quinta-feira, 20 de maio de 2010

Beaumarchais e a “trilogia de Fígaro”


Por Francisco José dos Santos Braga




Neste ensaio vou tratar de três assuntos intimamente relacionados e que objetivam trazer ao leitor lusófono do Blog do Braga uma breve análise da "trilogia de Fígaro" de Beaumarchais, minha tradução de um texto de Docteur Cabanès intitulado "Beaumarchais se suicidou?", que levanta a suspeita de que a morte de Beaumarchais não tenha sido natural e, por fim, minha tradução de breve "Biografia de Docteur Cabanès", escrita por Dr. Léon Laveyssière, este também médico como o seu biografado.

Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799), ou simplesmente, Beaumarchais, foi um autor de teatro francês. Ao lado de Molière e Marivaux, é considerado um dos três grandes comediógrafos da época clássica francesa. Começou por exercer o ofício de relojoeiro, foi mestre de música das filhas de Luis XV, sendo seu secretário, diplomata de bastidores e agente secreto. Na infância, estudou violão, flauta e harpa.

De Beaumarchais destaca-se a "trilogia de Fígaro", constando, conforme o próprio nome diz, de três peças envolvendo o personagem Fígaro, descritas abaixo.

A comédia O Barbeiro de Sevilha (Le Barbier de Séville), em quatro atos, foi encenada em Paris pela primeira vez em 1775, e sua "continuação", a comédia O Dia Louco, ou O Casamento de Fígaro (La Folle Journée, ou Le Mariage de Figaro), em cinco atos, embora escrita em 1777-1778, estreou na Comédie-Française em 27 de abril de 1784, com estrondoso sucesso. A popularidade de sua personagem foi tanta que os dicionários ocidentais passaram a figurar o termo fígaro como sinônimo de barbeiro.

A terceira parte da "trilogia de Fígaro" é L' Autre Tartuffe, ou La Mère Coupable (O outro Tartufo, ou a Mãe Culpada), um drama em cinco atos, finalizado em 1792. Sua première foi um fracasso, mas a reprise no Teatro da Rua Feydeau, em 5 de maio de 1797, se revelou grande sucesso.

No teatro de Beaumarchais, O Casamento de Fígaro tem lugar em Sevilha, alguns anos depois dos fatos narrados em O Barbeiro de Sevilha, em que o conde de Almaviva tinha conseguido casar-se com Rosina, graças à astúcia do barbeiro Fígaro. Mas, se em O Barbeiro o amor que triunfava era o do conde, em O Casamento é o do criado. Não por acaso, esta última comédia transpira uma mentalidade tão antiaristocrática quanto a própria Revolução Francesa (1789) que explodiu cinco anos depois da estreia da obra (1784). Com efeito, agora, quem está a ponto de casar-se é Figaro, convertido em criado do conde de Almaviva e da sua esposa Rosina, a condessa. A felicidade, porém, dos futuros esposos — Fígaro e Susanna — está ameaçada porque o conde julga ter "direito de pernada" sobre a sua criada Susanna e o que explica, de fato, o argumento é a maneira como o criado consegue vencer e ridicularizar as pretensões sexuais do aristocrata.

A comédia O Barbeiro de Sevilha é considerada uma comédia de intriga, em que o riso se nutre do inesperado das situações, bem como de uma sátira social ainda tradicionalmente voltada contra os velhos, os médicos, os literatos e os juízes, embora Fígaro já dirija algumas farpas à aristocracia, sobretudo em suas reflexões sobre a relação patrão-criado. O enredo da ópera satiriza a ordem social francesa, rigidamente estabelecida e em plena decadência no período pré-Revolução.

Já a outra comédia, O Casamento de Fígaro levou de 6 a 7 anos para ser apresentada, depois de ser examinada por seis censores consecutivos e ter sua estréia duas vezes interditada pelo próprio Luís XVI. Consta que o brilhante, bem-humorado e astucioso Beaumarchais teria feito o seguinte comentário: "Só quero uma coisa: é que a peça pareça bem perigosa, que lhe façam muita oposição e sobretudo que o Rei continue a se envolver diretamente no caso — e chego logo à Comédie Française. Com inimigos e obstáculos, terei sucesso." (apud Gaiffe, 1928: 57 in Guimarães)

