quinta-feira, 4 de maio de 2017

A MORTE DE BACH


Por Francisco José dos Santos Braga



I.  INTRODUÇÃO



No presente trabalho apresento duas descrições, tanto em poesia quanto em prosa, sobre o mesmo episódio da existência de Johann Sebastian Bach: a sua despedida deste mundo. São duas visões que estão muito próximas. Uma em forma poética, na qual o autor alagoano Judas Isgorogota utiliza alguma liberdade poética e a criatividade diante do triste fato. Por outro lado, apreciaremos antes a "suposta" visão da segunda esposa de Bach, Anna Magdalena Bach, em prosa, sobre os  últimos dias do seu marido neste mundo. 

Aqui será observada rigorosamente a grafia dos autores.



II.  QUEM FOI ANNA MAGDALENA BACH?



"Pequena Crônica de Anna Magdalena Bach", um relato da vida familiar de Bach não baseado em quaisquer fontes e provavelmente apresentando um retrato muito distante da personalidade de Anna Magdalena Bach, não foi escrito pela própria, mas pela autora inglesa Esther Meynell em 1925,  que produziu essa novela autobiográfica, monumental, embora fictícia,  mostrando a convivência de Anna Magdalena com o maior músico de todos os tempos. 

Encontrei na Wikipédia informações sobre a biografia de Anna Magdalena que resumo abaixo: 
Anna Magdalena Wilcke nasceu em 22/09/1701 em Zeitz, na Saxônia, numa família musical. Seu pai, Johann Caspar Wilcke, tocava trompete, e sua mãe, Margaretha Elisabeth Liebe, era filha de um organista. Embora se conheça pouco sobre sua anterior educação musical, consta que ela trabalhava como cantora na corte de Cöthen em 1721 e que já conhecia Johann Sebastian Bach há algum tempo.

Bach e sua primeira esposa, Maria Barbara (primos)-Retrato de Bach, de 1748, pintado por Elias Gottlob Hausmann

Casou com Bach em 3 de dezembro de 1721, dezessete meses após a morte de sua primeira esposa Maria Barbara, com quem Bach já tinha tido 7 filhos. Juntos, Bach e Anna Magdalena tiveram 13 filhos durante o período de 1723-1742, dos quais sete morreram ainda crianças. Entre os seis sobreviventes que chegaram à idade adulta, destacaram-se os proeminentes compositores Johann Christian Bach e Johann Christoph Friedrich Bach.

Bach e sua segunda esposa, Anna Magdalena

Foi um casamento feliz, para o qual contribuiu o interesse que ambos tinham pela música. Johann Sebastian escreveu para ela várias composições (ela sempre o ajudava a transcrever suas músicas), sendo as mais conhecidas as que compõem os dois volumes do "Notenbüchlein für Anna Magdalena Bach" (O Pequeno Livro para ¹ Anna Magdalena Bach).
Na época em que a família Bach esteve em Leipzig, a casa de Bach tornou-se uma espécie de centro musical, onde o casal organizava regularmente noites musicais em que toda a família, junto com amigos visitantes, cantava e tocava.
Após a morte de Bach em 1750, seus filhos entraram em conflito e se separaram. Isso deixou Anna Magdalena vivendo sozinha com suas duas filhas mais jovens e uma enteada do primeiro casamento de seu marido. Embora elas se mantivesse fiéis a ela, ninguém mais da família a ajudou economicamente. 
Anna Magdalena ficou cada vez mais dependente da caridade e das ajudas do conselho da cidade. Ela morreu em 22 de fevereiro de 1760.
Teria Anna Magdalena Bach colaborado na composição de grandes obras de Bach?

