminadas e impetuosas, mas de uma ingenuidade lírica extraordinária. Era surpreendente a elasticidade daqueles tons pobres, mas suaves." [Idem, ibidem, 111-112] .
"(...) mas o minueto, que naquele dia propício foi tão longe se fazer lembrado, acompanhou-nos para o resto da vida. Ouvi-o em vários teatros, regido por grandes maestros; ouvi-o em discos a bordo de navios; acordei uma vez numa pensão de estudantes à antiga Rua Silva Manuel: um realejo executava acordes queridos: era o minueto. A música do realejo entretanto tinha povoado um resto de sono, assim como os primeiros instantes do despertar, sempre com aquela imponência da inesquecida sinfonia." [Idem, ibidem, 112-113].
"Porém ouvindo a Salve Regina de Monteil ¹ não vejo nada nem tenho vontade de fazer coisa alguma; me sinto puro desejando estar mais perto da perfeição que eu não posso saber como é, mas sinto. Então parece que se abre uma janela para outro plano poético e percebo que ultrapasso aos meus limites, e como me dilato até o limiar do infinito; compreendo nesse ponto quanto a poesia está acima de tudo, de julgamentos de meus irmãos, de tudo, de tudo, pois a música me transporta, para ela, para o seu plano altíssimo onde repousa em bases diferentes das do mundo sublunar.” [Idem, ibidem, 111]
Trechos extraídos de Minhas Memórias (1952-1953) de Jorge de Lima.

 

Ophelia. Sir John Everett Millais. 1852. Óleo sobre tela. 76,2 cm x 111,8 cm.

 

I. INTRODUÇÃO
 
Resumidamente para os nossos propósitos, [LUCAS, 1993, 8] expõe a faceta característica de Jorge de Lima em curtas palavras, que tomo emprestadas como se minhas fossem:
“(...) A personagem de Jorge de Lima (1893-1953), dentro do Modernismo brasileiro, é bastante singular.
Iniciou prematuramente a sua carreira de poeta, com a publicação de uma plaquete intitulada XIV Alexandrinos, de 1914. Da coleção constava o soneto "O Acendedor de Lampião", publicado aos dezessete anos do autor.
A popularidade dessa composição foi notável. O poeta tornou-se nacionalmente conhecido e "O Acendedor de Lampiões" chegou a ser atribuído a Hermes Fontes, num equívoco que o próprio autor sergipano fez questão de desfazer.
A grande obra de Jorge de Lima, portanto, iniciou-se com a publicação de sonetos. Por volta de 1925, o escritor aderiu à agitação modernista, à abolição de rimas e dos acentos rítmicos obrigatórios. Ao Modernismo, no início, abominava o soneto. Mas o poeta, no entanto, regressou à forma antiga no final de sua carreira, com a publicação do Livro dos Sonetos em 1949 e da Invenção de Orfeu em 1953, poema-livro de admirável complexidade, dentro do qual introduziu incontáveis e inesquecíveis sonetos (setenta ao todo). (...)
Ele, na maturidade, volveu à composição em que se havia notabilizado, mas com a força de renovação e tal ímpeto, adquirido na experiência modernista, que acabou cunhando, com a sua marca autoral, um protótipo da espécie. (...)”

 

II. APRESENTAÇÃO DO LIVRO DOS SONETOS

Especificamente sobre o Livro dos Sonetos, [Idem, ibidem, 9-10] contribui com outra sábia reflexão:

