quinta-feira, 13 de junho de 2019

ANTÔNIO CONSELHEIRO NA ÓPERA “O SERTÃO”



Por Francisco José dos Santos Braga

Efígie de Fernand Jouteux (1866-1956), por autor desconhecido, 
provavelmente desenhada em Paris no 2º período francês (entre 1921-1925)




I. INTRODUÇÃO


Quando da montagem da ópera O Sertão em Belo Horizonte, a orquestra, solistas e coro tiveram dificuldade em utilizar a versão produzida por Jouteux quase 40 anos antes. Por isso, vários trechos foram reorquestrados, além de providenciada a cópia das partes cavadas para a orquestra e solistas. Testemunhos do Campo das Vertentes narram que o seu aluno Adhemar Campos Filho, de Prados, colaborou em algumas dessas tarefas. O libreto original por Fernand Jouteux era bilíngue (francês/português), porém para a estreia foi providenciada uma nova tradução para o português por Celso Brant, o presidente da comissão de montagem da ópera.

A estreia da ópera O Sertão deu-se finalmente em 29 de novembro de 1954, no Teatro Francisco Nunes, com renomados solistas, acompanhados pela Orquestra da Polícia Militar de Minas Gerais, sob a direção de Hostílio Soares, com a participação de (também estreante) Luiz Aguiar. Foram realizadas mais três récitas da ópera em 1954, uma delas novamente no Teatro Francisco Nunes no dia seguinte à estreia, outra no Cine Teatro Brasil de Belo Horizonte e a última no Cine-Teatro Central de Juiz de Fora, em 30 de maio de 1955, sob a direção de Sebastião Vianna. Uma tentativa para a quinta récita dessa ópera em São João del-Rei foi feita em 1956, mas que acabou não sendo realizada.

Após a estreia da ópera em Belo Horizonte, Jouteux teria declarado aos amigos: "Posso morrer agora". Viúvo, debilitado após a montagem da ópera, sem parentes no Brasil e totalmente sem recursos, aos 90 anos de idade e já vivendo em Belo Horizonte desde meados de 1953, Fernand Jouteux passou a residir, a partir de meados de 1955, na casa de uma das cantoras do elenco (e maestrina interna), Corina Elisabeth de Tompa (Rua Martim de Carvalho, 503), onde faleceu em 16 de setembro de 1956 de uma crise de uremia, tendo sido sepultado no Cemitério do Bonfim.

A maior parte de seus pertences e os de Magdeleine Aubry permaneceram na segunda casa em que residiu na Rua Direita de Tiradentes (atualmente nº 7) e somente foram encontrados décadas após a sua morte. O autógrafo da ópera O Sertão não permaneceu em seu arquivo pessoal em Tiradentes, pois estava em Belo Horizonte por ocasião das representações da ópera em 1954 e 1955, não tendo sido localizado até o momento. ¹

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernand_Jouteux


II. TEXTO: UM FRANCÊS, MAESTRO FERNAND JOUTEUX (DISCÍPULO DE MASSENET), CRIA VIGOROSA PEÇA LÍRICA SOBRE A EPOPÉIA DE CANUDOS.

Reportagem de EUGÊNIO H. SILVA



O MAESTRO Fernand Jouteux, autor da ópera “O Sertão”,
 ao lado da soprano Lia Salgado, esposa do Governador 
de Minas Gerais, que interpretou muito bem 
o papel de Cília, mulher de Antônio Conselheiro


O PROFESSOR francês Fernand Jouteux, herdeiro musical e aluno predileto de Massenet, conseguiu afinal realizar em Belo Horizonte a estréia (mundial) de sua ópera em quatro atos, “O Sertão”, inspirada na epopeia de Canudos. Nasceu o autor da ópera, de motivo genuinamente brasileiro, em Chinon (França). Foi diretor da “École de Musique de Oran” (África), tendo sido distinguido pelo governo francês com as “Palmas Acadêmicas”. Seus “Cantos Brasileiros” foram premiados pelo “Salon des Musiciens Français” e a cena dramática “Le Retour du Marin” pela “Societé des Compositeurs de Paris”. Narrar a luta de Jouteux para conseguir montar a bela peça lírica é transportar-nos a cerca de 20 anos atrás, quando se completou a partitura. Jouteux, caçador de melodias, sobrinho de um Rei no Pacífico, eremita em Sabará e Tiradentes (Minas), fazendeiro e garimpeiro em Garanhuns (Pernambuco), tem sido principalmente um artista em luta com dificuldades terríveis. Viveu pobremente nas caatingas do sertão pernambucano e baiano, para melhor se integrar nos costumes da região de Antônio Conselheiro. Sempre trabalhando, obscura e minuciosamente, em suas composições musicais, parecia que ia ser vítima da maior ingratidão: ter de legar “O Sertão” inédito aos pósteros.
“Eu não me resigno”, disse certa vez a Georges Bernanos, referindo-se ao desejo natural de ver sua ópera encenada. E só agora, com 90 anos, pôde Jouteux comparecer a um teatro para assistir à estréia de sua principal obra musical. Não lhe foi possível conter as lágrimas. Havia por perto um médico de coramina em punho, pronto para uma eventual crise cardíaca do velho maestro. Jouteux comentou:
“Quem durante 40 anos não morreu de dor, decerto não morrerá num dia de alegria”.







