sábado, 22 de junho de 2019

EPISÓDIO DA VIDA DO MESTRE FERNAND JOUTEUX



Por Francisco José dos Santos Braga

Efígie de Fernand Jouteux (1866-1956), por autor desconhecido, 
provavelmente desenhada em Paris no 2º período francês (entre 1921-1925)




I.  INTRODUÇÃO



É de meu especial interesse seguir os passos do compositor francês Fernand Jouteux pelo nosso País em busca de encenar o seu drama musical sertanejo, até aqui nomeado "Canudos" por seu autor.
Este é mais um episódio de uma série que o Blog do Braga está publicando com o objetivo de divulgar o trabalho desse grande homem que, "sendo francez de nascimento, é o mais brasileiro dos nossos autores musicaes".
Deixando de lado um certo exagero do autor dessa frase, lembro que o resgate desse autor esquecido pelos estudos musicológicos nacionais só engrandece essa ciência, se se admitir a importância de inserir-se o valor musical das obras desse compositor francês radicado definitivamente no Brasil em 1911 e morto em 1956 e tirá-lo da obscuridade em que se encontra desde a sua partida. Foram 45 anos de vida musical vividos intensamente com amor por nossa terra. Com certeza teria composto muito mais obras musicais de valorização dos fastos nacionais, caso não encontrasse tanta dificuldade em seu caminho, quando tentava divulgá-las.
Consta que, naqueles anos de 1926 e 1927, portanto aos 50-51 anos de idade, Fernand Jouteux era hóspede do Hotel do Russell, tentando viabilizar a representação de sua ópera "Canudos". Enquanto isso não acontecia por razões que declino de analisar aqui por não ser o espaço mais adequado para esse fim, ele conseguiu espaço na sala do Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ) para realizar um concerto de suas obras e, especialmente, de trechos de sua ópera "Canudos", contando com o concurso do mezzo-soprano Dolores Belchior, tenor Machado del Negri e barítono Adacto Filho, acompanhados ao piano pelo ilustre maestro Giovanni Gianetti. ¹
Resumidamente o que será visto no presente resgate oferecido pela hemeroteca de periódicos antigos, junto com todas as suas adversidades e episódios com toda a certeza dramáticos, é a cobertura de um concerto de Fernand Jouteux, feita pelo jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, quase sempre na sua coluna Correio Musical, observando a seguinte sequência:
– apresentação de Fernand Jouteux aos leitores do Correio da Manhã (26/08/1927)
– anúncio do concerto divulgado em 18/09/1927, originalmente previsto para realizar-se do dia 30/09/1927 ², prometendo para breve a publicação do programa
– no dia 23/09/1927, o Correio da Manhã, na sua coluna O dia de hontem no Palacio do Cattete, informa que Fernand Jouteux convidou o chefe de Estado para o concerto que se realizará no dia 30 do corrente mês, no salão nobre do Instituto Nacional de Música, onde serão cantados trechos de sua ópera "Canudos"
– na data prevista para o concerto (30/09/1927), Correio da Manhã informa a transferência, por iniciativa do próprio compositor, do concerto para o dia 28/10/1927, alegando "falta de tempo necessário para os ensaios da ópera Canudos, que apresenta sérias responsabilidades artísticas"
– em 09/10/1927, Correio da Manhã publica que Fernand Jouteux "acaba de ser nomeado membro do jury do Instituto Nacional de Musica para o concurso actual de composição". O jornal se serve da autoridade da poetisa francesa France Darget laureada da Academia Francesa, para pronunciar-se a respeito da individualidade do músico francês Fernand Jouteux
– em 25/10/1927, o Correio da Manhã anuncia para 28/10 a apresentação de trechos da ópera "Canudos" de Fernand Jouteux (cuja letra é da sua autoria também), além de outras obras de Fernand Jouteux
– em 1º de novembro de 1927, o Correio da Manhã publica, sob o título "Audições de obras do Maestro Fernand Jouteux", crítica do concerto de obras do referido Maestro, realizado no dia 28/10/1927 no salão nobre do Instituto Nacional de Música.




