sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ALGUMAS LUZES SOBRE A GENEALOGIA


Por Francisco José dos Santos Braga



O Blog do Braga tem o prazer de trazer aos seus leitores matéria que saiu no Caderno 2 do Jornal de Brasília, no dia 25 de novembro de 1990, domingo. Trata-se de uma entrevista que o jornalista Rubens Araújo fez comigo e que, a meu ver, representa ainda hoje um documento digno de registro por ter suscitado enorme interesse entre os leitores do Jornal de Brasília de então. Além disso, essa matéria, por sua enorme repercussão, influenciou muitas pessoas a iniciarem o estudo de sua genealogia familiar, o que por si só já constitui enorme gáudio a qualquer estudioso da genealogia. Pela sua atualidade, pela abordagem descontraída e fantástica, pela cobertura abrangente e compreensiva, essa matéria merece constar desse espaço interativo entre lusófonos, embora se ressinta da falta de certos refinamentos e detalhes que só interessam a genealogistas profissionais. Por isso sai sem retoques e notas que, se por um lado enriqueceriam ou corrigiriam o texto da entrevista, por outro lado fazem sucumbir a sua leveza original.




Carteira de Identidade dos nobres da Idade Média, a genealogia é hoje uma ciência que revela importantes aspectos sobre grupos sociais. O genealogista Francisco Braga joga luzes em cima dessa curiosa arte.





TUDO EM FAMÍLIA

Rubens Araújo

Um problema matemático, suponhamos algo absurdo, mas teoricamente exato. Se alguém quisesse conhecer todos os seus ancestrais até a quadragésima geração, quantos nomes ele conseguiria? A resposta é espantosa. Nada mais nada menos que 4.398.046.511.100 nomes. A questão é colocada por Francisco José dos Santos Braga, um dos raros pesquisadores em Brasília que mexe com uma curiosa ciência que encorpava o currículo das velhas realezas e hoje serve como elemento para a identificação de grupos sociais: a genealogia. Para ela, somos apenas a folha de uma grande árvore, com um tronco plantado pelo ancestral — o homem e a mulher — que impôs o sobrenome para as futuras gerações.

Quase todos, no fundo, têm o interesse, pequeno que seja, de conhecer um ascendente. De preferência famoso, que garanta "status" para o presente herdeiro do nome. Não há quem deixe de sentir uma ponta de orgulho de ser tataratataraneto de um barão ou um conde. É a fogueira das vaidades que arde. Francisco Braga, recentemente, fez crescer mais folhas na árvore genealógica de uma funcionária do Senado que descende de Joaquim José da Silva Xavier, o sacrificado Tiradentes. Nesse caso, a interessada quer comhecer os antepassados mais próximos. Uma arqueologia de nomes provocada pelo desejo de se conhecer a si mesmo.

E é exatamente o “conhecer a si mesmo”, sem o caráter psicológico ou mesmo existencialista, a causa interna que leva as pessoas a buscarem a árvore genealógica. É o conhecimento da linhagem (expressão muito usada pelos velhos genealogistas e que hoje ganhou contornos pejorativos) da gênese que redundou no que somos no presente. É a opinião de Francisco Braga que não deixa de aludir ao fato de que a procura de um antepassado célebre acende sempre a chama nas pessoas. “Elas ficam totalmente satisfeitas quando encontram alguém ilustre no passado”, conta.

ILHOAS

O próprio Francisco Braga tem muito orgulho de sua ascendência. Ele simplesmente descende das “três ilhoas”, três irmãs que chegaram a Minas quando a província mal acabara de nascer. A história das ilhoas, aliás, serve como exemplo e parâmetro para a pesquisa genealógica no Brasil. Francisco Braga tem um interesse especial por essa história, afinal, nela está sua gênese. Sua Bíblia é exatamente “As Três Ilhoas”, três volumes (um calhamaço de 1.750 páginas) escrito pelo conceituado pesquisador José Guimarães, que fez uma impressionante e trabalhosíssima captura dos nomes de uma boa parte dos descendentes das três ilhoas.

Francisco Braga é descendente dos três troncos. Segundo ele, um caso raríssimo. Em suas veias corre o sangue de Antônia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus. “Normalmente, as pessoas são descendentes de apenas uma delas. Eu sou das três, como consequência de entrelaçamentos e casamentos entre parentes que as instruções da Igreja no exame dos oradores não conseguiram impedir”, diz o genealogista. Ou seja, Braga descende dos três troncos porque seus avós burlavam a Igreja Católica que sempre anulava os casamentos entre parentes.