Já é bem conhecido que Anna Magdalena Wilcke trabalhou como cantora e copista musical, embora não haja nenhum registro de ter composto música original. Não obstante, pesquisas e especulações recentes parecem indicar que Anna Magdalena Bach pode ter sido a compositora de várias peças musicais atribuídas a seu marido, destacando-se nestas pesquisas Karl Geiringer, com seu livro "A Família de Músicos Bach: Vida e Atividades em três Séculos. Com colaboração de Irene Geiringer", Munique: C.H. Beck, 1958.
Também o musicólogo Ph.D. Prof. Martin Jarvis da Escola de Música na Universidade de Charles Darwin em Darwin, Austrália, desde 2006 alega que a qualidade da escrita e das correções mostra que Anna estava na realidade antes escrevendo de uma maneira criativa do que copiando do manuscrito de Bach. Utilizando técnicas de análise grafológica, defende que Anna Magdalena era muito mais do que uma mãe e simples copista: como assistente de Bach, teria composto as famosas seis Suítes para violoncelo (BWV 1007-1012) e esteve envolvida com a composição da ária das Variações Goldberg (BWV 988) para cravo e o prelúdio de abertura da coletânea conhecida por "O Cravo Bem-Temperado". Essas ideias foram também colocadas num documentário de TV intitulado "Escrito por Sra. Bach".
Heidi Harralson, fundadora do Spectrum Forensic International e presidente da National Association of Document Examiners, passou a apoiar a tese da autoria de Anna Magdalena defendida por Jarvis, desde que este publicou uma monografia em 2008 intitulada "A Aplicação de Técnicas Forenses de Exame de Documentos aos Escritos de J. S. Bach e Anna Magdalena Bach", onde afirma: "Os estilos de escrita de Johann Sebastian e Anna Magdalena Bach são marcadamente semelhantes."
Claro que grandes autoridades em Bach, tanto estudiosos quanto intérpretes, não aceitaram as premissas da tese autoral de Martin Jarvis, manifestando-se publicamente contra a sua tese que se baseia na sua própria imaginação e em análise muito subjetiva de manuscritos que há muito tinham sido reconhecidos como do punho de Anna Magdalena, dentre eles, Christoph Wolff, professor da Harvard e diretor do Leipzig Bach Archive de 2001 a 2013; Yo Tomita, professor de música na Queen's University Belfast, que publicou "Anna Magdalena como copista de Bach" in Understanding Bach 2 (2007); o violoncelista Steven Isserlis, em artigo contundente in The Guardian; e, aparentemente, também da Alemanha, o Dr. Georg von Dadelsen da Universidade de Tübingen e o Dr. Yoshitake Kobayashi de Johann-Sebastian-Bach-Institut em Göttingen.

Foge ao escopo deste trabalho apreciar as outras alegações e acusações do professor australiano Jarvis, puramente conjecturais e reconhecidamente sem suporte documental, sobre as relações familiares de Bach tanto com sua primeira esposa (sua prima) quanto com sua segunda esposa (Anna Magdalena). 

Não obstante a fragilidade das alegações de Jarvis, por falta de provas documentais, ainda assim a sua tese da autoria de Anna Magdalena tem recebido um tratamento inteiramente crédulo da parte da mídia que faz cobertura musical, a saber: Telegraph, Jezebel, The Washington Post, USA Today, Daily Mail, France Musique, National Review Online, entre outras.



III.  "A MORTE DE BACH" EM PROSA

 
Esther Meynell, incorporando em 1925 a suposta personalidade de Anna Magdalena Bach, segunda esposa de Johann Sebastian Bach (Eisenach, 21/03/1685 - ✞Leipzig, 28/07/1750, quando contava 65 anos de idade), registrou na "Pequena Crônica de Anna Magdalena Bach" o seguinte trecho a respeito da cegueira de Bach, prelúdio de seu fim:

"Durante a vida inteira ele trabalhara com todas as forças e com toda a vontade para edificar a sua obra. Entregara-se à música sem hesitações desde a infância, até que ela, enfim, lhe custou a vida. Sem contar as composições que escreveu, desde muito moço começou a cansar os olhos copiando partituras. Trabalhava freqüentemente até tarde da noite à luz de candeias, apesar de muitas vezes se queixar de dores de cabeça. Eu o aliviava o melhor que podia, ajudando-o a copiar, incitando os meninos a fazerem o mesmo, e até os seus alunos ofereciam as mãos e os olhos. Nenhum de nós, porém, podia escrever para ele a música que só existia em seu cérebro. Por isso a situação da sua vista piorou tanto que eu tive a dor de vê-lo tatear com a mão o umbral da porta para entrar ou sair, ou a cadeira antes de se sentar. Mas Sebastian não fazia outra coisa senão pedir mais candeias para escrever, como se a multiplicação das luzes pudesse compensar o obscurecimento da visão. "É preciso que eu escreva enquanto ainda posso ver, Magdalena", dizia, erguendo para mim um doloroso olhar pestanejante quando eu me aventurava a pousar uma das mãos em seu ombro. Eu bem sabia, apesar de ele não me ter dito isso, que para ele a perspectiva de ficar cego era mais cruel que a morte. E eu nada podia fazer, além de me afastar para poder chorar, e desejar perder a vista em seu lugar, pois não tinha, como ele, obras a escrever.

