sábado, 17 de janeiro de 2026

MAIO: análise descritiva e interpretativa

Por Francisco José dos Santos Braga

Este texto tem o objetivo de analisar MAIO, crônica de Lima Barreto, realizando, de forma sucinta, sua análise descritiva e interpretativa.
Aos 7 anos, Afonso assistiu com o pai aos festejos da Abolição. A princesa Isabel assinara a Lei Áurea no dia do seu aniversário. João Henriques levou o filho ao Largo do Paço e à missa do Campo de São Cristóvão, para testemunhar o grande acontecimento. O menino ficou deslumbrado. Mais tarde, reconstituiu todas aquelas impressões que lhe ficaram, confusas e desordenadas, numa página de memória, que vale por um precioso testemunho. (BARBOSA, 2017, p. 55, grifo nosso)
Lima Barreto criança - Crédito: Blog Literatura é Bom pra Vista

 
I. ANÁLISE DESCRITIVA E INTERPRETATIVA DA CRÔNICA
 
O eu-lírico é um conceito que designa a voz que se manifesta num poema ou página literária, na pessoa do seu narrador ou enunciador, externando sentimentos, refletindo sobre memórias, experiências, ideias que podem ou não refletir o autor. Por isso mesmo, é um recurso essencial na poesia, embora também possa ser usado na prosa para dar profundidade emocional ao texto. Nos textos autobiográficos, como "Maio" de Lima Barreto, o eu-lírico foi utilizado pelo autor para dar um tom artístico e subjetivo à experiência, narrada em 1ª pessoa. 
Em "Maio", os trechos memorialísticos são narrados por um eu-lírico já mais amadurecido (o autor já conta 30 anos), posto que reflete sobre seu olhar de criança ao ver a Lei Áurea sendo assinada no Paço Imperial ao lado de seu pai, no Rio de Janeiro. Observa-se que o tom narrativo adotado é otimista e jubiloso quando o eu lírico se debruça sobre a experiência vivida naquele 13 de maio de 1888, na ocasião há 22 anos atrás: quando chega o mês sagrado de maio, junto com o seu aniversário, rememora um tempo de esperança em que assistiu àquele evento, onde presenciou "palmas, acenos com lenço, vivas", seguidos de dias de uma esfuziante alegria coletiva, durante os quais assistiu ainda a uma missa campal no Campo de São Cristóvão quatro dias depois, à qual compareceram seu pai e ele, onde juntos testemunharam o festejo com "bandas de música, bombas e girândolas; préstitos cívicos"; presenciaram ainda desfile de figurantes pelas ruas, montagem de "estrados para bailes populares, desfile de escolares e de soldados". Em suma, foram "dias de folgança e satisfação". 
Sem entender exatamente o porquê da alegria ambiente, o menino Lima Barreto percebeu o alcance da lei ou a significacão da coisa através de sua professora, mas, "com aquele feitio mental de criança", ou seja, do ensinamento só guardou o conceito do direito à liberdade. A professora, que tanto estimou e a quem afirma "muito dever o seu espírito" (i.é, sua veia crítica e sua atividade literária), mereceu uma posição destacada dentro da crônica. 
Por outro lado, quando o eu-lírico se volta para o presente e anos vindouros, o tom narrativo se modifica, passando a assumir um aspecto pessimista e melancólico, refletindo sobre o tempo, que tem o dom de ceifar aspirações e desfazer o que não passava de um castelo de areia ou promessas de um futuro livre e grandioso. Mas ele continua a viver esperando, esperando... o quê?, pergunta. A esperança é a última que morre: em sua fantasia, pode ocorrer o imprevisto amanhã ou depois, milagres, sorte grande... 
O eu-lírico durante todo o texto está carregado de diversos sentimentos que vão do início ao fim se misturando e se transformando, mas todos eles levam à conclusão da necessidade do devir, o processo contínuo de transformação e mudança constante, um fluxo perpétuo da realidade. E é tomado desta consciência que ao fim diz: "e maio volta", entendendo ser "o mês augusto e sagrado pela poesia e pela arte, jungido eternamente à marcha da Terra", aquele tempo de mudança e esperança em que "um forte flux de vida percorre e anima tudo", para, então desta vez, ir mais a fundo, embora reconheça que a vida é feita de contradições e paradoxos, sendo a única coisa certa "a doce morte, padroeira dos aflitos e desesperados", entre os quais se inclui. 
O autor comemorou ainda 10 meses de maio na sua curta vida de 41 anos. 
 
