segunda-feira, 18 de maio de 2026

ANTÔNIO CONSELHEIRO NA CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS

Por Francisco José dos Santos Braga
 
Revista Ilustrada retratava Antº Conselheiro de forma caricatural, tentando barrar a República-Crédito: Wikimedia Commons

 
I. INTRODUÇÃO
 
Segundo [NASCIMENTO, jun/2015], o jornal O Rabudo, semanário sergipano editado da cidade de Estância, na edição de 22/11/1874, publicou uma reportagem sobre a presença do peregrino de origem cearense em terras de Sergipe, que se chamava Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido inicialmente pela alcunha de (beato) Antônio dos Mares e, mais tarde, pela de Antônio Conselheiro. O texto comete o que hoje é considerado bullying ao destacar que faltava ao corpo do místico sertanejo o desejável asseio, embora reconhecesse o seu forte poder persuasivo que fazia com que grupos de romeiros seguissem seus conselhos. Após classificá-lo como “misterioso personagem”, “aventureiro santarrão”, operador de “mentirosos milagres” e possível criminoso, levantando a suspeita de, segundo [CALASANS, 1997, 11-12], "haver o peregrino cometido algum crime, sendo a singularidade do seu modo de viver uma forma de penitência, senão um meio de fugir à ação da Justiça". De fato, o informativo sergipano solicitava a intervenção das autoridades, no sentido de que fosse tal “homem capturado e levado à presença do governo imperial, a fim de prevenir os males que ainda não foram postos em prática pela palavra do frei Santo Antônio dos Mares moderno.”
[SIEGA & CERIBELI, 2025, 6] menciona que "dois anos mais tarde, em 1876, o místico foi preso e levado  à capital baiana; depois, conduzido novamente ao Ceará por causa do boato acerca do crime cometido". As duas autoras citam o livro de [SAMPAIO,  2001, 32-35], onde esta discorre sobre a estratégia de produzir temor, utilizada por "facções políticas" que disputavam poder em âmbito nacional, estadual e municipal, "pela Igreja Católica e pelo Exército", visando manter "o status quo", à base de divulgação, principalmente pelos jornais, de "notícias falsas e de boatos", sobre os conselheiristas. Os interesses particulares de grandes latifundiários, de políticos que desejavam manter-se no poder e no controle, ditando leis e eleições (a bico de pena), estariam por trás da destruição de Canudos.
Poucos personagens da história do Brasil foram tão hostilizados pelos órgãos de imprensa quanto Antônio Maciel.
Daquele momento em diante, seria essa a tônica adotada por praticamente todos os jornais que trataram da temática do Conselheiro – antes e depois da fundação do arraial de Canudos. 
Caso típico é o da crônica do jornal Correio da Bahia, publicada no dia 7 de julho de 1876, na qual o vigário capitular, provavelmente de Salvador, pede a prisão de Conselheiro, considerando-o um fora-da-lei: “Este indivíduo apareceu em diversos lugares desta província, pregando doutrinas errôneas e desmoralizando as autoridades e até os vigários. Contra esse escândalo reclamou o vigário capitular, que, tendo as mais fundadas suspeitas de ser o indivíduo em questão [Conselheiro] um dos célebres criminosos do terrível morticínio que se deu no Ceará, em 1872, mandou buscá-lo a esta capital”. Também em matéria veiculada no dia 31 de maio de 1893, o Diário de Notícias, de Salvador, ao tempo em que chamava atenção para “o célebre fanático, conhecido por Conselheiro”, “indivíduo perigoso” e “elemento de desordem” – tendo se tornado “o terror das autoridades” – reclamava por providências enérgicas “a fim de se evitarem cenas de maior gravidade.” 
A campanha persecutória da imprensa contra o movimento liderado por Antônio Conselheiro culminou com a guerra fratricida de 1896/1897. Nesses conturbados anos, cerca de uma dúzia de jornais de todo o país, a maioria deles a serviço do governo republicano, viria a tomar parte na questão de Canudos. Vários jornais, especialmente de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, enviaram correspondentes especiais para o teatro da luta, a fim de seguirem de perto o desenrolar dos acontecimentos. Mais exatamente, foram sete os jornais que enviaram correspondentes ao sertão baiano: Diário de Notícias e Jornal de Notícias (Bahia); Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, A Notícia e O País (Rio de Janeiro); e O Estado de S. Paulo (São Paulo).
Para facilitar a comunicação, uma linha telegráfica foi construída entre Monte Santo e Queimadas, as duas principais bases de operação militar. Era a primeira vez, no Brasil, que se utilizavam os serviços telegráficos para noticiar um conflito armado. Do teatro da guerra, as notícias eram despachadas para Monte Santo e dali expedidas via telégrafo para outras cidades do país, em especial Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, onde eram publicadas pelos órgãos de imprensa.
No plano internacional, diversos periódicos se ocuparam da cobertura dos acontecimentos, cabendo destacar o Vossische Zeitung, de Berlim, o The Times, de Londres, o Le Temps, de Paris, o New York Herald, de Nova York, e o La Nación, de Bueno Aires. Isso faria da guerra de Canudos um tema midiático, não só no Brasil, mas também no exterior, conforme análise da cobertura do evento Canudos na imprensa internacional, feita pelo pesquisador  Berthold Zilly. De acordo com esse pesquisador, mais do que a imprensa brasileira, o noticiário estrangeiro relaciona Canudos “a outras perturbações da ordem pública, a sedições e golpes, a deficiências administrativas, à corrupção, a problemas econômicos e financeiros, à dívida interna e externa, sem que, no entanto, seja representada uma visão catastrófica do Brasil” [ZILLY, 1997, p. 66]. Outro aspecto do noticiário europeu sobre Canudos é a aceitação, sem contestação, das afirmações oficiais do governo brasileiro, “torcendo claramente pela vitória das armas legais” [ZILLY, 1997, p. 66-67].

Link: http://cariricangaco.blogspot.com/2015/06/antonio-concelheiro-na-mira-da-imprensa.html

Dentre esses órgãos de imprensa de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, destacava-se a Gazeta  de Notícias, do Rio de Janeiro, semanário no qual atuava o cronista Machado de Assis com o apoio de um correspondente especial diretamente do teatro de operações de Canudos.
Contrariamente a outros órgãos de imprensa, a Gazeta de Notícias possuía uma redação de crônica jornalística simpática e leniente em relação ao taumaturgo religioso que agia como emissário divino, arrastando multidões de fiéis seguidores que se diziam dispostos a morrer por seu líder.
  
II. ANTÔNIO CONSELHEIRO NAS CRÔNICAS DE MACHADO DE ASSIS
 
Apresento-lhe trechos de sete crônicas sobre o líder religioso e rebelde que fundou o arraial de Canudos no sertão da Bahia, onde M.A. faz referência ao nome do taumaturgo religioso.
 
1) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 22/07/1894 (intitulada Canção de Piratas)
 
Telegrama da Bahia refere que o Conselheiro está em Canudos com 2.000 homens (dois mil homens) perfeitamente armados. Que Conselheiro? O Conselheiro. Não lhe ponhas nome algum, que é sair da poesia e do mistério. É o Conselheiro, um homem, dizem que fanático, levando consigo a toda a parte aqueles dois mil legionários. Pelas últimas notícias tinha já mandado um contingente a Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros lugares os seus assaltos.
Jornais recentes afirmam também que os célebres clavinoteiros de Belmonte têm fugido, em turmas, para o sul, atravessando a comarca de Porto Seguro. Essa outra horda, para empregar o termo do profano vulgo que odeio, não obedece ao mesmo chefe. Tem outro ou mais de um, entre eles o que responde ao nome de Cara de Graxa. Jornais e telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que são criminosos; nem outra palavra pode sair de cérebros alinhados, registrados, qualificados, cérebros eleitores e contribuintes. Para nós, artistas, é a renascença, é um raio de sol que, através da chuva miúda e aborrecida, vem dourar-nos a janela e a alma. (...)
Sim, meus amigos. Os dois mil homens do Conselheiro, que vão de vila em vila, assim como os clavinoteiros de Belmonte, que se metem pelo sertão, comendo o que arrebatam, acampando em vez de morar, levando moças naturalmente, moças cativas, chorosas e belas, são os piratas dos poetas de 1830. Poetas de 1894, aí tendes matéria nova e fecunda. Recordai vossos pais; cantai, como Hugo, a canção dos piratas:
 
En mer, les hardis écumeurs! 
Nous allions de Fez à Catane ... 
Trad.: No mar, os audaciosos bucaneiros! /Nós navegávamos de Fez à Catânia...

Entrai pela Espanha, é ainda a terra da imaginação de Hugo, esse homem de todas as pátrias; puxai pela memória, ouvireis Espronceda dizer outra canção de pirata, um que desafia a ordem e a lei, como o nosso Conselheiro.  (...)
Crede-me, esse Conselheiro que está em Canudos com os seus dois mil homens, não é o que dizem telegramas e papéis públicos. Imaginai uma legião de aventureiros galantes, audazes, sem ofício nem benefício, que detestam o calendário, os relógios, os impostos, as reverências, tudo o que obriga, alinha e apruma. São homens fartos desta vida social e pacata, os mesmos dias, as mesmas caras, os mesmos acontecimentos, os mesmos delitos, as mesmas virtudes. Não podem crer que o mundo seja uma secretaria de Estado, com o seu livro de ponto, hora de entrada e de saída, e desconto por faltas. O próprio amor é regulado por lei: os consórcios celebram-se por um regulamento em casa do pretor, e por um ritual na casa de Deus, tudo com a etiqueta dos carros e casacas, palavras simbólicas, gestos de convenção. Nem a morte escapa à regulamentação universal; o finado há de ter velas e responsos, um caixão fechado, um carro que o leve, uma sepultura numerada, como a casa em que viveu ... Não, por Satanás! Os partidários do Conselheiro lembraram-se dos piratas românticos, sacudiram as sandálias à porta da civilização e saíram à vida livre. 
A vida livre, para evitar a morte igualmente livre, precisa comer, e daí alguns possíveis assaltos. Assim também o amor livre. Eles não irão às vilas pedir moças em casamento. Suponho que se casam a cavalo, levando as noivas à garupa, enquanto as mães ficam soluçando e gritando à porta das casas ou à beira dos rios. As esposas do Conselheiro, essas são raptadas em verso, naturalmente:
 
Si hautesse aime les primeurs, 
Nous vous ferons mahométane ...
Trad.: Se Vossa Alteza desfrutar dos primeiros frutos, /Nós a converteremos ao Islã.
 
Maometana ou outra coisa, pois nada sabemos da religião desses, nem dos clavinoteiros, a verdade é que todas elas se afeiçoarão ao regímen, se regímen se pode chamar a vida errática. (...)” 

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[CALLIPO, 2008, 202-214], nesta crônica intitulada "Canção de Piratas", traça um paralelo entre a aventura vivida por Antônio Conselheiro e o poema "Chanson de Pirates", que faz partes de Les Orientales. Escrita em 1828, descreve a travessia de Fez a Catânia feita por um navio de piratas que transportava cem escravos cristãos para o palácio do líder otomano. Quando avista um convento, o bando decide ancorar. Surge a seus olhos a figura de uma "fille du monastère" que dormia tranquilamente, "sourde à leurs rumeurs". Os piratas decidem raptá-la e obrigam-na a segui-los, pois desejavam vendê-la para o sultão. A freira tenta escapar, "pleure, supplie, appelle", mas seus clamores não são ouvidos e os "fils de Satan" arrastam-na até a embarcação.
Quando Machado de Assis escreveu sua crônica para a Gazeta de Notícias, o líder religioso cearense já se instalara às margens do rio Vaza-Barris havia onze meses. Entretanto, o período mais turbulento da trajetória de Antônio Conselheiro ainda estava por acontecer. Seria preciso esperar dois anos para que a comunidade do Belo Monte se tornasse notícia nos jornais. Machado de Assis, de forma pioneira, escreveu essa crônica, pois os outros periódicos publicados em 1894 se preocupavam com outros assuntos. Entretanto, com o passar dos meses, a comunidade de Belo Monte passou a ser destaque na imprensa e a provocar acaloradas discussões. O próprio Machado só retomará o assunto em 13/09/1896, mais de dois anos depois, como veremos na próxima crônica. 
Na presente crônica, Machado equipara sertanejos a corsários de Victor Hugo. Estes deixavam a terra em busca de aventuras, desrespeitando as leis, obedecendo somente ao comandante do navio, roubando, vendendo escravos, ignorando os códigos impostos pela sociedade. O grupo heterogêneo que cercava Antônio Maciel abandonava suas casas à procura da salvação de suas almas. Voltava-se contra o sistema republicano e seguia os mandamentos de seu líder para esses "heróis decaídos", não havia presidente, nem ministros, nem estados; havia fome, miséria e isolamento. Aguardava a volta de D. Sebastião, único ̇soberano capaz de resolver os problemas desta vida; a fé em Cristo dava-lhe força e coragem para seguir a "romaria" em direção ao paraíso. Tal comportamento provocou a desconfiança do governo brasileiro, que se viu obrigado a combater o avanço dos conselheiristas. Para a jovem República, tratava-se de um grupo cujo objetivo era derrubar as conquistas de 15 de novembro de 1889.
Poesia francesa e história brasileira entrelaçam-se. Os "dois mil homens do Conselheiro" invadem cidades e levam consigo moças "cativas, chorosas e belas", assim como os piratas do poema hugoano desrespeitam a santidade de um convento e raptam uma religiosa, fazendo dela uma prisioneira, cuja beleza era acentuada conforme cresciam o ultraje e a indignação. Nem poderia ser diferente: os conselheiristas não iriam "às vilas pedir moças em casamento". Também roubam e saqueiam, pois "a vida livre, para evitar a morte livre, precisa comer".
Na "Canção de Piratas" composta por Machado é sob o prisma romântico que os seguidores de Antônio Conselheiro são analisados. O narrador recusa-se a condená-los e descreve-os como os piratas dos poetas de 1830, rebeldes inconformados com os valaores europeus importados pelas categorias oficiais.
Naquele ano de 1894, a notícia da existência de um grupo "que desafia a ordem e a lei" brilha como "um raio de sol" para o cronista aborrecido com a excessiva diplomacia dos povos civilizados, desencantado com a "prosa chilra e dura" daquele fim de século. (...)
O funcionário público Machado de Assis parece encantar-se diante da indisciplina daa comunidade de Belo Monte. Entremeando humor, nostalgia e tédio pelas regras da civilização, defende o líder religioso de Canudos. Para [BROCA, 1957, 110], ele também se regozija com os "apuros" vividos pelo governo republicano. (...)
A canção machadiana em favor dos piratas do sertão que atravessavam um oceano nada pacífico destaca-se não apenas em sua obra jornalística: o autor quis dar-lhe um títulopostura rara em relação às suas crônicase selecionou-a para republicá-la em livro, indicando valorizá-la. O protesto feito à perseguição dos seguidores de Antônio Conselheiro torna-se, desse modo, um documento da história e uma bela página da literatura, marcada pela presença revigorante da poesia de Victor Hugo.  
  
2) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 13/09/1896
 
“Dizem da Bahia que Jesus Cristo enviou um emissário à terra, à própria terra da Bahia, lugar denominado Gameleira, termo de Orobó-Grande. Chama-se este emissário Manuel da Benta Hora, e tem já um séquito superior a cem pessoas. 
Não serei eu que chame a isto verdade ou mentira. Podem ser as duas cousas, vez que a verdade se confine na ilusão, e a mentira na boa fé. (...) Há muito que os espíritas afirmam que os mortos escrevem pelos dedos dos vivos. Tudo é possível neste mundo e neste final de um grande século. 
Daí a minha admiração ao ler que a imprensa da Bahia aconselha ao governo faça recolher Benta Hora à cadeia. Note-se de passagem: a notícia, posto que telegráfica, exprime-se deste modo: “a imprensa pede ao governo mandar quanto antes que faça Benta Hora apresentar as divinas credenciais na cadeia...” ¹ (...)
Quanto à doutrina em si mesma, não diz o telegrama qual seja; limita-se a lembrar outro profeta por nome Antônio Conselheiro. Sim, creio recordar-me que andou por ali um oráculo de tal nome; mas não me ocorre mais nada. ² Ocupado em aprender a minha vida, não tenho tempo de estudar a dos outros; mas, ainda que esse Antônio Conselheiro fosse um salteador, por que se há de atribuir igual vocação a Benta Hora? (...) 
Fantasia, dirás tu. Pois fiquemos na realidade, que é o aparecimento do profeta de Orobó Grande, e o clamor contra ele. Defendamos a liberdade e o direito. Enquanto esse homem não constituir partido político com os seus discípulos, e não vier pleitear uma eleição, devemos deixá-lo na rua e no campo, livre de andar, falar, alistar crentes ou crédulos, não devemos encarcerá-lo nem depô-lo. O caboclo da Praia Grande viu respeitar em si a liberdade. Se Benta Hora, porém, trocando um mandato por outro, quiser passar do espiritual ao temporal e...”
 
¹ Apud revista Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 7, nº 14, p. 313, jul/dez 2024: Telegrama enviado da Bahia em 5 de setembro de 1896, publicado na Gazeta de Notícias (ano XXII, n. 250, p. 1, col. 1-2) no dia 6, informa que “na localidade Gameleira, termo de Orobó Grande, apareceu um emissário de  Cristo  com  plenos  poderes,  chamado  Manuel  da  Benta  Hora,  tendo  já  cortejo  superior  a  cem  pessoas.  A imprensa  pede  ao  governo  mandar  quanto  antes  que  faça  Benta  Hora  apresentar as  divinas  credenciais  na cadeia, a fim de evitar que o caso tome proporçõesque teve o de Antônio Conselheiro.” (nota explicativa nº 2)
Link: https://portaldepublicacoes.ufes.br/machadiana/article/view/42167/28163
” (grifo nosso)
 
² [CALLIPO, 2008, 202-214] entende que Machado de Assis, ao retomar o assunto em 13 de setembro de 1896, mais de dois anos depois da primeira referência a Antônio Conselheiro em suas crônicas, comenta um telegrama da Bahia a respeito de Manuel da Benta Hora que se intitulava profeta e possuía um grande número de seguidores. A imprensa baiana exigia a captura do pregador e o comparava a Antônio Conselheiro. O colaborador da Gazeta, que já mencionara o nome do fundador da comunidade do Belo Monte, parece ter esquecido de quem se tratava: "Sim, creio recordar-me que andou por ali um oráculo de tal nome; mas não me ocorre mais nada. Ocupado em aprender a minha vida, não tenho tempo de estudar a dos outros." O leitor percebe que Machado de Assis tenta ser verossímil, mesmo não sendo comprovadamente real.” (grifo nosso)

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Comentário do autor: Na crônica sobre Manuel da Benta Hora, que dizia ser emissário de Jesus Cristo, ele escreve com ironia prudente: não chama o caso nem de verdade nem de mentira, mas declara que não lhe parecia que Jesus Cristo houvesse pensado em mandar “emissários novos” para espalhar “algum preceito novíssimo”, pois, para ele, “tudo está dito e explicado”. Ainda assim, defende que o suposto profeta não deveria ser preso apenas por profetizar: “a escolha cabe ao tempo, não à polícia”.” 
 