Enfim, nessa ansiedade, apareceu um raio de esperança. Um famoso cirurgião inglês, que adquirira grande reputação em seu país, operando casos semelhantes ao de Sebastian, chegou a Leipzig. Era o sr. Johann Taylor. Imediatamente alguns amigos instaram conosco para que aproveitássemos a ocasião e nos confiássemos à habilidade desse médico que com uma operação devia restituir a meu querido marido a vista outrora boa. No início Sebastian se recusou; as despesas e o risco de não melhorar faziam-no hesitar. No entanto, todo mundo o animava, menos eu, felizmente. Para mim era ele que devia resolver. Além disso, a palavra 'operação', tratando-se da vista, esse tão delicado dom divino, fazia-me estremecer; mas de tanto nossos amigos insistirem, repetindo ser a presença do senhor Taylor em Leizig uma oportunidade que não se podia absolutamente perder, Sebastian acabou cedendo ao que pareciam ser bons conselhos. Por outro lado, o senhor Taylor prometeu-lhe os melhores resultados. 

Um belo dia o cirurgião veio, com os seus instrumentos e se pôs a trabalhar nos olhos de Sebastian. Este não dizia uma palavra, mas eu via as suas mãos crispadas irem se tornando brancas, e tinha a impressão de que estavam apertando o meu coração num torno. Por fim vendaram-lhe os olhos. Porém, quando algum tempo depois, lhe retiraram as vendas, verificou-se que, longe de ter melhorado, sua vista ficara pior que antes. Taylor achou que uma nova operação se impunha, realizou-a, mas o resultado foi que meu marido ficou absolutamente cego. Ah, meu Deus, ainda agora sinto a angústia daquele momento! Todavia, quando aconteceu o que mais se temia, Sebastian demonstrou extraordinária paciência. Longe de permanecer tão calma como ele, eu fiquei  horando ao lado do seu leito. Meu marido pousou a mão sobre a minha cabeça e disse: "Devemos ficar contentes por sofrer um pouco; isso nos aproxima de Nosso Senhor, que tanto sofreu por nós." Pediu-me depois para em voz alta ler no livro de Tauler o segundo sermão da Epifania, onde havia uma passagem de que se lembrava, e que desejava ouvir de novo, para o nosso consolo. "Que os meus olhos estivessem na minha cabeça, Deus, nosso Pai celeste, assim quis desde a eternidade; e se agora eles me são arrebatados, e se me torno cego ou surdo, é porque nosso Pai celeste igualmente o previu e assim decidiu desde toda a eternidade. Não devo então abrir meus olhos e meus ouvidos interiores e agradecer a Deus que Sua vontade eterna seja cumprida em mim? Por que hei de ficar triste por isso? Assim deve ser com toda perda, a dos amigos, a da fortuna, e de tudo aquilo que nos faz lembrar de Deus; tudo deve servir para nos preparar e ajudar a esperar a verdadeira paz."

Mas os sofrimentos de Sebastian não se limitaram apenas à perda da vista. Trataram-no também por meio de drogas e sangrias tão violentas (acredito que elas fossem necessárias) que sua forte saúde acabou. Apesar de ter vivido ainda alguns meses, nunca mais se sentiu bem.