II. PREPARATIVOS PARA A REALIZAÇÃO DO CONCERTO  NO JORNAL CORREIO DA MANHÃ



1) UM COMPOSITOR FRANCEZ QUE FAZ MUSICA BRASILEIRA  (na coluna "Correio Musical")


O maestro Fernand Jouteux

Tivemos, ha tempos, o prazer da visita do maestro Fernand Jouteux, um dos discipulos predilectos do grande Massenet. Foi para nós uma surpresa e – para que não dizer – verdadeiro espanto, quando soubemos que esse musicista, de real valor, vinha de Alagoas, recommendado pelo governador do Estado, e era assim uma especie de anachoreta que vivia retirado do bulicio do mundo no seu sitio patriarchal de Garanhuns, em plenos dominios do sr. Costa Rego...

O maestro Jouteux, entretanto, não é desconhecido nesta capital: ha cerca de sete annos os jornaes daqui já se occuparam com a sua personalidade artistica. Agora, o compositor, novamente entre nós, pretende fazer-nos ouvir, no proximo mez de setembro, no Theatro Municipal, alguns trechos do seu grande drama musical sertanejo “Canudos”, inspirado no episodio sangrento de que foi heroe Antonio Conselheiro.

Fernand Jouteux viveu trinta annos no sertão brasileiro, inspirando-se directamente no ambiente mais propicio para escrever a sua obra typicamente nacional.

A seu respeito escreveu Annibal Fernandes excellente “Estudo”, do qual destacamos as seguintes linhas: “Massenet havia dito ao pae do maestro que não tinha mais nada a lhe ensinar. Que elle voasse então com as suas proprias asas...

Fernand Jouteux tomou à letra as palavras do Mestre, transpoz o Atlantico e veiu “como o beija-flor sugar nas nossas flores a essencia de sua originalidade”...

Vogou pelas aguas do Rio-Mar, embrenhou-se no coração das mattas, e depois quiz conhecer e praticar a vida do sertão.
– Eu resolvi, referiu-me elle, trocar a penna pela enxada e revestir o “chapéo de couro”...

“Não esqueça a nossa Arte”, dizia-lhe Massenet de longe, receiando (sic) que os seus trabalhos campestres o absorvessem inteiramente.

O maestro Fernand Jouteux, entretanto, não aspirava mais que ligar a sua musica à nossa natureza. Por uma coincidencia amavel, adquiriu em Garanhuns uma fazenda que se chamava “Bela Aliança”. E ahi viveu elle durante quasi vinte annos, lavrando a terra, compondo musicas no silencio e no recolhimento, longe do rumor dos homens, naquella desejada paz do campo de que nos fala Carducci.

No silencio esse ermitão procurou inspirar-se nos motivos que o rodeiavam (sic). Do Amazonas trouxe elle os seus “Souvenirs de l’Amazone”, em que descreve as magestosas (sic) florestas virgens dos Solimões.

No Rio Grande do Norte, recolheu, numa bella noite de estio, uma deliciosa phrase musical que faz o ornamento do “Scherzo” da grande “Symphonie Brésilienne”.

Essa “Symphonie” faz communicar ao auditorio, atravez de seus desenhos melodicos e symphonicos, o quente effluvio de nossa alma, o “cheiro da nossa terra”, como me dizia o seu inspirado autor.

Mas não é tudo. De volta a Paris, o maestro Fernand Jouteux fez applaudir, em alguns concertos, os seus “Cantos Brasileiros” (premiados pelo Salon des Musiciens), a “Symphonia Brasileira” que obteve ruidoso successo, o oratorio “São Martinho”, “Bellator Domini” e varios trechos de “Canudos”.

É um caso deveras curioso, o desse compositor: sendo francez de nascimento, é o mais brasileiro dos nossos autores musicaes.