O ILUMINADO Antônio Conselheiro exorta  o povo de Canudos à resistência contra as tropas federais. (Cena do II ato, em frente ao templo.)







PROCISSÃO DOS PENITENTES: Eis uma cena impressionante de “O Sertão” (II ato). Vêem-se Antônio Conselheiro (personificado por Edison Macedo) e sua mulher Cília.
LADY FRANCISCO na “Dança dos Cairus”, 
bailado do III ato da ópera de autoria do Maestro Fernand Jouteux.

CENA FINAL da ópera “O Sertão”. Depois da luta sangrenta, 
jazem mortos os bravos defensores de Canudos.
A ópera “O Sertão” é cantada em português, em versão feita por Celso Brant, do libreto francês. Segundo o comentário geral, Jouteux foi de grande felicidade na composição. Trouxe para a lírica tôda a realidade e mística do sertão agitado pela imensa tragédia descrita por Euclides da Cunha na sua obra imortal.

A ópera obedece ao sistema temático ensinado ao autor pelo seu famoso mestre Massenet. Recebe a influência de três escolas: francesa e italiana, nas árias e conjuntos; alemã, quer dizer, wagneriana, nos recitativos, fazendo com que haja alternação entre melodia e a sinfonia. Contém diversos motivos do folclore e numerosos temas sinfônicos, que evoluem de acordo com a ação cênica. Em resumo, a música de “O Sertão” tem, dentro de sua beleza genuína, aliada à sensibilidade de Massenet, o ímpeto melodioso de Verdi, a técnica vigorosa de Wagner. E aureolado pela magnificência da sinfonia, como referência central do patético teatral, ergue-se a figura de Antônio Conselheiro – agora imortalizado na ópera.

Fonte: revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro, edição de 4/6/1955, Ano XXVII, nº 34, p. 24-29
Identificação no acervo na F-CEREM: JOU.04.008



III. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


¹  A Internet traz dois vídeos da ópera “O Sertão”. Consta que foram localizados no porão da casa que hospedou Fernand Jouteux em Tiradentes por João Jorge de Almeida Soares, fragmentos da ópera que era tida como perdida. Ele próprio rege a Orquestra Sinfônica da Polícia Militar de Minas Gerais nas gravações disponíveis nos vídeos abaixo. Seja como for, esta é uma excelente amostra que nos dá uma ideia do que deve ter sido a ópera integral do compositor francês.  
Links disponíveis no YouTube:

https://www.youtube.com/embed/kVn7IGQ8slQ





IV. AGRADECIMENTO 



À minha esposa Rute Pardini Braga pelas fotos que formatou e editou para os fins desta matéria.
À F-CEREM, na pessoa de Márcio Saldanha, Secretário do Programa de Pós-Graduação em Música da UFSJ, pela boa acolhida para a realização desta pesquisa no acervo francês do compositor Fernand Jouteux.





6 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

O presente post reproduz uma reportagem assinada por Eugênio H. Silva, preparada para a revista O Cruzeiro para o mês de junho de 1955, intitulada "Um francês, Maestro Fernand Jouteux (discípulo de Massenet), cria vigorosa peça lírica sobre a epopeia de Canudos", cobrindo a estreia mundial da ópera O Sertão em Belo Horizonte. Naquela ocasião, o compositor tinha 89 anos de idade e sentiu-se tão feliz com a representação de sua ópera que teria declarado a amigos: "Posso morrer agora". Seu sonho estava realizado.
Viveu pouco mais de um ano depois dessa reportagem.

https://bragamusician.blogspot.com/2019/06/antonio-conselheiro-na-opera-o-sertao.html

Cordial abraço,
Francisco Braga

Rute Pardini (cantora lírica e escritora)) disse...

Parabéns, meu querido, pela clareza de sua explanação.
Fernand Jouteux é um exemplo para todos os brasileiros por seu amor denodado amor pelo nosso Brasil, como se pode comprovar por ter ele se dedicado até o fim de sua vida a produzir uma ópera com um tema de nossa história: a Guerra de Canudos!
Se ele fosse mais jovem, certamente escreveria muitas outras belas obras sobre nossa história.
Foi uma surpresa para mim ver a coreografia na “Dança dos Cairus” da ópera O Sertão, interpretada pela atriz LADY FRANCISCO, que nos deixou recentemente, em 25/05/2019.

Prof. Fernando de Oliveira Teixeira (professor universitário, escritor, poeta e membro da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Gratíssimo, amigo Braga, pelo envio da matéria. Lembranças à esposa Rute. Pax et bonum. Fernando Teixeira

Diamantino Bártolo (professor universitário Venade-Caminha-Portugal, gerente de blog que leva o seu nome http://diamantinobartolo.blogspot.com.br/) disse...

Bom dia Francisco Braga.
Muito obrigado.
Bom fim de semana.
Cumprimentos.

Dr. Mário Pellegrini Cupello (escritor, pesquisador, presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, e sócio correspondente do IHG e Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Caro amigo Braga

Agradecemos pelo envio.

Abraços, de Mario e Beth.

rodrigo disse...
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