quinta-feira, 5 de junho de 2014

SMETANA: QUARTETO DE CORDAS nº 1 em mi menor (Da Minha Vida) - Histórico e Descrição pelo próprio autor


Por Francisco José dos Santos Braga
 
Estátua em homenagem a Smetana em Litomyšl 
(Boêmia), sua terra natal


I.  HISTÓRICO DO QUARTETO "DA MINHA VIDA"


Bedřich Smetana (1824-1884), considerado o fundador da escola tcheca de composição e pai da música nacional tcheca, escreveu seu Quarteto de Cordas nº 1 em mi menor (Da Minha Vida) nos últimos meses de 1876, provavelmente para coincidir com a fundação da Sociedade de Música de Câmara em Praga. Naquela época, Smetana já estava completamente surdo há dois anos ¹ e, cercado pelos seus, vivia em reclusão involuntária na casa de campo de sua filha mais velha, Sophie Schwarzová, em Jabkenice. Em 30 de outubro ele anotou em seu diário: "Agora estou escrevendo o quarteto de cordas em mi menor. Já terminei os dois primeiros movimentos; deve consistir de quatro." ²
Em 20 de dezembro ele relatou a seu amigo, jornalista e crítico musical, Josef Srb-Debrnov (1836-1904): "Agora estou terminando um quarteto de cordas, e não quero iniciar nenhum novo trabalho até vê-lo completo, porque minha doença não me permite trabalhar mais do que uma hora de uma assentada. Então eu tenho que descansar, uma vez que o zumbido nos meus ouvidos costuma reiniciar, impedindo-me de continuar meu trabalho. Assim tenho que trabalhar em espaços bastante curtos, evitando qualquer exaustão."

A obra foi completada em 19 de dezembro de 1876 e sua primeira apresentação devia acontecer pelo Quarteto Bennewitz no Salão Konvikt em Praga no dia 19 de fevereiro de 1877, inaugurando o primeiro concerto da Sociedade de Música de Câmara que tinha sido fundada em janeiro daquele ano. Contudo, a première do Quarteto não aconteceu, tendo em vista que os musicistas o rejeitaram sob a alegação de ser supostamente orquestral demais na concepção e tecnicamente inexequível. Só em abril de 1878 é que Josef Srb-Debrnov organizou uma primeira apresentação, em sua casa de Praga. Ele próprio tocou a parte do violoncelo e Antonín Dvorák, a viola. O quarteto foi ouvido em público pela primeira vez num sarau realizado pela divisão musical da Sociedade de Artistas Umělecká beseda, no Salão Konvikt de Praga em 29 de março de 1879 — agora sob o título "Da Minha Vida" que, conforme desejo expresso de Smetana, devia ficar conhecido dali em frente.
Bedřich Smetana (1824-1884)


II.  DESCRIÇÃO FEITA POR SMETANA SOBRE O SEU QUARTETO


Smetana normalmente se resguardava de expressar-se sobre sua obra. Contudo, no caso do Quarteto de Cordas nº 1, sentia que era recomendável comunicar suas intenções composicionais aos executantes e ao público antes da primeira apresentação da obra. Em 12 de abril de 1878 ele escreveu a Josef Srb-Debrnov: 

"Não era minha intenção escrever um quarteto de acordo com receitas e costumes pré-concebidos. (...) Para mim, a forma de toda obra resulta naturalmente do próprio objeto. Este quarteto também se deu sua própria forma. Foi meu propósito retratar em música o desenrolar da minha vida. 1º movimento: (Allegro vivo appassionato) : queda para a arte em minha juventude, predominância do espírito romântico, o desejo indizível de algo que era incapaz de exprimir em palavras e que absolutamente não poderia imaginar de nenhuma forma específica, mas que era ao mesmo tempo um aviso da calamidade que me aguardava
;

a nota longamente sustentada no Finale surgiu deste começo
;