Podemos também adeantar que o maestro Fernand Jouteux está tratando, desde já, da representação da sua opera “Canudos”, inspirada na obra “Os Sertões”, de Euclydes da Cunha, na temporada lyrica do anno vindouro. Para tal fim encontrou o maestro a melhor acolhida nas nossas altas autoridades. E é justiça, – pois trata-se de uma obra de caracter eminentemente nacional local e talvez unica no genero.

A expectativa dessa audição é de grato interesse para os nossos meios musicaes e, especialmente, para os amantes de folk lore.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, sexta-feira, 26 de agosto de 1927, p. 5.
Link: http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=089842_03&pagfis=31440&url=http://memoria.bn.br/docreader#



2)  CONCERTO FERNAND JOUTEUX  (na coluna "Correio Musical")

Realiza-se em 30 do corrente, no Instituto Nacional de Musica, o concerto do maestro francez Fernand Jouteux, discipulo de Massenet.

O referido maestro vae realizar uma audição dos trechos principaes da sua opera brasileira “Canudos” inspirada sobre a obra prima de Euclydes da Cunha.

O programma será brevemente annunciado com todos os detalhes. A sra. Dolores Belchior e os srs. Del Negri e Adacto Filho serão os interpretes da sua opera. Os acompanhamentos ao piano pelo maestro Gianetti.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, domingo, 18 de setembro de 1927, p. 3.


3)  Na coluna "O dia de hontem no Palacio do Cattete"

(...) Estiveram, ainda, no Cattete: (...) o maestro Fernand Jouteux, tambem para convidar o chefe de Estado para o concerto que realizará no dia 30 do corrente mez, no salão nobre do Instituto Nacional de Musica, onde serão cantados trechos de sua opera “Canudos”.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, sexta-feira, 23 de setembro de 1927, p. 2.


4)  O CONCERTO DO MAESTRO FERNAND JOUTEUX  (na coluna "Correio Musical")

Devido à falta de tempo necessario para os ensaios da opera “Canudos”, que apresenta sérias responsabilidades artisticas, o seu autor, maestro Fernand Jouteux, viu-se obrigado a transferir o seu concerto de 30 do corrente, isto é, hoje, para o dia 28 de outubro proximo.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, sexta-feira, 30 de setembro de 1927, p. 5.


5)  QUEM É O MAESTRO FERNAND JOUTEUX  (na coluna "Correio Musical")

A respeito da individualidade do musico francez Fernand Jouteux, que acaba de ser nomeado membro do jury do Instituto Nacional de Musica para o concurso actual de composição ³, a escriptora France Darget , laureada da Academia Francesa, escreveu o seguinte:

“Fernand Jouteux, um dos mais poderosos, dos mais originaes entre nossos compositores modernos, uma organização musical na força da palavra, Fernand Jouteux não está mencionado muitas vezes no programma dos concertos, a razão da difficuldade de execução das suas obras, quasi tôdas cheias de obstaculos provenientes da audacia dum ideal que não admitte limites.

Seu Oratorio “Bellator Domini”, que acaba de tocar com sucesso na “Salle Gaveau L’Union des Femmes artistes musiciennes”, e que foi applaudido outrora nas Cathedraes de Tours e Bordeaux, esse Oratorio, por exemplo, não comporta menos de uma orchestra, 5 ou 6 solistas, côros mixtos, 2 orgãos e uma banda de musica. Não são elementos faceis de reunir nesses tempos de carestia...

E o sr. Jouteux nos confessou que não teve a satisfação legitima, ao parecer indispensavel, de ensaiar, nem uma vez, a totalidade dos seus musicos.

Entretanto, que alegria unica, que sensação de novidade, que diluvio de lyrismo, que afastamento de todas as mesquinhas e artificiaes combinações escolares nos offerece a musica de Fernand Jouteux!

Não vos falarei dessa musica, podereis já apreciar, melhor que eu, a sua solidez e o seu valor. Ella contem a victoria do maestro.

Quero somente, como me parece ser o complemento necessario de toda justa critica, esclarecer, por meio de algumas informações biographicas, a personalidade do compositor que apresento.