Contudo, durante essas últimas semanas uma grande e profunda serenidade se instalou nele. Longe de ter a morte, ansiara por ela a vida inteira, pois ela lhe parecia a verdadeira razão de toda a existência. Foi o sentimento dela que inspirou a sua música. Nunca Sebastian escreveu tão belas melodias como quando uma cantata exprimir o sentimento da morte e da partida deste mundo. Aqueles em quem a genialidade não teve acolhida não podem compreender quanto para um homem como meu marido o dia-a-dia significa um avassalamento de suas capacidades. Receio que eu própria não tenha compreendido isso completamente, enquanto Sebastian viveu. Nunca o ouvi falar de tal coisa, porque éramos felizes e ele estava sempre muito ocupado. Foi, pois, bruscamente que tive a consciência de que a maior esperança da sua vida era morrer, a fim de se reunir ao Salvador, que amava de modo tão profundo. Antigamente esse desejo me aterrava e entristecia, e se era possível eu me esforçava para afastar uma ideia tão triste. Mas desde que ele se foi, e que eu passo o meu tempo a pensar no seu caráter, em sua arte e em suas palavras, compreendendo que a morte significava para ele a suprema libertação. Seu gênio, que não podia exprimir-se plenamente neste mundo, se expandiria enfim nos espaços celestes. (...)  

Nem mesmo a cegueira o impediu de trabalhar até o momento final, ajudado pelo antigo discípulo, que se tornara seu genro, Christoph Altnikol, e por um novo aluno mais jovem, Johann Gottfried Muthel, que então vivia conosco.

Incapaz de repousar, não perdia um só minuto do escasso tempo que lhe restava para viver. Estava revendo os seus dezoito grandes corais para órgão quando as últimas forças o abandonaram. O calor de julho o havia feito sofrer muito, e as dores e a fraqueza já não lhe permitiam deixar o leito. Com que precisão me lembro de todos os detalhes das suas últimas horas, dos seus últimos minutos! Sofria tanto nos últimos dias que eu fiquei de vigília três noites seguidas. Nós, os que vemos, pensava eu, não podemos imaginar os sofrimentos de quem vive em completa escuridão. Enfim, Deus, na Sua bondade, enviou-lhe algum alívio. Sebastian garantiu-me naquela noite que eu poderia dormir, e pediu-me que fosse repousar. Passava as suas queridas mãos pelo meu rosto e insistia: "Sinto bem como você está cansada. Vá dormir; faça isso por mim."

Deixei-o, pois, para ir me deitar em outro quarto. Nosso querido genro Christoph (Friedemann e Emmanuel estavam ausentes) prometeu-me que ficaria velando. No dia seguinte contou-me que Sebastian, depois de por uma hora ter ficado tão tranqüilo que até o imaginara adormecido, erguera-se subitamente no leito e exclamara: "Christoph, vá buscar papel; tenho uma música na cabeça e queria que você a escrevesse para mim!" Christoph precipita-se em busca de uma folha, uma pena de pato e um tinteiro, e depois, sentado à cabeceira de meu marido, pusera-se a escrever o que ele ditava. Terminado o trabalho, Sebastian deixara tombar a cabeça com um suspiro, murmurando tão baixo que Christoph mal o pôde compreender: "É a última música que farei neste mundo." Em seguida dormira algumas horas, durante as quais os sofrimentos pareciam tê-lo abandonado.

Ao voltar ao quarto, quando ia nascendo o sol, Christoph mostrou-me o manuscrito. "Olha", disse-me, "como é belo! Estou diante do Teu trono. (Vor Deinem Thron tret' ich hiermit)" Como a sua alma luta contra a dor e a obscuridade, como a adorável e serena melodia surge, parecendo um clarão nas trevas, e se ergue até a luz celeste!

As lágrimas, porém, impediam-me de ler a partitura. Olhei o rosto de Sebastian pousado no travesseiro, depois o manuscrito, e senti que aquele era o seu último canto. Reprimindo os soluços, a fim de não o arrancar do sono reparador e bendito, fui até a janela, afastei ligeiramente as cortinas e contemplei o sol que começava a colorir o céu. (...)

Em breve se tornou evidente que o fim estava próximo. "Toquem um pouco de música para mim", disse ele enquanto nos ajoelhávamos à volta do seu leito; "cantem alguma coisa bela sobre a morte, porque a minha hora chegou". Por um momento, angustiada, pensei no que poderíamos cantar. Que música terrestre devíamos dar a esses ouvidos tão prestes a ouvir a do céu? Mas Deus inspirou-me e eu entoei o coral Todos os homens têm de morrer, sobre o qual ele compusera um prelúdio tão comovente para o Pequeno livro de órgão. Os outros se reuniram a mim, até que as quatro vozes ficaram completas. E enquanto cantávamos uma grande paz surgiu no rosto de Sebastian. Ele estava para além das misérias deste mundo.

