quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

STEFAN ZWEIG E SUAS VIAGENS AO BRASIL


Por Ingrid Schwamborn ¹



“(...) O navio real que trouxe Stefan Zweig para o Brasil, apesar de ser inglês, foi batizado com o nome português Alcântara. E, quando Zweig, saído da fria, inóspita e “incolor” Inglaterra, entrou na baía da Guanabara, avistando o Rio de Janeiro em 21 de agosto de 1936, deve ter-se sentido como aquele médico banido, sujeito a humilhações e frustrações, diante de uma possível salvação: foi um verdadeiro coup de foudre, um amor à primeira vista, pela beleza, harmonia e calor, tropical e humano. ²

Sabemos desse impacto através da leitura do diário e das cartas que escreveu para a então esposa, Friderike. Desde cedo, Stefan Zweig se acostumara a anotar eventos e impressões num diário, hábito que depois, em idade madura, só continuou em ocasiões que considerava especiais, como essa viagem a Buenos Aires, feita a convite do PEN-Clube Internacional. Sua estada de doze dias no Brasil foi organizada por Abrahão Koogan, que conseguiu um convite oficial junto ao ministro das Relações Exteriores, Macedo Soares, grande e fiel admirador da obra de Zweig, o único, aliás, a enviar-lhe mais tarde um telegrama de cumprimentos, no dia do seu sexagésimo aniversário, em 28 de novembro de 1941, já em Petrópolis. O telegrama encontra-se hoje no acervo de Stefan Zweig, que A. Koogan doou à Biblioteca Nacional em novembro de 1992.

Em seu diário, Zweig registrou, além de cada dia, algumas noites, como aquela dos passeios na hoje extinta zona de prostituição do Mangue, junto com A. Koogan, que desde logo ele define como sehr nett (“muito simpático), mas que hoje não se lembra bem desses detalhes, como diz. Como Zweig conseguiu viver esses dias no Rio de Janeiro e em São Paulo tão intensamente e, ao mesmo tempo, escrever tanto, ficará como um dos seus segredos artísticos.

Uma coisa Zweig não contou ao diário, mas está registrada na correspondência que trocou com Koogan: no Rio, comprou três anéis. Para quem? Não sabemos. Provavelmente, um para si, um para a esposa, Friderike, que já não morava mais com ele, e um para sua jovem secretária, escolhida pela própria Friderike: Elisabeth Charlotte Altmann, a Fräulein Lotte, que batia suas obras a máquina desde 1934 em Londres. Ao todo, foram US$431.00, e Zweig pediu que A. Koogan os descontasse dos seus direitos autorais na Editora Guanabara.

Obviamente, o escritor estava numa espécie de limbo de sentimentos entre as duas mulheres, quando foi tomado por uma paixão ardente e inesperada por uma cidade, o Rio de Janeiro, e um país inteiro, o Brasil. Ele ainda tinha nacionalidade austríaca em 1936, mas já morava em Londres. Seus livros haviam sido queimados pelos nacional-socialistas na Alemanha em 1933, e as editoras, sobretudo a Insel, que crescera junto com ele, não mais o publicavam.

Isso não impediu o enorme sucesso das traduções de seus trabalhos para o português, publicadas no Brasil e em Portugal. Nada menos que 28 títulos de sua autoria estavam nas livrarias quando de sua chegada ao Rio. Era o autor mais lido no Brasil. Em sua recepção, por isso, o entusiasmo foi geral – e mútuo. Como mostrou Alberto Dines [Morte no paraíso, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981], Zweig parece ter sido também o autor mais fotografado nos anos 30 e até seu último instante.

As belezas naturais da cidade, a cultura brasileira (a popular e a mais sofisticada), o caráter amável e pacífico do povo e a ausência aparente de barreiras raciais deixaram Stefan Zweig apaixonado, transmitindo-lhe um sentimento de felicidade que lhe proporcionou, como disse mais tarde, “eine Seelenkur” (uma “cura de alma”). Ele anotou todos os detalhes no seu diário, para depois aproveitá-lo na redação de um relatório mais extenso, Kleine Reise nach Brasilien (“Pequena viagem ao Brasil”), de 1937.

Zweig também usou o diário como uma espécie de parceiro de conversa. Celebridade do momento, detestava ser “o centro das atenções”; aceitava tudo com certa vaidade, mas também cansaço, humildade e ironia (escreveu a Friderike, dizendo que era tratado com uma Marlene Dietrich ou um Charlie Chaplin).