 
3) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 20/09/1896
 
Toda esta semana foi feita pelo telégrafo. Sem essa invenção, que põe o nosso século tão longe daqueles em que as notícias tinham de correr os riscos das tormentas e vir devagar como o tempo anda para os curiosos, sem essa invenção esta semana viveria do que lhe desse a cidade. Certamente, uma boa cidade como a nossa não deixa os filhos sem pão; fato ou boato, eles teriam algo que debicar. Mas, enfim, o telégrafo incumbiu-se do banquete. (...)
Ao contrário, a história parece querer dessoldar alguns dos seus anéis e deitá-los ao mar — ao Mar Negro, se é certo o que nos anuncia o mesmo telégrafo, portador de boas e más novas.  (...)” (grifo nosso)

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Comentário do autor: Esta crônica não se refere propriamente a Antônio Conselheiro, mas sim ao belo papel representado pelo telégrafo a serviço da comunicação das massas, acelerando a transmissão das notícias, independente de serem boas ou más. Apesar de M.A. não ter explicitamente citado a importância de ter à mão as notícias referentes à guerra de Canudos repassadas pelo correspondente Favila Nunes da Gazeta de Notícias in loco, (conforme registrei na Introdução, a instalação de uma linha telegráfica entre Monte Santo e Queimadas, utilizada pela primeira vez numa operação militar), foi muito eficaz a sua utilização na comunicação das notícias que nutriram as crônicas de Machado de Assis.
[SILVA, 1999, 6] anota: "Machado de Assis, nestas crônicas, também se refere a alguns aspectos da modernidade no Rio de Janeiro. O telégrafo é um de seus preferidos. Parte da repercussão da Guerra de Canudos na imprensa nacional e estrangeira deve-se ao telégrafo. Não foi sem propósito que uma das primeiras providências da quarta expedição do exército a Canudos foi a construção da linha telegráfica ligando Queimadas a Monte Santo." 
 
4) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 06/12/1896
 
Antônio Conselheiro é o homem do dia; faz-me lembrar o beri-beri. (...)
Acompanhei a moléstia; vi que se espalhava pouco a pouco, mas segura. Foi assim que chegou à Bahia, e anos depois estava no Rio de Janeiro, de onde passou ao Sul. Hoje é doença nacional. Quando deram por ela, tinha abrangido tudo. Ninguém advertiu na conveniência de sufocá-la nos primeiros focos.
O mesmo sucedeu com Antônio Conselheiro. Este chefe de bando há muito tempo que anda pelo sertão da Bahia espalhando uma boa nova, sua, e arrebanhando gente que a aceita e o segue. Eram vinte, foram cinquenta, cem, quinhentos, mil, dois mil; as últimas notícias dão já três mil. Antes de tudo, tiremos o chapéu. Um homem que, só com uma palavra de fé, e a quietação das autoridades, congrega em torno de si três mil homens armados, é alguém. Certamente, não é digno de imitação; chego a achá-lo detestável; mas que é alguém, não há dúvida. (...)
Como e de que vivem os sectários de Antônio Conselheiro? Não acho notícia exata deste ponto, ou não me lembro. Se não têm rendas, vivem naturalmente das do mato, caça e fruta, ou das dos outros, como os salteadores. A verdade é que vivem. A crença no chefe é grande; Antônio Conselheiro tem tal poder sobre os seus amigos, que fará deles o que quiser. Agora mesmo, no primeiro ataque da força pública, sabe-se que eles, baleados, vinham às fileiras dos soldados para cortá-los a facão, e morrer. Entretanto, eles têm amigos estabelecidos à sombra das leis. Um telegrama diz que da cidade de Alagoinhas mandaram pólvora e chumbo ao chefe. Apreenderam-se caixões com armas que iam para ele ¹. Os sectários batem-se com armas Comblain e Chuchu. Dizem as notícias que não se pode destruir tal gente com menos de seis mil homens de tropa. Talvez mais; um fanático, certo de ressuscitar daí a quinze dias, como ele assegura, vale por três homens. (...)
Há um ponto novo nesta aventura baiana; está nos telegramas publicados anteontem. Dizem estes que Antônio Conselheiro bate-se para destruir as instituições Republicanas. Entretanto, como a alma passa por estados diferentes, não é absurdo que o atual estado da [batalha] do nosso patrício seja a ambição política. Pode ser que ele, desde que se viu com três mil homens armados e subordinados, tenha sentido brotar do espírito profético o espírito político, e pense em substituir-se a todas as Constituições. Imaginará que, possuindo a Bahia, possui Sergipe, logo depois Alagoas, mais tarde Pernambuco e o resto para o norte e para o sul. Dizem que ele declarou que há de vir ao Rio de Janeiro. Não é fácil, mas todos os projetos são verossímeis, e, dada a ambição política, o resto é lógico. Ele pode pensar que chega, vê e vence 
². Suponhamos nós que é assim mesmo; que as calamidades do tempo e o espírito da rebelião se dão as mãos para entregar a vitória ao chefe da seita dos Canudos. Canudos é, como sabeis, o lugar onde ele e o seu exército estão agora entrincheirados. Isto suposto, que será o dia de amanhã?
Lealmente, não sei. Eu não sou profeta. Se fosse, talvez estivesse agora no sertão, com outros três mil sequazes, e uma seita fundada. E faria o contrário daquele fundador. Não viria aos centros povoados, onde a corrupção dos homens torna difícil qualquer organização sólida, e o espírito de rebelião vive latente, à espera de oportunidade. Não, meus amigos, era lá mesmo no sertão, onde os bichos ainda não jogam nem são jogados; era no mais fechado, áspero e deserto que eu levantaria a minha cidade e a minha igreja. 
 
Rua do Ouvidor, local de reunião da elite política e intelectual-Rio, 1890-Foto de Marc Ferrez-Crédito: Acervo Instituto Moreira Salles
Antônio Conselheiro não compreende essa vantagem de fazer obra nova em sítio devoluto. Quer vir aqui, quer governar perto da rua do Ouvidor. Naturalmente, não nos dará uma Constituição liberal, no sentido anárquico deste termo. Talvez nem nos dê cópia ou imitação de nenhuma outra, mas alguma coisa inédita e inesperada. O governo será decerto pessoal; ninguém gasta paciência e anos no mato para conquistar um poder e entregá-lo aos que ficaram em suas casas. O exemplo de Orélie-Antoine I (e único), rei dos Araucânios, não o seduzirá a pôr uma coroa na cabeça. Cônsul e Protetor são títulos usados. Palpita-me que ele se fará intitular simplesmente Conselheiro, e, sem alterar o nome, dividi-lo-á por uma vírgula: “Antônio, Conselheiro, por ordem de Deus e obediência do povo”... Terá um conselho, câmara única e pequena, não incumbida de votar as leis, mas de as examinar somente, pelo lado ortográfico e sintático, pelo número de letras consoantes em relação às vogais, idade das palavras, energia dos verbos, harmonia dos períodos, etc., tudo exposto em relatórios longos, minuciosos, ilegíveis e inéditos.
Venerado como profeta, obedecido como chefe de Estado, investido de ambos os gládios, com as chaves do céu e da terra na gaveta, Antônio Conselheiro verá o seu poder definitivamente posto? Como tudo isto é sonho, sonhemos que sim; mas Oliveiro terá um Ricardo por sucessor, e a obra do primeiro perecerá nas mãos do segundo, sem outro resultado mais que haver o profeta governado perto da rua do Ouvidor. Ora, esta rua é o alçapão dos governos. Pela sua estreiteza, é a murmuração condensada, é o viveiro dos boatos, e mais faz um boato que dez artigos de fundo. Os artigos não se lêem, principalmente se o contribuinte percebe que tratam de orçamento e de imposto, matérias já de si aborrecíveis. O boato é leve, rápido, transparente, pouco menos que invisível. Eu, se tivesse voz no Conselho Municipal, antes de cuidar do saneamento da cidade, propunha o alargamento da rua do Ouvidor. Quando este beco for uma avenida larga em que as pessoas mal se conheçam de um lado para outro, terão cessado mil dificuldades políticas. Talvez então se popularizem os artigos sobre finanças, impostos e outras rudes necessidades do século. (...) 
 
