Por FRANCISCO JOSÉ DOS SANTOS BRAGA
I. INTRODUÇÃO
O Momento Literário foi o título de uma série entrevistas com autores brasileiros publicadas originalmente entre março e maio de 1905 por João do Rio (1881-1921) e, quatro anos depois, no formato de livro com o mesmo título, no qual ele apresentava o resultado das enquetes ou pesquisas de opinião realizadas entre os principais literatos do começo do século XX no Brasil. Quanto à metodologia utilizada para obter as diversas respostas ao questionário, o autor se contentou com a sua simples apresentação, sem se preocupar com o posterior tratamento estatístico dos questionários.
A recomendação dos estatísticos é, de início, preocupar-se com o questionário, tendo em vista a posterior análise de dados. A forma como se estruturam e organizam as perguntas vai facilitar a posterior análise de dados do questionário de pesquisa. Dizem, por exemplo, que é conveniente evitar colocar muitas questões abertas no questionário de pesquisa.
A boa técnica também recomenda que, para que as amostras nas pesquisas sejam representativas e confiáveis, é preciso que sejam selecionadas com cuidado, tenham um tamanho adequado e os dados sejam coletados de maneira imparcial. No caso, João do Rio escolheu a amostragem não probabilística ou deliberada/crítica/julgadora, em que os participantes foram escolhidos com base no conhecimento prévio do pesquisador sobre a população ou com base no propósito específico do estudo.
Apesar de não ter obedecido a todos esses requisitos, parece que a amostragem utilizada por João do Rio foi considerada representativa, pois O Momento Literário tem sido objeto de apreciações positivas.
[SILVA, 2001, 228] reconhece que
“é incontestável a importância do livro de João do Rio para o traçado de um quadro mais ou menos confiável das preferências de nossa intelectualidade nativa, importância já atestada por um
Wilson Martins (1983) ¹ , na sua radiografia da crítica literária
brasileira, ou por um Elísio de Carvalho (1907, p. 128) ², aliás, um dos
entrevistados, que escrevera no calor da hora dos acontecimentos:
“O Momento Literário
é um subsídio valioso para a estudo da intelectualidade
contemporânea no Brasil, nas suas tendências e aspirações atuais. Para além de sua importância como documento crítico do período, O Momento Literário
destaca-se ainda como um autêntico documento jornalístico, obedecendo
a uma tendência muito em voga então: o apego à crônica rápida,
efêmera, esboço ao correr da pena de uma época marcada pela vertigem
da velocidade”.” ³
No mesmo artigo, o autor ofereceu um possível tratamento estatístico dos questionários
apurados no inquérito de O Momento Literário.
[COSTRUBA, 2007] informa a respeito do livro:
“Do ponto de vista literário, o presente inquérito, como esclarece Brito Broca (1975), ter-se-ia inspirado em Jules Huret, que publicara em L' Écho de Paris, no ano de 1891, um questionário explorando a situação do naturalismo francês. Alhures, as entrevistas foram reunidas no compêndio Enquête sur l' Évolution Littéraire. João do Rio, deste modo, resolveu, à brasileira, entender o perfil da nata literária nacional na primeira década do século XX.
Para isso, o escritor entrevistou onze personagens literários e, por meio de cartas, participaram trinta e seis outros autores, compondo desta forma, um painel multifacetado da escrita da época. A importância da obra é inquestionável. Sob a moldura da belle époque carioca, o compêndio, muito debatido entre os estudiosos de Letras, se situa no limiar do chamado pré-modernismo e como um canal para o modernismo propriamente dito. (...) Na esteira destas respostas, formou-se um esboço da mentalidade literária do período.”
II. DEDICATÓRIA
Os termos da dedicatória de João do Rio a Medeiros e Albuquerque (“Permita V. que eu dedique ao jornalista raro, ao talento de escol e ao amigo bondoso este trabalho, que tanto lhe deve em conselhos e simpatia”) sugere que este chame o “amigo” ao próprio Medeiros e Albuquerque (1867-1934), a quem se refere como seu assistente na identificação do problema, formulação das perguntas e seleção dos nomes dos literatos contemporâneos cujos nomes tivessem uma significância estatística (obras publicadas e público ledor relevante para entrarem na amostra, sem, porém, ter sugerido o emprego de técnicas de amostragem normalmente utilizadas em pesquisas e outras modernas sofisticações científicas).