Nascido em Chinon, na Touraine, Fernand Jouteux, ainda menino, alma candida e aventurosa, enthusiasta e curiosa, quis ser musicista ou colono. Poz ao serviço desse duplo ideal uma infatigavel juventude, um labor e uma coragem imaginaveis. Seu pae mandou-lhe dar uma educação musical completa. Saiu da “Classe Massenet” com o “brevet” mais brilhante que jamais concedeu esse mestre, declarando que não tinha mais que lhe ensinar.

Jouteux podia então solicitar as recompensas e os concursos officiaes. Porém, preferiu embarcar para o Brasil, paiz em que desembarcaram, ha tempo, os conquistadores, e donde voltaram menos carregados de ouro que de sonho...

Visitou o Amazonas, penetrou no coração das florestas, quis conhecer e praticar a vida perigosa do Sertão, e afinal adquiriu uma fazenda de café no Estado de Pernambuco, querendo, dizia elle “trocar a penna pela enxada e cobrir-se com o chapéo de couro”.

Ao lado de sua esposa encantadora, corajosa e devotada, roçou, plantou, cultivou durante muitos annos, cheios de aventuras que dariam assumpto para um longo romance.

Numa das muitas viagens à Europa elle foi nomeado Director da Escola de Musica de Oran (Algeria), transformando em poucos mezes num verdadeiro Conservatorio.

Tão afastado que seja do mundo artístico, Jouteux não abandonava a musica. Punha à disposição dessa suprema expressão de arte todas as impressões, todas as sensações que lhe proporcionava o contacto perpetuo com a natureza, os costumes e a civilização de uma terra estranha.

Dessa synthese original sairam muitas obras curiosas, das quaes a opera nacional brasileira “O Sertão” (ex-Canudos), que tive a occasião de ler e cujo libretto, que se trata de um episodio da revolta de Canudos, não podia ser escripto senão pelo proprio compositor.

Depois de algum tempo, tendo cumprido a unificação da sua vocação, Fernand Jouteux pensou regressar à França, afim de tratar da edição de suas obras.

Com justo orgulho e fidalga esperança, imitando Chateaubriand, saudoso elle deixou sua pátria adoptiva, e voltou a Paris para lutar contra o mercantilismo artistico, num combate mais renhido e difficil do que na sua vida colonial, enfrentando as pistolas dos matutos...

Nascido, entretanto, num seculo de força e pertencendo a uma geração notavel de bravura, Fernand Jouteux, por não possuir a gloria de Chateaubriand, não lhe eguala (sic) tão pouco a sua melancolia.

Uma perseverança incansavel e uma fé tenaz no successo final não deixarão de ser um dia coroados de louros nos theatros lyricos e pela alta critica.

Fernand Jouteux tem em si, como diz Barrès, “essas incomparaveis exaltações que são, além de trinta annos, o privilegio de algumas naturezas reaes.”

Eis porque eu saudo aqui, não somente o valoroso colono dos sertões americanos, o autor das cem obras que talvez um dia sejam disputadas com o maximo interesse, como tambem, em resumo, um grande poeta! – France Darget.”

Fonte: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, domingo, 9 de outubro de 1927, p. 2.


6)  A EPOPÉA SERTANEJA MOTIVO DE UMA OPERA  (na coluna "Canudos")


O maestro Fernand Jouteux, discipulo de Massenet, grande amigo do Brasil, escreveu uma opera em 4 actos, intitulada “Canudos”.

O compositor inspirou-se nas bellezas e nas originalidades do sertão brasileiro, e fez de Antonio Conselheiro, com as suas desgraças domesticas, o seu mysticismo e os seus desvarios, o heróe da partitura.

A letra é de proprio maestro e tanto quanto possível, elle se apegou ao episodio dessa tremenda e penosa campanha que deu a Euclydes da Cunha o seu maravilhoso livro.

Dessa sua opera, como de outras composições, o maestro Jouteux dará uma audição no dia 28 de outubro, no Instituto Nacional de Musica.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, terça-feira, 25 de outubro de 1927, p. 5.