Guimarães analisa o enredo dessa comédia com muita propriedade: "Fígaro e Susanna são ainda subalternos socialmente, mas não sentem, pensam ou se comportam mais como subalternos, e por isso podem ser protagonistas. A aparente familiaridade entre Fígaro (criado) e Almaviva (patrão) não esconde a permanentemente tensa oposição de interesses e perspectivas, em que se evidencia a autonomia espiritual do criado; do mesmo modo, a resistência astuciosa e manipuladora de Suzanne (criada) ao assédio do conde revela uma liberdade de espírito que se desprende de sua condição de sujeição social. Já a afetuosa relação feminina entre Suzanne e a condessa (Rosina), que é quase uma aliança feminista, marcada por uma intimidade quase fraterna, só é possível dramaturgicamente à luz de novos valores, como uma resposta feminina à condição de submissão da mulher no Antigo Regime (plano em que se igualam a condessa e a camareira (plano em que se igualam a condessa e a camareira), de resto criticada de maneira sentida e lúcida por Marceline (governanta) no ato III, cena XVI.”¹

Sobre a dramaturgia de Beaumarchais em O Casamento, Pol Gaillard (1985), apud Guimarães afirma que essa comédia “reúne, em uma só peça: uma comédia de costumes em que se retratam, numa Espanha "de fantasia", as últimas décadas do Antigo Regime francês; uma comédia de intriga em que situações cômicas, disfarces e trocas de pessoas se sucedem em ritmo vertiginoso e envolvente; uma comédia romanesca, com duas belas e originais histórias de amor em que o problema não é conquistar o ser amado, mas conservá-lo contra seus próprios impulsos libertinos (a condessa), ou contra a sedução e o poder alheios (Fígaro e Susanna); uma comédia psicológica, com pelo menos seis estudos de caráter profundos e bem delineados (o conde Almaviva, a condessa, Fígaro, Susanna, Cherubino e Marcelina); uma bem sucedida comédie-ballet ao gosto clássico que, associando teatro, canto e dança, adequa-se, por sinal, perfeitamente ao interesse contemporâneo pelos espetáculos musicais; quadros de comicidade caricatural, particularmente a cena do julgamento, que apresenta em traços farsescos a Justiça da época; e finalmente uma sátira social que aborda grande parte das questões que estão na ordem do dia às vésperas da Revolução Francesa, não de maneira acerba e panfletária, mas a partir do riso, que não é mais, como o de Molière, um meio de fustigar os costumes, expondo-os ao riso dos espectadores. Em Le Mariage de Figaro, os que riem não estão só na platéia; é o riso das próprias personagens que importa, que veicula, por assim dizer, a lição de moral: o élan vital triunfa sobre as angústias do tempo, nessa comédia em que os que estão insatisfeitos com o mundo estão, por outro lado, fundamentalmente de bem com a vida. E talvez seja essa radical alegria de viver de Beaumarchais e de suas personagens que faça de Le Mariage de Figaro uma peça clássica no sentido mais completo do termo, ou seja, contemporânea a todas as épocas.”

Considerando a ordem em que apareceram as partes da "trilogia de Fígaro" e o seu aparecimento sob a forma de ópera, temos que a ópera de Rossini O Barbeiro de Sevilha (1816), em dois atos, conta a primeira parte da "trilogia de Fígaro", ao passo que a ópera As Bodas de Fígaro de Mozart (1785-1786), em quatro atos, se baseou na sua segunda parte da trilogia, embora tenha aparecido 30 anos antes da primeira. A última parte da referida trilogia constitui o enredo da ópera La Mère Coupable de Darius Milhaud (1892-1974), estreada no Grand Théâtre em Genebra, Suíça, em 1966.

Sobretudo quanto às duas primeiras partes mises en musique da "trilogia de Fígaro", cabem ainda alguns comentários.

Em 1785-1786, Mozart (1756-1791) compôs a música de As Bodas de Fígaro (Le Nozze de Figaro), com libreto italiano de Lorenzo Da Ponte. A música de Mozart é de uma genialidade absoluta e de um assombroso sentido dramático, desde a abertura agitada e trepidante que nos anuncia "o dia louco" que vamos viver, até os números de conjunto, magnificamente preparados em perfeita progressão, passando pelas árias dos distintos personagens, que tão bem definem seus caracteres.