Conta-se que Jorge de Lima escreveu os poemas do Livro dos Sonetos sob o efeito de visões e alucinações oníricas, em estado hipnagógico, no período de dez dias. Acontecia levantar-se de madrugada e compor vários sonetos de uma só vez. Era um período de grande angústia para o poeta, quando começou a sonhar acordado.
Nos sonhos, tornaram-se recorrentes alguns sinais de sua infância. Por exemplo: o galo da Igreja de São Rosário de Maceió, um galo de orientação dos ventos; a draga existente na praia de Pajuçara e que se apresentava ao menino Jorge como algo fantástico. Ao redor dela, brincavam as crianças. Um dia, uma garota chamada Elisa, afoita, entrou na draga e só pôde sair dali horas depois. Com oito anos, o poeta sofreu o pavor da cena; outro exemplo foi a pretinha Celidônia, muito bonita, que morreu afogada no rio Mandaú. Jorge de Lima nunca mais se esqueceu daquele acontecimento.
Nos dias de crise vividas por ele, em plena maturidade, os fatos da infância o assediaram e viraram símbolos, matéria literária, misturados a outras experiências da vida. Somente após ter transposto tudo para os sonetos é que a crise passou.
Daí, o denso aspecto onírico que adotam os poemas, que ora se assemelham a peças surrealistas, ora parecem relatos de estados alucinatórios.
[CAVALCANTI, 2014, 126-7] acrescentou outras informações muito úteis para a compreensão da inteira repercussão do fenômeno representado pelo Livro dos Sonetos:
O Livro de Sonetos foi saudado por Fausto Cunha como “o mais importante lançamento poético de 1949”, isto porque, segundo a concepção do crítico, este livro revela dois fatos importantes para o cenário literário brasileiro: a própria relevância para a poética de Jorge de Lima  um grande autor de nossa literatura , como também para a própria “evolução de nosso Modernismo.” [CUNHA, 1958, 559]
Nesse livro, o que há de mais característico é o modo como o poeta se utiliza da palavra, que segundo Fausto Cunha, “atinge alto grau de valorização, próximo do encantamento, do virtuosismo, da abstração rítmico-sonora, (...).” [CUNHA, 1958, 560]

Finalmente, de acordo com [CARNEIRO, 1958, 48-49], crítico e amigo de Jorge de Lima,

a composição de Livro de Sonetos e Invenção de Orfeu se deu em um momento de recolhimento do poeta por causa de um “esgotamento nervoso”. Seguindo orientações médicas, o poeta se refugia para uma clínica de repouso no Alto da Boa Vista, onde compõe, em dez dias em estado hipnagógico, 102 sonetos, sendo que 77 formam o Livro de Sonetos e os 25 restantes aguardam a composição de Invenção de Orfeu, para serem incluídos neste.

  

III. "Prefácio Interessantíssimo" de PAULICEIA DESVAIRADA por Mário de Andrade

No seu "Prefácio Interessantíssimo" de Pauliceia Desvairada (1922), Mário de Andrade faz uma confidência:  

(...) Sei construir teorias engenhosas. Quer ver? A poética está muito mais atrasada que a música. Esta abandonou, talvez mesmo antes do século 8, o regime da melodia quando muito oitavada, para enriquecer-se com os infinitos recursos da harmonia. A poética, com rara exceção até meados do século 19 francês, foi essencialmente melódica. Chamo de verso melódico o mesmo que melodia musical (...)
Ora, se em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais (...), fizermos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, para a nossa sensação, formando não mais melodias, mas harmonias. Explico milhor:
Harmonia: combinação de sons simultâneos.
Exemplo:
“Arroubos... Lutas... Seta... Cantigas... Povoar!..."
Estas palavras não se ligam. Não formam enumeração. Cada uma é frase, período elíptico, reduzido ao mínimo telegráfico. Si pronuncio “Arroubos”, como não faz parte de frase (melodia), a palavra chama a atenção para seu insulamento e fica vibrando, à espera duma frase que lhe faça adquirir significado e QUE NÃO VEM. “Lutas” não dá conclusão alguma a “Arroubos”; e, nas mesmas condições, não fazendo esquecer a primeira palavra, fica vibrando com ela. As outras vozes fazem o mesmo. Assim: em vez de melodia (frase gramatical) temos acorde arpejado, harmonia, – o verso harmônico.
Mas, si em vez de usar só palavras soltas, uso frases soltas: mesma sensação de superposição, não já de palavras (notas) mas de frases (melodias). Portanto: polifonia poética. (...)


Ao mesmo tempo, não devemos nos esquecer de que “Jorge de Lima é um dos poetas mais musicais de toda a literatura em língua portuguesa” [BOSI, 2016, 204].

Outro aspecto a considerar é que as teorias de Mário de Andrade reverberaram na obra de autores alinhados às conquistas do poeta de Pauliceia Desvairada no campo do pensamento estético, tais como o próprio Jorge de Lima, que, desde 1927, rompera com a tradição parnasiana, com seu poema "O Mundo do Menino Impossível". Nele, o poeta, na leitura de Manuel Bandeira, é o menino que renega os brinquedos refinados, ou seja, os brinquedos perfeitos que os vovôs lhe deram, subentendendo aqui as formas tradicionais parnasianas. É após essa incursão no modernismo que ele inclui em sua poética temas regionalistas, além da mudança a uma linguagem coloquial, a uma adesão mais profunda ao folclore e ao forte elemento da cultura negra.