Desse primeiro encontro com o Brasil, surgiu a ideia de fazer um livro inteiro sobre este país encantador, o que viria a ser feito durante a segunda estada de Zweig, em 1940. Surgiu então o famoso e polêmico Brasil, país do futuro, publicado pela Editora Guanabara em 1941. ³

Mas o tema que ocupou Zweig nessa primeira passagem foram as viagens de descobrimento, especialmente aquela realizada pelo navegante português Fernão de Magalhães , que mereceu a última biografia terminada por Zweig (Magellan, o homem e o feito, 1938). No segundo dia de viagem para o Brasil (9 de agosto), a bordo do navio, Zweig já lia sobre esse português que se colocou a serviço dos espanhóis, demonstrando em dias seguintes (14, 15 e 16 de agosto) admiração pela coragem dos descobridores.

No fragmento do diário aqui publicado , o escritor menciona algumas pessoas que encontrara durante a viagem, em geral de pouco interesse para ele e para os leitores, com uma exceção: um certo Mr. Montague (“sr. Segunda-Feira”), de Nova York, certamente o protótipo do “Mr. McConnors”, de sua novela Xadrez, o engenheiro barulhento, rico e exigente, que provoca o campeão mundial de xadrez, pagando US$ 250.00 por partida, uma fortuna para a época. É o homem bem-sucedido que não sabe perder.

Dois outros fatos mencionados chamam a atenção neste fragmento do diário: logo no primeiro dia de sua estada no Rio, ou no dia seguinte, Zweig anotou um detalhe surpreendente da vida dos brasileiros, o “jogo do bicho”, ao qual se refere como “vício nacional”. Sua curiosidade pelo assunto indica que ele mesmo deve ter sido fascinado por todo tipo de jogo, de sorte e azar (“Vinte e quatro horas na vida de uma mulher”), de apostas (“Noite fantástica”) e também de xadrez. No seu livro sobre o Brasil, Zweig fala mais detalhadamente sobre os brasileiros como “jogadores de loteria”, além de tentar explicar o funcionamento do jogo do bicho aos estrangeiros.

Zweig também registra que, na visita a São Paulo, impressionou-se no Instituto Butantã ao ver o veneno de 80 mil cobras concentrado num vidro que poderia matar uma cidade em segundos, como diz. Desde então, o veneno parece ser uma obsessão para ele, que poria fim à própria vida, anos depois, ingerindo o conteúdo de um vidro, presumivelmente o sonífero Veronal, o mesmo que o médico desesperado toma em “Amok” para encontrar sono e sossego.

Outro episódio curioso: no domingo, depois do almoço de gala oferecido pelo ministro das Relações Exteriores no Jockey Club (lugar de apostas), Zweig visitou uma casa na Floresta da Tijuca, pertencente ao “almirante inglês Cochrani”, como ele escreve, erroneamente. Tratava-se da casa de Thomas Cochrane, primo do almirante, homeopata e homem de negócios, que viria a ser o sogro de José de Alencar. Ele adquirira a casa em 1855. Ali, Alencar conheceu Georgiana Augusta, de dezoito anos, e, recém-casado, também ali – fato pouco conhecido – escreveu Iracema em 1865. Zweig ficou encantado com o ambiente e a “paisagem de sonho” e, talvez captando o espírito do lugar, depois dessa viagem sua veia artística renovou-se quase milagrosamente. A casa, situada na Gávea Pequena, é hoje a residência oficial do prefeito do Rio de Janeiro.

Na terça-feira, 25 de agosto, Zweig foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras. Ao discurso de elogio de um dos membros, Múcio Leão, ele respondeu com palavras que viria a publicar mais tarde com o título Dank an Brasilien (“Agradecimento ao Brasil). Nesse discurso ele se diz envergonhado, pois todos aqui conheciam sua obra e ele quase nada conhecia sobre eles como escritores; diz ainda que não fez, ou alcançou, o que realmente desejava produzir; promete fazer alguma coisa para retribuir a simpática acolhida e afirma que, com certeza, voltaria em breve.

A essas anotações de diário, Zweig deu o título de Reise nach Brasilien und Argentinien (“Viagem ao Brasil e à Argentina”), expondo suas intenções. Mas o texto termina em 1º de setembro, justamente quando ele deixa a terra firme do Brasil pelo porto de Santos e encontra Emil Ludwig e Duhamel a bordo de outro navio, a caminho do congresso do PEN-Clube em Buenos Aires. Nenhuma palavra sobre a Argentina, nem no diário, nem na obra – uma grande decepção para seus admiradores portenhos até hoje. Em uma carta de Buenos Aires para Friderike, Zweig disse, fazendo um trocadilho com o nome da cidade: “O ar aqui não é tão bom como no Rio.”