Em 1816 (30 anos após o aparecimento das Bodas de Fígaro de Mozart), Rossini (1792-1868) escreveu, em um mês, a partitura de O Barbeiro de Sevilha (Il Barbiere di Siviglia), sobre libreto também italiano de Cesare Sterbini. Ambas as óperas, baseadas em comédias de Beaumarchais, exploram o gênero da opera buffa (ópera cômica associada com comédia burlesca), estilo inspirado nas obras populares da "commedia dell' arte" firmemente estabelecido desde 1733, quando Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) estreou, em Nápoles, La Serva Padrona (A Serva Patroa), recebida por toda parte como um succès fou. A opera buffa na Itália teve seu correspondente na França (opéra comique) e na Alemanha (Singspiel).

Para finalizar esta parte, gostaria de traduzir um pequeno trecho de Charles Péguy (1873-1914) para mostrar a importância do teatro de Beaumarchais, na sua opinião:

Se eu fosse professor de história da França, (quer dizer a história), e talvez de história do mundo, eu mandaria meus alunos lerem La Mère Coupable... Faria com que lessem primeiro as duas comédias; e em seguida o drama... Nada permitiria melhor medir a diferença de tempo, a diferença de tom, enfim o que faz propriamente a história e o período e os incidentes de um povo e do mundo. Gostaria de dar a meus alunos o gosto mesmo, o sabor por assim dizer físico do que era 1775, 1784, 1792: eu os faria ler simplesmente essas três peças.”²



Minha tradução de Biografia do Dr. Cabanès


Dr. Léon Laveyssière³, médico como Dr. Cabanès, dá excelentes traços da "Biografia do Dr. Cabanès" que transcrevo abaixo, em minha tradução:

"São raros aqueles que descobrem uma via nova, por pequena que seja, mais raros ainda são aqueles que sabem explicá-la e torná-la fecunda. A esse título quero assinalar um mestre na arte de escrever, confrade no jornalismo médico, o doutor Cabanès.

Introduzir a crítica médica na história, utilizar seus conhecimentos para resolver problemas que os historiadores entregues a si mesmos deixam sem resposta. Trabalho semelhante já havia sido tentado por Desgenettes, Brachet, Dubois d' Amiens, Rollet, Charcot, Jacoby, Corlieu, Chéreau, Lacassagne, etc...

Mas nenhum tinha abordado essas questões com tal continuidade de esforços nem chegado a tais resultados; ninguém tinha ainda conseguido criar um gênero especial, apreciado por um numeroso público de médicos e de literatos.

Nascido em Gourdon (Lot) em 1862, Cabanès começou em 1880 seus estudos em Bordeaux, veio logo para Paris onde recebia em 1886 seu diploma de farmacêutico e em 1889 o de médico.

As letras o atraíram cedo: em 1885 ele debutava nas suas pesquisas tão especiais com um artigo no Progrès médico sobre os soberanos nevropatas.

Na mesma época entrou no Medianeiro dos Investigadores (Intermédiaire des Chercheurs) dirigido por Faucou; fazia, nessa excelente escola, seu aprendizado de crítica e já testemunhava uma memória espantosa, uma grande facilidade de classificar as recordações e muito método no trabalho. E como todos os jornalistas nascidos de instinto, ele trabalhava por acesso, quando isto lhe dizia, tirando longos períodos de repouso contemplativo.

Pouco a pouco escreveu em diversos jornais de medicina: em 1887 no jornal de medicina de Paris, cujo folhetim ele publica, na França Médica onde toma o pseudônimo de Doutor Quercy, na Gazeta dos Hospitais, etc. Em seguida faz o acesso às revistas literárias: a Revista Semanal (Revue Hebdomadaire), a Grande Enciclopédia, a Revista das Revistas, etc., enfim nos jornais políticos: o Fígaro, o Gaulês (Gaulois), o Jornal.

Em 1894 funda a Crônica Médica, e nesse jornal, do qual é simultaneamente diretor e redator, nos dá a medida de seu valor. A cada quinze dias aparecem artigos inéditos sobre personagens da história, artigos sempre esperados com impaciência e muito apreciados por um público numeroso.

Nós nos interessamos pela doença de Marat, pelos amantes de Charlotte Corday, pelas superstições de Napoleão I, pela impotência de Luís XVI, da forma como foi consumido seu casamento com Maria Antonieta, etc. Nós nos apaixonamos enfim pelo romance de Georges Sand em Veneza com Alfred de Musset e o doutor Pagello, que este último personagem explicou numa entrevista famosa.