 
II. OUTRO OLHAR PARA A ANÁLISE DA CRÔNICA  
 
Nesta seção, gostaria de apresentar minha simpatia pelo estudo de Brenda Aryane Serdeira, intitulado A memória em Lima Barreto: Uma leitura da crônica "Maio" sob o viés da narração de fatos históricos, que, segundo a autora, tem um caráter bibliográfico, ao revisitar Walter Benjamin (1987) e Henri Bergson (1999), entre outros estrangeiros; e Francisco de Assis Barbosa (1997-2017) e Alfredo Bosi (2017), entre outros brasileiros.
 
[SERDEIRA, 2024, 80], depois de passar em revista Lima Barreto na literatura e na crônica brasileira, observa, no seu enfoque sobre literatura e história, que
o artista é um ser social que habita determinado tempo e espaço, o que pode influenciar a sua produção  caso, justamente de Afonso Henriques de Lima Barreto, autor da crônica analisada neste trabalho. Como já dissemos, Lima Barreto se preocupava com a produção de uma literatura engajada com os problemas de seu tempo e, nesse sentido, era um observador e crítico do meio em que viveu. Portanto, tendo em vista a relação existente entre literatura e história, observamos que a literatura contribui para a reconstrução de um passado; por outro lado, não podemos confundi-la com um discurso 'qualquer', ou seja, precisamos reforçar o seu caráter artístico. (...) Dessa forma, tendo em vista o discurso literário, frisamos que a palavra literária difere, sim, do discurso histórico, na medida em que, por mais que tenhamos um fato ou acontecimento que condiciona os escritos, há também a subjetividade e o arranjo estético, aspectos que serão contemplados na análise da crônica.
E continua:
Sobre a memória, por meio dos estudos de [BERGSON, 1999, 247], afirmamos que, através dela, é possível compreender o presente, pois ela 'prolonga o passado no presente', ou seja, evoca as percepções passadas, partindo de algo que está no presente: '[...] é do presente que parte o apelo ao qual a lembrança responde, e é dos elementos sensório-motores da ação presente que a lembrança retira o calor que lhe confere a vida' [BERGSON, 1999, 179].
E acrescenta:
Outra questão importante quanto ao estudo da memória diz respeito à escolha, à subjetividade daquele que narra as reminiscências, selecionando, portanto, aquilo que interessa. Portanto, entendemos que primeiro as lembranças surgem, suscitadas por algo presente; são evocadas, recordadas; e, finalmente, selecionadas e interpretadas. (...)
Nesta altura [Idem, ibidem, 81] introduz o conceito de testemunho,
na medida em que diremos, e lemos em vários estudos, que Lima Barreto escreve um testemunho com a crônica 'Maio'. Destacamos que a questão do testemunho envolve a subjetividade daquele que vivenciou os fatos e tem uma liberdade de escolha sobre aquilo que deseja narrar, contar e externar, através das palavras, mas envolve também o compromisso com aquilo que é colocado. (...) É importante frisarmos que, quando pensamos em testemunho, algumas vezes pensamos que tais fatos foram traumáticos, o que não é o caso do texto de Lima Barreto aqui estudado. A escravidão no Brasil, esta sim foi um evento traumático, que também deixou escritos e testemunhos. Naquele dia, entretanto, o escritor festeja o acontecimento, ressaltando que, até então, não conhecera uma pessoa escrava; ou seja, ele é testemunha daquela data, da assinatura da Lei, mas não do fato que a lei abolira.
Como a credibilidade do que é narrado também é uma questão central para todo estudioso do fenômeno literário, importa muito, segundo [Idem, ibidem, 82], que
o texto barretiano narre um evento que seja verdadeiro, que tenha credibilidade e já seja amplamente estudado. O que o texto do autor faz é evocar as suas memórias do dia treze de maio de 1888, em uma tentativa de tentar organizá-las e compreendê-las, quase três décadas depois. Especialmente no que diz respeito à liberdade, é fundamental pensarmos que, no momento em que aconteceu a assinatura da Lei, o sentimento coletivo de liberdade tomou conta da população, inclusive do então menino Lima Barreto. Anos depois, ao refletir sobre o que seria essa liberdade e sobre como a ideia aparentemente está distante da realidade (...), o que o autor faz é uma tentativa de entender as credibilidades daquelas narrativas que circularam no século XIX.
Para [Idem, ibidem, 83], outra dimensão a ser levada em conta é a da memória:
Lima Barreto não recorda a assinatura da Lei Áurea em si, mas aquilo que ele sentiu, o que lembra daquilo, as suas impressões. Nesse sentido, 'sua subjetividade é parte integral do evento e de qualquer descrição satisfatória dele”. [TROUILLOT, 2016, 54]
Quando [Idem, ibidem, 83] trata da memória na escrita de Lima Barreto,
destaca que, muitas vezes, Lima Barreto foi diminuído pela crítica literária, tido como memorialista, ou com escritos demasiado carregados de impressões pessoais, características tidas como defeitos graves, como afirmado por José Veríssimo após a publicação do primeiro romance. ¹
Em seguida, esclarece, no que se refere à memória na escrita de Lima Barreto, que
não é objetivo deste trabalho, especificamente, tratar da escrita memorialística do autor, especialmente de seus romances, mas, sim, realizar a leitura de uma de suas crônicas, valendo-se da memória dos fatos que vivenciou quando criança e posicionando-se sobre um dos momentos mais importantes da história do Brasil, ocorrido no fim do século XIX e anos depois reconstituído através da memória e da literatura.
Leitura da crônica "Maio": o viés literário e histórico 
 