Na segunda viagem ao Brasil, Zweig veio no navio Argentina, dessa vez com a jovem esposa, saindo de Nova York em 9 de agosto de 1940 e chegando ao Rio em 21 de agosto, a mesma data da primeira vez. O casal voltou para os Estados Unidos em janeiro de 1941, de avião. Zweig, no entanto, conseguira no dia 5 de novembro de 1940, no Consulado Geral do Brasil em Buenos Aires, durante uma viagem de conferências, o carimbo mais precioso naquele tempo de guerra e de fugas: o visto permanente para residir no Brasil. Voltou então ao país de navio, o SS Uruguay, saindo com a mulher de Nova York em 15 de agosto e chegando no Rio doze dias depois – exatamente como na viagem de “Xadrez”.

Antes de ir para a “solidão” em Petrópolis – que lembra a Zweig uma pequena cidade nas montanhas da Áustria –, comprou no antiquário Le Connaisseur, do sr. Wolfgang Apfel, na rua Sete de Setembro, no Rio de Janeiro, edições usadas de “bons autores” – Homero, Shakespeare, Goethe –, como informa Victor Wittkowski em Ewige Erinnerung (Roma, 1960). Também deve ter adquirido ali um livro de xadrez publicado em 1925, Die hypermoderne Schachpartie, de Savielly G. Tartakower, descoberto por Alberto Dines em seu espólio, deixado para a Biblioteca Municipal de Petrópolis.
Casa Stefan Zweig situada na rua Gonçalves Dias, 34, em Petrópolis

Em 19 de setembro, dois dias depois da mudança para a casa alugada na rua Gonçalves Dias nº 34, Zweig escreveu ao seu amigo Richard Friedenthal: “Estou no momento tentando escrever uma muito curiosa (estranha) ‘Schachnovelle’.” Talvez este título fosse provisório, mas dez dias depois ele o repetiu, com mais explicações, para Friderike, numa carta de 29 de setembro, em que falava de outros trabalhos também: “Aqui eu corrijo muito a autobiografia [quase terminada nos meses que passara nos Estados Unidos] e esbocei uma pequena novela de xadrez, inspirado no fato de ter comprado, para o isolamento, um livro de xadrez; estou jogando diariamente as partidas dos grandes mestres.” O subtítulo desse livro é relevante: Ein Schachlehr – und Lesebuch. Zugleich eine Sammlung von 150 schönsten Meisterpartien aus den Jahren 1914-1925 (“Um livro de aprendizagem – e leitura. Também uma coletânea das mais bonitas partidas de mestres dos anos 1914-1925”).

Nessas semanas, a atenção desse homme de lettres permaneceu concentrada no livro de Tartakower, sua única “fonte”. Brincando, chega a recomendar a Richard Friedenthal que pare de estudar e viva como ele, quase sem livros ou possibilidades de documentar-se em uma biblioteca, pois “das regt an, zu erfinden und kühn zu sein”. (“É um estímulo à invenção e à audácia”). Ao mesmo tempo, em 19 de setembro de 1941, lamenta não ter mais o costumeiro público. Teme um certo relaxamento de linguagem, pois, como diz, estava escrevendo apenas para o tradutor.

Apesar desse duplo exílio, o da pátria e o da linguagem, Stefan Zweig continua escrevendo apenas na única língua literária possível para ele, o alemão, segundo os termos de suas cartas a Friderike e aos amigos em outros países. Nessas cartas, Zweig sempre diz que estava preparando uma pequena novela, “estranha”, “curiosa”, “diferente”, mas nunca revela do que se trata. A única pessoa que viu o manuscrito em vida do autor foi Ernst Feder, ex-redator-chefe do Berliner Tageblatt, também refugiado em Petrópolis desde 1º de dezembro de 1941, a quem Zweig pediu em meados de janeiro de 1942, poucas semanas antes de morrer, uma revisão do manuscrito, “ainda longe de estar terminado”. Feder, para Zweig, era um especialista nas duas artes, a literatura e o xadrez (“höchst dankbar, wenn Sie als doppelter Fachmann der beiden Künste, der schachlichen und literarischen, mir Ihre Einwände rückhaltlos sagen wollten”).