7)  AUDIÇÕES DE OBRAS DO MAESTRO FERNAND JOUTEUX (na coluna "Correio Musical")

Uma audição ao piano, ou mesmo com orchestra reduzida, como a que effectuou a 28 do mez proximo findo, no salão do Instituto Nacional de Musica, o maestro francez Fernand Jouteux, para apresentação de algumas das suas obras e, especialmente, de trechos de sua opera “Canudos”, é uma empresa excessivamente ingrata e arriscada. O valor dos cantores – mezzo-soprano Dolores Belchior, tenor Machado del Negri e barytono Adacto Filho – não compensou a pobreza dos contornos harmonicos, bem que sejamos forçados a reconhecer os esforços inauditos empregados pelo illustre maestro Giovanni Gianetti para tentar salvar a situação.

Aguardamos, pois, a execução de “Canudos” completa, com grande orchestra, para nos pronunciarmos a respeito.

Quanto às outras peças do programma, “Symphonia Brasileira”, “Carillon” para dois pianos, a quatro mãos, “Hymen”, “Bellator Domini”, “Aux Étoiles” e, especialmente, os “Cantos Brasileiros”, achamol-os interessantes, reveladores de uma bôa technica musical e de algum cuidado para fazer coisa original.

Entretanto, não nos parece que nas suas inspirações brasileiras tenha sido muito feliz o maestro Jouteux; a não ser na “Miry Pupé”, na “Invocação a Rudá” e na “Serenata Sertaneja”, tudo mais frisa pela banalidade.

Não é sem perigo que um autor vive afastado de movimento artistico por tantos annos, na sua Thebaida, de Garanhuns como o maestro Fernand Jouteux.

Não adeantamos aqui uma opinião definitiva, conforme já declaramos, esperando ouvir o distincto compositor francez de “Canudos” em condições mais propicias.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, terça-feira, 1º de novembro de 1927, p. 7.



III. NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Parece que esse ilustre Maestro italiano e grande pianista tinha em alta conta Fernando Jouteux, já que a ele se referiu com profunda admiração, dando-lhe o apelido de “Herdeiro de Massenet” (Revista Musical do Rio, 3-11-1937).

²  De acordo com o anúncio do jornal A Manhã, edição nº 541, igualmente de 18/09/1927, programava-se originalmente para o dia 30 de setembro de 1927 a apresentação do concerto, no Instituto Nacional de Música, conforme noticiado no post intitulado "Fernand Jouteux no Rio de Janeiro e em Santos Dumont", publicado no Blog do Braga em 07/06/2019.
Link: https://bragamusician.blogspot.com/2019/06/fernand-jouteux-no-rio-de-janeiro-e-em.html

³  [CARVALHO, 2010, 72-76] trata do referido júri no Instituto Nacional de Música, com destaque para dois jurados: Giovanni Gianetti e Fernand Jouteux, assunto que acho conveniente reproduzir aqui. A parte que nos interessa faz parte do capítulo intitulado "O Concurso de 1927: Début de Joanídia Sodré", analisado dentro do contexto de sua dissertação ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social na USP, intitulada Renome, Vocação e Gênero: duas musicistas brasileiras. Joanídia Sodré (1903-1975) foi escolhida como uma de duas musicistas brasileiras porque, de acordo com a autora da dissertação, permite-lhe comprovar que, na busca pela profissão de "artista", Joanídia Sodré criou novos valores e sentidos que lhe possibilitou transitar entre profissões "masculinas" e "femininas".
Vejamos então em que consistiu o Concurso de Composição de 1927, no qual se destacou como vencedora Joanídia Sodré. Assim relata a autora da dissertação:

Em 1927, o Instituto Nacional de Música-INM realizou um concurso de composição, cujo prêmio era um curso de aperfeiçoamento na Europa. O edital publicado no Diário Oficial dizia:


Instituto Nacional de Música concurso para pensionistas
(...) estará aberta na secretaria deste instituto, pelo prazo de trinta dias, a contar de 19 do corrente, a inscrição ao concurso para prêmio de viagem ao estrangeiro, para os discípulos do estabelecimento diplomados no concurso de composição.