é aquela fatídica ressonância de sons agudos em meu ouvido que em 1874 anunciou o começo da minha surdez. Permiti-me esta brincadeira, já que era tão funesta para mim. 2º Movimento: Quasi polka : me transporta de volta ao tempo alegre da minha juventude, quando compunha danças que eu apresentava copiosamente para todos meus conhecidos e quando ganhei a reputação de exímio dançarino por meu próprio esforço, etc. O movimento central: Meno vivo, em ré♭ menor é o que os integrantes do quarteto de cordas chamaram de absolutamente inexequível. Na opinião deles, é supostamente impossível obter o necessária clareza das cordas. Observo que, nas notas desse movimento, estou pintando minhas memórias dos círculos aristocráticos nos quais vivi por muitos anos. (...) Penso que esse movimento é a principal razão por que os cavalheiros se recusam a tocar o quarteto; isso pesa mais do que a objeção contra o estilo orquestral.  3º Movimento : Largo sostenuto : é uma reminiscência do meu primeiro amor por uma jovem que depois se tornou minha esposa.  4º Movimento : (Vivace) A descoberta da música nacional e minha alegria em seguir esse caminho até o momento em que foi brutalmente interrompido por nefasta calamidade: início da surdez, a perspectiva de um futuro triste, um leve raio de esperança de que uma melhora poderia advir; entretanto, depois de relembrar os primeiros estágios de minha vida, este é um sentimento doloroso, no final das contas. ³ Este é mais ou menos o conteúdo deste trabalho que, por assim dizer, tem um caráter privado e em consequência foi escrito intencionalmente apenas para quatro instrumentos. Como num círculo de amigos, eles devem entreter-se, um com o outro, a respeito do que tão profundamente me oprime. Nada mais."  
A bem sucedida estreia do quarteto foi seguida pela sua publicação pelo seu editor František Augustin Urbánek, em Praga, em 20 de março de 1880. A impressão da obra ajudou a divulgá-la, e a primeira apresentação estrangeira ocorreu em 15 de maio de 1880 em Weimar graças à iniciativa de Franz Liszt, o qual dois dias depois escreveu carta a Smetana manifestando seu entusiasmo com o quarteto: "Nós ficamos fascinados com seu esplêndido quarteto."


III.  APRECIAÇÕES ABALIZADAS SOBRE O QUARTETO "DA MINHA VIDA"


[CANDÉ, 1994, vol. 2, 164], falando sobre a escola tcheca, diz: "O gênio de Smetana, criador da ópera tcheca e símbolo da independência nacional, nunca foi tão grande quanto em A Noiva Vendida, mas permanece excelente na música instrumental: o ciclo de seis poemas sinfônicos Ma Vlast ("Minha Pátria") e o primeiro quarteto em mi menor são obras-primas. Dvořák, mais popular no exterior, não tem o gênio de Smetana. (...)"

[GENETTE, 2012] considera o quarteto nº 1 de Smetana "obra programática cujos quatro movimentos evocam para o compositor o desenrolar de sua existência. Assim, no primeiro movimento Allegro vivo appassionato, relembra o ardor de sua juventude ao fazer adivinhar o destino que o aguarda: a nota mi do final figura o assovio que anunciava a surdez. O Allegro moderato alla polka retorna à animação da juventude, ao prazer da dança e à lembrança das danças thecas compostas. Seguem então os amores do compositor num Largo Sostenuto apaixonado. O Vivace terminal exprime a alegria de ter sabido criar uma linguagem musical nacional e de constatar o sucesso que isso engendra. O finale enervante é bruscamente interrompido por um silêncio no qual vem ressoar a nota mi no agudo. Smetana descreve então a instalação da surdez e a angústia que ela faz nascer nele. Nós recebemos deste quarteto as confidências íntimas de um homem privado de sua arte, de seu poder de criação."

[PAHLEN, 1965, p. 180] observa que "grande contraste com essa obra (ciclo de seis poemas sinfônicos, "Minha Pátria") constitui o seu belíssimo quarteto de cordas, "Da Minha Vida", tranquilo e comovente quadro psicológico.
A vida de Smetana foi triste, e admirável foi a energia, que fêz com que vencesse tôdas as dificuldades e seguisse, sem hesitar, o seu caminho. Em virtude da tendência nacionalista dos seus primeiros trabalhos, tornou-se suspeito às autoridades austríacas que trataram de suprimir qualquer veleidade de separatismo tcheco; o pior, todavia, foi para êle a incompreensão do seu próprio povo. No estrangeiro, só um homem o compreendeu, Liszt, que pressentiu sempre a grandeza.
Smetana, em 1856, abandona a terra natal e fixa-se na Suécia. Mas como se o seu espírito continuasse a trabalhar na pátria, ocorre ali uma transformação: o povo inteiro contribui para a construção de um teatro nacional tcheco. E Smetana, que o sonhara por tão longo tempo, é nomeado primeiro diretor. Em 1866, dá-se a solene inauguração. São poucos, contudo, os anos felizes de Smetana, pois o acomete e aniquila a tragédia de Beethoven e a de Schumann: surdo desde 1874, morre louco em 1884. (...)"