¹  Telegrama com as informações referidas pelo cronista pode ser lido na Gazeta de Notícias (ano XXII, n. 339, p. 1, col. 4, 04/12/1896): 
ANTONIO CONSELHEIRO
Do nosso correspondente na Bahia recebemos ontem o seguinte telegrama:
"Chegou hoje a força que daqui seguiu sob o comando do tenente Ferreira Pires contra Antonio Conselheiro; os feridos vieram transportados em padiolas. 
O tenente narrou o seguinte: 
Que na ocasião do ataque foi impossível o emprego de tática militar, em vista da fúria desordenada dos atacantes;
Que mandara entrincheirar a força por ser o melhor meio de combater os bandidos;
Que Conselheiro tinha informação exata da força que marchara contra ele;
Que Conselheiro enviou 500 bandidos armados de Comblain e armas Chuchu, clavinotes e facões para baterem a força e tomarem o armamento;
Que Conselheiro tem mais de três mil homens em armas, sendo preciso um número superior de praças para combater;
Que João Abade, chefe, comandou os bandidos na luta;
Que, apesar da grande mortandade dos fanáticos, Conselheiro continua a  reunir adeptos e facínoras de todas as paragens, garantindo que no prazo de 15 a 60 dias ressuscitarão os fanáticos mortos na ação;
Que o Conselheiro batalha contra a instituição republicana, garantindo ir ao Rio de Janeiro;
Que o alferes Carlos Coelho morrera por se ter excedido, deixando a casa onde estava entrincheirado e, saindo armado de carabina contra os bandidos, recebera no regresso uma bala pelas costas;
Que os mortos da força pública foram enterrados na capelinha do povoado de Uauá;
Que, se tivesse chegado à povoação dos Canudos, teria perecido com toda a força pública.
A força chegou estropiada. Consta que da cidade de Alagoinhas mandaram pólvora e chumbo a Antonio Conselheiro. Sabe-se que foram apreendidos 2 caixões contendo armas destinadas a Conselheiro.
Cartas do sertão narram cenas sanguinolentas praticadas pelos bandidos após o combate; Mauá ficou um montão de ruínas; Conselheiro mandou trucidar um velho com toda a família por querer sair da companhia dele. O tenente Pires levou longa conferência com o chefe da segurança.
Esta autoridade respondeu ao telegrama do questor de Pernambuco, que o governo da Bahia está vigilante quanto aos negócios do norte do Estado, que daqui seguiu força para Queimados com destino à povoação de Canudos e que Juazeiro tem força estadual.
Não há fundamento para o receio de invasão em Petrolina pelos sequazes de Antonio Conselheiro.
Consta que a força sob o comando do major Febrônio contra Conselheiro seguiu ontem de Queimados com destino à povoação Canudos.
Grande ansiedade no espírito público.
 
² Os verbos aqui são usados no tempo presente. Esses mesmos verbos foram utilizados pelo general e líder romano Júlio César no passado: Veni, vidi, vici, significando Cheguei, vi, venci.
Ele a utilizou em 47 a.C. em uma carta enviada ao Senado Romano para descrever sua vitória rápida e decisiva sobre Fárnaces II (rei do Ponto) na Batalha de Zela. 
 
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Na altura dessa crônica de Machado de Assis, já era conhecida dele a primeira humilhante derrota das forças oficiais para os conselheiristas. [COSTA, 2017, 13] relata o ocorrido no mês de novembro de 1896: 
"1896 – novembro. O tenente Manuel da Silva Pires Ferreira comanda a primeira expedição militar contra Canudos formada por 113 soldados, oficiais, médico e guias recrutados nas forças do estado da Bahia. Sofrem um ataque de emboscada dos conselheiristas em Uauá e embora com poucas baixas, as tropas governamentais são obrigadas a recuar, voltar a Juazeiro, e desistir de alcançar o arraial de Belo Monte." 
 
5) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 27/12/1896 
 
Leitor, aproveitemos esta rara ocasião que os deuses nos deparam. Só dois fôlegos vivos não são candidatos ao governo da cidade, tu e eu. E ainda assim não respondo por ti; neste século de maravilhas pode dar-se que um candidato tenha alma bastante para ler, ao café, uma coluna de sensaborias, e ir depois pleitear a palma de combate. Tudo é possível. Já se vêem ossos através da carne; dizem que Édison medita dar vista aos cegos. É o que faz na Bahia, sem outro instrumento mais que a sugestão, o nosso grande taumaturgo Antônio Conselheiro. (...)” (grifo nosso)

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Sobre esta crônica, [NOVAIS Fº, 2007, 253] faz as seguintes elucubrações:
"Na última crônica de 1896 - publicada em 27 de dezembro - cujo tema central eram as eleições, Machado comenta sarcasticamente o grande número de candidatos. E num diálogo com o leitor, supõe que apenas este último não dispute nenhum cargo. Mas não garante pelo leitor que, mesmo lendo a sua crônica semanal, pode também pleitear uma vaga. Admite, logo depois, que naquele século tudo seria possível. Como exemplo, cita a descoberta dos Raios X, comenta os planos de Thomas Edison em fazer os cegos enxergarem e fala que o Conselheiro anda fazendo tal proeza "sem outro instrumento mais que a sugestão".
Este irônico e breve comentário sobre o Conselheiro certamente foi baseado em boatos difundidos pela imprensa. Fica evidente, portanto, a influência das notícias na maneira com que Machado de Assis percebe Canudos e Antônio Conselheiro nesse momento. Mesmo encarando com desconfiança as notícias vindas da Bahia, Machado acaba reproduzindo a versão veiculada pela imprensa. Entretanto, o posicionamento do escritor nessa crônica não lhe tira o mérito da lúcida e desconfiada abordagem, no período que antecedeu a guerra, sobre os fatos que envolviam Conselheiro e seus seguidores, enquanto na imprensa em geral as opiniões lhes eram hostis." 
 