Foi na terça-feira à noite, 29 de julho de 1750, às oito horas e um quarto, que ele morreu. Estava com sessenta e cinco anos. (...)

Porém, mais intensamente que as palavras do pastor eu ouvi em meu coração as deste coral que Sebastian musicara em seu leito de morte:
"Estou diante do Teu trono, meu Deus,
inteiramente em Tuas mãos.
Volta para mim a Tua face cheia de piedade
e não me recuses a Tua graça".

Fonte: Pequena Crônica de Anna Magdalena Bach, São Paulo: Livraria Veredas Editora Ltda, 1988, pp. 158-165.


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Judas Isgorogota (☆ Lagoa da Canoa-AL, 15/09/1901?-✞ São Paulo, 10/01/1979)


IV.  Poema: A MORTE DE BACH


Por Judas Isgorogota


Bach, em meio da treva que o circunda,
medita. Pensa em Deus. Seu coração de artista,
aquêle seu imenso coração,
eleva-se nas asas do silêncio,
do sonho puro, da consciência calma
e da resignação.

A música ideal que lhe canta aos ouvidos
vem de longe, vem do alto e êle sòmente a escuta:
são harpas a tocar suave e divinamente
allegros feitos de libertação...

Cego ¹, Bach já tateia ao encontro da morte.
E havia que fazer tantas coisas ainda!...

"   Com a harmonia celeste das estrêlas
e êste anseio de amor, fraterno amor
no coração dos homens,
aqui está, Senhor, meu canto derradeiro:
"Das profundezas abismais chamei por ti, Senhor!"

Desce a noite, solene, sôbre o mundo,
enquanto a morte desce calmamente
sôbre o cansado coração de Bach.

"  Senhor, chamei por ti do fundo dos abismos...
meus olhos mergulharam noite a dentro,
mas, tu és o meu sol de luz radiante
que tenho em minha treva, a me amparar...

Deu-se nesse momento o inesperado: o velho músico
olha em redor e vê! A filha, Elizabete,
o seu netinho, que vislumbra agora
pela primeira vez, que tem os olhos vivos
do pai, João Cristiano Altnikol...
Agora, num sorriso olha Ana Magdalena, 
que traz nas mãos de rosa uma rosa vermelha,
maravilhosa rosa da Saxônia
coroada de sol.

"  Que linda rosa!"   diz. Há nos seus olhos,
todo um deslumbramento... um roseiral, ao fim
da primavera, onde se abriam rosas, muitas rosas,
rosas vermelhas, de carmim...

"  Traze o papel e a pena, João Cristiano:
ainda há música em mim..."
E Bach ditou, por fim, o seu último canto,
maravilhoso de ternura humana, 
de resignação e amor:

"  Senhor... Senhor, diante de teu trono,
apresentar-me-ei, muito em breve, Senhor..."

Depois, pediu a todos que cantassem
um coral de Lutero, se pôs a cismar.
E, enlevado, falou à espôsa, num sorriso:

"  Ana, como esta rosa é tão bonita!..."

Disse, logo depois, como a sonhar:

"  Há quanto tempo que eu não via as rosas...
Já sentia não vê-las... Entretanto,
eu vou para um lugar onde há rosas mais lindas...
Jardins celestiais e música mais pura...
Os meus olhos verão o meu próprio Senhor,
nesse lugar..."

E, sonhando que estava, encaminhou-se às alturas,
e entre ritmos e sons, como vivera,
perpetuou-se no ar...

João Sebastião Bach, para cuja grandeza
fôra mister a pauta de dois séculos,
adormecera, enfim, para se eternizar...

E assim morreu, em paz, tranqüilamente,
entre rosas e músicas divinas,
            Bach, o divino Bach! 