Para Alfredo Bosi no ensaio "Jorge de Lima, poeta em movimento (Do "menino impossível" ao Livro de sonetos)", publicado em 2016, o poeta incorpora um elemento "mágico" e "encantatório", no jogo sonoro-musical e formal que ele privilegia. 
 
[CLEMENTE & TORRES, 2022, 75], por sua vez, afirmam que
em nenhum dos setenta e oito poemas que integram o Livro de sonetos, entretanto, o problema da musa – seu Leitmotiv, os impasses e paradoxos de seu corpo – revelam-se de modo tão esclarecedor como no soneto da “infanta defunta”. (...) A condensação desse ritmo sensual, místico, de pungente musicalidade é o que identificamos, em especial, no poema “Essa pavana é para uma defunta”, do Livro de Sonetos, de Jorge de Lima.
IV. O mais conhecido poema dos 77 que formam o Livro de Sonetos (1949)

Vejamos então esse soneto que Mario Faustino descreve como "melos em modo contínuo" ², no sentido de melodia contínua:

Essa pavana é para uma defunta
infanta, bem-amada, ungida e santa,
e que foi encerrada num profundo
sepulcro recoberto pelos ramos

de salgueiros silvestres para nunca
ser retirada desse leito estranho
em que repousa ouvindo essa pavana
recomeçada sempre sem descanso,

sem consolo, através dos desenganos,
dos reveses e obstáculos da vida,
das ventanias que se insurgem contra

a chama inapagada, a eterna chama
que anima esta defunta infanta ungida
e bem-amada e para sempre santa.

É relevante apreciar o significado de alguns termos utilizados no poema.
Inicialmente cabe observar o uso de "essa pavana" pelo poeta duas vezes 
no primeiro e no sétimo verso  comparado com o uso de "esta infanta"  no penúltimo verso. Ressaltamos a utilização do pronome demonstrativo, relembrando que "esta" indica proximidade de quem fala (1ª pessoa); por outro lado, "essa" indica proximidade de quem ouve (2ª pessoa). "Essa" refere-se à pavana (dança cortesã e nobre, lenta e cerimonial) ou à música que acompanhava a dança, enquanto "esta" está ligada à infanta que indica proximidade do eu lírico. Segundo [CLEMENTE & TORRES, 2022, 83], no poema, "a pavana inicialmente distante do poeta acabaria concretizando-se no corpo da infanta agora animada". Cabe então fazer uma pergunta: "Nesse caso, quem executa a pavana é o poeta, ou é a pavana um som que o seduz e que ele segue para enfim encontrar e tornar-se mais próximo a seu objeto de desejo?"

Observe-se que esses quatorze versos encerram um único período, podendo ser visualizados em modo cursivo, sem a forma-padrão de soneto, mas como prosa poética:

Essa pavana é para uma defunta infanta, bem-amada, ungida e santa, e que foi encerrada num profundo sepulcro recoberto pelos ramos de salgueiros silvestres para nunca ser retirada desse leito estranho em que repousa ouvindo essa pavana recomeçada sempre sem descanso, sem consolo, através dos desenganos, dos reveses e obstáculos da vida, das ventanias que se insurgem contra a chama inapagada, a eterna chama que anima esta defunta infanta ungida e bem-amada e para sempre santa. 

Os versos se caracterizam por serem decassílabos perfeitos e brancos, isto é, com métrica mas sem rimas, evidenciando, por um lado, seu caráter moderno no caso da ausência de rimas e, por outro, a obediência do autor às exigências da metrificação e da forma do decassílabo clássico português.

A descrição dos salgueiros silvestres que recobrem o sepulcro profundo onde repousa o corpo da infanta defunta desempenha um papel de destaque no corpo do poema, eis que protege o corpo dela "nunca" de ser retirado desse leito estranho, sugerindo o perigo iminente de possível violação. Além disso, o salgueiro é uma árvore particularmente sagrada e objeto de culto para os celtas, por sua forte ligação com as bruxas; por isso, a palavra "witch" (bruxa, em inglês) provavelmente provenha de "willow" (salgueiro, em inglês). O salgueiro está ligado à lua e à água e a outros aspectos femininos. Esta árvore era considerada uma importante fonte de inspiração de sonhos, de poesia, de música e de encantamentos.