[Idem, ibidem, 83-4] inicia sua leitura da crônica, com a seguinte observação metodológica:
A crônica 'Maio', escrita em quatro de maio de 1911, remete a um acontecimento de 22 anos antes: a Abolição da Escravidão no Brasil, ocorrida em treze de maio de 1888. O escritor, nascido no mesmo dia, sete anos antes (1881), comemorou os dois fatos, o aniversário e a assinatura da lei.
A seguir, [Idem, ibidem, 84] dá início propriamente dito à sua leitura da crônica "Maio" de Lima Barreto:
No início do texto, observamos aquilo que oferece motivação para a escrita e é o provável motivo para evocação das lembranças, presente no título à narrativa: o mês de maio.
Após essa introdução, [Idem, ibidem, 84-5] destaca
a primeira espacialização, ou seja, Lima Barreto situa para o leitor que ele estava no centro do Rio de Janeiro; e, observador, faz questão de ressaltar as mudanças ocorridas no decorrer de mais de duas décadas, além de destacar a presença de um homem. ²
Segundo [Idem, ibidem, 85],
o parágrafo que se segue é importante na medida em que percebemos, através do relato, que Lima não se lembra, com precisão, de todos os acontecimentos que vivenciou, ou seja, as memórias são fragmentadas, incertas, como costuma acontecer quando narramos um fato histórico, pois o autor tenta organizar os eventos através da rememoração daquilo que sentiu.
Logo depois, [Idem, ibidem, 86] destaca uma segunda espacialização, com uma chamada de atenção para a presença do pai, de cuja companhia o filho se valeu para assistir à assinatura da Lei Áurea, bem como à missa campal, quatro dias depois:
João Henriques se fez presente na vida do filho e, em certa medida, ensinou-o a observar a realidade, a participar de acontecimentos importantes e decisivos do país. O escritor explicita que suas recordações não são muitas, mas a lembrança que fica é significativa, na medida em que faz referência a outros momentos históricos fundamentais do país: a 'descoberta', de 22 de abril de 1500; e a 'primeira missa', celebrada em 26 de abril de 1500. Na crônica, a lembrança é em especial desse segundo acontecimento, evocado pela pintura de Vitor Meireles, seguida da analogia com a descoberta. O momento era, para o menino Afonso, uma redescoberta da própria nação, momento emblemático e significativo.
No trecho da crônica sobre a escravidão, fica evidente para [Idem, ibidem, 87] que, por mais que o momento fosse importante e significativo para o menino, ele não tinha a consciência do escritor da crônica, adulto e vítima de preconceito racial, ao longo dos anos que seguem à assinatura da Lei. Na crônica, percebemos as palavras que são usadas, como “cativeiro”, “horror” “injustiça” e “vexatória instituição”, que denunciam as mazelas da escravidão do país. As escolhas vocabulares de Lima Barreto aproximam sua visão da escravidão da de Abdias [NASCIMENTO, 2016, 57], que a define como “o maior de todos os escândalos, aquele que ultrapassa qualquer outro da história da humanidade”. As reflexões que seguem o trecho demonstram o otimismo do menino Afonso, que acreditava em uma consciência coletiva e que o clima de festa evidenciado por ele era de toda a população; porém, sabemos que, infelizmente, tal consciência coletiva não fez parte do sentimento nacional. 
[Idem, ibidem, 88] interpreta que
as alegrias do momento se estendem e o menino vai à escola, onde o sentimento era o mesmo: as crianças acreditavam na liberdade, ainda que não entendessem por completo o que a lei significava ou o que ela alcançaria em termos de direitos (...). Aqui, mais uma vez, a rememoração de Lima Barreto, que evoca coletivamente a (alegria) dos colegas de classe, provavelmente da mesma faixa etária dele, demonstra o sentimento feliz, de expectativas de mudança que rodeava a população, sem saber, entretanto, que pouco mudaria na estrutura social do país, décadas depois.