Fonte: Música Proibida, São Paulo: Edição Saraiva, 1952, pp. 54-57



V. Vida e obra de Judas Isgorogota


Judas Isgorogota é o pseudônimo do poeta e jornalista alagoano Agnelo Rodrigues de Melo, natural de Lagoa da Canoa, município de Traipu. Segundo ele próprio afirmava, devido a dificuldades de registro imediato ao cartório, a data de seu nascimento (15 de setembro de 1901)  demorou 3 anos, razão por que deve ter nascido em 1898.
Fez o curso primário no Colégio Sagrado Coração de Jesus e o secundário no Instituto Benjamin Constant, ambos em Maceió. 
Em 1918 iniciou sua carreira literária escrevendo, sob o pseudônimo de "Paulo Aaron", ao escrever a seção "Caretas"  para um jornal de Jaraguá, porto de Maceió. Em 1923 e 1924 escreveu uma série de sonetos, numa seção humorística intitulada "Pintando o Sete", para o jornalzinho humorístico "O Bacurau" que se publicava em Jaraguá, onde despertou enorme curiosidade pública com o pseudônimo "Pinto Seth".
Em 1924 chegou a São Paulo. Trabalhou com Monteiro Lobato, em sua Gráfica-Editora nos anos de 1924 e 1925, com excelente atuação na Revista do Brasil.
Em 1926 e 1927 trabalhou no Jornal do Comércio.
Publicou "Divina Mentira" em 1927, quando adotou definitivamente o pseudônimo "Judas Isgorogota".
No mesmo ano começou a trabalhar como redator do jornal A Gazeta, o que contribuiu para o convite que fez a seu irmão Messias de Mello para vir trabalhar em São Paulo, tornando-se este um dos pioneiros da História em Quadrinhos no Brasil.
Em 1929 a 1969 trabalhou em A Gazeta, responsabilizando-se durante vinte anos por sua "Página Literária". 
Desde 1929, Judas redigia, ao lado de Nino Borges, A Gazeta Infantil, o primeiro jornal destinado à infância, criado por Cásper Líbero.
Com o pseudônimo "Papá Noé", escreveu os textos rimados das histórias em quadrinhos com o personagem Pão Duro, criado e ilustrado por seu irmão Messias de Mello, que iniciou sua carreira de ilustrador no jornal A Gazeta, em 1932.
No ano de 1931, realizou uma enquete sobre "O Movimento Literário em São Paulo", na qual foram ouvidos os grandes expoentes da literatura paulista: Martins Fontes, Monteiro Lobato, Guilherme de Almeida, Afonso Schmidt, Menotti del Picchia, Paulo Setúbal e Orígenes Lessa, dentre outros.
Em 1933 casou-se com Nazira Cesar de Melo, com quem teve apenas uma filha, à qual lhe deu o nome de "Rima Augusta".
No mesmo ano, organizou o "primeiro concurso de música brasileira", promovido por "A Gazeta", em comunhão com a Rádio Educadora Paulista. Os artistas vencedores foram agraciados com medalha de ouro.
De 1941 a 1958, secretariou com Luiz Xavier Telles, os "Arquivos da Polícia Civil de São Paulo", a grande revista policial técnico-científica fundada por Carneiro da Fonte.
Além das obras já mencionadas, escreveu Um Pirralho na Arca de Noé (1927), A Fada Negra (1928), O Violino Mágico (1928), Recompensa ¹ e Outros Poemas (1936), Um Passeio na Floresta e O Bandeirante Fernão (1937), Desencanto e João Camacho (1938), Sempre Unidos (1939), Fascinação (1940), Escritores Paulistas dos Séculos XVI, XVII e XVIII (1945), Poesias Musicadas e Os que vêm de longe (1946), Pela Mão das Estrelas (1947), A Época (1947-1948), Poetas Cantores da Língua Portuguesa (1947-1960), Abkar, a Cidade dos Gênios (1949), Interlúdio (1950), Mensagem Lírica do Brasil à Juventude Esportiva (1952), Música Proibida (também em 1952), Sapatinhos de Prata e Versos da Idade de Ouro (1954), O Movimento Simbolista de São Paulo (1956), As Amáveis Lembranças ² (1957), A Árvore Sempre Verde (1959), A Sombra da Asa (1958-1966), Canto do Povo (1966), Cantos da Visitação (1970) e Poemas de Judas Isgorogota (1973).
Dentre seus inúmeros prêmios recebidos por Judas, destaca-se o Prêmio Jabuti de 1961.
Parte de sua obra poética foi traduzida para diversos idiomas (francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, checo e lituano), dando-lhe projeção internacional.