Lembremo-nos da idade dos dois parceiros em 1904, data da formulação dos questionários a serem aplicados por João do Rio: 23 anos para este, e 37, para Medeiros e Albuquerque.
Concordando com minha opinião, [AZEVEDO, 2020, p. 1] inicia assim o seu trabalho:
“De regresso de uma de suas numerosas viagens, Medeiros e Albuquerque, sempre muito bem informado sobre as novidades literárias na Europa, teria sugerido a João do Rio fazer uma série de reportagens com escritores da literatura brasileira, a exemplo do que então se fazia na França e na Itália (MAGALHÃES JÚNIOR, 1978, p. 48) ⁴. Entusiasmado, o cronista carioca lançou-se à tarefa, passando a publicar na Gazeta de Notícias (RJ), entre março e maio de 1905, entrevistas com autores brasileiros, reunidas em livro, que saiu pela Garnier, em 1909, com o título de O Momento Literário. À época, João do Rio tinha 23 anos e apenas uma obra publicada, As religiões do Rio (Garnier, 1904), mas vinha colaborando na imprensa desde 1899 (...)”
III. ANTES
Na seção intitulada “ANTES”, ficamos sabendo que João do Rio e um amigo (cujo nome não declina) decidiram sobre a forma do envio e o formato do questionário, para o qual formularam cinco perguntas, no seguinte trecho:
“Nesta mesma noite, os dois, no silêncio de sua alta biblioteca, resolvemos a maneira do inquérito: a resposta por carta para os que estão fora do Rio ou são muito reservados, e a entrevista para os outros.”
Para mais de cem destinatários foi enviada a enquete donde constavam os seguintes quesitos:
1. Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram?
2. Das suas obras qual a que prefere? Especificando mais ainda: quais, dentre seus trabalhos, as cenas ou capítulos, quais os contos, quais as poesias que prefere?
3. Lembrando separadamente a prosa e a poesia contemporâneas, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário, há novas escolas (romance social, poesia de ação etc.) ou há a luta entre as antigas e as modernas? Neste último caso quais são elas? Quais os escritores contemporâneos que as representam? Qual a que julga destinada a predominar?
4. O desenvolvimento dos centros literários dos Estados tenderá a criar literaturas à parte?
5. O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?
E João do Rio finaliza o texto de “ANTES” com uma última informação:
“No dia seguinte, logo pela manhã, mandava para o correio mais de cem cartas. Tinha mergulhado de todo na literatura...”
IV. TRANSCRIÇÃO DAS RESPOSTAS POR CARTA
1. OS QUE RESPONDERAM (E QUE TIVERAM SUAS CARTAS PUBLICADAS NO LIVRO)
Os seguintes missivistas se expressaram, acolhendo a proposta de João do Rio: Bilac, João Ribeiro, Júlia Lopes de Almeida (não por carta, mas com a entrevista intitulada Um Lar de Artistas), Sílvio Romero, Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque, Lima Campos, Afonso Celso, Luís Edmundo, Clóvis Beviláqua, Nestor Vítor, Pedro Couto, Artur Orlando, Padre Severiano de Resende, Guimarães Passos, Curvelo de Mendonça, Félix Pacheco, Silva Ramos, Garcia Redondo, Frota Pessoa, Osório Duque Estrada, Fábio Luz, João Luso, Mário Pederneiras, Rodrigo Otávio, Inglês de Sousa, Rocha Pombo, Laudelino Freire, Magnus Söndhal, Elísio de Carvalho, Sousa Bandeira, Gustavo Santiago, Júlio Afrânio, Augusto Franco, Alberto Ramos e Raimundo Correia.