Além do salgueiro protetor, outro importante elemento do poema é fornecido por "ventanias" que investem contra a chama "inacabada e eterna" que anima esta defunta infanta. Nos dois elementos observa-se uma tensão da Natureza "que choram pela Defunta, como os elementos da floresta choravam pela Branca de Neve", de acordo com [Idem, ibidem, 80].
Referindo-se ao poeta, [Idem, ibidem, 72] sugere que "tal qual o Leitmotiv (a melodia infinita de Richard Wagner) , o motivo condutor de toda sua atividade literária, que é a busca pela face da poesia – a Bela Adormecida, princesa defunta a aguardar o beijo do poeta para ressuscitar, a personagem Mira-Celi –, a música acompanha sempre o autor nos processos de rememoração e de procura da experiência poética como modo de reconstituir a imagem para sempre perdida do cosmos. (...) Jorge de Lima relata o caráter sensorial da sua relação com a música, implicada fortemente no caráter evocativo de sua escrita. (...) Nesse sentido, remonta à importância das cantigas de cego que ouvia nas feiras em sua infância, também da fala dos “cocos”, na música nordestina e dos sons e imagens envolvidos numa relação linguística e existencial bastante íntima entre palavra e som."

Por fim, observa-se um grande número de aliterações e nasalizações no poema que unem "chama" a "defunta", "infanta", "ungida" e "santa", nesta estranha "infanta" rememorada. Tal imagem se cruzará com outras, carregadas de sexualidade, em que se mesclam, em faixas cambiantes, impulsos obsessivos à necrofilia.
Também, conforme ressaltam [Idem, ibidem, 81], "há ainda um processo mimético, altamente sugestivo, que remonta à mimetização do vento (reVeses e obstáculos da Vida,/ das Ventanias), presente na semântica do texto, assim como aos sussurros (reveseS e obStáculoS da vida, daS ventaniaS) e à ambientação de mistério e de paisagem gótica presentes no poema."

À luz da teoria de Mário de Andrade, Jorge de Lima faz ressoar um verso no seguinte de maneira obstinada. Da leitura percebe-se que os versos "são emendados sucessivamente, provocando a sensação de movimento tenso e contínuo", segundo [Idem, ibidem, 78]. Entretanto, os dois autores entendem que tais versos seriam harmônicos, de acordo com a classificação proposta por Mário de Andrade. Diferentemente deles, penso que tais versos são polifônicos, "uma vez que a imagem da linha anterior se projeta e ressoa no verso seguinte." Essa minha posição é endossada por Oto Maria Carpeaux numa apreciação do Livro dos Sonetos (1949) onde se lê na Obra Completa (1958) de Jorge de Lima à pág. 1157:

Algo como uma síntese da Obra Poética de Jorge de Lima é este livro de sonetos. (...) São sonetos, assim como no início, embora a forma seja manejada de maneira diferente: Os XIV Alexandrinos eram por assim dizer, homófonos, enquanto os poemas do Livro dos Sonetos aparecem instrumentos em estilo polifônico. (...)

V. PAVANE POUR UNE INFANTE DÉFUNTE de Maurice Ravel


Sobre a conexão que entrelaça música e poesia, sugerida por Mário de Andrade, percebe-se já no primeiro verso que se faz alusão à peça de Maurice Ravel de título homônimo  Pavane pour une infante défunte (trad. Pavana para uma infanta defunta). Na peça musical do compositor francês observa-se o mesmo ostinato (frase rítmica, melódica ou harmônica repetida insistentemente ao longo de uma peça) que se observa no poema de Jorge de Lima.

Segundo [NASCIMENTO, 2024], pavana é uma dança lenta e de caráter melancólico, extremamente popular nas cortes europeias no século XVI e XVII. Ao que tudo indica, sua origem é italiana (os termos "pavana" e "padoana" significam "originária da cidade de Pádua"), embora alguns teóricos sugiram que "pavana" seja uma declinação do espanhol "pavón" (pavão), já que os elegantes movimentos da dança se assemelham ao ritual de exibição da cauda do pavão quando do acasalamento.