III.  NOTAS  EXPLICATIVAS




¹ A preposição é "para" e não "de", significando que Bach dedicava aquele "pequeno livro" à sua segunda esposa, mesmo que nem todo o seu conteúdo fosse da lavra dele, como tem ficado demonstrado nos trabalhos de inúmeros estudiosos do assunto. No Brasil equivocadamente a Editora Arthur Napoleão Ltda. não só publicou e divulgou uma coletânea com 20 peças com o título "Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach", como incorreu num segundo erro quando considerou que todas as "20 peças fáceis selecionadas" para piano eram  da lavra de J. S. Bach.  Refiro-me aqui à partitura de 1960, que ainda possuo em bom estado. 
Em inglês o referido título seria "Notebook for Anna Magdalena Bach"; em alemão, "Nötenbüchlein für Anna Magdalena Bach". O título original para o primeiro dos dois pequenos livros foi "Clavier-Büchlein vor Anna Magdalena Bach in Anno 1722". (grifo meu)


 
²  Monteiro Lobato refere-se ao poema Recompensa, o qual consta do livro "As Amáveis Lembranças", da seguinte forma:
"Que maravilha, Judas! Ali está a história de milhões de criaturas humanas, as que partem de manhã cheias ainda dos sonhos da noite e chegam a uma cidade muito diferente daquela antevista ao partir."

Recompensa, o poema predileto de Lobato, pode ser lido in https://literaturaemcontagotas.wordpress.com/2012/03/01/agnelo-rodrigue-2/



IV.  BIBLIOGRAFIA 



CAVANAUGH, Tim: Bogus Bach Theory gets Media Singing, in http://www.nationalreview.com/article/391379/bogus-bach-theory-gets-media-singing-tim-cavanaugh

HEWETT, Ivan:  Anna Magdalena Bach: a forgotten genius?, in http://www.telegraph.co.uk/culture/music/classicalmusic/11188594/Anna-Magdalena-Bach-a-forgotten-genius.html

JARVIS, Martin W. B.: The Application of Forensic Document Examination Techniques to the Writings of J. S. Bach and A. M. Bachin http://www.bachnetwork.co.uk/ub3/JARVIS%20-%20YSF.pdf

MEYNELL, Esther: Pequena Crônica de Anna Magdalena Bach, São Paulo: Livraria Veredas Editora Ltda, 1988, 167 p.

WIKIPEDIA:  1. Consulta feita em 02/05/2017 no verbete "Anna Magdalena Bach" nos seguintes links:
https://en.wikipedia.org/wiki/Anna_Magdalena_Bach 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Anna_Magdalena_Bach 

2. Consulta feita em 03/05/2017 no verbete "Judas Isgorogota" no seguinte link: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Judas_Isgorogota 

13 comentários:

Memorial de Corguinhos disse...

Excelente!

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, escritor e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

BRAVO!

Dr. Mário Pellegrini Cupello (escritor, pesquisador, presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, e sócio correspondente do IHG e Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Caro amigo Braga

Parabéns por mais essa importante pesquisa literária, pelo que agradeço a gentileza do envio.

Abraços.

www.ilhaverde.net disse...

Prezado Braga, você é, como eu, um trabalhador intelectual incansável, idealista, criativo, produtivo, sempre em busca da verdade, preocupado em revelar história, arte, cultura, beleza. E, por isto, muitas vezes, incompreendido por alguns familiares e amigos, pelos sistemas comerciais da sociedade capitalista. Parabéns pela pesquisa, inteligência e interpretação dos últimos momentos do genial e insuperável Johann Sebastian Bach. Vou ler com devoção o seu trabalho, como sempre correto, honesto, sério, profundo, generoso, fértil. Abr Marcelo Câmara - Rio, RJ - Jornalista, Ensaísta, Consultor Cultural, Escritor e Editor.

Dr. Alaor Barbosa (advogado, escritor, cronista, jornalista, ex-consultor legislativo do Senado, membro do IHG do DF e da Academia Goiana de Letras) disse...