Para ser admitido ao concurso, provará o candidato:
1º) Ser brasileiro nato e ter, no máximo, 30 anos de idade;
2º) Ser diplomado no referido curso. Nos termos do art. 248, do regulamento, e 42, do regimento interno, o candidato demonstrará ter conhecimentos gerais das línguas francesa e italiana, observando-se na parte musical o seguinte programa: Composição de uma cantata para solo e coro com acompanhamento de orquestra, sendo o texto de escolha do concorrente, mas sujeito à aprovação da comissão julgadora. A composição será executada sob a direção do concorrente ou de um regente à sua escolha.”

O edital revela, ao mesmo tempo, o perfil social do compositor almejado e o dos alunos do INM, já que o concurso é dirigido aos “discípulos”, isto é, aos compositores por eles formados. Fica claro dessa forma que o concurso não contemplava todo e qualquer compositor, mas apenas os que tinham um diploma e uma boa educação, capazes, por exemplo, de dominar uma língua estrangeira (o que já eliminava muitos candidatos de “talento”, mas de origem humilde, sem condições de ter acesso a esses bens culturais). De modo que estudar música no INM e dominar outro idioma eram bens simbólicos acessíveis a poucos.

Joanídia, que seguia sua carreira como professora, decidiu participar da competição. Se a condição de professora do INM, por si só, já a colocava em uma posição privilegiada em relação aos demais concorrentes, é preciso dizer que, desde sua formatura no curso de composição em 1924, não se destacava como compositora, fato comprovado pela inexistência de obras neste período.

Das inscrições à divulgação do ganhador, o concurso foi cercado por celeumas de grande repercussão que ocuparam as páginas dos principais jornais da cidade. O primeiro fato envolveu o compositor Antônio Assis Republicano (1897-1960) – negro, conterrâneo e colega de turma de Joanídia Sodré (ambos alunos da turma de composição de Francisco Braga e diplomados em 1924). Assis Republicano era um compositor conhecido no Rio de Janeiro. Em 1925, sua ópera O Bandeirante foi encenada no Teatro Municipal da cidade na fase áurea das temporadas de ópera; em 1926, regeu um concerto de obras suas no Teatro Lírico.

Joanídia e Assis Republicano foram os únicos inscritos na competição que se tornou manchete de jornais quando foi descoberto que Republicano tinha mais de 30 anos e havia falsificado sua certidão de nascimento para tomar parte no concurso. A justiça interveio, impedindo a participação do compositor. Tal decisão acabou beneficiando Joanídia, que concorreu sozinha ao prêmio. Em consequência, houve divergências entre os professores do INM, pois muitos não concordaram com a decisão judicial que afastou Assis Republicano da disputa, por entenderem que Joanídia, na condição de professora da instituição, tampouco poderia participar da disputa. Alguns professores, tais como Luiz Amábile, se recusaram a participar do júri. Sua carta de recusa foi publicada no jornal A Noite em 5 de setembro de 1927:

“Parece, à primeira vista, que a intenção do legislador fora criar prêmios tão somente para os discípulos diplomados no Instituto. Puro engano. O Art. 247 reza: “Não poderão inscrever-se professores conjuntamente com alunos.”. É este o lado antipático da lei que faculta ao professor, forte, afastar o aluno fraco e humilde, embora este se chame Assis Republicano e a sua bagagem musical já se imponha à admiração dos mestres que o apontam como uma glória atual da geração brasileira. (...)

A solução do governo, afastando por uma questão de somenos importância, um candidato de valor de Assis Republicano, para amparar uma professora catedrática, a quem, aliás, estimo, considero e admiro, tornou-se antipática.”
(...)
Apesar de todos esses incidentes, Joanídia fez as provas previstas pelo edital em outubro. Em seguida, outro problema a levou a recorrer à justiça.