Foi o casal Feder que Lotte convidou para passar a noite do sábado, dia 21 de fevereiro, junto com eles. Assim, Ernst Feder e sua esposa foram as últimas pessoas a verem os Zweig com vida. Feder conta em “Últimos dias de Zweig” (“Zweigs letzte Tage”, in Der grosse Europäer Stefan Zweig, Frankfurt, Ed. Hanns Arens, 1981) que Lotte olhou longamente para Stefan quando este aceitou o convite para jogar uma partida de xadrez. Jogaram, nessa noite, duas partidas. Feder não sabia que horas antes Zweig havia despachado os três exemplares de “Schachnovelle”, fato confirmado pelos recibos do correio que hoje se encontram no acervo de Wittkowski no Deutsches Litteraturarchiv, em Marbach, Alemanha.

Horas antes de morrer, o destino dos seus escritos era o que mais preocupava Stefan Zweig. Na sua carta de despedida a Koogan, pede ao amigo que cuida de seus manuscritos, inacabados (com exceção da pequena “Schachnovelle”), e autoriza Wittkowski a fazer uma revisão, ou supervisão, para a edição em língua alemã. Na carta de despedida para Wittkowski, escrita provavelmente nesse mesmo dia 21, Zweig diz que todo aquele material inacabado não tinha grande valor – tratava-se apenas de uma espécie de “instinto de conservação” –, pedindo para que todo o supérfluo fosse destruído. Sinceridade ou coquetterie com a posteridade? (...)

“Schachnovelle” era tão importante para Zweig, que ele só suicidou depois de tê-la despachado. É sua obra mais enigmática. Já o título é tão vago que os tradutores tiveram grande dificuldade em interpretá-lo. Não se joga aí exatamente uma, nem “a” partida de xadrez, título usado na primeira edição brasileira. No nível “real”, jogam-se pelo menos meia dúzia de partidas, e no nível imaginário, um número infinito. Tampouco há apenas um único jogador, como sugere a tradução francesa Le joueur d’échecs. Mas as duas versões estão certas no que sugerem, pois xadrez – em português – traz a conotação de "prisão", e échec – em francês – significa também "fracasso". Sem dúvida, Zweig tinha consciência dessas significações. Pode-se imaginar que a ideia do isolamento de uma pessoa em um "xadrez" jogando xadrez tenha tido origem no duplo sentido que a palavra adquire na língua portuguesa, e que optamos por preservar nesta tradução. Completamente fora das intenções do autor deve ser a tradução inglesa, The Royal Game.

Quais eram as intenções de Zweig? Ao amigo Berthold Viertel ele comunicou no dia 30 de janeiro de 1942: “Dann habe ich eine aktuelle längere Erzählung geschrieben...” (“Depois, eu escrevi um conto bastante longo e atual...”). De fato, essa novela , terminada e publicada em 1942, é, junto com Mephisto, de Klaus Mann (de 1936), o primeiro reflexo, na literatura, da atualidade política alemã. Ao contrário das novelas anteriores de Zweig, aqui a distância entre o tempo do narrador fictício e o tempo real do autor é a menor possível. Por outro lado, também a distância em relação aos seus próprios sentimentos é muito menor do que em suas obras anteriores, incluindo-se aí sua autobiografia, Die Welt von Gestern (“O mundo que eu vi”). Feder já observou que o personagem principal de “Schchnovelle”, o Dr. B., um advogado de Viena, vítima da Gestapo, desenvolve muitos pensamentos que torturavam Zweig nas últimas semanas de vida, em Petrópolis.

Com seu fim em aberto e seus dois diferentes níveis – o jogo “real” a bordo do navio e o jogo imaginário que se desenrola na prisão – essa novela convida a interpretações diversas e fundamentadas. Para uns, Zweig queria mostrar o efeito nocivo da nova técnica de tortura do brainwashing (Daviau/Dunkle) ¹⁰; para outros, queria realçar a luta da sensibilidade e intelectualidade contra a brutalidade e a barbárie (Knut Beck). Alguns (A. Baner) especulam que, em um navio de Nova York para o Rio de Janeiro, Zweig encontrou uma pessoa parecida com o Dr. B., que teria contado para ele a sua extraordinária história de ex-prisioneiro da Gestapo no luxuoso Hotel Metrópole, em Viena, depois do dia 13 de março (de 1938, data do Anschluss, ou anexação da Áustria pela Alemanha), resistindo a todas as pressões durante meses, só com a ajuda de um livro de xadrez encontrado por acaso, aprendendo as regras e jogando cada vez mais febrilmente, até a loucura. Outras pessoas, sobretudo jogadores de xadrez, supõem que Zweig pode ter realmente conhecido em suas viagens um campeão desse jogo, como o excêntrico Miguel Najdorf, que viajou com a equipe polonesa para um campeonato em Buenos Aires em 1939 e se naturalizou argentino. Em 1947, Najdorf foi levado à beira da loucura ao jogar em São Paulo uma partida simultânea e “cega” com 45 adversários, parecendo viver algumas cenas de “Schachnovelle”.