Todos esses documentos formam enfim a matéria de numerosos livros: O Gabinete Secreto da História em 4 séries, cujas duas primeiras estão agora esgotadas; as Mortes Misteriosas da História e ultimamente, em colaboração com L. Nass, os Venenos e Sortilégios. Neles discute e destrói lendas absurdas de envenenamento, reabilitando assim diversos personagens caluniados há séculos, confirma e explica outros deles, iniciando-nos na composição e nos efeitos da venenosa italia, da cantarella dos Borgia, da aqua Toffana⁴ ou aguinha de Nápoles. (...)

O sucesso desse gênero de trabalhos tão especiais é uma das características do período médico contemporâneo. Indica a importância crescente da arte médica que extravasa suas antigas fronteiras para se interessar por todas as ciências tendo por objetivo o estudo do homem."



Minha tradução de Beaumarchais se suicidou?


Aqui vou discutir o que se costuma chamar de medicina histórica, tomando por base a minha tradução de um dos artigos que fazem parte de As Indiscrições da História, importante obra de Docteur Cabanès em quatro séries. O artigo em questão, um texto médico-literário de autoria de Docteur Cabanès que se tornou especialmente famoso, apareceu na quarta série da referida obra. Nele o autor francês resolveu investigar o que deve ter ocorrido a Beaumarchais nas suas últimas horas de vida, em certo dia de 1799.

Na manhã de 8 de maio de 1799, o criado de Beaumarchais, surpreso de não ver seu patrão descer como de costume, entrou no quarto onde ele repousava e o encontrou sem movimento e sem vida. Ele estava, diz-nos um contemporâneo, na mesma posição que tinha se colocado, ao se deitar⁶.

Nenhum desarranjo anunciava o de que sofria. Os médicos chamados declararam unanimemente que ele tinha sucumbido de um ataque de apoplexia — "o sangue se dirigira ao cérebro" — e que ele tinha deixado a vida sem dor e sem ter tido consciência de seu fim próximo.

O que nos faz crer numa morte natural, é que, na véspera mesma, o autor de O Barbeiro tinha passado um sarau muito alegre no meio de seus familiares e em companhia de alguns amigos. Ele tinha evocado, durante sua conversa, recordações de sua juventude, narradas "com uma amenidade encantadora", segundo os termos duma testemunha.

O livreiro Bossange, morto aos 100 anos em outubro de 1865, informava ter passado essa última noite com Beaumarchais. Jogou com ele uma partida de damas, e Beaumarchais só tinha ido deitar-se por instâncias de seu criado. Às onze horas, retirou-se abraçado à sua esposa. Como esta tinha uma leve indisposição, afetuosamente recomendou a ele cuidar de sua saúde. Quanto a este, não se queixava de forma nenhuma. Após ter ordenado que o acordassem cedo, adormeceu e, na manhã seguinte, foi encontrado inanimado.

Esse fim súbito de um homem que parecia desfrutar uma saúde tão perfeita despertou, em alguns, suspeitas que, ainda hoje, não foram inteiramente dissipadas.

Numa conversa mantida alguns dias antes de sua morte, parece que Beaumarchais, dizendo-se cansado da vida, expressara o desejo de se livrar prontamente de sua carcaça, através de um desses meios químicos de que se começava a falar na ocasião.

Apenas uma semana após o falecimento de Beaumarchais, um "amigo da família" escrevia à sua viúva que se encontrara com alguém que lhe havia "narrado gravemente essa insolência".

Quem tinha feito correr esse boato calunioso não era outro do que o poeta Népomucène Lemercier, com o qual Beaumarchais era muito ligado⁷. Nos últimos dias, o autor de O Casamento de Fígaro se consolava muitas vezes, na intimidade do jovem poeta, com obsessões de toda sorte, que gastos exagerados tinham suscitado na sua velhice. Fez-lhe confidência de seus embaraços financeiros e não surpreende que, num momemto de desânimo, Beaumarchais tenha comunicado a seu amigo projetos que, serenamente, não teria nunca sonhado em por em execução. Não foi preciso algo mais para estabelecer a lenda.

Esménard, no seu artigo BEAUMARCHAIS da Biographie universelle, Ravenel⁸ apud Beuchot, o próprio Sainte-Beuve apud Ravenel não deixaram de reproduzir essa versão, e sem procurar demais desmenti-la. No máximo Sainte-Beuve, quando lhe foram apresentados os argumentos que militavam em favor da hipótese duma morte natural, se rendeu, mas conservando, de si para si, "uma leve dúvida⁹".