6)  Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 31/01/1897
 
Os direitos da imaginação e da poesia hão de sempre achar inimiga uma sociedade industrial e burguesa. Em nome deles protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro. Este homem fundou uma seita a que se não sabe o nome nem a doutrina. Já este mistério é poesia. Contam-se muitas anedotas, diz-se que o chefe manda matar gente, e ainda agora fez assassinar famílias numerosas porque o não queriam acompanhar. É uma repetição do crê ou morre; mas a vocação de Maomé era conhecida. De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos. Diz-se que tem consigo milhares de fanáticos. Também eu o disse aqui, há dois ou três anos, quando eles não passavam de mil ou mil e tantos. Se na última batalha é certo haverem morrido novecentos deles e o resto não se despega de tal apóstolo, é que algum vínculo moral e fortíssimo os prende até a morte. Que vínculo é esse?
No tempo em que falei aqui destes fanáticos, existia no mesmo sertão da Bahia o bando dos clavinoteiros. O nome de clavinoteiros dá antes idéia de salteadores que de religiosos; mas se no Corão está escrito que “o alfanje é a chave do céu e do inferno”, bem pode ser que o clavinote seja a gazua, e para entrar no céu tanto importará uma como outra; a questão é entrar. Não obstante, tenho para mim que esse bando desapareceu de todo; parte estará dando origem a desfalques em cofres públicos ou particulares, parte à volta das urnas eleitorais. O certo é que ninguém mais falou dele. De Antônio Conselheiro e seus fanáticos nunca se fez silêncio absoluto. Poucos acreditavam, muitos riam, quase todos passavam adiante, porque os jornais são numerosos e a viagem dos bonds é curta; casos há, como os de Santa Teresa, em que é curtíssima. Mas, em suma, falava-se deles. Eram matéria de crônicas sem motivo.
Entre as anedotas que se contam de Antônio Conselheiro, figura a de se dar ele por uma encarnação de Cristo, acudir ao nome de Bom Jesus e haver eleito doze confidentes principais, número igual ao dos apóstolos. O correspondente da Gazeta de Notícias mandou ontem notícias telegráficas, cheias de interesse, que toda gente leu, e por isso não as ponho aqui; mas, em primeiro lugar, escreve da capital da Bahia, e, depois, não se funda em testemunhas de vista, mas de oitiva; deu-se honesta pressa em mandar as novas para cá, tão minuciosas e graves, que chamaram naturalmente a atenção pública. Outras folhas também as deram; mas serão todas verdadeiras? Eis a questão. O número dos sequazes do Conselheiro sobe já a dez mil, não contando os lavradores e comerciantes que o ajudam com gêneros e dinheiros.
Dado que tudo seja exato, não basta para conhecer uma doutrina. Diz-se que é um místico, mas é tão fácil supô-lo que não adianta nada dizê-lo. Nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos. Um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais sub-chefes, podia ia ao centro da seita nova e colher a verdade inteira sobre ela. Seria uma proeza americana. Seria uma empresa quase igual à remoção do Bendegó ¹, que devemos ao esforço e direção de um patrício tenaz. Uma comissão não poderia ir; as comissões geralmente divergem logo na data da primeira conferência, e é duvidoso que esta desembarcasse na Bahia sem três opiniões (pelo menos) acerca do Juazeiro.
Não se sabendo a verdadeira doutrina da seita, resta-nos a imaginação para descobri-la e a poesia para floreá-las. Estas têm direitos anteriores a toda organização civil e política. A imaginação de Eva fê-la escutar sem nojo um animal tão imundo como a cobra, e a poesia de Adão é que o levou a amar aquela tonta que lhe fez perder o paraíso terrestre.
Que vínculo é esse, repito, que prende tão fortemente os fanáticos ao Conselheiro? Imaginação, cavalo de asas, sacode as crinas e dispara por aí a fora; o espaço é infinito. Tu, poesia, trepa-lhe aos flancos, que o espaço, além de infinito, é azul. Ide, voai, em busca da estrela de ouro que se esconde além, e mostrai-nos em que é que consiste a doutrina deste homem. Não vos fieis no telegrama da Gazeta, que diz estarem com ele quatro classes de fanáticos, e só uma delas sincera. Primeiro que tudo, quase não há grupo a que se não agregue certo número de homens interessados e empulhadores; e, se vos contentais com uma velha chapa, a perfeição não é deste mundo. Depois, se há crentes verdadeiros, é que acreditam em alguma coisa. Essa coisa é que é o mistério. Tão atrativa é ela que um homem, não suspeito de conselheirista, foi com a senhora visitar o apóstolo, deixando-lhe de esmola quinhentos mil réis, e ela quatrocentos mil. Esta notícia é sintomática. Se um pai de família, capitalista ou fazendeiro, pega em si e na esposa e vai dar pelas próprias mãos algum auxílio pecuniário ao Conselheiro, que já possui uns cem contos de réis, é que a palavra deste passa além das fileiras de combate.
Não trato, porém, de conselheiristas ou não conselheiristas; trato do conselheirismo, e por causa dele é que protesto e torno a protestar contra a perseguição que se está fazendo à seita. Vamos perder um assunto vago, remoto, fecundo e pavoroso. Aquele homem, que reforça as trincheiras envenenando os rios, é um Maomé forrado de um Bórgia. Vede que acaba de despir o burel e o bastão pelas armas; a imagem do bastão e do burel dá-lhe um caráter hierático. Enfim, deve exercer uma fascinação grande para incutir a sua doutrina em uns e a esperança da riqueza em outros. Chego a imaginar que o elegem para a câmara dos deputados, e que ele aí chega, como aquele francês muçulmano, que ora figura na câmara de Paris, com turbante e burnu. Estou a ver entrar o Conselheiro, deixando o bastão onde outros deixam o guarda-chuva e sentando o burel onde outros pousam as calças. Estou a vê-lo erguer-se e propor indenização para os seus dez mil homens dos Canudos... 
A perseguição faz-nos perder isto; acabará por derribar o apóstolo, destruir a seita e matar os fanáticos. A paz tornará ao sertão, e com ela a monotonia. A monotonia virá também à nossa alma. Que nos ficará depois da vitória da lei? A nossa memória, flor de quarenta e oito horas, não terá para regalo a água fresca da poesia e da imaginação, pois seria profaná-las com desastres elétricos de Santa Teresa, roubos, contrabandos e outras anedotas sucedidas nas quinta-feiras para se esquecerem nos sábados.
 