As enquetes foram inicialmente publicadas na Gazeta de Notícias-RJ e seu sucesso estimulou o grande editor da época, B. L. Garnier, a organizá-las em livro, publicado pela primeira vez em 1909, reunindo 36 entrevistas — 7 a mais do que as publicadas na imprensa carioca em 1905.
2. OS QUE NÃO RESPONDERAM (E SUA JUSTIFICATIVA PELA RECUSA)
Machado de Assis, Graça Aranha, Aluízio Azevedo, Artur Azevedo, Alberto de Oliveira, Gonzaga Duque, Emílio de Menezes e José Veríssimo.
[AZEVEDO, 2020, p. 6], nas considerações finais do seu artigo, pondera que
“a seção ‘Os que não responderam’ escancara aquilo que os ausentes não disseram de maneira explícita, ou seja, não queriam ter os seus nomes associados ao de João do Rio, e muito menos prestigiar o trabalho do outro, como disse José Veríssimo com outras palavras. Pode-se dizer que as respostas dos entrevistados, em especial sobre à 3.ª e 4.ª questões propostas em O Momento Literário expressam, de maneira inquestionável, a rivalidade entre os grupos literários que integravam o cânone da época. Ao dar voz às celebridades que participaram do inquérito, o clima de oposição entre os escritores brasileiros é posto a nu, imagem que vinha desmistificar a representação olímpica dos mesmos junto ao leitor. Por trás da exposição pouco favorável às idealizações, está o entrevistador João do Rio, figura maquiavélica a propor questões que ele estava certo do seu potencial explosivo.
A preocupação em ser fiel às palavras dos entrevistados, como tantas vezes o cronista vai invocar no livro, não esconde a intenção de alguém que se delicia na exibição de um lado desconhecido da vida dos medalhões da literatura brasileira, movida por ódios, invejas e perseguições.
Movido pela vontade férrea de, a qualquer preço, fazer parte do seleto grupo da república brasileira, João do Rio sabia que, para ter sucesso, deveria seguir à risca essa espécie de programa de extermínio do oponente, próprio do espírito das polêmicas, que Félix Pacheco deixou registrado em seu depoimento: “Quem deseja vencer, deverá começar demolindo, porque, no fim de contas, só essa figura iconoclasta pode ter a virtude de arrombar a porta e facilitar a entrada”.”
João do Rio teceu os seguintes comentários a respeito da omissão das celebridades ausentes:
Naturalmente, a ausência de certos nomes notáveis num inquérito, que procurava as respostas dos corifeus dos espíritos brasileiros, poderá parecer estranha. Talvez o seja, mas, como todas as coisas verdadeiramente estranhas, é perfeitamente explicável. Há nomes que deviam aqui estar, mas que não estão porque a isso se opuseram uma sensibilidade grande, a vaidade doentia, a noção de responsabilidades graves e principalmente talvez a balbúrdia das idéias. A sensibilidade grande é a do ilustre mestre Machado de Assis. Quando fui pessoalmente levar-lhe o inquérito, o admirável escritor recebeu-me com um acesso de gentilezas, que nele escondem sempre uma pequena perturbação.
— Um inquérito? Pois não: às suas ordens, com todo o gosto.
Passaram-se os dias. Voltei à carga.
— Francamente, disse-me o autor do Brás Cubas, o assunto é grave, é muito grave. Mas eu respondo, respondo quando tiver ânimo para escrever.
Logo os amigos e admiradores do mestre disseram-me:
— Perdes o tempo, o Machado não responde...
Resolvi então cultivar a relação preciosa em bocados de palestra, ouvidos nos balcões do Garnier, por onde todos os dias passa o glorioso escritor. Soube assim que o Brás Cubas fora ditado, durante uma moléstia de olhos de Machado, à sua cara esposa; que o humorista incomparável da “Teoria do Medalhão” tem uma vida de uma regularidade cronométrica, que as suas noites passa-as a tentar o sono...