IV.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Smetana, primeiro grande representante do nacionalismo tcheco e considerado pela crítica tcheca como o mais nacional dos compositores tchecos, conhecido sobretudo pelos seus poemas sinfônicos e óperas, costumava aproximar-se da música de câmara apenas em períodos de crise existencial profunda, como na ocasião da morte da sua filha Bedřiska (1855) — com o Trio para violino, violoncelo e piano em sol menor Op. 15 —, ou neste ano de 1876 — com o Quarteto nº 1 em mi menor. Esse quarteto, intitulado "Da Minha Vida" pelo autor, surgiu precisamente em seguida ao fato de sua surdez ter sido declarada irreversível em 1874.

² Os documentos citados aqui e abaixo estão localizados no Museu Nacional - Museu Tcheco para Música - Museu Bedřich Smetana, Praga; os escritos de Smetana estão originalmente em língua tcheca.

³  Smetana, no quarto movimento de seu quarteto, simboliza o início de sua doença, a dor e a catástrofe com uma nota de violino em uma posição extremamente alta (mi ⁵), indicando que o músico parece ainda não estar familiarizado com essa passagem fatídica de sua vida. Os movimentos anteriores do quarteto falam de épocas mais felizes de sua existência: a atmosfera romântica, a exuberância da juventude, o amor pela sua esposa Katerina, o fulgor das danças tchecas e a tomada de consciência da importância do nacionalismo musical tcheco.

  O caráter autobiográfico do quarteto está atestado explicitamente nesta carta a Srb-Debrnov, onde o compositor relata com algum detalhe seus sentimentos e reminiscências várias que povoam a partitura. Smetana foi pioneiro neste experimento, que pode ser considerado o primeiro quarteto autobiográfico da história da Música.
As três últimas sentenças da carta são uma recomendação final do compositor aos quatro membros do quarteto de cordas engajados na sua interpretação: eles devem manter uma conversação amável, como se usa num grupo de amigos, a respeito das reminiscências e da dor do compositor.

⁵  Na época, Smetana obteve uma importância ridiculamente pequena de seu editor, sendo incapaz de prever que sua obra viria a ser considerada um dos quartetos de cordas mais famosos de todos os tempos.


V.  BIBLIOGRAFIA



CANDÉ, R.: História Universal da Música, São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1994, vol. I (629 p.) e vol. II (507 p.).

GENETTE, Anne: Smetana: Quatuors à Cordes nº 1 et 2 / Sibelius: Quatuor à Cordes nº 4 (Cf. http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5jbYt6Ld1-oJ:www.lamediatheque.be/mag/taz/classique/fevrier_2012/quatuors.php+&cd=6&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br)

PAHLEN, K.: História Universal da Música, São Paulo: Edições Melhoramentos, 1965, 5ª edição, 382 p.

POSPÍŠIL, Milan: Prefácio, Praga, outono de 2010 (Cf. http://www.riveramusica.com/archivosAdicionales/Prefacio3984.pdf)

13 comentários:

Lalá Teixeira (pianista) disse...

O senhor tem algo a ver com a Academia de Letras de Goiânia? Meu nome é Larisse Teixeira, sou pianista e bisneta de Pedro Ludovico Teixeira. Moro em Brasília e tenho muito interesse em tocar algo especifico. Um trio com piano ou este quarteto incluindo um piano.

Boa tarde e obrigada.

Tiago disse...

Amigo Francisco, agradeço os envios.
Peço me mandar seu endereço geográfico.
Abraço,
Tiago

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Gratíssimo pelo envio do precioso texto. Amanhã, às 19;30 h, na Câmara Municipal, teremos uma sessão solene pelos 53 anos da nossa Academia de Letras. Se puder, sua presença nos seria gratificante. Abraço para você e Rute. Fernando Teixeira

Benjamin Batista (músico, escritor e Presidente da Academia de Cultura da Bahia) disse...

Muito interessante. A (boa) música é o silêncio em movimento. Mande-me vídeos de apresentações suas. Amanhã teremos palestra da Ministra Eliana Calmon aqui na Academia de Cultura da Bahia. Imagens depois. Abraços. BB.
P.S. Viu a Veja com a minha carta publicada? Mande-me sua abalizada opinião.