 

III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹  Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909)
 
² Trata-se do jornalista, escritor e abolicionista brasileiro José do Patrocínio (1853-1905), uma das vozes mais potentes na luta contra a escravidão, fundando jornais como "A Cidade do Rio" e a "Confederação Abolicionista", organizando manifestações e defendendo a causa até a assinatura da Lei Áurea em 1888. após a qual continuou lutando por justiça social, embora enfrentasse exílio no estado do Amazonas e desilusão com o regime republicano, falecendo de tuberculose.


IV. BIBLIOGRAFIA

BARBOSA, Francisco de Assis: A Vida de Lima Barreto: 1881-1922. 11ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.
 
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da História. In:  Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 3ª ed. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987, pp. 222-232.

BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 2ª ed. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Coleção tópicos).

BOSI, Alfredo. (1995). A escrita do testemunho em Memórias do Cárcere. Estudos Avançados, 9(23), pp. 309-322. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/eav/article/ view/8862. Acesso em 28 dez. 2025.
 
NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 2016.

SERDEIRA, Brenda Aryane: A memória em Lima Barreto: Uma leitura da crônica "Maio" sob o viés da narração de fatos históricos, Rio de Janeiro: revista Metamorfoses, 2024, vol. 21, nº 2, pp. 73-92 
 
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: poder e a produção da história. Tradução de Sebastião Nascimento. Curitiba: Huya, 1ª ed., 2016. 

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Blog Literatura é Bom pra Vista: Maio: Mês de Aniversário de Lima Barreto, post de 11/06/2021

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Tenho o prazer de enviar-lhe minha análise literária da crônica "MAIO" de LIMA BARRETO, acrescida da seleção de um texto com que me simpatizei, numa pequena pesquisa sobre a bibliografia existente.
Reconheço que o mérito é todo de Lima Barreto, que produziu uma peça literária muito rica, com elementos memoriais, testemunhais, históricos e espaciais, facilitando razoavelmente o trabalho do analista literário e dos leitores, em geral, apesar de estar utilizando técnicas literárias sofisticadas para a expressão de suas emoções, sensações e ideias.

Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/01/maio-critica-descritiva-e-interpretativa.html

Cordial abraço,
Francisco Braga