Espírito de tamanho fulgor tem, entretanto, a nevrose de se incomodar e sofrer com os pequenos nadas da existência. Se por esquecimento deixa de cumprimentar um homem, perde-se em conjecturas. Que irá pensar o homem? Que dirá dele? Nesse período, uma vez, o grande mestre chegou à livraria nervosíssimo. E contou por quê. Fora à secretaria um cavalheiro pedir-lhe qualquer coisa. Não o satisfizera e estava incomodado com isso quando passou o contínuo com a bandeja do café. Aceita uma xícara? Se me fizer companhia!
— Ora eu não tomo café; mas já tinha recusado ao homem uma coisa e achei que seria demais não o acompanhar. Tomei a xícara e estou com dores de cabeça...
Do inquérito cheguei a saber que Machado de Assis tem como livros de cabeceira o Hamlet e o Prometeu, que acha as predileções passageiras como o próprio homem, e respeita a mocidade olhando-lhe as extravagâncias com um pasmo sincero.
Mas, por fim, o mestre incontestável percebeu que eu o acompanhava para lhe arrancar frases e tornou seco um pedaço de intimidade nascente entre o meu louvor e a sua bonomia.
Outro escritor de monta a interrogar seria o Sr. Graça Aranha. S. Exª começou por não responder absolutamente nada. Pessoalmente, depois, deu-me, com a sua alma de heleno, alguns conselhos. O ilustre autor da Canaã é de opinião que se deve escrever pouco. Plutarco, Luciano e Zola poriam as mãos na cabeça se o ouvissem; todos os trágicos gregos abririam a boca de pasmo. Felizmente estava eu só, que concordei com o superior espírito.
Aluísio Azevedo mandou-me de Cardiff uma carta. Tenho diante de mim uma torre de papéis a despachar! O cônsul inibe o escritor de responder!
Artur Azevedo não disse nada.
Gonzaga Duque esqueceu.
José Veríssimo, o conhecido crítico, não gostou do inquérito, e numa roda chegou mesmo a dizer que era esse um processo de fazer livros à custa dos outros.
Tamanha amabilidade impediu-me de insistir, e obrigou-me a pedir a Deus que a produção da literatura nacional aumente. Só assim o sr. José Veríssimo não insistirá na pesca na Amazônia para continuar a sua série de Escritos e Escritores.
Os poetas Alberto de Oliveira e Emílio de Menezes adiaram infinitamente as respostas.
Mas, ainda assim, apesar de não ter essas curiosas opiniões e as luzes de conceitos superiores, catalogando as pessoas que não tinham recusado a formação de um livro — idêntico a muitos outros — do estrangeiro, eu tive a certeza de que ia assinar um livro feito à custa do escol literário brasileiro.
E só não tive a vertigem porque, obrando assim, estava de acordo com o mestre Machado de Assis, pois não dava opinião minha e definitiva; estava de acordo com o Sr. Graça Aranha, pois escrevia pouco; e ainda estava de acordo com o venerável Sr. José Veríssimo, porque realizava, embora sem as suas letras, a sua mais exata previsão interna nestes últimos três lustros...
[SILVA, 2001, 228], em seu artigo, começa por analisar “as influências estrangeiras na cultura literária brasileira sempre bastante intensas a ponto de, não poucas vezes, a literatura nativa ter sido considerada, em algum momento de sua evolução histórica, tributária e — o que é pior — caudatária de literaturas adventícias.” Assim, durante um determinado período de nossa história, nossa literatura é definida por alguns teóricos e estudiosos do assunto como literatura luso-brasileira. Somente “a partir de meados do século XIX, a literatura brasileira passa a se inspirar diretamente em fontes culturais francesas e inglesas, particularmente naquelas, inaugurando um extenso período de criação estético-literária sob os auspícios da cultura gaulesa.” Ampliando o campo de seu investigação, indaga: “Quem eram os leitores da nossa Belle Époque tropical? O que se lia nessa época?”