 
¹ O meteorito Bendegó é o maior já encontrado no Brasil e sua remoção foi tentada pela primeira vez em 1785; no entanto, só lograram êxito em 1887, quando uma equipe de engenheiros comandada pelo oficial aposentado José Carlos de Carvalho o removeu do leito do riacho homônimo.
 
Meteorito de Bendegó

 
 
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Estas observações de Machado sobre a imprensa são surpreendentemente avançadas para a época, e certamente podem também ser elencadas entre as suas premonições. O que ele estava cobrando dos jornais da época é a apuração da notícia e a presença, no local dos fatos, de um profissional que hoje conhecemos como repórter fotográfico. Machado antecipa também a superioridade dos americanos, que hoje são imbatíveis em tecnologia de comunicação. 
 
Sobre esta crônica, [SILVA, 1999, 6] comenta:
Um tema recorrente no conjunto de crônicas machadianas sobre Canudos é a defesa que ele faz da liberdade de imprensa, de religião e, principalmente, da liberdade de expressão. Esta defesa no entanto não é feita em detrimento das críticas aos jornais. Machado desconfia seriamente dos telegramas que chegam de Canudos e que são publicados nos periódicos. 
Na crônica de 31/01/1897, da qual já foram reproduzidos aqui alguns trechos, Machado comenta a atuação dos jornais e em especial os telegramas: 
“O correspondente da Gazeta de Notícias mandou ontem notícias telegráficas, cheias de interesse, que toda gente leu, e por isso não as ponho aqui; mas, em primeiro lugar, escreve da capital da Bahia, e, depois, não se funda em testemunhas de vista, mas de oitiva; deu-se honesta pressa em mandar as novas para cá, tão minunciosas e graves, que chamaram naturalmente a atenção pública. Outras folhas também as deram; mas serão todas verdadeiras? (...)  
E, adiante: 
(...) “Nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos. Um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais subchefes, podia ir ao centro da seita nova e colher a verdade inteira sobre ela. Seria uma proeza americana.”(...)
 
[Idem, ibidem, 8] ainda anota: Machado de Assis, nesta crônica, também se refere a alguns aspectos da modernidade no Rio de Janeiro. O telégrafo é um de seus preferidos. Parte da repercussão da Guerra de Canudos na imprensa nacional e estrangeira deve-se ao telégrafo. Não foi sem propósito que uma das primeiras providências da quarta expedição do exército a Canudos foi a construção da linha telegráfica ligando Queimadas a Monte Santo.” 
[ZILLY, 1999] complementa esta informação com outros ingredientes: “Foi a primeira vez que o próprio exército brasileiro fez questão de documentar uma guerra fotograficamente. Essas imagens foram elemento significativo no conjunto dos esforços propagandísticos do exército e das elites, no sentido de uma política de informações e desinformações perante a opinião pública no Brasil e no mundo, com frequentes comunicados para a imprensa nacional e internacional. Uma das primeiras atividades da quarta e última expedição foi a construção do telégrafo de Queimadas até Monte Santo, posto avançado da civilização perto de Canudos e base das operações, com papel portanto não só estritamente militar. Mediante o controle do telégrafo e, de modo geral, dos correios, o exército praticou uma ferrenha censura, além de ameaças físicas contra correspondentes que divulgassem notícias indesejáveis para a tropa, como no caso do corajoso Manuel Benício, do Jornal do Commercio, obrigado a deixar a zona da guerra.
 
 
7) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 14/02/1897
 
Conheci ontem o que é celebridade. Estava comprando gazetas a um homem que as vende na calçada da Rua de São José, esquina do Largo da Carioca, quando vi chegar uma mulher simples e dizer ao vendedor com voz descansada:

— Me dá uma folha que traz o retrato desse homem que briga lá fora. 
— Quem?
— Me esqueceu o nome dele.

Leitor obtuso, se não percebeste que “esse homem que briga lá fora” é nada menos que o nosso Antônio Conselheiro, crê-me que és ainda mais obtuso do que pareces. A mulher provavelmente não sabe ler, ouviu falar da seita dos Canudos, com muito pormenor misterioso, muita auréola, muita lenda, disseram-lhe que algum jornal dera o retrato do Messias do sertão, e foi comprá-lo, ignorando que nas ruas só se vendem as folhas do dia. Não sabe o nome do Messias; é “esse homem que briga lá fora”. A celebridade, caro e tapado leitor, é isto mesmo. O nome de Antônio Conselheiro acabará por entrar na memória desta mulher anônima, e não sairá mais. Ela levava uma pequena, naturalmente filha; um dia contará a história à filha, depois à neta, à porta da estalagem, ou no quarto em que residirem.

Esta é a celebridade. Outra prova é o eco de Nova Iorque e de Londres onde o nome de Antônio Conselheiro fez baixar os nossos fundos. O efeito é triste, mas vê se tu, leitor sem fanatismo, vê se és capaz de fazer baixar o menor dos nossos títulos. Habitante da cidade, podes ser conhecido de toda a Rua do Ouvidor e seus arrabaldes, cansar os chapéus, as mãos, as bocas dos outros em saudações e elogios; com tudo isso, com o teu nome nas folhas ou nas esquinas de uma rua, não chegarás ao poder daquele homenzinho, que passeia pelo sertão uma vila, uma pequena cidade, a que só falta uma folha, um teatro, um clube, uma polícia e sete ou oito roletas, para entrar nos almanaques.

Um dia, anos depois de extinta a seita e a gente dos Canudos, Coelho Neto, contador de coisas do sertão, talvez nos dê algum quadro daquela vida, fazendo-se cronista imaginoso e magnífico deste episódio que não tem nada fim-de-século. Se leste o Sertão, primeiro livro da “Coleção Alva”, que ele nos deu agora, concordarás comigo. Coelho Neto ama o sertão, como já amou o Oriente, e tem na palheta as cores próprias — de cada paisagem. Possui o senso da vida exterior. Dá-nos a floresta, com os seus rumores e silêncios, com os seus bichos e rios, e pinta-nos um caboclo que, por menos que os olhos estejam acostumados a ele, reconhecerão que é um caboclo. (...)
 
Os costumes são rudes e simples, agora amorosos, agora trágicos, as falas adequadas às pessoas, e as ideias não sobem da cerebração natural do matuto. Histórias sertanejas dão acaso não sei que gosto de ir descansar, alguns dias, da polidez encantadora e alguma vez enganadora das cidades. Varela sabia o ritmo particular desse sentimento; Gonçalves Dias, com andar por essas Europas fora, também o conhecia; e, para só falar de um prosador e de um vivo, Taunay dá vontade de acompanhar o Dr. Cirino e Pereira por aquela longa estrada que vai de Sant’Ana de Paranaíba a Camapuama, até o leito da graciosa Nocência. Se achardes no Sertão muito sertão, lembrai-vos que ele é infinito, e a vida ali não tem esta variedade que não nos faz ver que as casas são as mesmas, e os homens não são outros. Os que parecem outros um dia é que estavam escondidos em si mesmos.