Segundo o regulamento, a prova escrita deveria ser mantida em sigilo até que o júri, conjuntamente, viesse a julgá-la. Contudo, antes que o júri se reunisse, dois professores tiveram acesso à prova e divulgaram o voto desfavorável sem esperar o resultado oficial.

Mais uma vez, amparada pela justiça, Joanídia leu sua refutação ao voto destes dois jurados, Giovanni Giannetti e Fernand Jouteux, perante o comitê julgador do concurso de Composição para o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro do Instituto Nacional de Música, em 19 de dezembro de 1927. Ao longo da carta, rebateu o argumento dos dois jurados, usando terminologia técnica especializada que demonstrava seus conhecimentos musicais. Refutou, de saída, a acusação de ser uma principiante, afastando-se da pecha de “amadora” e provando sua competência por meio do diploma do curso de composição, obtido em 1924:

“Relativamente ao voto do maestro Giannetti, passo a analisá-lo:
Diz no início: “O trabalho apresentado pela senhorita Joanídia Sodré no concurso para prêmio de viagem à Europa e destinado a um primeiro exame foge a qualquer análise técnica demonstrando, à primeira vista, uma deficiente posse de conhecimentos fundamentais de harmonia, contraponto e composição em virtude da qual uma obra orgânica e obediente às leis técnicas e estéticas desaparece.

Enganou-se o Sr. Giannetti não é este o primeiro exame de composição que presto, pois já fiz em prova prestada por ocasião de meu exame final de instrumentação e composição em 1924, perante banca examinadora composta de competentes mestres e professores deste estabelecimento, da qual obtive aprovação unânime, o que depõe contrariamente à sua primeira alegação.”

Afastados os dois jurados, uma nova comissão julgadora foi constituída e formada pelos seguintes professores: Henrique Oswald (1852-1931), professor de piano, e Agnello França (1875-1964), professor de harmonia (ambos antigos professores de Joanídia). Os demais: Joaquim Antonio Barroso Neto (1881-1941), professor de piano; José de Lima Coutinho (1862-1946) e José Raymundo da Silva (?-?), professores de solfejo e, por fim, Agostinho Luiz Gouvêa (?- 1941), professor de fagote. Por cinco votos contra um, eles concederam o prêmio a Joanídia Sodré pela composição da ópera intitulada Casa forte, com texto do escritor Goulart de Andrade (1881-1936).

A polêmica em torno do concurso de composição, envolvendo personagens como a justiça, os professores do INM e os jornais, marca a entrada de Joanídia no campo da música erudita carioca. (...)


France Darget é autora do poema intitulado Rosée, Lied op. 15 musicado por Fernand Jouteux e dedicado à Madame Mellot-Joubert, a saber:

ROSÉE
                                    France Darget

Maman, qu'est-ce donc qu'à l'aurore,
Aux milles pointes des buissons,
On voit briller, briller encore,
On voit briller sur les gazons?

Mon cher petit, c’est la rosée
Qui tombe la nuit du ciel bleu
Dans la grande plaine grisée;
Ce sont les larmes du Bon Dieu.

Ses larmes! l’étrange mystère…
J’en vois semé tout le jardin:
Pourquoi pleure-t-il tandis, mère?
Il a donc beaucoup de chagrin?

Oui, certes; car il est sur terre
Bien des enfants méchants, sans coeur.
Et, quand on fait pleurer sa mère,
On fait pleurer le Créateur.

Mais, sois toujours docile et sage,
Et cela le consolera:
Alors, comme un doux témoignage,
Son clair soleil s’éveillera.

Et, dans sa lumière superbe,
Pour éblouir tes yeux charmants,
Il fera de chaque brin d’herbe
Une aigrette de diamants.

Identificação no acervo na F-CEREM: JOU.01.007-MUn

 
A seguir, ofereço a seguinte tradução para o poema intitulado Rosée de France Darget:

ORVALHO
                         France Darget

Mamãe, o que é que de madrugada,
Nas mil pontas dos arbustos,
A gente vê brilhar, brilhar mesmo,
A gente vê brilhar sobre a relva?