Judas Isgorogota foi um dos primeiros poetas que li de verdade. Foi em 1956, no Rio. Uma descoberta, pois a poesia dele me pareceu muito boa e original.

Prof. Cupertino Santos (professor de história aposentado de uma escola municipal em Campinas) disse...

Caríssimo professor!

Li seu trabalho com toda a curiosidade pois nunca havia me interessado por detalhes da vida desse imortal compositor. Da mesma forma, quase nada sabia sobre o poeta Judas Isgorogota, embora já tivesse lido a seu respeito! Simplesmente fascinante o conteúdo dessas notas que você oferece em sua página. Deixei tocar para meu enlevo a "Todos os homens devem morrer", entre outras de Bach, enquanto lia a parte final.

Muitíssimo grato pela sua atenção e pelo que me proporcionou com sua leitura.
Abraços.

Prof. José Luiz Celeste (ex-professor da EAESP-FGV e tradutor) disse...

Prezado Maestro:
Incansável e continuamente frutífero o seu trabalho, aqui vão meus encômios. A morte de Liszt também poderia ser objeto de suas investigações. Faria contraponto à de Bach. Houve uma publicação do Scientific American sobre esse assunto, lá pelos anos 80, séc XX. Até apareceu uma foto do compositor, sentado, em idade avançada, ao lado de uma moça que cuidava dele, porque não tinha recursos nem família que o amparasse. Engana-se quem pensa que ele morreu no convento ao qual entrara. De lá saiu, e ficou ao léu, à mercê da vida.
Como escreve Hume "...a morte trata igualmente tolos e filósofos. Enquanto especulamos acerca da vida, a vida já passou. Tentar reduzi-la a uma regra e um método exatos é geralmente uma ocupação dolorosa ou infrutífera. E mesmo especular tão cuidadosamente sobre ela equivaleria a superestimá-la, se para certos temperamentos não fosse essa ocupação uma das mais divertidas a que é possível dedicar a vida. " (Hume, David: O Cético; in Ensaios Morais, Políticos e Literários, pg 227. Apud Berkeley/Hume, Coleção Os Pensadores, Abril Ed., 1980.)
Ergo sequitur consequentia... Vamos dar uma boa risada.
Abçs.

Eric Viegas (escritor, tradutor, poeta e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Parabéns!

Profª Elza de Moraes Fernandes Costa (gerente do Portal Concertino de música clássica) disse...

Prezado Braga,

Este é o ultimo dos três artigos.

Publicado no Concertino em Textos:

http://www.concertino.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10178



Mais uma vez obrigada pela colaboração para o conteúdo do Portal e parabéns pelo seu tão primoroso trabalho.

Um grande abraço.

Elizabeth dos Santos Braga (pesquisadora, escritora, pós-doutorada pela Oxford University e professora da USP) disse...

Parabéns, Francisco!
Com a publicação deste artigo no Portal Concertino, mais leitores terão o prazer de ler seu belo trabalho.

Diamantino Bártolo (professor universitário Venade-Caminha-Portugal, gerente de blog que leva o seu nome http://diamantinobartolo.blogspot.com.br/) disse...

Prezado Amigo.

As minhas felicitações e que tudo lhe corra com muito sucesso. Felicidades
e um grande e muito amigo abraço.

Amaral Vieira (pianista, compositor e membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Caro amigo Francisco Braga,

Com os meus cordiais cumprimentos agradeço pelo envio dos interessantes artigos de sua autoria, publicados no Portal Concertino e que lerei com grande prazer, interesse e atenção.

Efusivos cumprimentos pelas valiosas contribuições que tem oferecido à música de nosso país!

Com o abraço forte e amigo,

Amaral Vieira

Dra. Merania de Oliveira (jornalista e viúva do ex-presidente da Academia Marianense de Letras, Dr. Roque Camêllo) disse...

Prezado Professor,

Bom-dia! Paz, saúde e alegria!

Somente hoje, tive como ler os artigos do Dr. Francisco Braga. Ele é um frequentador do nosso Museu da Música.

Repasso-lhe os linques sobre seus belos textos, com informações tão ricas.

A morte de Bach é uma preciosidade, deveria ser lida por todos os músicos.

Abraços,
Merania