Ora bem, quando acabar esta seita dos Canudos, talvez haja nela um livro sobre o fanatismo sertanejo e a figura do Messias. Outro Coelho Neto, se tiver igual talento, pode dar-nos daqui a um século um capítulo interessante, estudando o fervor dos bárbaros e a preguiça dos civilizados, que os deixaram crescer tanto, quando era mais fácil tê-los dissolvido com uma patrulha, desde que o simples frade não fez nada. Quem sabe? Talvez então algum devoto, relíquia dos Canudos, celebre o centenário desta finada seita.

Para isso, basta celebrar o centenário da cabeleira do apóstolo, como agora, pelo que diz o Jornal do Comércio, comemoraram em Londres o centenário da invenção do chapéu alto. (...) 
Com efeito, lá vai um século, e ainda não acabou o chapéu alto. (...) Tem-se dito muito mal deste chapéu. Chamam-lhe cartola, chaminé, e não tarda canudo, para rebaixá-lo até a cabeleira hirsuta de Antônio Conselheiro.

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Em relação à premonição do bruxo do Cosme Velho de que "outro Coelho Neto, se tiver igual talento, pode dar-nos daqui a um século um capítulo interessante", [SILVA, ibidem, 10] faz o seguinte comentário sobre o Centenário de Canudos em 1997: “O museólogo Cícero Antônio F. de Almeida, ao analisar em artigo o álbum fotográfico de Flávio de Barros sobre a Guerra de Canudos lembrou-se da crônica de Machado de Assis mencionada acima e observou que o vaticínio machadiano cumpriu-se de alguma forma, através de Flávio de Barros, embora suas fotos não tenham sido impressas nos jornais da época, pois eles ainda não eram ilustrados com fotografias.” (grifo nosso)
 
Falando sobre o ostracismo que sofreu o criador  das fotos Flávio de Barros, [ZILLY, ibidem] observa com grande acuidade: “Ostracismo atenuado hoje em dia, pois agora, graças ao Centenário de Canudos e ao sistema decimal que o condicionou, temos afinal, pela primeira vez em forma de livro, diante de nós, a coleção completa das 69 fotografias da guerra, importante contribuição aos estudos históricos e homenagem póstuma ao fotógrafo semi-anônimo. Devemos esse belo trabalho de pesquisa e editoração ao Museu da República e, mais especificamente, a Cícero de Almeida, chefe da Divisão de Pesquisas, onde se guarda uma das duas únicas coleções completas conservadas até hoje em dia, encontrando-se a outra nas mãos do antropólogo baiano Renato Ferraz. Pode-se felicitar o Museu e a editora Lacerda pelo empreendimento, há muito esperado e desejado por leigos e especialistas. Tais fotografias, em dois álbuns, um de 15 e outro de 54 tomadas, são as únicas existentes sobre a guerra de Canudos e constituem a parte mais preciosa da escassa iconografia autêntica sobre esse episódio da história brasileira, formada, além disso, por poucos croquis e mapas desenhados por jornalistas e soldados, entre os quais Euclides da Cunha e o tenente-coronel Siqueira de Menezes. Mas elas também prefiguram de alguma maneira os trabalhos de fotógrafos que iriam a Canudos décadas mais tarde: Pierre Verger, Maureen Bisilliat, Walter Firmo, Markus Kirchgessner, Antonio Olavo, Evandro Teixeira, Anna Mariani, entre outros.
 
 
 
III. BIBLIOGRAFIA 
 
 
ALMEIDA, Cícero A.F.; BARROS, Flávio de. Canudos: imagens da guerra. Rio de Janeiro: Lacerda Editores; Museu da República. 1997. 
 
CALASANS, José: Cartografia de Canudos. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo: Conselho Estadual de Cultura: EGBA, 1997, 145 p.
 
CALLIPO, Daniela: "Canção de Piratas": Antônio Conselheiro e Victor Hugo na crônica de Machado de Assis,  Revista Eutomia da UFPE, Ano I, nº 1, pp. 202-214
 
COSTA, Carla: Cronologia resumida da Guerra de Canudos, Museu da República/IBRAM/MinC, outubro de 2017, 64 p.
 
NASCIMENTO, José Golçalves do: Antonio Conselheiro na mira da imprensa, no Blog Cariri Cangaço
 
NOVAIS Fº, Joaquim Antonio: A crônica de Machado de Assis: lucidez e ironia no trato das notícias sobre Antônio Conselheiro e Canudos, Vitória da Conquista: Edições UESB, 2007, pp. 247-256.
SAMPAIO, Consuelo Novais: Canudos: a construção do medo. In: SAMPAIO, Consuelo Novais (org.): Canudos: cartas para o barão. São Paulo: Edusp, 1999.
 
SIEGA, P.R. & CERIBELI, M.C.B.:  Canudos e a mídia republicana de fim do século: os gestos de leitura de Euclides da Cunha e Machado de Assis, Porto Alegre: Letras de Hoje, v. 60, nº 1, pp. 1-14, jan/dez 2025.
 
SILVA, Dácia Ibiapina da: O licor precioso e a água chilra: A Guerra de Canudos nas crônicas de Machado de Assis e Olavo Bilac, trabalho apresentado no XXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado de 6 a 10/09/1999, na Universidade Gama Filho. 
 
ZILLY, Berthold:  Flávio de Barros, o ilustre cronista anônimo da guerra de Canudosas fotografias que Euclides gostaria de ter tirado, História Ciências, Saúde: Manguinhos. Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz. Volume V, suplemento, julho de 1998.

2 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Serão analisadas neste trabalho sete crônicas de MACHADO DE ASSIS sobre o tema da Guerra de Canudos. Elas fazem parte de A Semana, coluna que este mantinha no jornal Gazeta de Notícias e foram publicadas entre julho de 1894 e fevereiro de 1897.
A leitura dessas crônicas, mais de um século depois, torna-se esclarecedora sobre como a Guerra de Canudos era vista da distante capital federal. Este ilustre cronista nos traz tanto a visão pessoal do tema, quanto o contexto e a repercussão dos fatos nos meios políticos, nos jornais e principalmente nas ruas do Rio de Janeiro.

Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/05/antonio-conselheiro-na-cronica-de.html

Cordial abraço,
Francisco Braga

Francisco José dos Santos Braga disse...

Pedro Rogério Moreira (jornalista e sócio da Gracián Telecom, cronista e memorialista brasileiro) disse...
Obrigado, mestre Braga.