Segundo o genealogista, as três ilhoas originaram três importantes e férteis famílias, que hoje ocupam um espaço razoável em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás: os Junqueiras, os Rezendes e os Carvalhos. As três ilhoas são filhas do mareante Manuel Gonçalves Correa, chamado “o Burgão”, e Maria Nunes, naturais da ilha do Faial (nos Açores). Em 1723, o casal e as três filhas, uma delas já casada (a mais velha, Antônia da Graça, com Manuel Gonçalves da Fonseca), desembarcaram no Rio de Janeiro e subiram a serra rumo às Minas Gerais. Vieram em busca da felicidade e da fortuna.

CASAMENTO

Não demorou muito e as duas ilhoas solteiras casaram-se. Júlia Maria da Caridade, com Diogo Garcia, um conterrâneo que anfitrionou a família que chegava ao Brasil, e Helena Maria de Jesus com João Rezende da Costa. Daí vieram os filhos, os filhos dos filhos e assim por diante, entrelaçando-se e se espalhando por Minas Gerais e os estados vizinhos, e “acabaram constituindo-se no tronco das maiores famílias brasileiras”, segundo colocação de Francisco Braga. O que veio depois delas, de acordo com o genealogista, é uma descendência “distinta e numerosa”. Herdeiros que viraram governadores, ministros, politicos e empresários de peso.

A força ancestral dessas três mulheres de nomes católicos impressiona profundamente Francisco Braga, que tem como projeto na área a ampliação da árvore das três ilhoas. “Estou completando o trabalho de José Guimarães. Quero ampliar a tabela dos descendentes de Antônia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus.” E afirma que está fazendo grandes progressos. Mas, o projeto mais apaixonante do genealogista está ainda por começar: ele quer viajar para os Açores para fazer a árvore dos ascendentes das três ilhoas. Um plano que vai tomar seus pensamentos em 1991.

A possibilidade de se trabalhar em cima de um tronco que já foi bastante estudado, por ser uma das mais importantes (talvez a mais) geneses de Minas Gerais revela uma das características mais fortes da genealogia: a infinitude. “A genealogia é a própria vida. O trabalho do genealogista não termina. Você vai gastar uma vida inteira para fazer a árvore de uma família. O estudo é infinito. No fundo, somos todos parentes, somos todos irmãos, descendemos do primeiro homem que nasceu na terra. Em termos genealógicos”, diz ele, “todos somos parentes. O difícil é determinar o grau de parentesco.”

A fissura de Francisco Braga pela genealogia tem origem no relacionamento que mantinha com a avó. “Ela tinha uma preocupação particular com os nossos antepassados. Decorava o nome dos avós e bisavós. Ela tinha 70 anos de idade e gostava de me falar sobre os antepassados.” A memória recorrente somada à tradição familiar que tatua as casas e impregna o ar de São João del-Rei, onde nasceu, o fizeram genealogista. Uma atividade que para ele é "hobby" e não profissão. Um "hobby" que dura apenas dois anos e é praticado nas poucas horas vagas que tem. Braga é funcionário do Senado e bem que gostaria de dedicar o resto de sua vida para a genealogia.

“No Brasil de Collor, porém, quem se preocupa com a cultura e a memória tem sérias dores de cabeça.” E a sobrevivência de Francisco Braga depende do emprego que tem. A falta de tempo para a genealogia (empecilho minimizado pelo uso do computador que ajuda no arquivo do nome dos antepassados de inúmeras famílias) é grave, porque essa ciência auxiliar da história necessita o dispêndio de boas horas e muita paciência, porque a formação de uma árvore genealógica requer o mergulho do estudioso em museus, cartórios e bibliotecas.

ÁRVORE

Francisco Braga ensina que para a genealogia é fundamental obter os nomes, as datas de nascimento, casamento, óbito e os locais. O estudo da genealogia pode ser: ascendente, quando a partir de uma pessoa se procura conhecer os antepassados, ou descendente, quando se tenta descobrir as gerações seguintes àquele que está sendo estudado. Passo a passo, o estudioso vai montando a árvore genealógica. Árvore, porque ela dá o sentido exato do trabalho, ou seja, a partir de um tronco (o indivíduo) você chega ao coletivo familiar, às ramificações, que são todos os parentes que vieram antes ou depois dele.

O genealogista monta caprichosamente seu trabalho, que pode ganhar dois desenhos, ou a representação de uma árvore com o nome no tronco, do casal ou pessoa que deu início a tudo e dos descendentes nos galhos e folhas, ou então o mero enfileiramento dos nomes interligados por traços. O desenho da árvore é mais impactante e era o que fazia sucesso na Idade Média, quando a genealogia era como uma espécie de carteira de identidade dos nobres. Os nobiliários eram os documentos que garantiam as mordomias e até mesmo a aceitação de uma pessoa nos altos escalões, por exemplo, da Igreja Católica.