Ravel era estudante do Conservatório de Paris, na classe de composição de Gabriel Fauré, quando compôs sua Pavana, para piano solo, em 1899. Nas próprias palavras de Ravel:
não se trata de um lamento para uma criança que acabou de falecer, mas a evocação de uma pavana que uma pequena princesa pode ter dançado, uma vez, numa corte da Espanha
(o termo francês “enfante” refere-se ao correspondente espanhol “infanta”, este utilizado para designar uma princesa da casa real da Espanha).
Devido ao imenso sucesso alcançado pela peça desde 1902, o primeiro da carreira do compositor, em 1910 ele decidiu orquestrar a Pavana para pequena orquestra (duas flautas, um oboé, dois clarinetes, dois fagotes, duas trompas, uma harpa e cordas).
Frisamos que, segundo o compositor,
a peça não evoca nenhum momento histórico, mas somente a dança de uma jovem princesa na corte espanhola. O título não tem nada a ver com morte ou lamento, tendo sido escolhido por aliteração. Ravel gostou da som da combinação de "infante défunte" e por isso a adotou no nome da obra.
Mas, apesar da afirmação do compositor, resta a pergunta: quem seria essa princesa morta?  Tendo em vista que sua composição é muito "poética", nada impede que avancemos nossa opinião.
 
Infanta Margarita Teresa, figura central do quadro "As Meninas", pintado em 1656, por Diego Velázquez

Infanta Margarita Teresa com vestido azul por Velázquez, 1659


Não seria, por acaso, a princesa Margarita (1651-1673), retratada pelo pintor Diego Velázquez (1599-1660) desde os seus cinco anos de vida em algumas de suas telas?
Margarita María Teresa de Áustria foi filha do rei Felipe IV da Espanha e Mariana de Áustria, imperadores do Sacro Império Romano-Germânico. Apelidada de "la infanta Margarita", aos 15 anos contraiu matrimônio com seu tio materno Leopoldo I. A partir deste momento, sua vida se resumiria em dar à luz um herdeiro adequado. Após fazer 16 anos de idade, nasceu o primogênito que faleceria antes de um ano de idade. Dois anos mais tarde deu à luz sua filha, María Antonia, a única sobrevivente da princesa Margarita Teresa. No ano seguinte, voltou a dar à luz a um filho que faleceria poucos dias depois. Dois anos depois em 1673, Margarita faleceria aos 21 anos de idade, em consequência de sequelas de difícil parto de sua quarta filha, que tampouco sobreviveu. Quanto à filha que sobreviveu, María Antonia (1669-1692), estava fadada a um futuro semelhante ao da mãe, casando-se muito cedo, em 1685, com Maximiliano II Emanuel, o príncipe eleitor da Baviera.

Voltando à Pavana de Ravel, nesta peça ele imagina um retrato musical de uma jovem princesa na corte espanhola em uma dança régia, como num sonho. É admissível supor que o caráter melancólico da pavana se refira à premonição da princesa a respeito do seu trágico destino  que lhe tirou a vida tão jovem, além dos dissabores que sofreu com as tentativas vãs de gerar um herdeiro para o trono.

Abaixo será ouvida a gravação da célebre Pavana interpretada pelo próprio compositor-pianista. Esse registro histórico é datado do dia 30 de junho de 1922, em que se gravou em Londres a sua própria interpretação ao piano num sistema de rolo de papel perfurado. Identificamos na interpretação do autor uma leitura sóbria e precisa, que não busca refúgio na expressão elegíaca que se poderia esperar.
Link: https://www.youtube.com/watch?v=eGybwV3U9W8

E a mesma peça para orquestra, agora em formato de breve poema sinfônico em arranjo do próprio Ravel, transmitida ao vivo do Royal Festival Hall, Londres, executada pela Philarmonia Orchestra sob a regência de Esa-Pekka Salonen (29/20/2020)
Link: https://www.youtube.com/watch?v=DVtNt-6OTM8
 
 
VI. NOTAS EXPLICATIVAS


¹ Trad. A mais famosa das antífonas dirigidas a Maria, chamando-a de Rainha, mas o autor  Adhémar de Monteil, bispo de Le Puy no século XI  designa-a mãe de misericórdia, cujos olhos estão voltados para nós. No século XII, São Bernardo de Clairvaux adicionou as três últimas invocações ternas à Salve Regina.
Trad. Você pode ouvir a antífona da Salve Regina na sua versão mais comumente cantada na Notre-Dame de Paris aqui (...) ou na sua versão gregoriana apresentada pelos coros da catedral de Maîtrise sob a direção de Denis Rouger aqui (...) 
Link: https://www.notredamedeparis.fr/en/pray/prayer-and-meditation-at-notre-dame/salve-regina/