Para tentar dar uma resposta ao problema colocado, faz algumas considerações sobre a impotência governamental diante o analfabetismo que proliferava entre os adultos, motivo de acanhamento de nossa imprensa diária e nossas casas editoras, denunciada por Olavo Bilac, em crônica publicada pelo Correio Paulistano, datada de 1907. “O mesmo diagnóstico, e até um pouco mais pessimista, é possível perceber nas palavras de um crítico respeitado na época, Osório Duque Estrada, que ao responder ao inquérito realizado por João do Rio para a Gazeta de Notícias, entre 1904 e 1905, afirma peremptoriamente:
“Ninguém produz, porque já não há quem leia. O futuro se me afigura ainda pior: a desorganização e a imoralidade no ensino vão preparando novas e mais temerosas ousadias do bacharelismo analfabeto”. (João do Rio, 1909, pp. 204-5).”
Em continuação a esse diagnóstico pessimista, considero que as palavras manifestas com que Duque Estrada conclui sua participação na enquete constituem a curiosidade por sua confissão política:
“Atravessamos uma época de crise intelectual bastante aguda. Um fator político a justifica, pela asserção de Guyau: la démocratie tue l'art. É lógico e irrecusável. Nesse particular, a República foi uma calamidade para o Brasil.”
V. DEPOIS
Esta seção do livro estampa um diálogo entre os dois idealizadores da enquete. Dentre as muitas elucubrações, destaco as que me pareceram mais centrais do espírito de João do Rio.
“DEPOIS” começa por estampar o diálogo entre os dois idealizadores do questionário que farão agora um balanço dos resultados. Vejamos, portanto, a abertura da seção:
“Quando dei por findo o meu trabalho voltei ao amigo que mo indicara como necessidade do público e provento literário. Sentei-me desoladamente num vasto divã de Mapple; e, como fazia Aulo-Gellius nas suas noites áticas, pedi-lhe, cheio de humildade e temor, a sua opinião.
— Francamente, acha alguma utilidade social em saber que o sr. Alberto de Oliveira não responde a um inquérito e que o Sr. Alberto Ramos prega a força do super-homem?
— Meu amigo, eu acho que a crítica está absolutamente acabada. (...)”
E João do Rio continua no mesmo tom:
— “Eu chego aos exemplos. A Sra. D. Júlia Lopes de Almeida é o tipo ideal da mãe de família; acha infantil o feminismo, o nefelibatismo e outros maluquismos da civilização. As suas idéias modestas e sem espalhafato, a sua sensibilidade sem extravagâncias souberam tocar o público. A colaboração da Sra. D. Júlia nos jornais aumenta a edição dos mesmos. Que importa à D. Júlia um crítico, dois críticos, três, uma dúzia mesmo contra ela? A sua marca é boa, é vendável; e como acontece a outros produtos, os próprios críticos, forçados pela corrente, fazem-lhes o reclamo com o instinto, aliás muito humano, que tem toda a gente de aclamar os que a multidão aclama. Quando o público adota um escritor — D. Júlia, Bilac, Medeiros e Albuquerque — é que se percebe bem a inanidade da crítica, o fim desse gênero de vagabundagem criadora, porque a pobre coitada que não lhes tece artigos todos os dias, esfalfa-se inutilmente em louvores para certos senhores, sempre ignorados, sempre esquecidos, sempre invendáveis e envenenados pela intoxicação do próprio ineditismo.
— O amigo é brutal. Isto não é filosofia, é balanço de livraria.
— Muito bonita frase no tempo em que os poetas morriam dipsômanos e só escreviam por chic em estado de embriaguez. Mas o Brasil transforma-se, civiliza-se. Hoje o jornalismo é uma profissão, quando antigamente era um meio político de trepar; hoje o escritor trabalha para o editor e não manda vender como José de Alencar e o Manuel de Macedo por um preto de balaio no braço, as suas obras de porta em porta, como melancias ou tangerinas.
— Há de permitir que eu o considere feroz.