Vesely e outros também se perguntaram qual a importância do xadrez nessa novela. O próprio Stefan Zweig era um amador, que só jogava para se distrair, assim como ocorre com o narrador, que se classifica como um “jogador de terceira categoria”. Feder conta como tinha que se esforçar para deixar Zweig ganhar uma partida de vez em quando. Mas Zweig deve ter ficado fascinado pela figura de um profissional que joga para ganhar dinheiro, e não faz outra coisa na vida. Nas suas novelas, os narradores sempre sentem curiosidade, ou mesmo paixão de analista, diante de gênios ou maníacos. (...)

Dessa perspectiva, “Schachnovelle”, ou “Xadrez”, mostra-se a obra mais íntima de Zweig, o retrato do artista confinado num espaço mínimo, sem comunicação com o mundo exterior, no xadrez, ou prisão, jogando com palavras um jogo de criação que no começo da carreira era divertido e mais tarde transformou-se em paixão. A partir de certo ponto – o exílio –, a criação literária tornou-se um jogo obsessivo, destrutivo, uma luta de resistência contra poderes maiores, levando-o – como o Dr. B. – aos limites da razão humana, ou “ao fundo do oceano” de depressões.

Eis aí a “atualidade” verdadeira da novela, à qual Zweig fizera referência em carta ao amigo Viertel. Depois de ter terminado uma autobiografia surpreendentemente impessoal, retratando a vida de uma geração ¹¹, ele revela em “Schachnovelle” seu próprio estado de espírito: “Não podia mais concentrar-me”, escreve no texto da novela e repete na última carta a Friderike, “e a solidão que no começo tinha efeito tão calmante, começou a ser opressiva.” Aos sessenta anos, sente-se cansado, esgotado, sem esperança de poder viver mais com seu “fígado negro”, a melancolia, as depressões, que se agravavam nos últimos meses. Tudo o que estava fazendo nessa época, como um livro sobre Montaigne, fazia “sem garra”: “Só trabalho para não me tornar melancólico ou louco.”

“Schachnovelle” era tão importante para Zweig, que ele a melhorou estilisticamente até o último momento, mesmo acreditando que ela interessaria apenas ao círculo restrito dos amadores de xadrez. Nos anos de guerra, o texto efetivamente ficou quase despercebido. Mas, com o correr dos anos, seu valor literário se impôs cada vez mais, e ela terminou traduzida para mais de trinta línguas, sendo hoje considerada uma obra-prima. Como Kleist, Nietzsche e Hölderlin, na mais profunda solidão e depressão, perto do sempre imaginado fim – o suicídio é uma constante em suas novelas e em seu único romance –, Stefan Zweig deu o melhor de si.

Coincidência ou não, “Schachnovelle” é a única obra que escreveu do começo ao fim no Brasil, na modesta casa de veraneio em Petrópolis. E, ironicamente, é uma das poucas obras suas na qual nenhum personagem pensa em suicidar-se. A vez, agora, era do próprio autor. Xeque-mate no paraíso.”

Fonte: ZWEIG, Stefan: Amok e Xadrez, Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 1993, 183 p.



NOTAS EXPLICATIVAS, por Francisco José dos Santos Braga



¹   Sob o título Apresentação: Três Navios, Ingrid Schwamborn, doutora em Letras Românicas pela Universidade de Bonn, é a autora do prefácio do livro que engloba duas novelas, Amok (em alemão, Der Amokläufer, literalmente “O Corredor com Amok”, escrita em 1922) e Xadrez (em alemão, Schachnovelle, literalmente “Novela de Xadrez”, última obra publicada em 1942), em tradução de Marcos Branda Lacerda e Odilon Calloti, respectivamente, e lançado em 1993 pela Editora Record para o público de língua portuguesa. Esta edição é dedicada a Abrahão Koogan, primeiro editor de Stefan Zweig (⭐︎Viena, 1881 - ✞Petrópolis, 1942) no Brasil e grande amigo do escritor austríaco.