Prof. Mário Celso Rios (escritor e Presidente da Academia Barbacenense de Letras) disse...

Grande BRAGA! Tudo bem com você e Rute?
Puxa, como é bom saber que você aprecia também SMETANA!
Avante! M. Celso

Benjamin Batista (músico, escritor e Presidente da Academia de Cultura da Bahia) disse...

Nota 10.
Benjamin Batista

Benedito Franco (escritor e cronista) disse...

Prezado Amigo,
Grato pelo artigo – ótimo!
Acabei escutando mais algo do Smetana:

http://www.youtube.com/watch?v=exz6zD056zk

Benedito Franco

Profª Elza de Moraes Fernandes Costa (diretora do Portal Concertino) disse...

Prezado Braga,

O que podemos facilmente constatar na História da Música – como também na nossa vida - é que temos as pérolas, as quais nascem com o sofrimento e com a dor. Só que, para que isso aconteça, é preciso termos riqueza interior. Felizmente conhecemos vários seres humanos que foram privilegiados com essa qualidade!

Gostaria muito de ter essa pérola publicada no Concertino...

Obrigada, parabéns e um abraço,
Elza

Prof. José Lourenço Parreira (violinista e escritor) disse...

Caríssimo amigo Braga, paz!

É de se lamentar que o Quarteto de Cordas nº 1 em mi menor (Da Minha Vida) tenha sido rejeitado por aqueles músicos que o consideraram de execução inexequível, fazendo-o adormecer por quase um ano. A primeira apresentação, em abril de 1878, na casa de Josef Srb-Debrnov, além de seu valor em si, no contexto histórico, chamou-me a atenção pelo violista que integrou o quarteto: Antonín Dvorák.
Sensibilizou-me, profundamente, a dor, física e psicológica de Smetana, apresentada com magistral eloquência no finale, com as vibrações agudas do mi quatro do violino, instrumento que amo e conheço.
Se vivo fosse, a exemplo de Sibelius, na Finlândia, Smetana escreveria um poema sinfônico sobre a Primavera de Praga, em 1968, quando Moscou mandou os tanques de guerra do Pacto de Varsóvia esmagar o ideal de liberdade de seus compatriotas tchecos.
PARABÉNS, caro BRAGA, uma vez mais, você se revela luminosa glória da música e das letras da querida São João del-Rei.
Ab imo corde,
J Lourenço Parreira

Dr. Mário Pellegrini Cupello (escritor e Presidente do Instituto Cultural Rio Preto-Valença, RJ) disse...

PARABÉNS PELO BELÍSSIMO ARTIGO. AGRACECEMOS PELO ENVIO.

ABRAÇOS, MARIO.

Profª Elza de Moraes Fernandes Costa (diretora do Portal Concertino) disse...

Prezado Braga,

Mais um artigo seu está publicado no Portal Concertino, na categoria Textos:

http://www.concertino.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6186

Agradeço, mais uma vez, a sua preciosa colaboração e aproveito para parabenizá-lo pelo artigo.

Muito obrigada e um abraço,
Elza

Dr. Alair Coelho de Resende (escritor e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Caro professor e acadêmico Francisco Braga, bom dia. Recebi seu artigo sobre o Quarteto de Cordas de Smetana e confesso que tive a oportunidade de melhorar meus conhecimentos sobre a história dos grandes músicos mundiais e suas obras.Como já lhe disse antes acho que estou fazendo um Curso de Pós-graduação, pelo menos no que tange à história da música clássica. Posso não entender muito quanto ao que leio em suas matérias, mas que aprendo alguma coisa, lá isto é certo. Obrigado, mestre e confrade. Continue e não nos deixe órfãos quanto aos seus sábios conhecimentos e artes.
Um abraço.
Alair

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...


Prezado Braga, acho que a divulgação mais ampla do texto faz justiça à sua qualidade. Com efeito, o seu trabalho vale, em primeiro lugar, pela pesquisa minudente e pelos comentários de natureza técnica musical, em que você é mestre. Depois pela clareza luminosa do texto, mediante a qual consegue atingir até o leitor menos afeito à matéria. Mais uma vez, cumprimento-o pelo que escreveu e escreve.
Abraço do amigo e admirador de seus dotes intelectuais,
Fernando Teixeira.