— Bato um corpo morto, bato no passado... Se hoje o escritor não trabalha em vinte e quatro horas mais do que um seu colega trabalhava em dois meses há vinte anos, vê os seus assuntos aproveitados, as suas idéias escritas, o seu pão comido pelos outros e talvez com maior originalidade. E a concorrência não é só de homens, é também das mulheres, algumas das quais, como a cintilante e espiritual Carmem Dolores, ultrapassam a maioria dos homens em encanto, modernismo e elegância, conquistando de súbito o favor público. Depois, quais são as resultantes do seu gravíssimo inquérito?
— Isso, pergunto eu.(...)
— Em primeiro lugar a demonstração de que a vaidade não é mais uma
qualidade má, mas ao contrário, a satisfação natural de todo o homem,
uma deliciosa coquetterie cerebral, que o arrivismo prático
transforma em reclamo. Os escritores consultados, quase na sua
totalidade, contaram com especial prazer a própria vida. Tem v. para
sempre um livro de consulta biográfica dos escritores nacionais. Em
segundo, a idéia clara de que o homem de letras só tem um desejo, mesmo
quando está na torre de marfim: conquistar o favor público, ser lido e
ser notado. O seu inquérito é um exemplo das idéias que v. acha brutal.
As opiniões que se emaranham nessas páginas são conseqüências desse princípio. Vemos em primeiro lugar a anarquia mental, a anarquia do século. Uns acham que estamos em decadência; outros que progredimos. Aqui brada um que estamos no momento da luta; ali brada outro que não temos escolas literárias; acolá mais outro insurge-se contra a luta e a decadência. A verdade é que cada um cuida de si. A época é de um individualismo hiperestésico. Há a estagnação dos corrilhos literários, mas a fúria de aparecer só — é prodigiosa. Os vencedores acham todos o jornalismo animador, o jornalismo necessário; os que por inaptidão, trabalho lento ou hostilidade dos plumitivos, ainda não se apossaram das folhas diárias, atacam o jornalismo, achando essa idéia uma elegância de primeira ordem. São geralmente os poetas, os poetas que fatalmente tendem a ver o seu mercado diminuído — porque o momento não é de devaneios, mas de curiosidade, de informação, fazendo da literatura no romance, na crônica, no conto, nas descrições de viagens, uma única e colossal reportagem. (...)
Continua João do Rio a falar sobre os resultados da enquete:
— O inquérito mostra que não há escolas no Brasil, que é uma fantasia a idéia de literatura do norte e literatura do sul, que já não há romancistas, que os grandes poetas e os grandes escritores são os que estão na Academia, e que não há uma só das nossas idéias que não seja bebida no estrangeiro (...)
— Tudo para pior.
— Há também o lado bom, e esse é que a alma e o cérebro do Brasil tomam as feições modernas, que as idéias do mundo são absorvidas agora com uma rapidez que pasmaria os nossos avós; que o jornalismo inconscientemente faz a grande obra de transformação, ensinando a ler, ensinando a escrever, fazendo compreender e fazendo ver; que o individualismo e o arrivismo criam a seleção, o maior esforço, a atividade prodigiosa, e um homem de letras novo, absolutamente novo, capaz de sair dessa forja de lutas, de cóleras, de vontade, muito mais habilitado, muito mais útil e muito mais fecundo que os contemporâneos.
— E esse homem, o literato do futuro...?
— É o homem que vê, que aprendeu a ver, que sente, que aprendeu a sentir, que sabe porque aprendeu a saber, cuja fantasia é um desdobramento moral da verdade, misto de impassibilidade e de sensibilidade, eco da alegria, da ironia, da curiosidade, da dor do público — o repórter. E aos livros desse — sem ódios, sem corrilhos, sem extravagâncias — não faltarão nunca o imprevisto da vida e o sucesso que é o critério mais exato da aclamação pública.”
Por fim, João do Rio dirige-se ao leitor:
“Levantei-me, e deixei a causa moral do meu inquérito. Mas deixei-o com uma convicção: é que positivamente elevara ao auge a confusão de idéias, de biografias, de opiniões, de raivas, de satisfação, com tanto esforço colecionadas. (...)” (grifo nosso)
VI. NOTAS EXPLICATIVAS
¹ Segundo
Wilson Martins, “O momento literário é um quadro de honra
extraordinariamente interessante da ‘classe de 1908’, entendida a
expressão como indicando os nossos escritores mais significativos e
importantes nos começos do século”.