Meu queridinho, é o orvalho
Que cai de noite do céu azul
Na grande planície acinzentada;
São as lágrimas do Bom Deus.

Suas lágrimas! o estranho mistério...
Vejo todo o jardim semeado delas:
Por que Ele chora então, mamãe?
Ele sente então muita tristeza?

Sim, claro; pois há na terra
Muitas crianças malvadas, sem coração.
E, quando se faz chorar sua mãe,
Faz-se chorar o Criador.

Mas, sê dócil e sábio,
E isso O consolará:
Então, como um doce testemunho,
Seu claro sol despertará.

E, na Sua luz magnífica,
Para maravilhar teus olhos encantadores,
Ele fará de cada ramo de grama
Um penacho de diamantes.



IV. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA



CARVALHO, Dalila Vasconcellos: Renome, Vocação e Gênero: duas musicistas brasileiras, dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Antropologia Social, 2010, 158 p.

7 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Escolhi o título "Episódio da vida do Mestre Fernand Jouteux" para o presente post no Blog do Braga, porque trata basicamente de um concerto combinado entre Fernand Jouteux e a Direção e artistas do Instituto Nacional de Música (atualmente Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro), inicialmente programado para realizar-se em 30 de setembro de 1927, mas que foi adiado para uma data posterior: 28 de outubro de 1927, em função das alegadas "sérias responsabilidades artísticas que apresentam os ensaios da ópera Canudos".
Claro que isso representou um enorme desgaste para o compositor Fernand Jouteux, que já tinha ido a Palácio do Catete convidar o chefe do Estado a comparecer à apresentação.
O Correio da Manhã, que noticiava tudo sobre o tal concerto, quando anunciou o adiamento do Concerto, citou que Fernand Jouteux foi nomeado membro de um júri do Instituto Nacional de Música para um Concurso de Composição. Não sei até que ponto a nomeação interferiu na realização do Concerto em 30 de setembro, mas só sei dizer com certeza é que a sua nomeação de jurado foi enorme motivo de preocupação e desgaste para o meu homenageado, como veremos no post.
Não podemos deixar de admirar o firme propósito do compositor Fernand Jouteux e sua capacidade de superação diante das dificuldades que experimentou nos últimos meses de 1927.

https://bragamusician.blogspot.com/2019/06/episodio-da-vida-do-mestre-fernand.html

Cordial abraço,
Francisco Braga

Prof. Dr. Paulo Castagna (docente do Instituto de Artes da UNESP, colaborador do Museu da Música de Mariana desde 2001 e membro do Conselho Consultiro da F-CEREM desde 2012) disse...

Obrigado, Braga, por mais este episódio dos trabalhos de Fernand Jouteux no Brasil, que mostram-se cada vez mais interessantes. É uma pena que não está mais entre nós o maestro Adhemar Campos Filho, que foi aluno de Jouteux, e que teria muito a contar e a ouvir sobre Jouteux, agora que esse personagem passou a ser mais conhecido.

Abraço,

Paulo Castagna

Diamantino Bártolo (professor universitário Venade-Caminha-Portugal, gerente de blog que leva o seu nome http://diamantinobartolo.blogspot.com.br/) disse...

Muito obrigado,
Francisco Braga
Bom domingo.
Abraço,
Diamantino Bártolo

Prof. José Maurício de Carvalho (ex-professor titular da UFSJ , membro do Instituto de Filosofia Brasileira, do Instituto de Filosofia Luso-brasileira com sede em Lisboa, da Academia de Letras de São João del-Rei e da Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos-AMEF, filósofo, psicólogo e pedagogo) disse...

Obrigado pela notícia.
Mauricio

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (professor universitário, presidente do TRE/MG, escritor e membro do IHG e da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

O AMIGO É UM GIGANTE DA PESQUISA!

rodrigo disse...
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