Essa dúvida não mais é permitida hoje.

Os documentos que vieram à luz, particularmente pelo mais autorizado biógrafo de Beaumarchais, Louis de Loménie¹⁰ e, mais recentemente, por M. Eugène Lintilhac são de arrebatar os contraditores mais tenazes.

Nos últimos tempos de sua vida, Beaumarchais apresentava o aspecto de um homem "muito gordo e sanguíneo": são essas as próprias expressões que se acham no último passaporte que lhe entregou o ministro da França em Hamburgo. Na mesma época, ele próprio se qualificava: um bom velho grande, grisalho, gordo, gorduroso.

Mas há mais, e este detalhe tem um valor bem diverso a nossos olhos: Beaumarchais estava sujeito a frequentes síncopes.

Em 5 de maio de 1797, então com a idade de sessenta e cinco anos, ele escrevia à sua filha¹¹: "Desde a noite do dia 6 a 7 de abril, ocasião em que tive um longo abatimento, que era o segundo aviso que a natureza me dava desde cinco semanas atrás, meu estado está mais tolerável. Espero os pós vegetais. (?) Quer a estação ascendente em que nos encontramos reanime um pouco minhas forças, quer este eretismo¹² proceda de febre, eu pude fazer, minha criancinha, imensos trabalhos, cujo fruto você recolherá pelas precauções que tomei¹³".

Esses "avisos da natureza" eram provavelmente dos ataques de hemorragia cerebral. A primeira, como o dizia um médico espirituoso de outrora, é uma intimação sem custas, a segunda uma intimação com custas, e a terceira ... a expulsão deste mundo.

A morte de Beaumarchais se explica deste modo mais logicamente; mas nós temos outras provas mais concludentes.

E primeiro, o certificado do cirurgião chamado a constatar o óbito, certificado datado do mesmo dia desse falecimento (29 floréal an VII¹⁴) declara que o "cidadão Beaumarchais morreu duma apoplexia sanguínea, e não outra doença".

A esse testemunho, L. de Loménie junta o do próprio genro de Beaumarchais que, consultado sobre esse ponto, respondeu pela seguinte carta, cujos termos, muito explícitos, não dão lugar a nenhuma outra hipótese que à de uma morte natural:

Villepinte, por Livry (Seine-et-Oise),
7 de outubro de 1849.

"Senhor,
"Venho de tomar conhecimento, com um espanto penoso, dos boatos que espalharam sobre os últimos momentos de Beaumarchais, meu sogro. A afirmação mentirosa de seu suicídio, que foi reproduzida em escritos sérios, obriga-me a repelir, com toda a indignação que merece, uma fábula com a qual a família e os amigos de Beaumarchais teriam se perturbado, se a tivessem conhecido mais cedo.

"Beaumarchais, depois de ter passado em família o mais animado sarau, em que jamais seu espírito não tinha estado mais livre e mais brilhante, foi acometido de apoplexia. Seu criado, entrando em seu quarto pela manhã, encontrou-o na mesma posição em que o havia deixado ao deitá-lo, o rosto calmo e aparentando repousar. Fui advertido pelos gritos de desespero do criado, corri até o quarto de meu sogro, onde constatei essa morte súbita e tranquila; em seguida, só me ocupei de salvar sua filha, que tinha por seu pai um verdadeiro culto, da angústia de uma notícia que poderia ter-lhe sido funesta, caso tivesse tomado conhecimento dela sem estar preparada.

"Eis, senhor, a verdade exata...
“Delarue”

Na família de Beaumarchais, não se acreditou então no suicídio; nos documentos deixados pela viúva do escritor, não se acha a mínima alusão, por velada que seja, a essa versão verdadeiramente insustentável.

Um dos familiares mais íntimos de Beaumarchais, Gudin de la Brenellerie, cujos manuscritos M. Maurice Tourneux possuiu, diz que, na véspera de sua morte, Beaumarchais parecia "pleno de força e de saúde", e que "sua constituição vigorosa, sua aparência física anunciavam que (sua saúde) não estava absolutamente alterada". Nas cartas que ele endereçava a Sra. de Beumarchais, Gudin lembra por várias vezes o fim tão imprevisto de seu amigo, e nesta ocasião, deseja como ele uma morte "súbita e tranquila" (para si). Sra. de Beaumarchais escreve, de seu lado: "Meu marido saiu da vida como nela tinha entrado."