² CARVALHO, Elísio de: As modernas correntes estéticas na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1907, 284 p.
³ A importância de João do Rio — com destaque para O Momento Literário — como jornalista pode ser verificada em Sá, 1987; Medina, 1988; Rodrigues, 1996; Ferreira, 1991.
⁴ O
Momento Literário se transformaria, nas palavras de Raimundo Magalhães
Jr., num “documento expressivo do ambiente intelectual brasileiro na
primeira década do século passado e da mentalidade nele dominante”.
VII. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AZEVEDO, S.M.: O Momento Literário, de João do Rio, e o espírito das polêmicas. In LETRÔNICA, Porto Alegre, v. 13, pp. 1-6, jul/set 2020
Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin: O Momento Literário por João do Rio em 1ª edição por H. Garnier, Livreiro-Editor em 1909
BRAGA, F.J.S.: Um Lar de Artistas, publicado em 29/11/2024 no Blog de São João del-Rei
BROCA, J. Brito: A Vida Literária no Brasil - 1900. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
CARVALHO, Elísio de: As modernas correntes estéticas na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1907, 284 p.
COSTRUBA, D.A.: Por dentro da biografia: trajetória intelectual e “campo literário” em Júlia Lopes de Almeida. In Oficina do Historiador, Porto Alegre: EDIPUCRS, v. 10, nº 2, jul/dez 2017.
FERREIRA, J. A. Tempos de irreverência: Rio de Janeiro. D. O. Leitura [revista], São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, v. 10 nº 114, p. 12-13, nov. 1991.
MAGALHÃES JR., Raimundo: A vida vertiginosa de João do Rio. Civilização Brasileira, 1978, 386 p.
MARTINS, Wilson: A crítica literária no Brasil. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. 2 v.
MEDINA, C. Notícia. Um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. São Paulo: Summus, 1988.
RODRIGUES, J. C. João do Rio; uma biografia. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
SÁ, J. de: João do Rio; à margem da modernidade? 1987. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1987.
SILVA, Maurício: Leitores da Belle Époque: o que liam os intelectuais da passagem do século? (Uma interpretação de O Momento Literário, de João do Rio). In Itinerários, Araraquara, 17:223-237, 2001
WIKISOURCE: O Momento Literário
4 comentários:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Tenho o prazer de enviar-lhe meu ensaio sobre o livro de JOÃO DO RIO intitulado O MOMENTO LITERÁRIO, acompanhado de extensa fortuna crítica, onde examino as cartas e entrevistas realizadas pelo repórter da Gazeta de Notícias (RJ) nos anos de 1904 e 1905, originalmente publicadas neste periódico, e mais tarde (1909), no formato de livro pela Garnier Livreiros Editores.
Link: https://bragamusician.blogspot.com/2024/12/joao-do-rio-e-sua-enquete-sobre-o.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (professor universitário, desembargador, ex-presidente do TRE/MG, atual Terceiro Vice-Presidente TJMG, escritor e membro do IHG-MG e membro do IHG e da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...
Um grande cronista, que viveu a belle époque carioca.
Excelente pesquisa!
Abs
Prof. Cupertino Santos (professor aposentado da rede paulistana de ensino fundamental) disse...
Caro professor Braga
Importante contribuição à análise do universo intelectual e cultural brasileiro através desse magnífico "Momento Literário", naqueles primórdios de uma sociedade que se esforçava pela "modernização " e "republicanismo". Além do mais, uma fascinante leitura.
Saudações e gratidão.
Cupertino
Geraldo Reis (poeta, membro da Academia Marianense de Letras e gerente do Blog O Ser Sensível) disse...
Boa tarde, Braga!
Muito obrigado. Li com atenção. E, como sempre há muito a aprender com seu trabalho. E aqui temos, de verdade, uma relíquia do excepcional João do Rio.
Forte abraço poético de Geraldo Reis
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