A falta de memória e o desinteresse do brasileiro em levantar o seu passado transtorna a vida do genealogista. Francisco Braga conta que a recuperação dos nomes dos familiares antes de 1889 é um grande problema: “Isso porque os primeiros cartórios só foram oficializados com a proclamação da República. E, antes disso, qualquer resgate torna-se bem trabalhoso.” Dessa forma é que os nomes das gerações de antes daquela data só podem ser resgatados através de um trabalho de pesquisa laborioso em museus, bibliotecas e, principalmente, na Igreja. E aqui, o genealogista vira um detetive, um especialíssimo espanador de pó. Um arqueólogo da família.

E esse trabalho de pesquisa traz muitas supresas e algumas delícias para o estudioso. Francisco Braga afirma que se diverte quando encontra os testamentos, que mais do que revelar nomes de parentes de interesse do pesquisador, trazem casos curiosíssimos. Ele mesmo lembra o caso de um homem que deixou para o seu sobrinho uma ação do Banco do Brasil no início do século, com a exigência de que todo o rendimento anual da ação fosse investido, durante 15 anos, no casamento de órfãos pobres. O dinheiro era suficiente para esse projeto beneficente. “Hoje em dia, acho que o rendimento de uma ação do Banco do Brasil não dá nem para comprar um prato de comida”, ironiza Francisco Braga.

O bom ainda desse tipo de investigação é que o genealogista pode mergulhar no seu próprio passado. Francisco Braga fez sua árvore de costado (a árvore genealógica feita apenas com os pais e avós, deixando de lado outros níveis de parentesco) até a 10ª geração. Assim, fica tudo em família.



* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

7 comentários:

José Antônio de Ávila Sacramento disse...

Excelente matéria, caro Francisco Braga.
Somos todos descendentes das ILHOAS!

flor do campo disse...

Boa tarde Braga, acho que minha avó Margarida Romana de Jesus era descendente da terceira Ilhoa, tem um Rufino Silverio de Andrade parece ser pai da minha avó materna tenho 72 anos, vou ser bisavó, se vc tem interesse em mais detalhes da minha família, me passe seu e-mail, ai vai o meu, berehulka.tereca@hotmail.com, aguardo, tudo de bom p/ ti!!

Nilza Maria dos Santos de Paula Assis disse...

Bom dia, Braga.
Interessei-me pelo assunto quando constatei que sabemos muito pouco sobre nossosantecedentes. Baseada em informações que tinha fui procurar e me eparei com coisas muito interesantes, como descobrir que sou descendentes de 3 filhos de Julia Maria da Caridade, uma das Três Ilhoas: pela minha avó paterna descendo de Mateus Luiz Garcia e de Maria do $Espírito Santo que se casou com Domingos Vilela; pelo meu avô paterno, descendo de Helena Maria de Jesus( sobrinha) que se casou com Francisco da Costa Pereira. Gostaria de manter contato consigo para melhores esclarecimentos e algumas informações. Obrigada.

meu nome e raquelzinha! disse...

Bom dia, estou escrevendo dos EUA. minha mãe e de MG e ela vem do tronco da Júlia (pelo neto da Júlia, Antônio Perreira de Carvalho, bis neto Rafael Antônio de Carvalho, tatara neta Leodora Blandina Carvalho, quem era a tatara avó da minha mãe). Eu também tenho desejo de entender mais sobre nossos raízes açorianos. Você conseguiu fazer pesquisas como você pretendia? Você publico essa árvore em algum lugar? Gostaria muito de saber todos os detalhes que consigo obter, seja pelo livro, webpage, ou mesmo um gedcom. Qualquer ajuda seria muito agradecida!

Henrique Nogueira Coelho disse...
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BLOG disse...

SOU SANTINA MARIA BRAGA TECLIS FILHA DE VALDOMIRO SEVERINO BRAGA- AVOS PATERNO JOSE SEVERINO BRAGA E MARIA MENDES DE JESUS BRAGA. MEU PAI PERDEU CONTATO COM A FAMILIA DESDE 7 ANOS DE IDADE ELES ERA DE MINAS GERAIS SALINA . GOSTARIA MUITO DE SABER DE ALGUM IRMÃO DELE. VCES PODE ME AJUDAR OBRIGADA

Priscila disse...

Olá! Minha família é de Madre de Deus de Minas, município próximo de São João del Rei. Temos poucos dados sobre a genealogia da minha familia: Nascimento e Santana e acredito que descendam das três ilhoas. Gostaria de saber se o senhor publicou algum livro ou tem algum material em que traz a genealogia delas. Obrigada!
priprysantana@hotmail.com