²  Vejamos o depoimento do próprio Zweig:
“Chegamos ao Rio: foi uma das impressões mais poderosas que eu experimentei em toda a minha vida. Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, estremeci. Pois não apenas me defrontei com uma das paisagens mais belas do mundo, esta combinação ímpar de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas ainda com um tipo completamente diferente de civilização. Contrariando todas as minhas expectativas, o quadro era de ordem e limpeza na arquitetura e na paisagem urbanas, com ousadia e grandiosidade em todas as coisas novas e, ao mesmo tempo, uma cultura espiritual antiga, conservada de forma especialmente feliz por causa da distância. Havia cor e movimento. O olhar excitado não se cansava de ver e, para onde olhasse, era recompensado. Fiquei possuído por um torpor de beleza e de felicidade que excitava os sentidos, crispava os nervos, dilatava o coração, ocupava o espírito, e quanto mais eu via, nunca era o bastante. Nos últimos dias, viajei para o interior – quer dizer, imaginei estar viajando para o interior. Viajei doze, quatorze horas até São Paulo, até Campinas, acreditando estar me aproximando do coração do país. Mas quando, ao voltar, olhei para o mapa, descobri que mesmo depois dessas doze ou quatorze horas de trem mal havia passado da epiderme do país. Pela primeira vez, comecei a perceber a grandeza inconcebível daquele país (Brasil) que não deveria ser chamado de país e sim de continente, um mundo com espaço para trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de habitantes e uma riqueza incomensurável, da qual nem a milésima parte foi explorada ainda sob o solo farto e intacto. Um país em rápido desenvolvimento e que apenas começa a se desenvolver, apesar de todas as atividades de trabalho, construção, criação e organização. Um país cuja importância para as próximas gerações é inimaginável até fazendo as combinações mais ousadas. E, com uma rapidez surpreendente, derreteu-se a arrogância europeia que eu levara como bagagem inútil nessa viagem. Percebi que tinha lança um olhar para o futuro do nosso mundo. (Cf. in ZWEIG: Brasil, um país do futuro, Porto Alegre: L&PM, 2006, Introdução, p. 14-5)

³  Em continuação ao trecho transcrito na nota de rodapé anterior, Zweig anotou também na Introdução de seu livro Brasil, um país do futuro:
“Quando o navio zarpou – era uma noite estrelada, e, apesar disso, aquela cidade única brilhava com seus colares de pérolas de luz elétrica mais bela e mais misteriosa do que as faíscas do firmamento – tive a certeza de que não estava vendo aquela cidade e aquele país pela última vez. Tive a clareza de que, na verdade, não havia visto nada, ou pelo menos não o suficiente. Planejei voltar logo no ano seguinte, mais bem preparado, para ficar mais tempo e para experimentar outra vez e mais intensamente aquela sensação de viver dentro do porvir, do futuro, desfrutando mais conscientemente da segurança da paz e do bom ambiente acolhedor. Mas não pude cumprir a minha promessa. No ano seguinte eclodiu a guerra na Espanha, e todos se diziam: esperemos por tempos mais calmos. Em 1938 caiu a Áustria, e novamente foi o caso de esperar por um momento mais tranquilo. Depois, em 1939, veio a Tchecoslováquia, e depois a guerra na Polônia, e depois a guerra de todos contra todos na nossa Europa suicida. Cada vez mais ardente se tornou o meu desejo de me afastar por algum tempo de um mundo que se destrói para um mundo que se constrói pacífica e criativamente. (Cf. in ZWEIG: idem, p. 15)
Sobre o projetado livro sobre o Brasil, Alberto Dines, no prefácio da citada edição de 2006, relata: “(...) Em Nova York, onde se encontrava de passagem, acertou com os seus editores internacionais um lançamento simultâneo. No auge do primeiro conflito globalizado, conseguiu a proeza de lançar em agosto-setembro de 1941 a edição brasileira, a norte-americana e, no fim do mesmo ano, as edições alemã, sueca (ambas impressas em Estocolmo, já que na Europa ocupada por Hitler as obras de um autor judeu estavam condenadas) e também a portuguesa. No início de 1942, saíram as edições francesa (nos EUA, pelo mesmo motivo) e espanhola (na Argentina).” (Cf. in ZWEIG: idem, p.8)

  Knut Beck, editor da obra de Stefan Zweig em alemão (Frankfurt: Editora Fischer), supõe que se trata de Ferdinand Magellan, de Edward Frederik Benson, publicado em Nova York.

O fragmento do diário publicado de Zweig está estampado nas páginas 161 a 183 do livro apresentado por Ingrid Schwamborn.