Assim, de um lado, um assunto de somenos importância, mantido por um homem que reveses da sorte, negócios muito complicados, cuidados familiares haviam afetado — sua filha que adorava dava-lhe preocupações de saúde com as quais seu coração particularmente sensível se perturbara; de outro lado, uma declaração formal de um homem da arte, uma tradição de família imutável. Entre as duas versões nenhuma hesitação possível: a da morte natural é a única aceitável. Parece-nos que o problema é de uma solução tão fácil e simples que nós recusaríamos quase havê-lo levantado¹⁵.”



¹ Guimarães, A.M.: As Bodas de Fígaro; Mozart, Da Ponte, Beaumarchais (o libreto e a peça), Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1991, pp. Xii e Xiii.

² “Si j' étais professeur d' histoire de France, (dit l' histoire), et peut-être d' histoire du monde, je ferais lire [La Mère Coupable] à mes élèves... Je leur lirais d' abord les deux comédies; et ensuite je leur lirais le drame... Rien ne permettrait autant de mesurer la différence de temps, la différence de ton, enfin ce qui fait proprement l' histoire et l' âge et l' événement d' un peuple et du monde. Je voudrais donner à mes élèves le goût même, la saveur pour ainsi dire physique de ce que c' était que 1775, 1784, 1792: je leur lirais simplement ces trois pièces.” ( Péguy, Charles: Clio, dialogue de l' histoire et de l' âme païenne [póstumo])

³ Cfr. Le Correspondant Médical, 15/7/1903, p. 3 (http://www.leplaisirdesdieux.fr/LePlaisirDesDieux/Histoire/BIBLIO/Revues/correspondantmedical/1903/Juillet_15/Cabanes.pdf).

⁴ Veneno devastador amplamente usado em Roma e Nápoles no século XVII supostamente contra maridos por esposas infelizes. Era um líquido incolor, insípido e facilmente misturado em bebidas.
A lenda que Mozart pudesse ter sido envenenado por acqua Toffana é completamente descabida. [N.T.]

Docteur Cabanès. Les Indiscrétions de l' Histoire (s.d.), quarta série, pp. 185 a 193, Paris: Albin Michel, Éditeur.

Gudin de la Brenellerie. Histoire de Beaumarchais (édition Tourneux), 1888, p. 473.

Revue des Deux-Mondes, janeiro-março 1840, p. 462.

⁸ Na notícia que precede sua edição in-18 de Beaumarchais.

Causeries du Lundi, t. VI.

¹⁰ L. de Loménie. Beaumarchais et son temps, t. II, pp. 526 e seguintes.

¹¹ Lintilhac, apud Bonneville de Marsangy. Mme de Beaumarchais, p. 115.

¹² Eretismo pode ser entendido como astenia neurocirculatória, caracterizada por uma síndrome clínica consistindo de palpitação, respiração curta e difícil, queixas subjetivas de esforço e desconforto, tudo isso seguindo um leve esforço. Outros sintomas podem ser tontura, tremedeira, suor e insônia. O Dicionário do Aurélio só registra "estado de excitação, de exaltação". [N.T.]

¹³ Beaumarchais adorava sua filha única, por quem era adorado; só ele parecia e se acreditava capaz de desembaraçar o caos inextricável de seus negócios. É admissível, opina judiciosamente L. de Loménie, que ele tenha podido pensar em deixar voluntariamente esse pesado fardo nos braços de sua filha e de um jovem marido inexperiente?

¹⁴ Esta terminologia é a do Calendário Revolucionário, diferentemente do nosso, que é Calendário Gregoriano.
Por um lado, o VII significa que se passaram 7 anos após a Revolução Francesa (1792), ou seja, 1799-1792=an VII, ou seja, ano VII. Por outro lado, 29 Floréal significa 18 de maio. [N.T.]

¹⁵ Este estudo apareceu (menos as notas e algumas adições no corpo do texto), pela primeira vez, em 1899, no jornal A Aurora, portando a data de 21 de junho, por ocasião do centenário da morte de Beaumarchais.



* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

Um comentário:

Tiago M? (o Berro d'água) disse...

Muito instrutivo, para um jovem estudante de musica