² Para [FAUSTINO, 1976, 236], o "melos contínuo" atribuído à Pavana de Jorge de Lima corresponde, em música, à melodia infinita (unendliche Melodie ³) de Wagner. Em literatura, é a Poesia por possuir a característica de ser circular, mítica e sempre recomeçada, "apesar de haver sido declarada como morta: o mito mesmo da poesia moderna a tentar romper com todas as convenções, para, enfim, abrir uma perspectiva infinita para as possibilidades criativas", conforme [CLEMENTE & TORRES, ibidem, 80-82], onde também defendem que a infanta do poema é a Musa  a poesia  presa em "leito estranho" ou "encerrada num profundo sepulcro", qualificativos apropriados para a Literatura presa em museus e academias, consideradas as imóveis casas das musas  suas prisões e caixões de vidro. Para sustentar a sua visão, citam um trecho do próprio Jorge de Lima sobre a necessidade da poesia para o mundo atual convulsionado e sem rumo:
Hoje, mais do que nunca, precisamos de poesia. Precisamos dela como se precisa de cantigas para ajudar um trabalho pesado, de verdadeiras cantigas de eito, deste eito imenso que é o mundo atual, convulsionado pela maior guerra de que se tem notícia. Desconfie dos que saem à rua anunciando que vão fazer poesia nova, poesia burguesa, protestante, católica, social ou monarquista, porque não há poesia com tais rótulos. Não acredite nos especialistas em poesia. Esta dispensa estandartes.[LIMA, 1958, p. 71]
³ Um termo desenvolvido por Richard Wagner em 1860 para descrever seu estilo melódico que, em contraste com as melodias periódicas ou estróficas das canções, evita e ignora conscientemente a coesão e a formação de seções.


VII. BIBLIOGRAFIA


ANDRADE, Mário de: Poesias completas, Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.

BOSI, Alfredo: Jorge de Lima, poeta em movimento (Do "menino impossível" ao Livro de sonetos), 2016

CARNEIRO
, José Fernando: Apresentação de Jorge de Lima, Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1954, 117 p.

_______________________: Apresentação de Jorge de Lima. Rio de Janeiro: MEC, 1958.

CAVALCANTI, C. Povina: Vida e Obra de Jorge de Lima, Rio de Janeiro: Edições Correio da Manhã, 1ª edição, 1969.

–––––––––––––––––––––: Volta à Infância - Memórias, Rio de Janeiro: Editora José Olympio/INL, 1972.

CAVALCANTI, Luciano Marcos Dias: Inspiração, trabalho técnico e memória no Livro de sonetos, de Jorge Lima, in revista Nau Literária, Porto Alegre: UFRGS, vol. 10, nº 01, jan/jun 2014

CLEMENTE F.C. & TORRES, L.U.: A eterna chama e a melodia infinita: leitura de um soneto de Jorge de Lima, in revista Travessias Interativas/São Cristóvão (SE), nº 27 (vol. 12), p. 71-87, set/dez 2022

CUNHA, Fausto: Nota preliminar. In: LIMA, Jorge de. Obra Completa (org. Afrânio
Coutinho). Rio de Janeiro: Aguilar, 1958.

_____________: O livro de sonetos de Jorge de Lima, Rio de Janeiro: A Manhã, edição de 13/05/1959

FAUSTINO, Mario: Poesia-Experiência, São Paulo: Editora Perspectiva, 1977, 281 p.

LUCAS, Fábio: O soneto inovador de Jorge de Lima, revista Letras de Hoje, Porto Alegre: PUCRS, vol. 28, nº 3, set 1993, 155 p.

NASCIMENTO, Guilherme: Pavana para uma infanta defunta (1899; versão orquestrada 1910), 26/12/2024
Link: https://filarmonica.art.br/obras/pavana-para-uma-infanta-defunta/

PAULINO
, Ana Maria: Jorge de Lima, São Paulo: Edusp, 1995. (Col. Artistas Brasileiros)