Emil Ludwig (1881-1948), pseudônimo de Emil Cohn, foi escritor e biógrafo alemão de origem judia, historiador e publicista nacionalizado suíço, em cujas mãos a biografia é convertida de uma mera recompilação de dados da vida de algum personagem, em uma forma de arte. Como novelista histórico, inventou cenas entre grandes personagens que são tidos por históricos, que é o que acontece na obra Am Mittelmeer, de 1923, publicado no Brasil pela Editora José Olympio com o título “O Mediterrâneo, Destino de um Oceano”, com tradução de Almir de Andrade.

Georges Duhamel (1884-1966) foi um escritor francês, autor de histórias, romances, relatos de viagens e ensaios, poeta, crítico literário e autor de peças teatrais. Em 1935, foi eleito membro da Academia Francesa. De 1939 em diante, colaborava regularmente com críticas musicais para o jornal Figaro. Sua obra mais famosa é a Crônica dos Pasquier, um ciclo romanesco escrito entre 1933 e 1945 e composto de 10 romances distintos, publicados pelo Mercure de France, descrevendo a epopeia familiar dos Pasquier na virada do século XX.

  Zweig começou a escrever “Die Welt von Gestern”, seu livro de memória sobre o Império Habsburgo, em 1934, quando, antecipando a Anexação (Anschluss) e a perseguição nazista, ele se erradicou da Áustria para a Inglaterra e, mais tarde, para o Brasil. Postou nos Correios o manuscrito, datilografado por Lotte, para o editor no dia anterior ao que ambos cometeram suicídio em fevereiro de 1942. O livro foi primeiro publicado em Estocolmo (1942), como “Die Welt von Gestern”. Saiu em inglês pela Viking Press em abril de 1943. Em português, a Editora Guanabara lançou-o em 1942 como “O Mundo que eu Vi (minhas memórias)”, em tradução de Odilon Gallotti, com 392 páginas e capa dura.

  Schwamborn está tratando de “Schachnovelle” (Xadrez).

¹⁰  Brainwashing ou lavagem cerebral. Trata-se de uma doutrinação forçada para induzir alguém a desistir de suas crenças e atitudes políticas, sociais ou religiosas e para aceitar ideias contrastantes regimentadas.

¹¹  Agora Schwamborn está tratando de “O Mundo que eu Vi (minhas memórias)”.








8 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Apreciaremos o texto transcrito no Blog do Braga, intitulado TRÊS NAVIOS e publicado como Apresentação, por Ingrid Schwamborn, de duas novelas em língua portuguesa, Amok e Xadrez, bem como fragmentos do Diário de Viagem ao Brasil e à Argentina (do dia 8 de agosto a 1º de setembro de 1936), todos da autoria do escritor austríaco Stefan Zweig (viena, 1881-Petrópolis, 1942). A novela "Xadrez" foi a única obra que escreveu integralmente no Brasil. Foi também seu último trabalho.

Em 1934 deixou a terra natal e passou a viver na Inglaterra, entre Londres e Bath, onde se naturalizou cidadão britânico. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o avanço das tropas de Hitler pela França e em toda a Europa Ocidental, o casal atravessou o Atlântico em 1940 e se estabeleceu em Nova York.

A partir da terceira viagem ao Brasil, Lotte e Zweig se estabeleceram em Petrópolis, onde finalizou sua autobiografia, "O Mundo que Eu Vi", e onde escreveu a novela "Xadrez". Em 1942, deprimido com o crescimento da intolerância e do autoritarismo na Europa e sem esperanças no futuro da humanidade, Zweig escreveu uma carta de despedida e suicidou-se com a mulher, Lotte, com uma dose fatal de barbitúricos. A notícia chocou tanto os brasileiros quanto seus admiradores de todo o mundo. O casal foi sepultado no Cemitério Municipal de Petrópolis, de acordo com as tradições fúnebres judaicas, no jazigo perpétuo 47.417, quadra 11. A casa onde o casal cometeu suicídio é, hoje, um centro cultural dedicado à vida e obra de Stefan Zweig.

Consta que ele deixou a seguinte carta suicida:

DECLARAÇÃO

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

Stefan Zweig


Cordial abraço,
Francisco Braga

Dr. Mário Pellegrini Cupello (escritor, pesquisador, presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, e sócio correspondente do IHG e Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Caro amigo Braga

Muito interessante esse tema que li com muito gosto, pelo que agradeço por mais essa gentileza.

Abraços, de Mario e Beth.

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, escritor e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

FRASE QUE SE ETERNIZOU: BRASIL, O PAÍS DO FUTURO (QUE NUNCA CHEGA...)
ABS.

José Carlos Gentili (escritor, poeta, membro e ex-presidente da Academia de Letras de Brasília por 3 mandatos consecutivos, autor de "A Igreja e os Escravos", proprietário da Gentili Consultoria) disse...

Meu querido Braga

Minhas saudações com votos de paz.

Agradeço-lhe pelo envio de narrativa a respeito de Sefan Zweig, uma figura singular.

Como tenho dois exemplares, enviarei ao amigo um exemplar do livro de Deonísio da Silva. Trata-se da edição italiana - Stefan Zweig Deve Morire.

Deonísio da Silva é vice-presidente da Academia Brasileira de Filologia e uma das pessoas mais cultas que conheço.

Dia 22 de fevereiro ele estará em Brasília, na Embaixada de Portugal. Bela oportunidade para conhecê-lo.

Recebe meu fraternal abraço.

José Carlos Gentili

Prof. José Luiz Celeste (ex-professor da EAESP-FGV e tradutor) disse...

Prezado Professor:

É triste essa estória do fim do Stephan Zweig. Suicidar-se com a esposa. Na minha infância costuma ver os livros dele na estante de minha casa. Até hoje os tenho. Atribuo o interesse de minha mãe por esse autor, ao fato de ser ela de origem austríaca (Beyrodt) e alemã (Heinrich). Não tenho sobrenome alemão, contudo, pelo fato de ter nascido durante a 2ª Grande Guerra, veja só. Embora não tivesse o sobrenome, eu era louro, e sofri muito "bullying" na escola, porque o Brasil se alinhou contra a Alemanha. Veja só, repito, as razões do "bullying" eram exatamente opostas às que atormentaram a vida de S. Zweig. O preconceito é um círculo vicioso.

Lembro-me que li, numa edição do jornal estudantil de Stanford University, um artigo sobre o suicídio, um dos melhores que já vi. Costumava haver um suicídio entre os alunos de Medicina daquela universidade, a cada ano. Foi depois de uma dessas ocorrências que o artigo foi publicado, em torno de 1975. Dizia lá que a consternação da sociedade sobre o suicídio e os suicidas é hipócrita. Isso porque as razões que fizeram surgir a intenção de suicídio são criadas pela própria sociedade. Quer dizer, primeiro a sociedade torna as pessoas desesperadas, e depois, vem com a estória de "deixa disso, a vida é bela, tudo se arranja".

O artigo dizia mais, e nisso acho que extrapolava. Dizia que não se deveria interferir no curso de ação de um suicida. Não se deveria impedir. Quer dizer, se quer suicidar-se, deixe que se suicide. Com isso não posso concordar, pois é corroborar a perversidade da sociedade.

Embora lógica, a conclusão daquele artigo era o cúmulo da perversidade. Era e continua sendo.

Abçs
Celeste

M. Pozzato disse...

Caro Braga,

Que grata surpresa! Excelente essa abordagem do Stefan Zweig.

Aqui no Rio, ano passado, a Casa Stefan Zweig fez uma exposiçao no Consulado Francês sobre os três escritores que cultivavam ideais pacifistas e humanistas e deixaram profundas marcas no século 20.

Além de mostrar a vida e a obra dos autores, a exposição mostrou que a longa correspondência por várias décadas foi fundamental para cimentar a amizade entre Stefan Zweig e seu mentor intelectual, Romain Rolland, figura central e alavanca da ideia de uma Europa unida, e também com Joseph Roth, brilhante cronista da derrocada do velho império austro-húngaro.

Houve também um Simpósio; um debate na Maison de France e os cinemas exibiram o filme "Adeus Europa"(http://www.adorocinema.com/filmes/filme-255358/).

Em seguida, a Casa acima citada (em Petrópolis) publicou o livro "S. Zweig, A unidade espiritual do mundo", do Alberto Dines, e passou a exibir documentários, intitulados "Os Exilados".

Participei de todos os eventos e tenho o livro.

Vale a visita ao local.

Guershon Crispim disse...

Fantástica a história dele!!!

Prof. Cupertino Santos (professor de história aposentado de uma escola municipal em Campinas) disse...

Olá, professor!
Nunca li nada desse autor, apenas o conhecia como o possível criador do mote "Brasil País do Futuro" e pela tragédia de seu possível suicídio justamente quando desfrutava de alguma tranquilidade neste país que talvez fosse mais generoso do que é hoje, apesar do terrível regime do Estado Novo. As questões que seu estudo revelam são infelizmente cada vez mais atuais, para o mundo e para os brasileiros. Ótimo texto da professora alemã!
Saudações! Muito agradecido.